INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 68 - 83
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.6
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SURDEZ E ESTRANHAMENTO:
UMA PERSPECTIVA
PSICANALÍTICA
LA SORDERA Y LA EXTRAÑEZA:
UNA PERSPECTIVA PSICOANALÍTICA
DEAFNESS AND STRANGENESS:
A PSYCHOANALYTIC PERSPECTIVE
João Vitor Jaeger
Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre
ORCID: 0009-0008-4298-9183
Correio electrónico: joaojaeger@hotmail.com
Luciane De Conti
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
ORCID: 0000-0002-6022-9259
Correio electrónico: luciane.conti@ufrgs.br
Data de Recebimento: 31-10-2024
Data de Aceitação: 08-11-2024
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
De Conti L. (2024) SURDEZ E ESTRANHAMENTO: UMA PERSPECTIVA PSICANALÍTICA
Intercambio Psicoanalítico 15 (2), DOI: DOI.ORG/10.60139/INTERPSIC/15.2.6
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
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Resumo: Ao longo da história, até os dias atuais, os Surdos, como
grupos minoritários, sofreram e ainda sofrem com a imposição da
hegemonia ouvinte. Apesar disso, lutam pelos seus direitos e recon-
hecimento como grupo cultural. O presente artigo visa a debater o
tema da Surdez desde uma perspectiva psicanalítica. Para tanto,
discute-se o viés da surdez como deciência e da Surdez como di-
ferença cultural articulados com a noção freudiana de Unheimlich
- estranho e infamiliar. Considerando os Surdos como estrangeiro
na própria pátria, exploramos a estrangeiridade e as tensões entre
os diferentes tomando como referência freudiana a noção de nar-
cisismo das pequenas diferenças. Por m, propomos uma atitude
hospitaleira, trazendo para discussão a noção de hospitalidade pro-
posta por Derrida.
Palavras-chave: Surdez, Psicanálise, Unheimlich, Hospitalidade.
Resumen: A lo largo de la historia, hasta la actualidad, los Sordos,
como grupo minoritario, han sufrido y sufren la imposición de la
hegemonía oyente. A pesar de ello, luchan por sus derechos y reco-
nocimiento como grupo cultural. Este artículo tiene como objetivo
discutir el tema de la Sordera desde una perspectiva psicoanalíti-
ca. Para ello, discutimos el sesgo de la sordera como discapacidad
y de la sordera como diferencia cultural articulada con la noción
freudiana de Unheimlich - extraño y desconocido. Considerando al
Sordo como un extranjero en su propia patria, exploramos la extra-
ñeza y las tensiones entre los diferentes, tomando como referente
freudiano la noción del narcisismo de las pequeñas diferencias. Fi-
nalmente, proponemos una actitud hospitalaria, trayendo a discu-
sión la noción de hospitalidad propuesta por Derrida.
Palabras clave: Sordera, Psicoanálisis, Unheimlich, Hospitalidad.
Abstract: Throughout history, the Deaf, as a minority group,
have suered and still suer from the imposition of hearing he-
gemony. Despite this, they ght for their rights and recognition
as a cultural group. This article aims to discuss the issue of Dea-
fness from a psychoanalytical perspective. To do so, we discuss
the bias of deafness as a disability and Deafness as a cultural di-
erence articulated with the Freudian notion of Unheimlich.
Considering the Deaf as a foreigner in their own homeland, we
explore the foreignness and the tensions between the dierent,
taking the notion of narcissism of small dierences as a Freu-
dian reference. Finally, we propose a hospitable attitude, brin-
ging to discussion the notion of hospitality proposed by Derrida.
Keywords: Deafness, Psychoanalysis, Unheimlich, Hospitality.
SURDEZ E ESTRANHAMENTO:
UMA PERSPECTIVA PSICANALÍTICA
João Vitor Jaeger1
Luciane De Conti2
1 Psicanalista bilíngue (português
e Libras) membro do Centro de
Estudos Psicanalíticos de Porto
Alegre, professor e supervisor
no Instituto Horizontes, mestre
em Psicanálise: clínica e
cultura pela UFRGS, tradutor e
intérpretedeLibras.
2 Licenciatura em Psicologia (1992),
Mestrado (1996) e Doutorado (2004)
em Psicologia do Desenvolvimento
pela Universidade Federal do
Rio Grande do Sul/UFRGS, com
doutorado sanduíche na Université
de Nantes, França. Está realizando
estágio pós-doutoral no Programa
de Pós-Graduação em Psicologia
da UFMG sob a supervisão da
Profa. Dra. Andréa Máris Campos
Guerra. Atualmente é professora e
pesquisadora do Departamento de
Psicanálise e Psicopatologia e da Pós-
Graduação em Psicanálise, Clínica e
Cultura, do Instituto de Psicologia,
Serviço Social, Saúde e Comunicação
Humana - IPSSCH da UFRGS,
atuando na linha Psicanálise, teoria
e dispositivos clínicos. É uma das
co-coordenadoras do NEPIs/UFRGS
Núcleo de Estudos em Psicanálise e
Infâncias, faz parte do grupo Grifars/
UFRN Grupo Interdisciplinar de
Pesquisa, Formação, Auto.Biograa,
Representações e Subjetividade,
da Rede Internacional Coletivo
Amarrações e do GT da Anpepp
Psicanálise, Política e Clínica. Tem
experiência na área de psicanálise
com ênfase em vulnerabilidades,
violências, sofrimento psíquico e
dispositivos clínicos em situações
sociaiscríticas.
