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NOTA DO EDITOR
NOTA
EDITORIAL
EDITOR`S NOTE
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Intercambio Psicoanalítico apresenta uma nova edição que busca avançar
em um processo de melhoria contínua para servir seus leitores natu-
rais no âmbito da FLAPPSIP, com a esperança de se tornar um elemen-
to de consulta para todos os praticantes de psicanálise, onde quer que
estejam atuando. Convidamos a explorar o site da revista, além desta
edição, especialmente agora que, graças às vantagens do sistema OJS,
as edições anteriores estão também disponíveis, permitindo recuperar
cada artigo de forma independente.
Nesta edição, apresentamos, com muita alegria, o Primeiro Prêmio do
Concurso Jorge Rosa para Estudantes da FLAPPSIP. Trata-se do artigo
Reexões sobre a clínica psicanalítica com adolescentes, de Valentina Bravo
Pelizzola. É muito positivo ver como, em cada edição do Concurso, que
coincide com nossos congressos bianuais, são abordados com rigor e
originalidade temas que desaam a clínica contemporânea. Neste caso,
confrontam-se alguns elementos do enquadre com as particularidades
da clínica com adolescentes. Diferente da clínica infantil, desenvolvida
precocemente dentro da nossa disciplina, e logicamente também dife-
rente da clínica de adultos, o trabalho com adolescentes sempre exigiu
dos analistas uma técnica artesanal fértil, especialmente atenta ao fato
de que os adolescentes costumam ser o ponto crucial das mudanças
culturais. Observamos que essa atenção às transformações civilizatórias
e ao interjogo que se estabelece com as exigências do trabalho analítico
não apenas está presente no artigo premiado, mas também constitui
um eixo transversal de toda a revista.
Um bom exemplo disso é o artigo Subjetividade e supermodernidade, de
Delicia Ferrando, que nos coloca na interseção do sócio-histórico e do
psicológico. Sabemos que Freud, especialmente na sua última fase de
produção, interessou-se cada vez mais por questões civilizatórias, com
atenção especial aos eventos do seu tempo histórico. Contudo, tendo
em vista que os parâmetros históricos são, por denição, mutáveis, os
psicanalistas se veem forçados a manter uma atitude de investigação
e reexão constante para não confundir o supercial com o profundo
e para avaliar a incidência real de algumas transformações como, por
exemplo, a globalização digital. Este é o foco do artigo mencionado, cu-
jas conclusões ressaltam a necessidade de uma perspectiva psicodinâ-
mica para não se sentir sobrecarregado pelas mudanças incessantes
e, sobretudo, para resgatar o valor da dimensão intersubjetiva real na
construção de identidades resilientes e viáveis.
Por sua vez, o artigo Trajetos do estimulismo digital, de Lucio Gutiérrez,
avança na consolidada trajetória do autor no estudo dos temas da ci-
bersubjetividade. Embora uma publicação psicanalítica claramente não
seja uma “revista de atualidades”, é extraordinária a seriedade com que
este artigo mergulha no nascente universo da inteligência articial. Sua
leitura nos distancia da misticação um tanto caprichosa que anuncia
uma distopia robotizada, mas adverte sobre os riscos reais da sobre es-
timulação digital, que pode nos privar de aspectos centrais da experiên-
cia humana.
Luis Correa Aydo
Diretor da revista Intercambio
Psicoanalítico1
1 Traducción al portugués de Sthefani
Techera.
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Também com um olhar atento aos processos em pleno desenvolvimen-
to nas sociedades contemporâneas, o artigo A crise da masculinidade. A
emergência das subjetividades e a psicanálise, de Marcelo Caon, aborda
a questão de gênero a partir do ângulo masculino. Invertendo a per-
gunta que Freud fez sobre o desejo vinculado à identicação, o autor
questiona: O que quer o Homem? A desconstrução gradual das bases
ideológicas do patriarcado, que se enraízam no inconsciente, gera novos
sofrimentos para aqueles que, na imagem do “homem tradicional”, en-
contravam uma estrutura de proteção contra os enigmas perturbadores
da pulsão.
Um segundo núcleo na seção de artigos cientícos está composto por
interpelações especícas à clínica, desaada por questões novas e anti-
gas, com um inevitável poder devastador. Eugenio Lafón Nieto propõe
no seu trabalho Frente ao excesso e ao desamparo, dispor de um recipiente
que possibilite o trabalho de luto em adolescentes um exemplo de articu-
lação entre teoria e técnica terapêutica utilizando o conceito de “reci-
piente” proposto por Laplanche. Delimitando as fronteiras da situação
analítica, com um critério mais abrangente do que o do enquadramento,
este conceito, trabalhado por Lafón em conjunto com a função alfa de
Bion, oferece, no contexto da recente pandemia, um ponto de ancora-
gem para a elaboração das perdas. Contenção, sustentação, vínculo: eis
o potencial transformador da dor em maior autonomia psíquica.
