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Às vezes, parece que no campo da psicanálise a escuta analítica é única,
que a associação livre, o divã, a atenção flutuante, a abstinência e a
neutralidade são comuns a todos os pacientes, como se as diferenças
metapsicológicas e psicopatológicas ou as condições históricas dos
sujeitos não resultassem em variações na escuta, na técnica e no
modo de abordagem. Isso pode levar a abordagens estereotipadas
e desconectadas das realidades dos pacientes, resultando em um
sentimento de onipotência e impotência dos analistas e, potencialmente,
em processos pouco frutíferos e de limitada capacidade transformadora,
em um momento da vida em que a intervenção poderia promover
simbolizações e novidades diante do sofrimento ou dos resíduos
não metabolizados no aparelho psíquico, considerando uma clínica
que trabalha com dominâncias estruturais e com correntes psíquicas
heterogêneas.
Devemos considerar a clínica como um espaço de recomposição sim-
bólica e de resgate de inscrições não historizáveis por parte do eu até
esse momento. Como pensar metapsicologicamente e clinicamente as
intervenções quando a palavra está ausente? Os adolescentes tendem a
agir mais do que a falar. Precisamos abandonar a ideia de que a falta de
associações deriva necessariamente da repressão, resistência ou opo-
sição. Frente ao sofrimento atual, encontramos uma insuciência na
capacidade de estruturar o pensamento, devido à fragilidade na cons-
tituição precoce do aparelho psíquico, do próprio pré-consciente e da
massa representacional do eu, crucial nesse processo de reorganização
subjetiva, em que o funcionamento do eu é testado em sua capacidade
de defesa, bem como de vincular e simbolizar as excitações traumáticas
que começam com o início da puberdade. Bleichmar (2002) aponta que
na sociedade ocidental há um colapso nos processos de subjetivação,
uma reicação dos processos de inserção social com a perda do reco-
nhecimento do outro enquanto outro. O sofrimento atual se manifes-
ta em fragmentos, pedaços e desbordamentos. Os sintomas clássicos
parecem não se apresentar. O que escutamos? Adolescentes invadidos
por ansiedades de morte, impotentes diante da ausência de um adul-
to que os sustente. Sensações de não se sentirem congurados, com
peças faltando ou sobrando em seus corpos, relações ou no próprio
psiquismo. A crença de que seus próprios recursos não são sucien-
tes para enfrentar a vida adulta. Sensações de irrealidade e desconcer-
to frente ao espelho e à imagem, invisíveis ou demasiado visíveis para
olhos sem corpo que os observam ou cegam, angústias de castração e
aniquilamento, em que o ser mais do que o ter está em jogo. Perguntas
primitivas sobre a origem da existência, ancoradas em imagens impos-
síveis de vincular, de ligar, associadas às vezes a afetos como a angústia
massiva ou a vivências de confusão, fragmentação e difusão.
A fragilidade das representações que envolvem o Eu leva a sensações
massivas de vazio e estados de confusão que, sem um continente e a
capacidade de criar uma ponte simbólica com a própria história do pa-
ciente, são difíceis de conectar.
REFLEXÕES SOBRE A CLÍNICA PSICANALÍTICA
COM ADOLESCENTES:
LUGAR, FUNÇÃO E POSIÇÃO DO ANALISTA.
Valentina Bravo
Pelizzola1
1 Psicóloga, Mestre em Psicologia
Clínica de Adultos (UNAB. Chile)
e Pós-graduada em Psicanálise
da Infância e Adolescência
(Asappia, Argentina), Diplomada
em Psicopatologia de crianças e
jovens, e Diplomada em Gestão
dos Transtornos de Condutas
Alimentares (Sociedade Chilena de
Psiquiatria).
Atualmente, atua como Psicóloga
e supervisora clínica em consulta
privada. Trabalha como professora
de graduação na Universidade
Andrés Bello na Ocina de
Intervenções Clínicas, além de
professora e supervisora clínica na
pós-graduação na Universidade de
Santiago do Chile, na Área de Saúde
Mental para bolsistas de psiquiatria.
Última publicação:Novos lugares
erógenos e identitários: desaos
de abertura para repensar
as noções de sexualidade na
psicanálise.Pertencente ao livro
“Psicoanálisis y Época: Actualidad de
los Tres Ensayos de Teoría Sexual”.