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Reconhece-se que a psicanálise é a cura pela fala, desde que Anna O.
nomeia o método utilizado para seu tratamento como talking cure
(Breuer e Freud, 1893-1895/1988). Na ocasião, conforme apresentados
em seus estudos sobre a histeria realizados junto com Josef Breuer,
Freud(1893-1895/1988) percebeu que falar livremente tinha um efei-
to terapêutico, aliviando os pacientes de seus sintomas. A partir disso,
Freud dá início à escuta psicanalítica e cria um método para curar seus
pacientes. Método esse que convida o paciente a falar livremente – asso-
ciação livre -, enquanto o analista escuta também de forma livre aquilo
que está sendo dito atenção utuante. O encontro da fala livre com a
escuta utuante converte-se, então, na pedra angular da clínica psicana-
lítica. Além do mais, para facilitar a fala e a escuta, Freud sentado logo
atrás, convida seus pacientes a se deitarem no divã para que ambos,
distantes do olhar e escrutínios mútuos, sentissem-se ainda mais à von-
tade para falar (paciente) e escutar (analista) livremente. Esse método
torna-se ecaz na cura das afecções da alma.
A cena é comum entre psicanalistas: paciente deitado no divã, enquanto
o analista senta-se logo atrás. Esse arranjo é possível, assumindo que o
diálogo se dá entre e no encontro da fala que sai pela boca e chega aos
ouvidos atentos daquele que escuta.
Até aqui, pautamos a fala e a escuta em um terreno próprio da audição
que reconhece no som o meio possível para a comunicação. Ou seja,
tomamos a fala pela oralização. Todavia, não é apenas pela boca e pelos
ouvidos que a comunicação se dá. Outras vias também são reconheci-
das para tanto. Falamos das línguas de sinais, próprias à comunicação
dos surdos.
As línguas de sinais operam no campo visual e são, por característica,
gestuais. Isso quer dizer que a fala não se dá pela boca, mas pelas mãos;
a escuta não se dá pelo ouvido, mas pelos olhos. Para aquele que está
habituado ao uso de uma língua de sinais, é natural compreender essa
diferença; contudo, para aquele que não está familiarizado com esse
meio de comunicação, a língua de sinais pode lhe parecer estranha. Da
mesma forma, para o ouvinte, o contato com uma pessoa surda tam-
bém pode lhe ser estranho.
Habitualmente a psicanálise, em sendo a cura pela fala – normatizada
hegemonicamente como sendo a fala oralizada, esteve restrita àqueles
que se comunicam com uma língua oral. Sendo assim, os surdos ca-
ram – e ainda muitas vezes cam – impedidos de se beneciar do trata-
mento psicanalítico. Pensar a psicanálise realizada em língua de sinais
pode, para muitos, soar incomum, ou até mesmo estranho. É com es-
tranhamento que a psicanálise recebe, em seu território teórico-clínico,
a pessoa surda, ainda que isso esteja se tornando uma realidade possí-
vel, como apontam estudos de Solé (2005), Souza (2021), Halabe (2018).
O presente texto, portanto, situa-se em conjunto com os estudos em
psicanálise que apontam para um horizonte mais amplo e acessível a
pessoas surdas.
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Freud, ao longo se sua obra, indicou alguns conceitos da psicanálise que
apresentariam variações ou discordâncias teóricas entre os estudiosos,
conforme indica Trachtenberg (2013). A forma como se referiu a esses
conceitos foi se servindo de uma passagem bíblica1 onde se usava uma
palavra operada como código, ou senha, para distinguir os inimigos dos
aliados. O termo em questão é shibboleths. A forma como era pronun-
ciada a primeira sílaba – Xibolet ou Sibolet – indicava qual a procedência
do fugitivo. No português, a palavra Xibolete leva o seguinte signicado:
“Som ou palavra de difícil articulação e cuja pronúncia trai a origem es-
trangeira da pessoa” (Xibolete, 2023).
Conforme Trachtenberg (2013),
O inconsciente, a teoria dos sonhos, a sexualidade infantil e o complexo
de Édipo são, portanto, para Freud, osshibboleths que denem uma
identidade: ser psicanalista. Estabelecem fronteiras demarcadas, não
transitáveis, dividindo os “partidários dos adversários da psicanálise”, os
seguidores de seus fundamentos daqueles que os recusam ou que de-
vem ‘renunciar para sempre a compreendê-la’. (p. 56)
No campo dos Estudos Surdos2, encontramos também um termo com
duas graas distintas que apontam para caminhos conceituais opostos,
a saber: Surdo e surdo. Surdo, escrito com a letra maiúscula, “refere
àquele que é membro de uma minoria linguística e cultural com atitu-
des, normas, valores e uma constituição física distintos” (Lane, 2002, p.
284). Por sua vez, surdo, escrito com a letra minúscula, faz referência à
perda auditiva, deciência, e outros discursos que não reconhecem a
Surdez (Wrigley, 1997). Estamos aqui diante de um termo que, na forma
como é escrito, denota o referencial discursivo e a perspectiva daquele
que o usa.
No intuito de situar um estudo que lida com um tema pouco co-
mum, e da forma como propomos nesse texto, estrangeiro à psicanáli-
se, é fundamental que encontremos, além daqueles que Freud elencou,
outros shibbolets. Nesse sentido, da mesma forma que os Gileaditas
pedem aos Efraimitas que pronunciem a palavra shibboleth, com a na-
lidade de encontrar a marca fonética do estrangeiro, podemos pergun-
tar àqueles que se aproximam do terreno da Surdez como se referem ao
Surdo: se com letra maiúscula ou minúscula.