O artigo na roda’’, intervenções clínico-políticas em espaços educati-
vos, de Perla Klautau, aborda uma dimensão coletiva do sofrimento dos
jovens e propõe um dispositivo clínico focado nos efeitos subjetivantes
de uma associação livre de tipo grupal. Uma psicanálise praticada além
do consultório não é algo estritamente novo, mas é uma prática que,
constantemente, precisa de propostas criativas e rigorosas. Neste caso,
assume-se com lucidez e coragem intelectual a dimensão política implí-
cita na promoção do pensamento crítico.
O artigo “Tão longe de mim e de tudo aquilo que é humano’’ Perspectivas
dos psicoterapeutas psicanalíticos sobre a psicose e sua abordagem psico-
terapêutica em pacientes adultos, de Catalina Sorhuet, retoma a espinho-
sa questão do tratamento psicanalítico das psicoses. Neste caso expõe
algumas reexões que o trabalho de campo lhe provocou para reali-
zar a sua tese de mestrado, entrevistando psicoterapeutas que trabal-
ham com estes pacientes. Freud fez contribuições signicativas para a
compreensão da psicose, mas não iniciou seu tratamento terapêutico,
tornando a clínica das psicoses um dos desenvolvimentos mais impor-
tantes da psicanálise além das premissas fundacionais. No entanto, a
autora observa que, no último meio século, pelo menos no seu país, di-
minuiu a quantidade de publicações sobre o tema. Esse dado, associa-
do à insegurança técnica que muitos dos psicoterapeutas entrevistados
relatam ao lidar com essa patologia, justica a necessidade de voltar a
abordar uma condição que, longe de “não ser humana” é, como diz a au-
tora, “a base sobre a qual se constroem as neuroses ou qualquer outro
destino do psiquismo humano”.
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O último trabalho publicado na seção de Artigos Cientícos é Sobre a
inter-relação entre desbordamento social e espaço terapêutico, que com-
partilha com o anterior o fato de ser fruto de um processo de pesquisa,
e ambos os dois constroem uma espécie de ponte conceitual com a se-
guinte seção, dedicada especicamente à Pesquisas. Neste caso, tra-
ta-se de um trabalho coletivo realizado pela Ocina de Pesquisa do Cen-
tro de Psicoterapia Psicanalítica de Lima. Mais uma vez vemos presente
a conexão entre certas circunstâncias sociais, aqui caracterizadas como
“desbordantes”, e a produção de subjetividade, com as consequências
que isso implica para o trabalho e a reexão psicanalítica. Combinam-se
métodos tradicionais de registro do trabalho terapêutico com a partici-
pação coletiva na construção explicativa do caso. O intuito é trabalhar
em um paradigma hermenêutico-histórico, ou seja, produzir um tipo de
interpretação contextualizada. Para isso, é necessário assumir critica-
mente que terapeutas e pacientes estão envolvidos em uma circuns-
tância cultural comum, em que conceitos como amor, ódio, medo, racis-
mo... adquirem matizes próprios. Em um contexto social que propicia a
fragmentação em diversos níveis, o trabalho de pesquisa coletiva ajuda
a pensar as implicâncias que isso acarreta e prepara para intervenções
clínicas mais integradoras.
A Seção da Diretoria de Pesquisas da FLAPPSIP apresenta dois artigos
cujo eixo comum é reetir sobre as diferentes formas de produzir e vali-
dar novos conhecimentos em nossa disciplina. Cada um deles tem uma
direção diferente. Por um lado, Ocina de pesquisa psicanalítica do CPPL:
nossa experiência de pesquisa coletiva, de Laura Soria, retoma a experiên-
cia do trabalho em grupo do CPPL que ilustra o artigo já resenhado. En-
quanto isso, por outro lado, Psicanálise e pesquisa. Reexões em primeira
pessoa, de Beatriz M. Rodríguez, aborda a potencialidade do trabalho
pessoal, em um duplo sentido. De algum modo, volta à autoanálise de
Freud, o único analista que não foi analisado, e, a partir desse material,
a autora propõe seu próprio olhar de analista, apontando para descons-
truir “a lenda biográca”.
Em ambos os artigos, além das conclusões que possam ser extraídas,
é interessante acompanhar a descrição dos processos intencionais que
sustentam ambos os modos de abordar o conhecimento em psicanálise,
não sendo os únicos modos. Isso ca consignado na Introdução à Seção
onde a Diretora de Pesquisa da FLAPPSIP, Marta De Giusti, coloca que
as perguntas sobre pesquisa em psicanálise “abrem um campo de pro-
blemas complexo, diverso, talvez em alguns pontos contraditório e/ou
de difícil resposta, pelo que decidimos que o formato para abordá-las e
colocá-las em prática adquiria para nós a gura de um debate de ideias
a partir das diferentes experiências sobre o tema”. Seja trocando ideias
em diálogos concretos, ou virtualmente através da publicação de diver-
sas experiências, nossa disciplina avança em direção a territórios de va-
lidação que a afastam do ingênuo recurso ao princípio de autoridade.
