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COMPETIÇÃO
CONCURSO de
ESTUDIANTES
STUDENT COMPETITION
ESTUDANTIL
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INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 15 - 20
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.1
LOS PROCESOS DE
DESMANTELAMIENTO DE LA
SUBJETIVIDAD EN AMÉRICA DEL SUR.
EL PROBLEMA DE ‘LO VIVO’ EN LA
VIDA ANÍMICA Y EL SUFRIMIENTO
ASOCIADO AL TRABAJO PSÍQUICO DE
SOBREVIVIR
OS PROCESSOS DO DESMANTELAMENTO DA
SUBJETIVIDADE NA AMÉRICA DO SUL.
O PROBLEMA DO ‘VIVER’ NA VIDA PSÍQUICA E
O SOFRIMENTO ASSOCIADO AO TRABALHO
PSÍQUICO DE SOBREVIVÊNCIA
THE PROCESSES OF DISMANTLING
SUBJECTIVITY IN SOUTH AMERICA.
THE PROBLEM OF ‘ THE LIVING ‘ IN PSYCHIC LIFE
AND THE SUFFERING ASSOCIATED WITH THE
PSYCHIC WORK OF SURVIVING
Sergio Correa Villegas
Asociación Argentina de Psiquiatría
y Psicología de la Infancia y la Adolescencia
ORCID: 0009-0000-2541-4769
Correo electrónico: sergiocorreavillegas@gmail.com
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Correa Villegas S. (2024) LOS PROCESOS DE DESMANTELAMIENTO
DE LA SUBJETIVIDAD EN AMÉRICA DEL SUR.
El problema de ‘lo vivo’ en la vida anímica y el sufrimiento asociado al trabajo psíquico de sobrevivir
Intercambio Psicoanalítico 15 (2), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.1
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
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A presente proposta1 surge da urgência de reivindicar, nas regiões da
América do Sul, a dívida que a psicanálise tem com o enfrentamento
dos problemas de sofrimento psíquico das subjetividades que correm o
risco de desmantelamento psíquico, como efeito dos diversos processos
de desumanização impostos pela realidade histórico-social.
Para tanto, é necessário assumir como ponto de início a concepção psi-
canalítica do sofrimento psíquico em termos de suas determinações
pulsionais e do impacto da realidade histórico-social nas formas patoló-
gicas pelas quais se organiza na vida psíquica do sujeito sexual.
Tratando-se de um tópico psíquico constituído, o estatuto metapsico-
lógico que adquire a inscrição daquela dimensão de ‘realidade externa’
designada como realidade histórico-social exige, antes de mais nada,
uma abordagem ao problema do eu e das ‘patologias de trauma’.
A recuperação do problema das ‘subjetividades em risco’ (Bleichmar,
2005) e da especicidade metapsicológica do seu sofrimento justica-se,
na medida em que continua sendo, para o programa psicanalítico, um
terreno inacabado e tenso – entre vários fatores – pela pluralidade de
hipóteses inicial e pela proliferação de conceitos utilizados na sua de-
limitação. Com o propósito de assumir criticamente as formas de uso,
compreensão e aplicabilidade dos conceitos em psicanálise, esta pro-
posta é formulada tendo como modelo base o programa de pesquisa
inaugurado por Freud, e que – diríamos – é continuado a partir das no-
vas remontagens sui generis gerado pelos sistemas de pensamento de
J. Laplanche e S. Bleichmar.
Considerando essa perspectiva, a patologia psíquica não é determinada
pelo inconsciente, mas pelas relações entre o inconsciente e as formas
como o eu se estrutura ideativamente, em consonância com a ideologia
produzida na sociedade de pertencimento (Bleichmar, 2020). Nesse sen-
tido, as variações históricas nas formas de apresentação do sofrimento
psíquico são resultados das transformações nas condições materiais,
econômicas, político-institucionais e simbólico-culturais que cada socie-
dade constrói para a conservação da vida humana e a preservação do
valor da existência individual e da memória coletiva.
