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INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 32 - 39
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.3
Como menciona Isely (2023), os limites têm a ver com a experiência de
satisfação primordial. A mãe vem ao encontro do choro do bebê e, se ela
for capaz de decodicar o que esse choro expressa e, assim, responder
com empatia e ternura, um limite é colocado no transbordamento da
dor produzida pela experiência de desprazer. Sem a ajuda de outras
pessoas, o bebê cará totalmente desamparado.
As necessidades estão sendo atendidas graças à adaptação do ambien-
te à criança e, assim, haverá uma transição de um grau de imaturidade
e dependência total para uma dependência relativa e maturidade por
meio de uma desadaptação gradual (Winnicott, 1972).
Como mencionado acima, a adolescência é um segundo nascimento.
Levisky (1998) adverte que essa fase é um período de extrema vulne-
rabilidade e propício ao desencadeamento de quadros clínicos que po-
dem se tornar rigidamente estruturados. É isso que torna o papel do
ambiente tão necessário. Na adolescência, o desamparo primordial é
reeditado. Por isso, o contato, a empatia e a ternura serão decisivos para
o estabelecimento de um canal saudável que permita o crescimento e o
desenvolvimento rumo à vida adulta.
Os pais de hoje parecem estar exigindo, mais do que nunca, maturida-
de de seus lhos adolescentes. Em seus discursos, eles armam: “Por
que ele não consegue cuidar de si mesmo? Ele é um garoto grande.
Ele tem que assumir o controle”. Os adultos esperam que seus adoles-
centes encarnem um adulto e apelam para sua vontade de ter sucesso
na vida (Janin, 2022). Estamos testemunhando um paradoxo aqui. Os
pais querem que seus lhos “façam”. Mas, como Winnicott (1967/1986)
menciona, “não pode haver Fazer antes de Ser” (p. 25). À medida que os
adolescentes lidam com as mudanças da puberdade, suas ideias sobre
a vida, seus valores e aspirações, sua desilusão com o mundo adulto,
eles começam a se sentir reais, a ter um senso de si mesmos e de ser.
Somente sendo capazes de Ser é que eles conseguirão se sentir mais
seguros. Somente sendo capazes de Ser, eles serão capazes de Fazer.
Para que isso aconteça, a família deve se adaptar ao adolescente e não
o adolescente à família (Winnicott, 1972). A demanda atual por produ-
tividade leva à aniquilação da consideração do outro como um ser em
transição (Janin, 2022).
Esse desejo de respostas adultiformes revela que esses adolescentes
não estão sendo observados e decodicados por seus pais por vários
motivos. Há uma clara ausência de limites. Limites que os próprios ado-
lescentes estão exigindo. Ao pedir em consulta para ser descoberto e
punido, ouvimos o pedido de ser observado, contido e sustentado. A
necessidade de experimentar um vínculo afetivo. “Ódio eu quero mais
do que indiferença”, soa a clássica valsa ‘Ódio a mim’. A punição, por
mais raiva que possa gerar, é melhor do que a indiferença. O conito e
o confronto são necessários. A suposta liberdade de evitar deixa os ado-
lescentes em um estado de desamparo, jogados no abismo.