A fala, que é tão cara à prática de escuta psicanalítica, apresenta
também pontos de tensão quando em contato com a temática da Sur-
dez. Seria a fala outro conceito limite? Perguntemos também ao leitor:
Falar é uma ação estritamente oral e ocorre exclusivamente manifesta
pela língua oral, ou falar não se limita ao plano acústico e pode ocorrer
também de forma gestual pelo uso de uma língua de sinais? Cada uma
das escolhas implica em um ponto de vista que pode, em certas oca-
siões, se impor como divisor de águas, ou barreira intransponível nos
caminhos que levam a formulações teóricas e, consequentemente, prá-
tica clínica.
1 Juízes, Cap 12, Versículos 5 e 6: “Porque
tomaram os gileaditas aos efraimitas os
vaus do Jordão; e sucedeu que, quando
algum dos fugitivos de Efraim dizia:
Deixai-me passar; então os gileaditas
perguntavam: És tu efraimita? E dizendo ele:
Não, Então lhe diziam: Dize, pois, Chibolete;
porém ele dizia: Sibolete; porque não o
podia pronunciar bem; então pegavam
dele, e o degolavam nos vaus do Jordão; e
caíram de Efraim naquele tempo quarenta
e dois mil”.
2 Conforme Skliar (2016, p. 5): “Os
estudos surdos se constituem como um
programa de pesquisa em educação,
pelo qual as identidades, as línguas, os
projetos educacionais, a história, a arte,
as comunidades e as culturas surdas
são focalizados e entendidos a partir da
diferença, a partir do seu reconhecimento
político”.
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Não é sem estranhamento que percebemos a necessidade de
estabelecer novos parâmetros quando avançamos para um território
estrangeiro, ou quando recebemos um estrangeiro em nossa casa. Sur-
do e Surdez são estrangeiros e infamiliares ao campo teórico clínico da
psicanálise.
No presente manuscrito, portanto, pretendemos abordar, pelo referen-
cial psicanalítico, a temática da surdez situada a partir de uma perspec-
tiva cultural dominante ouvinstista3. Para isso, propomos delinear nossa
reexão por duas vias: 1) aquilo que é infamiliar no contato com o surdo;
2) a estranha estrangeiridade do surdo.
Desde já esclarecemos que, diante da palavra alemã Unheimlich, da
forma como Freud operou seu uso, encontramos algumas traduções
para a língua portuguesa: estranho, inquietante, infamiliar. Para o pre-
sente texto, escolhemos duas, a saber: estranho e infamiliar. Ambas
carregam consigo os elementos morfo e etimológicos sucientes para
abordar o tema proposto. O que é infamiliar corresponde ao que Freud
(1919/1976a) sustenta no texto “Das Unheimlich” e se mostra como ver-
são precisa da ambivalência própria contida na palavra. Assim, Unhei-
milich e infamiliar possuem a armação do que é familiar e a presença
do suxo que nega a familiaridade, conforme abordaremos adiante. Por
sua vez, estranho, atravessado pela infamiliaridade, conduz-nos a outro
território; leva-nos para o estrangeiro.
Surdez e infamiliar
O tema do estranho, conforme Freud, “relaciona-se indubitavelmen-
te com o que é assustador – com o que causa medo e horror” (Freud,
1919/1976a, p. 276). Além disso, acrescenta que “pode-se reunir aque-
las propriedades de pessoas, coisas, impressões sensórias, experiên-
cias e situações que despertam o sentimento de estranheza” (Freud,
1919/1976a, p. 277).
Para explorar o tema, Freud inicia uma investigação linguística buscando
na própria palavra os elementos que venham a conrmar sua hipótese.
Nesse sentido, compreende que na palavra alemã Unheimlich, encon-
tra-se também aquilo que é heimisch. Ou seja, naquilo que se apresenta
como infamiliar está contido o que é familiar. A partícula Un no alemão
corresponde à in no português e serve como negação. Sendo assim,
Freud assume que “Unheimlich é o que uma vez foi heimisch e o prexo
Un representa o sinal da repressão” (Freud, 1919/1976a, p. 305). Citando
Schelling, Freud anuncia que “Unheimlich é o nome de tudo que deveria
ter permanecido... secreto e oculto, mas veio à luz” (Freud, 1919/1976a,
p. 281).
3kliar (2016, p. 15), “é um conjunto de
representações dos ouvintes, a partir do
qual o surdo está obrigado a olhar-se e a
narrar-se como se fosse ouvinte”.
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Seguindo as reexões de Freud, encontramos uma pergunta subjacen-
te: o que fora familiar e que, uma vez reprimido, retorna como aspecto
estranho, ou infamiliar causando medo e horror ou até um certo mal-es-
tar? Freud busca no conto fantástico “O homem da areia” de Homann
os elementos para formular uma resposta.
Na concepção de Freud, a história não gira em torno, apenas, do apaixo-
namento de Nataniel por uma boneca chamada Olímpia; apontando
para outro ângulo, todavia, “o tema principal da história é o ‘Homem da
areia’ que arranca os olhos das crianças” (Freud, 1919/1976a, p. 285).
Sendo assim, o efeito de estranhamento gerado pela leitura da história
diz respeito ao horror de perder os olhos. Estamos, portanto, diante de
uma história que apresenta o perigo, não só de perder, mas de ter os
olhos arrancados como punição por desobediência – no caso, a criança
não respeitar a hora de ir para cama dormir.