Na seção de Entrevistas, apresentamos diálogos com mulheres relevan-
tes na produção psicanalítica de nossa região. Por um lado, Mabel Burin,
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entrevistada por Mauricio Clavero, mais uma vez demonstra na frescura
do diálogo que, além de sua trajetória amplamente reconhecida, é uma
mente sagaz e em contínua evolução. Seus trabalhos sobre questões
de gênero têm se inscrito cada vez mais em uma reexão global sobre
as questões do poder e a força das ideologias na produção de subjetivi-
dade. Sua tarefa intelectual é ao mesmo tempo de oposição consciente
aos antigos e falsos ideais de gênero e uma aposta em gerar ferramen-
tas teórico-clínicas que ajudem a transitar uma época de mudanças, as-
sediada pelas contradições, resistências inconscientes e desejos hetero-
gêneos.
Quanto a Sueli Souza dos Santos que, coincidentemente, assim como M.
Burin, tem se dedicado à sexualidade na maturidade da vida, é entrevis-
tada por um grupo de colegas do CEP de PA (P. Triches, L. Matos e M.
Liane Porn). Nesta oportunidade, o diálogo inicia na origem de seu inte-
resse pelas diferenças entre as pessoas e a lógica exclusão/inclusão que
elas geram. Em sua vida pessoal e em sua atividade intelectual, a psica-
nálise aparece naturalmente ligada a uma vocação humanista em que
é central a dialética entre a pressão social e a subjetividade individual.
É a partir desse posicionamento que entende a escuta analítica “como
um projeto de autonomia, envolvendo o sujeito no compromisso com
sua história e o que fazer com ela”. E acrescenta: “isso é um ato político”.
Quanto à seção de Resenhas de Livros - esse serviço de atualização que
oferecemos aos leitores -, contamos com três contribuições de interesse
e atualidade, nascidas de autores latino-americanos com projeção glo-
bal.
Em primeiro lugar, Nora Rabinovich comenta o livro de Osvaldo Maltz
(2023) La ecacia terapéutica del psicoanálisis. A partir do título é possível
observar que se trata de um livro ambicioso. A comentarista corrobora
a adequação desse objetivo, enfatizando que, longe de abundar no já
consabido, o autor procura passar por um prisma contemporâneo e de
questões atuais sua reexão teórico-clínica. Mesmo voltando a temas
clássicos como a histeria, o texto oferece uma perspectiva inovadora,
apoiada por materiais clínicos reconhecíveis na apresentação atual dos
pacientes, moldada pela condição pós-moderna e pela globalização.
Em segundo lugar, Ana Lúcia Panachão propõe uma aproximação ao
livro “Feminismos em trânsito”, compilado por Silvia Leonor Alonso,
Danielle M. Breyton e Marcia R. Bozon de Campos (2022). Partindo da
análise do título: “feminismos” no plural e a locução adjetiva “em trân-
sito”, a autora da resenha valoriza no livro a clareza para mostrar que a
circulação de discursos fora da hegemonia heteronormativa abre opor-
tunidades vitais para milhares de pessoas que, de outra forma, estariam
condenadas à exclusão e à violência. Adicionalmente, o texto tem o
mérito de ser testemunhal, já que são transcritas contribuições vertidas
nos grupos que foram formados para a pesquisa do tema.
Quanto à terceira resenha, Daphne Gusie Torres comenta o lança-
mento de uma nova edição do livro de Hilda Catz (2024) Tatuajes como
marcas simbolizantes. La relevancia clínica de los tatuajes para el proceso
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psicoanalítico. A tese central do livro, do ponto de vista teórico, é que
o corpo tatuado é como um tecido que revela a produção inconscien-
te do sujeito. Dessa maneira, é possível entender as tatuagens como
tentativas de inscrever, até mesmo dolorosamente, processos psíquicos
e emocionais relevantes. Seu crescente aumento pode ser entendido
como uma necessidade implícita das novas gerações de resistir à sen-
sação de uidez irreprimível que a experiência cotidiana oferece nesta
época. No entanto, o mais original do livro é que a autora propõe o
diálogo clínico sobre as tatuagens que os pacientes portam, como uma
ferramenta privilegiada para construir narrativas que iluminem aspec-
tos ocultos da história pessoal.
Convidamos a todos a lerem a revista e lembramos que a revista está
aberta para interações com leitores através da redes sociais da FLAPP-
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