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A presente proposta1 surge da urgência de reivindicar, nas regiões da
América do Sul, a dívida que a psicanálise tem com o enfrentamento
dos problemas de sofrimento psíquico das subjetividades que correm o
risco de desmantelamento psíquico, como efeito dos diversos processos
de desumanização impostos pela realidade histórico-social.
Para tanto, é necessário assumir como ponto de início a concepção psi-
canalítica do sofrimento psíquico em termos de suas determinações
pulsionais e do impacto da realidade histórico-social nas formas patoló-
gicas pelas quais se organiza na vida psíquica do sujeito sexual.
Tratando-se de um tópico psíquico constituído, o estatuto metapsico-
lógico que adquire a inscrição daquela dimensão de ‘realidade externa’
designada como realidade histórico-social exige, antes de mais nada,
uma abordagem ao problema do eu e das ‘patologias de trauma’.
A recuperação do problema das ‘subjetividades em risco’ (Bleichmar,
2005) e da especicidade metapsicológica do seu sofrimento justica-se,
na medida em que continua sendo, para o programa psicanalítico, um
terreno inacabado e tenso – entre vários fatores – pela pluralidade de
hipóteses inicial e pela proliferação de conceitos utilizados na sua de-
limitação. Com o propósito de assumir criticamente as formas de uso,
compreensão e aplicabilidade dos conceitos em psicanálise, esta pro-
posta é formulada tendo como modelo base o programa de pesquisa
inaugurado por Freud, e que – diríamos – é continuado a partir das no-
vas remontagens sui generis gerado pelos sistemas de pensamento de
J. Laplanche e S. Bleichmar.
Considerando essa perspectiva, a patologia psíquica não é determinada
pelo inconsciente, mas pelas relações entre o inconsciente e as formas
como o eu se estrutura ideativamente, em consonância com a ideologia
produzida na sociedade de pertencimento (Bleichmar, 2020). Nesse sen-
tido, as variações históricas nas formas de apresentação do sofrimento
psíquico são resultados das transformações nas condições materiais,
econômicas, político-institucionais e simbólico-culturais que cada socie-
dade constrói para a conservação da vida humana e a preservação do
valor da existência individual e da memória coletiva.
Para garantir a subsistência das subjetividades que produz, cada orga-
nização social deve oferecer garantias básicas para o desenvolvimento
e funcionamento da vida psíquica, nos termos dos destinos atribuídos à
pulsão, do amplo campo de propostas de identicação, de enunciados
avaliativos e de sentidos discursivos.
Sérgio Correa Villegas1
1 Psicólogo. Psicanalista. Professor
de pós-graduação. Supervisor clínico.
Especialista em Psicologia Clínica
de crianças e adolescentes (UBA).
Pós-graduação em Psicanálise da
Infância e Adolescência (ASSAPIA).
Doutorando em Psicologia (UCES).
OS PROCESSOS DO DESMANTELAMENTO
DA SUBJETIVIDADE NA AMÉRICA DO SUL:
O PROBLEMA DO ‘VIVER’ NA VIDA PSÍQUICA E O SOFRIMENTO
ASSOCIADO AO TRABALHO PSÍQUICO DE SOBREVIVER.1
1 Trabalho ganhador do Segundo Prêmio no Concurso de Estudantes Jorge Rosa 2023 .
1Desde a sua apresentação no concurso
FLAPPSIPP ‘Jorge Rosa’ em 2023, esta
proposta foi ajustada à medida que os
resultados da investigação em curso
avançam.