Para Freud (1919/1976a), esse medo corresponde ao mais terrível temor
das crianças e acrescenta que os adultos também compartilham de tal te-
rror. O medo de car cego, portanto, se apresenta como substituto do te-
mor à castração. Além de car cego, também considera que “a ameaça de
ser castrado excita de modo especial uma emoção particularmente violenta
e obscura, e que é essa emoção que dá, antes de mais nada, intenso colori-
do à ideia de perder outros órgãos” (Freud, 1919/1976a, p. 289). Encontra-
mos nessa passagem a abertura que nos permite pensar o estranhamento
relacionado ao tema da surdez. Logo, a pessoa surda denuncia pela perda
da audição ter sido castrada. O surdo, comparado com o ouvinte, então,
é aquele que ‘perdeu’ a audição, aquele que foi privado da capacidade de
ouvir, aquele que foi castrado.
Seguindo por esse caminho, Freud aponta para o fenômeno do ‘duplo’
como estando relacionado àquilo que é estranho, ou infamiliar. O ‘duplo’
estaria na ordem dos personagens, e podemos acrescentar pessoas, que
“devem ser considerados idênticos, porque parecem semelhantes, iguais”
(Freud, 1919/1976a, p. 293). Nesse sentido, Freud acrescenta que o fenôme-
no do ‘duplo’ pode se manifestar também pela via da identicação do sujeito
com outra pessoa. Assim, isso se daria como consequência de uma dupli-
cação, divisão e intercâmbio do eu com o outro. A parte duplicada seria,
então, projetada no outro e “retornaria apresentando os mesmos aspectos,
características das atividades em geral, através das diversas gerações que se
sucedem” (Freud, 1919/1976a, p. 293).
Conforme Rank (1925/2014), o fenômeno do ‘duplo’ aparece como recur-
so psíquico para suportar o pensamento da morte. Todavia, o mesmo
fenômeno que aparece como defesa e possibilidade de uma vida eterna,
também retorna como forma de ameaça, como mensageiro da temida
destruição eterna, como um mensageiro da morte (Rank, 1925/2014).
Nesse sentido, o outro, o ‘duplo’ é temido por anunciar a castração.
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Nessa direção, podemos considerar que, no que tange ao tema da sur-
dez, para o ouvinte, o surdo é aquele que retorna como mensageiro da
castração. Isso porque apresenta no próprio corpo a marca da perda, da
privação. Diante disso, o ouvinte tem diculdade de se identicar com o
surdo, pois encontra, na diferença da percepção auditiva, uma barreira.
Pela identicação, conforme arma Freud (1921/1976b), o ego de uma
pessoa poderia se moldar com a nalidade de se fazer reconhecer em
outra pessoa. O que se observa pela história dos surdos é o sentido
oposto a essa armação.
Desse modo, o surdo tensiona no ouvinte o ideal narcísico de um corpo
pleno, completo, ou seja, tensiona a experiência de totalidade. Dito de
outra forma, o surdo confronta a busca do ouvinte por um “ego ideal,
o qual, como o ego infantil, se acha possuído de toda perfeição de va-
lor” (Freud, 1914/1974b, p. 111). O surdo é muitas vezes compreendido
apenas como um corpo estragado que precisa de reparo. Por esse ca-
minho, o surdo “será sempre um corpo que necessita de reparos, de
atualizações, de mapeamentos, de exames clínicos, de acompanhamen-
to e de reabilitação. Será sempre um corpo que precisa ser corrigido”
(Rezende, 2012, p. 78).
Nesse sentido, o discurso médico se apropria do surdo e o explora, in-
vestiga, estuda, tomando-o apenas pela anatomia do ouvido, com a na-
lidade de fazer o surdo voltar a ouvir da mesma forma que os ouvintes.
Isolando qualquer subjetividade, a medicina busca métodos de inter-
venção e terapias que venham a restituir a audição do surdo. Nota-se
que, seguindo esse modelo, assume-se o ouvinte como parâmetro de
normalidade, encontrando no surdo um modelo de deciência.
Acompanhando Freud em sua exploração acerca do que é Unheimlich,
encontramos entre as coisas que podem causar estranhamento: “mem-
bros arrancados, uma cabeça decepada, mão cortada pelo pulso..., pés
que dançam por si próprios”. Essa estranheza, arma Freud, “origina-se
da sua proximidade com o complexo de castração” (Freud, 1919/1976a,
p. 304). Podemos compreender, a partir dessa armação, o sentimento
de estranheza que uma pessoa considerada deciente pode causar. No-
te-se aqui que esse efeito deve ser considerado em um contexto onde
se toma o oposto como norma e parâmetro. Nesse sentido, o surdo é
recebido com estranheza, percebido como anunciador da castração,
desde que inserido em um contexto que assume a normalidade como
seu oposto; ou seja, assumindo como padrão de normalidade a gura
daquele que ouve, que é dotado de audição.
Ao nal do texto, Freud (1919/1976a) levanta uma questão a respeito
do medo infantil frente ao silêncio, à escuridão e à solidão. Pergunta-se
sobre a origem desses sentimentos e se interroga se estariam, de algu-
ma forma, relacionados com o sentimento de estranheza. Sobre isso
(Freud, 1905/1989), postula que seriam expressões do medo infantil de
perder um ente querido. A escuridão, o silêncio e a solidão denotariam
o desaparecimento do objeto amado, fazendo, então, com que a criança
sentisse medo.