Para garantir a subsistência das subjetividades que produz, cada orga-
nização social deve oferecer garantias básicas para o desenvolvimento
e funcionamento da vida psíquica, nos termos dos destinos atribuídos à
pulsão, do amplo campo de propostas de identicação, de enunciados
avaliativos e de sentidos discursivos.
Sérgio Correa Villegas1
1 Psicólogo. Psicanalista. Professor
de pós-graduação. Supervisor clínico.
Especialista em Psicologia Clínica
de crianças e adolescentes (UBA).
Pós-graduação em Psicanálise da
Infância e Adolescência (ASSAPIA).
Doutorando em Psicologia (UCES).
OS PROCESSOS DO DESMANTELAMENTO
DA SUBJETIVIDADE NA AMÉRICA DO SUL:
O PROBLEMA DO ‘VIVER’ NA VIDA PSÍQUICA E O SOFRIMENTO
ASSOCIADO AO TRABALHO PSÍQUICO DE SOBREVIVER.1
1 Trabalho ganhador do Segundo Prêmio no Concurso de Estudantes Jorge Rosa 2023 .
1Desde a sua apresentação no concurso
FLAPPSIPP ‘Jorge Rosa’ em 2023, esta
proposta foi ajustada à medida que os
resultados da investigação em curso
avançam.
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INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 15 - 20
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.1
As contribuições de Freud a respeito do ‘desconforto do sujeito sexual
na cultura’ (Freud, 1930) permitem localizar no sintoma neurótico não
apenas uma dimensão civilizacional inerente à constituição do sujeito
sexual, seu processo de humanização e sua condição de subjetividade
psíquica, mas também a existência de uma modalidade de ‘conito psí-
quico’ (entre instâncias) produzido entre a sexualidade pulsional, a de-
fesa e os destinos que adota no eu de acordo com as realidades históri-
co-sociais de pertencimento.
No caso de um tópico psíquico constituído, os conteúdos representacio-
nais capturados pela própria repressão no processo de formação tran-
sacional do sintoma neurótico são um exemplo disso. Esses conteúdos
revelam que, diante da ativação e progressão dos movimentos pulsio-
nais em direção a sistemas secundários, os modos de afetação gerados
por essa excitação no aparelho psíquico não indicam apenas uma rup-
tura do equilíbrio psíquico do sujeito, concebido como ‘sistemas distan-
tes do equilíbrio’ (Bleichmar, S. 1994), mas também que esta excitação
pulsional se torna ameaçadora para a representação que o eu tem de si
mesmo, produzindo assim um efeito de prejuízo narcisista.
É quase óbvio assinalar que a produção de sujeitos (e suas formas de
expressão do sofrimento) aos quais a psicanálise se dirigiu originalmente
durante o século XX difere dos sofrimentos subjetivos e dos desconfortos
coletivos denunciados pelas sociedades contemporâneas não europeias,
particularmente nos regiões da América do Sul. Que implicações tem,
portanto, o exercício de uma prática psicanalítica localizada nesses terri-
tórios heterogêneos?
Nas sociedades contemporâneas, embora a destruição da vida através
de uma multiplicidade de práticas extrativistas no quadro das lógicas
desenvolvimentistas do capitalismo tardio não seja uma novidade, o en-
clave geopolítico, cultural e socioeconómico da América do Sul parece
exemplicar o caso das sociedades neoliberais cujas tecnologias de go-
verno, a racionalidade econômica e as técnicas de gestão de desejos e
liberdades na administração das populações conguram um ‘diagrama
de poder’ (Foucault, 1986) que constitui fonte de processos severos de
desumanização.
Para além da especicidade histórica que caracteriza cada um dos Es-
tados-nação da América do Sul, o conito social comum que os dene
revela o profundo impacto e a deterioração sofrida pelas condições bá-
sicas que protegem a vida, especialmente quando se trata de modelos
neoliberais que impõem uma gramática da vida cotidiana que empurra
constantemente a psique para a sobrevivência. Nesta ordem de ideias,
a persistência crónica de processos ‘extrativistas’ aplicados à vida revela
importantes transformações antropológicas na organização da expe-
riência psicológica da vida psíquica, em termos dos modos de viver, so-
frer e morrer.