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O silêncio, ou melhor, o mal-estar que o silêncio pode gerar, interes-
sa-nos sobremaneira. Uma questão fundamental quando os ouvintes
se aproximam dos surdos é a imaginação a respeito de um universo
absolutamente silencioso. O ouvinte imagina o universo do surdo como
sendo privado completamente de qualquer ruído ou som. Concordando
com Lane (1992), esse pensamento é deveras aterrorizante e se aproxi-
ma das projeções que o ouvinte produz a respeito do seu suposto par de
oposto surdo. Operando-se, então, em uma lógica binária, a experiên-
cia de estar no mundo, no que diz respeito ao som, se modularia entre
som/não-som. Esses pensamentos, conforme o autor americano (Lane,
1992), dizem mais respeito ao egocentrismo do ouvinte do que efetiva-
mente à percepção acústica.
O medo de perder a audição pode estar relacionado também com a fan-
tasia de que a pessoa que não ouve estaria fadada ao isolamento, pois,
sem ouvir, também caria impedida de se comunicar. A perda auditiva,
conforme se imagina desde a perspectiva do ouvinte, se apresenta como
a experiência de um silêncio absoluto e angustiante que impõe àquele
que não ouve o isolamento. Nesse sentido, a pessoa privada da audição
estaria destinada à selvageria, não podendo se comunicar pela fala oral
uma vez que estaria impedida de escutar (Perlin e Quadro, 2006).
Conforme Wrigley(1997),
para o ouvinte, surdez representa a perda da comunhão, uma exclusão
de seu mundo. Em termos cosmológicos, esta é a marca de um desfa-
vor. É uma alteridade estigmatizada que deve ser vista com piedade, e,
assim, excluída para as margens do reconhecimento social. O ‘silêncio’
deles representa banimento, ou, na melhor das hipóteses, solidão e iso-
lamento. Sendo assim, apoio por caridade é incentivado como resposta.
(p. 17)
Distante da comunicação, então, a pessoa que não ouve estaria fadada
ao isolamento, ou sujeita ao controle daquele que ouve. Silêncio absolu-
to, banimento social, deciência intelectual, capacidade simbólica limita-
da, entre outras formas de preconceito, são formulações do imaginário
ouvinte que inferiorizam o surdo e usa desses argumentos como justi-
cativa para práticas de dominação e colonização (Skliar, 2016).
Até aqui, partimos da perspectiva do ouvinte e de seu estranhamen-
to, desconforto e mal-estar, diante da pessoa surda, pois ainda toma o
surdo como um ouvinte que foi privado de uma capacidade. Esse argu-
mento corrobora com a perspectiva médica, que historicamente, vem
lutando para criar meios de restituição auditiva. Nesse caminho, o surdo
é visto como um ouvinte que precisa de reparo. Por essa via se forçou
o surdo a reproduzir o modelo ouvinte de estar no mundo, impedindo
que ele pudesse desenvolver sua cultura e maneiras próprias de ser e
existir.
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O tema do estranhamento, conforme apresentado até aqui, tem orbita-
do em torno de um parâmetro eminentemente biológico, pois tomamos
o tema ainda centrado na audição, presença ou ausência desta. Mas o
tema exige um descentramento. É preciso que sejam considerados ou-
tros aspectos que tocam no tema da surdez, os quais iremos procurar
delimitar na sequência.
Surdez e estrangeiridade
O estrangeiro, conforme aponta Koltai (2000, p. 21), “para o senso co-
mum, é alguém que vem de outro lugar, que não está em seu país e que,
ainda que em certas ocasiões possa ser bem-vindo, na maioria das vezes
é passível de ser mandado de volta para seu país de origem, repatria-
do”. Na esteira do que arma a autora, podemos acrescentar, para ns
de nossa reexão, além do aspecto geo-político, a dimensão linguística.
Assim, concordamos com o que arma Derrida. Para ele “o estrangeiro
é, antes de tudo, estranho à língua do direito na qual está formulado o
dever de hospitalidade” (Derrida, 2003, p. 15).
Considerando os dois aspectos referidos acima, entendemos que o es-
trangeiro é aquele vem de outro lugar, ele não é daqui, e fala também
outra língua. Essa dupla marca que torna facilmente identicável o es-
trangeiro é de certa forma apreciada de forma ambivalente. Conforme
Koltai (2000),
estrangeiro (grifos da autora) pode ser tanto o Outro inimigo – que
pode ser imigrante, árabe, nordestino, negro ou judeu, dependendo da
cultura e da época – quanto aquele que fascina por ter sobrevivido à
separação. Objeto identicatório e contra-identicatório, diante do es-
trangeiro o sujeito nunca permanece indiferente, até porque é como se
tivesse de fazer existir fora de si algo que lhe é interior. E se o Outro
fosse eu mesmo? (p. 18)
A citação acima corrobora com o tema do ‘duplo’ discutido anteriormen-
te, no sentido de pensar esse Outro que vem de fora e se apresenta de
forma distinta em seus hábitos e língua, que põe em xeque a onipotên-
cia daquele que o recebe. Também podemos pensar no sentimento te-
rroríco vivido pelo ouvinte ao se deparar com Outro surdo e perguntar
a si mesmo: e se eu me tornasse surdo?
Nesse sentido, “o estrangeiro sacode o dogmatismo ameaçador do lo-
gos paterno” (Derrida, 2003, p. 7) e interroga as leis que regem as trocas
simbólicas do povo onde pede asilo, “como se o Estrangeiro devesse
começar contestando a autoridade do chefe, do pai, do chefe da família,
do ‘dono do lugar’, do poder de hospitalidade” (Derrida, 2003, p. 7).
O estrangeiro é tido como louco, como aquele que desconhece as nor-
mas do lugar onde pede asilo. Seguindo Derrida citando a resposta do
estrangeiro a Teeteto: “Tenho então medo de que o que eu disse possa
dar-te ocasião de me olhar como desequilibrado” (Derrida, 2003, p. 11).
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Ao fazer um breve comentário sobre a tradução dessa passagem, Derri-
da (2003, p.11) ressalta que o termo em grego remete “literalmente ao
louco, um doido que põe tudo de ponta-cabeça, que mete os pés pelas
mãos”.
É interessante pensar nessa expressão que diz respeito à loucura: meter
os pés pelas mãos. Interessante porque ela nos permite uma paráfrase
que denota ao mesmo tempo estranhamento e disparate, se pensar-
mos na teoria e clínica psicanalíticas realizadas com surdos. Podería-
mos dizer que a surdez – o surdo estrangeiro -, ao entrar no terreno da
psicanálise, promove uma torção nos pressupostos básicos da escuta
‘metendo a boca pelas mãos e os ouvidos pelos olhos’. Isso porque a es-
cuta clínica com surdos, diferente daquilo com que estamos habituados,
dá-se pela comunicação em uma língua visual e gestual, uma língua que
faz falar com as mãos e escutar com os olhos.
Assim, no impasse de lidar com as diferenças culturais e no es-
forço de garantir a soberania, o estrangeiro é percebido pelo outro do-
minador como inimigo e torna-se alvo de hostilidade. Na esteira dessa
formulação, Koltai (2000, p. 24) comenta que o estrangeiro é fruto de
um resto não identicado como familiar ao sujeito e acrescenta que
este “surge, então, como a gura ideal para xar esse objeto não-identi-
cado”. Esse outro, estrangeiro, é reconhecido como não-familiar e, por
isso, mantido à distância, encarado com suspeita, afastado do convívio.
Nesse sentido, o estrangeiro é portador das projeções daquilo que o su-
jeito rechaça em si mesmo. Aqui encontramos um ponto de convergên-
cia onde o estrangeiro é tanto estranho, quanto infamiliar. Uma questão
se impõe: como sustentar a ideia de que se deve amar o próximo como
a si mesmo, se o próximo é desconhecido, vem de terras desconhecidas
e fala uma língua que não se compreende?
De acordo com Oliveira (2016), o Surdo é um estrangeiro no próprio
país. Isso porque o Surdo não vem de outras terras, mas nasce no mes-
mo território, é nato da mesma nação, responde pela mesma lei estatal
que os ouvintes. Apesar disso, vive de modo análogo ao um estrangeiro,
pois não compartilha a língua e os modos de vida do ouvinte.
O sentimento de estranheza, de sentir-se estrangeiro, é exposto por La-
borit em sua autobiograa. A atriz surda (Laborit, 2000) comenta que,
entre os familiares ouvintes, sentia-se estranha e que não conseguia se
identicar com eles. No seio familiar ouvinte, vivendo a cultura ouvinte,
sendo rodeado pela língua do ouvinte, a pessoa surda tem diculdade
em encontrar seu lugar. É um estrangeiro que não vem de fora, mas de
dentro do núcleo onde vive. Da mesma forma, os familiares também
não se identicam com o parente surdo, não falam sua língua, não con-
seguem se comunicar de forma plena, e acabam, mesmo que não inten-
cionalmente, isolando-o do convívio.
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De acordo com Wrigley (1997, p. 13) “a surdez é um país sem território. É
nacionalidade sem uma origem geográca.” Por compartilhar costumes
e modos distintos de ser no mundo, cultura e identidade diversas, além
de uma língua diferente, o surdo é um cidadão que, muitas vezes, é to-
mado como estrangeiro em seu próprio país. Além disso, Skliar (2016)
diz que a surdez é um tema muito amplo e complexo, pois para se pen-
sar sobre o surdo, devem ser considerados também aspectos raciais, de
gênero, sociais, econômicos, etc.
Freud, em ‘O mal-estar na civilização’, fala que as pessoas e po-
vos são inclinados à agressividade, e que, para que as sociedades não se
desintegrem em função das ameaças de destruição, a civilização precisa
“utilizar esforços supremos a m de estabelecer limites para os instintos
agressivos” (Freud, 1930/1974a, p. 134). Mesmo com esforços, os po-
vos encontram caminhos para satisfazer esse sentimentos. Segundo o
autor, os grupos culturais menores são alvo de investidas destrutivas e
servem como escoadouro da agressividade dos grupos que comparati-
vamente são maiores.
As minorias, portanto, são atacadas de diversas formas, desde práticas
discursivas, práticas de controle e dominação, vindo até a serem agre-
didas sicamente. A exclusão, isolamento e aprisionamento do diferen-
te é uma tentativa dos grupos hegemônicosde garantir sua soberania.
No contato com o surdo, não sabendo sua língua e desconhecendo sua
cultura, o ouvinte se vê impelido a forçar o surdo ao uso da língua con-
hecida pelo ouvinte, ou deixá-lo de lado incomunicável e isolado em seu
universo de silêncio. Prática essa que vai no sentido contrário do que
pensa Freud.
“A identicação é conhecida pela psicanálise como a mais remota ex-
pressão de um laço emocional com outra pessoa” (Freud, 1921/1976b,
p. 133). Impossibilitado de se identicar com o surdo, o ouvinte encon-
tra diculdades em estabelecer um laço emocional com este, da mesma
forma que a maioria encontra diculdades em se identicar, estabelecer
laços emocionais com as minorias. “A psicologia de grupo interessa-se
assim pelo indivíduo como membro de uma raça, de uma nação, de uma
casta, de uma prossão, de uma instituição, ou como parte componente
de uma multidão de pessoas que se organizam em grupo, numa ocasião
determinada, para um intuito denido” (Freud, 1921/1976b, p. 92).