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Severos processos de desumanização que se materializam, então, em
fenómenos como a exploração do trabalho e o seu carácter servil, a in-
justiça social, a impunidade jurídica, a degradação ambiental, as econo-
mias do tráco de droga, os grandes uxos migratórios e as deslocações
forçadas da população, a fragilidade institucional, a corrupção estatal, o
despotismo político, o individualismo dessubjetivante, a decomposição
das relações com os outros, a marginalidade e a falta de uma projeto
social comum, a criminalização histórica do protesto social, a estigma-
tização da juventude, a aceleração das tecnologias de digitalização no
quadro de condições de extrema pobreza e desigualdade, de decompo-
sição social, entre outros.
Longe de propor destinos em que predominem margens para a ligação,
sufocamento ou sublimação do pulsional, bem como as legalidades
éticas que regem os vínculos intersubjetivos e as garantias narcísicas
para a vida identitária, que tornam visíveis algumas dessas realidades
sociais históricas na América do Sul são processos crónicos de desman-
telamento de grande parte das declarações básicas nas quais a digni-
dade e o valor da humanidade são representados e sustentados. Nesse
contexto, transformam-se não apenas as condições subjetivas de vida,
mas também as representações sociais que garantem certos níveis de
estabilidade ao psiquismo.
A desumanização, nestes termos, acarreta um processo estrutural que
ameaça o valor que emana da condição humana em diferentes frentes.
Um processo que, segundo H. Arendt (1998), se desdobra através de um
mecanismo de dominação exercido sobre a ‘perda da pessoa jurídica, a
perda da pessoa moral e a perda da identidade do sujeito’.
A disputa nestas regiões do Sul global é travada em torno dos modos
de viver e de existir, em termos do campo identitário, dos signicados
existenciais e dos sentimentos associados à experiência de ‘estar vivo’.
A desumanização representa aquele processo complexo de dessubjeti-
vação e desidenticação a partir do qual se tenta capturar “o que está
vivo na vida subjetiva”. Hoje, mais do que nunca, o problema da vida e
do poder psíquico exige a atenção incontornável não só da psicanálise,
mas também do campo da saúde mental, das políticas públicas e da
sociedade civil.
Como compreender as demandas impostas pelo pertencimento a reali-
dades estruturadas por modelos econômicos e políticos que produzem
ideologias e práticas de desumanização para o funcionamento da vida
psíquica, dos vínculos intersubjetivos e dos laços sociais?
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Alguns dos sofrimentos psíquicos destrutivos observáveis na casuísti-
ca da prática analítica com subjetividades sistematicamente expostas
a processos crônicos de dessubjeticação e desidenticação permitem
perceber, como primeiro aspecto notável, sensações de perda de exis-
tência e desenraizamento de si, estados de desânimo emocional, bem
como sentimentos de futilidade, tédio e vazio. Isso tudo é acompanha-
do de dores psíquicas que afetam o conteúdo do pensamento e provo-
cam alterações na atividade criativa, onírica, fantasmática e elaborativa,
juntamente com um empobrecimento do sentido da vida, a perda de
sentido no vínculo intersubjetivo-amoroso e sentimentos profundos de
desesperança.
As teorias psicanalíticas possuem conceitos sucientemente especícos
para abordar o sofrimento psíquico derivado dos processos de dessub-
jetivação e desidenticação? E, em termos metapsicológicos, onde no
tópico psíquico é possível localizar o epicentro de afetação desses res-
quícios traumáticos?
Os enormes desaos que estas questões representam para a psicaná-
lise exigem, desde o início, ferramentas conceituais que nos permitam
delimitar esses modos mortíferos de entrincheiramento que geram o
‘desconforto excessivo’ (Bleichmar, 2005) na vida psíquica humana. Para
tanto, propõe-se retomar e desenvolver certas noções psicanalíticas que
nos permitem abordar os fenômenos psíquicos vinculados à experiên-
cia psíquica do existir.