Ressaltaremos a ideia que Freud traz de que a psicologia de grupo se
interessa pelo indivíduo como membro de uma categoria. Acima são ci-
tadas algumas, mas devemos acrescentar duas que estarão de acordo
com as formulações que expomos ao longo dessa produção, a saber:
surdo e ouvinte. Nesse sentido, devemos considerar também os aspec-
tos identicatórios no que diz respeito à surdez.
Ao falar do ódio e perseguição ao povo judeu, Freud aponta para carac-
terísticas desse povo que serviriam de justicativa para perseguições e
ataques. Os judeus, nas palavras de Freud (1939/1975),
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vivem em minoria entre outros povos. ... Não são fundamentalmente di-
ferentes, pois não são asiáticos, de uma raça estrangeira, conforme seus
inimigos sustentam. ... São, não obstante, diferentes, com frequência di-
ferentes de maneira indenível, ... e a intolerância dos grupos é quase
sempre, de modo bastante estranho, exibida mais intensamente contra
pequenas diferenças do que contra diferenças fundamentais. (p. 111)
Notemos, a partir da citação acima, que Freud fala das pequenas dife-
renças entre povos, mas o tema não se restringe apenas a isso. Entende
também que essas pequenas diferenças participariam no desenvolvi-
mento de sentimentos de hostilidade e estranheza também entre as
pessoas que, afora as pequenas diferenças, são semelhantes. A isso,
Freud deu o nome de “narcisismo das pequenas diferenças” (Freud,
1930/1974a, p. 136).
Na esteira do que se disse sobre as condições forçadas e impostas aos
surdos pelos ouvintes, a extinção do uso da língua de sinais é uma mar-
ca expressiva de violência. Desde que se considera o surdo como parti-
cipante da categoria daquilo que é estranho e aterrorizante, estrangei-
ro, minoria, muitas práticas de banimento e exclusão foram realizadas
pelos ouvintes. Encontramos como uma das expressões máximas do
banimento forçado aos surdos e intolerância por parte dos ouvintes na
gura de Alexander Graham Bell, como narra Wrigley (1997). O famoso
inventor do telefone foi também um entusiasta da segregação dos sur-
dos. Para ele, devia-se impedir o casamento entre surdos com o objetivo
de evitar que um gene para surdez pudesse se desenvolver na espécie
humana. Além do mais, observamos também no Congresso de Milão
ocorrido em 1880 a expressão da rejeição dos ouvintes em relação aos
surdos. Nessa ocasião, durante o congresso realizado para se decidir
sobre o futuro dos surdos, foi votado pela maioria que a língua de sinais
deveria ser extinta das salas de aula e que o uso da língua oral deveria
ser priorizado para o ensino dos surdos. Socialmente, o surdo foi posto
à margem, corroborando com as práticas de exclusão e higiene social,
como aponta Foucault (2010).
Referindo-se ao ‘narcisismo das pequenas diferenças’, Freud
(1930/1974a) comenta que este estaria presente nas rixas entre povos
adjacentes como espanhóis e portugueses, alemães do norte e alemães
do sul, por exemplo. Isso é fruto de elaborações que Freud faz a respeito
de uma inclinação dos homens para a agressividade. “Os surdos são uma
minoria linguística”, como arma Mottez (1979/2017, p. 28). Isso implica
em reconhecer que dispõe de uma língua própria que é não compreen-
dida pela maioria. O surdo, em sendo um estrangeiro oriundo da própria
pátria, tensiona a gura do ouvinte retirando-o do centro da soberania.
Entretanto, também signica estar excluído da grande maioria das inte-
rações sociais correntes já que elas são organizadas para e por ouvintes,
baseadas assim na linguagem oral e na sua versão erudita, a linguagem
escrita. Inclusive, devido à ligação entre língua falada e língua escrita, inú-
meros surdos são considerados iletrados funcionais (Guarinello, 2009).
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Lane (2005, p. 292), arma que “o ‘mundo surdo’ é um grupo ét-
nico”. Sendo assim, apresenta suas características próprias no convívio
com os pares, formas de nomear seus participantes, além de uma série
de outros elementos que traz à tona para sustentar seu argumento. Evi-
dencia-se, portanto, a posição do surdo como não considerada única e
exclusivamente em relação ao ouvinte. Nesse sentido, o surdo deve ser
considerado de forma autônoma e independente, sem que se mantenha
uma comparação que entende o ouvido como norma e referência.
Assumindo que os surdos sejam uma minoria linguística, pode-
mos compreender com mais clareza, a partir do que Freud formulou, a
história de violência, controle, domínio e segregação vivida pelos surdos
sob imposições dos ouvintes. As diversas práticas de violência impostas
pelos ouvintes foi nomeada por Skliar como ‘ouvintismo’. Entre elas, o es-
forço por extinguir o uso das línguas de sinais, além de forçar o surdo a
modelos de vida próprios dos ouvintes.
Mottez (1979/2017, p. 26), compreende que, “pertencer a uma mi-
noria linguística signica também, e nalmente, ser objeto, por parte da
maioria, de uma certa desconança e de um certo desprezo (grifos do
autor)”. As ideias de Mottez corroboram com a leitura freudiana a respei-
to da violência entre os povos. E passamos a entender, dessa forma, os
elementos de estranhamento e infamiliaridade que compõe o mal-estar
vivido entre ouvintes e surdos.