A primeira dessas noções refere a um tipo especíco de ‘trabalho psí-
quico’ necessário à manutenção da vida, que poderia ser chamado de
‘trabalho psíquico de viver: existir’. Dessa abordagem, é valioso resgatar
conceitos como o ‘sentido da vida’ e a ‘sensação de estar vivo’, conside-
rados fundamentais para a compreensão de fenômenos essenciais na
regulação econômica do aparelho psíquico, bem como para a preser-
vação narcísica da representação do eu e a apropriação de sua existên-
cia representacional.
Grande parte dos cenários da vida social na América do Sul são fonte
privilegiada de instabilidades para a representação narcísica do eu, pois
favorecem o surgimento de contradições internas e tensões máximas
pela diculdade ou inviabilidade de conciliação entre seus enunciados
estruturantes: autopreservantes (Bleichmar, 2020). A primeira refere-se
aos modos representacionais responsáveis pela conservação do corpo
biológico, e a segunda, relativa às armações identitárias a partir das
quais o eu se representa como existencial como sendo.
Nesse sentido, propõe-se localizar o epicentro de afetação desse tipo
de trauma pela dessubjetivação e desidenticação nos sistemas de cer-
tezas do eu, que funcionam como suporte necessário à experiência psí-
quica de estar vivo e existir. ‘Deixar de ser quem somos’ ou ‘não poder
ser quem aspiramos ser no futuro’ para preservar a existência biológica
implica graves efeitos na estabilidade do eu, dicultando a apropriação
da sua existência representacional e comprometendo assim os signica-
dos e sentimentos associados à experiência de estar vivo.
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INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 15 - 20
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.1
Dessa forma, para não ser dominado pela realidade externa e pelo mun-
do pulsional, o aparelho psíquico deve lançar uma forma de trabalho
psíquico a serviço apenas de “sobreviver ”. A. Berezin (2010) arma:
uma trabalho da subjetividade para superar condições de vida cotidiana
que não são garantidas em termos dignos (...) poderíamos falar em huma-
nizar “necessidades básicas” sem as quais se trata também de “sobreviver”
psiquicamente, e isso implica um trabalho psíquico diferente daquele que
entra em jogo quando as condições permitem a implantação e a realização
de uma vida não ameaçada” (p. 60-64) .
Para continuar abrindo novos caminhos de investigação sobre os pro-
blemas ligados ao trabalho psíquico do viver e à experiência do existir,
a psicanálise deve recuperar o seu compromisso com os sofrimentos
destrutivos do nosso tempo e recuperar o seu carácter transformador
ao serviço da reparação do tecido social. Principalmente, assumindo o
desao do trabalho analítico com subjetividades da América do Sul em
risco de desumanização, onde a ‘vivacidade’ da vida psíquica é o que
está ameaçado como efeito dos desconfortos históricos superagrega-
dos impostos pela realidade histórico-social.
Referências bibliográcas
Arendt, H. (1998). Los orígenes del Totalitarismo. Taurus.
Berezin, A. (2010). Sobre la crueldad. La oscuridad en los ojos. Buenos Aires: Psicolibro.
Berezin, A. (2013). Desafíos en las Fronteras: Crónicas de Siete Años de Trabajo con Refugiados.
Buenos Aires: Psicolibro.
Bleichmar, S. (1994). “Repetición y temporalidad: una historia bifronte”. Em: S. Bleichmar (comp.),
Temporalidad, Determinación y Azar. Lo reversible y lo irreversible, pp.45-76. Buenos Aires: Paidós.
__________. (2005). La subjetividad en riesgo. Buenos Aires: Topia.
__________. (2009a). El Desmantelamiento de la Subjetividad - Estallido del Yo. Buenos Aires: Topía.
__________. (2020). El psicoanálisis en debate. Diálogos con la historia, el lenguaje y la biología. E.
Buenos Aires: Paidós. Versão digital.
Foucault, M. (1986). Historia de la sexualidad, la voluntad de saber. México:Siglo XXI.
Freud, S. (1930). El malestar en la cultura. En Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu Editores.
Laplanche, J. (1970). Vida y Muerte en Psicoanálisis. Amorrortu Editores.