Foucault (1978, p. 19), ao falar dos loucos, arma que “se a loucura conduz
todos a um estado de cegueira onde todos se perdem, o louco, pelo con-
trário, lembra a cada um sua verdade”. As pequenas diferenças denun-
ciam uma diferença fundamental; a saber, não há qualquer coisa que seja
igual à outra. Além do mais, a incomunicabilidade, a diculdade do ouvin-
te em estabelecer um diálogo com o surdo denuncia, por sua vez, uma
outra verdade, tão cara à psicanálise: a comunicação plena é impossível.
Um caminho para a hospitalidade
Até aqui, abordamos o tema da surdez pelas vias do infamiliar e do estran-
geiro. Apontamos para o mal-estar vivido na tensão entre as diferenças
e como esse foi levado a atitudes extremas na relação dos ouvintes com
os surdos. Mas cabe, no momento, apontar para um horizonte possível
de relação. Assim, é patente que possamos explorar o tema pela via da
hospitalidade, abrindo as portas para receber o estrangeiro, o Outro, o
infamiliar. Iniciemos no ponto onde Derrida (2003) compreende o começo
da hospitalidade:
devemos pedir ao estrangeiro que nos compreenda, que fale nossa lín-
gua, em todos os sentidos do termo, em todas as extensões possíveis,
antes e a m de poder acolhê-lo entre nós? Se ele falasse a nossa língua,
o estrangeiro continuaria sendo um estrangeiro e dir-se-ia, a propósito
dele, em asilo e em hospitalidade? (p. 15)
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Em contato com surdos, é-se exposto não só à língua de sinais, mas tam-
bém a uma nova cultura e modos de se relacionar. Strobel (2009) elenca
alguns artefatos culturais próprios da cultura surda. Por artefato cultural, a
autora Surda entende que são “aquilo que na cultura constitui produções
do sujeito que tem seu próprio modo de ser, ver, entender e transformar
o mundo” (p. 39). Dos oito artefatos expostos pela autora, destaco a ex-
periência visual e o linguístico. Conforme Wrigley (1997, p. 29), “a surdez
é eminentemente uma experiência visual”, do que deriva a comunicação
através do uso de uma língua de sinais – outro artefato cultural.
Considerar a visualidade como aspecto principal no terreno da surdez
descentra a ideia de que a surdez diz respeito à audição. Assumimos, a
partir de então, a ideia de que audição, na caso a perda desta, é um pro-
blema eminentemente do ouvinte. De acordo com Wrigley (1997, p. 15),
“o grau de perda auditiva importa pouco para os que participam da co-
munidade surda. O que de fato importa e é mais levado em consideração
é o uso da língua de sinais”. Nesse sentido, podemos compreender que a
comunicação é prioridade.
Uma vez que passamos a reconhecer a estrangeiridade inerente ao tema
da surdez, que passamos a evidenciar o quanto os surdos vivem – no
convívio com ouvintes - experiências análogas a essas citadas acima, po-
demos também considerar os surdos como pessoas deslocadas. Mas há
que se fazer uma ressalva, pois não assumimos que seja uma prática deli-
berada dos surdos, mas uma condição muitas vezes forçada pelo ouvinte.
Aos surdos também resta a língua como elemento fundamental e marca
identitária. A língua de sinais, seu uso e manutenção, é uma conquista dos
surdos que não deve ser depreciada.
Derrida (2003, p. 79) arma que “as ‘pessoas deslocadas’, os exilados, os
deportados, os expulsos, os desenraizados, os nômades têm em comum
dois suspiros, duas nostalgias: seus mortos e sua língua”. Devemos, por-
tanto, pedir ao surdo que fale a língua do ouvinte? Devemos exigir do sur-
do que fale uma língua estrangeira a ele mesmo? Depois de reconhecida
a língua de sinais em seu estatuto linguístico (Stokoe, 1960) e tomando-a
como marca identitária do povo surdo, devemos ainda força-los à comu-
nicação nos moldes da comunicação oral dos ouvintes?
Da mesma forma, devemos fazer essa pergunta quando conside-
ramos a chegada do surdo no campo teórico-clínico da psicanálise. Que
hospitalidade oferecemos a esse estrangeiro que interroga os fundamen-
tos de uma teoria e clínica pautada majoritariamente pela oralização?
Que esforço fazemos para adequar os surdos dentro de um escopo teó-
rico? Que transformações na lógica de operação dos conceitos devem ser
realizadas? Oferece-se, portanto, hospitalidade, ou ainda há resistências
que, de maneira hostil, fecham as portas para uma presença estrangeira?
Derrida (2003) aponta para uma leitura de Benveniste a respeito da pa-
lavra hospitalidade. O que diz indica também para o encontro com uma
palavra antitética. Contida na hospitalidade, ou no seu avesso, estaria a
presença da hostilidade. Assim, o estrangeiro (hostis) é recebido tanto
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como hóspede, quanto como inimigo. (Derrida, 2003, p. 41). O surdo é
concidadão, mas recebido como estrangeiro. Da mesma forma que o con-
teúdo recalcado, que brota de dentro, familiar, heimisch, mas que é vivido
como algo totalmente estranho. Estranhamento esse que dá margem a
práticas de exclusão, na ausência de uma capacidade hospitaleira.
Vindo de um país sem território, falando um língua distinta, o surdo deve
ser recebido pelo analista como quem recebe um estrangeiro. Não ape-
nas nos consultórios de psicanálise, mas também no próprio campo teó-
rico da psicanálise. O surdo, em seu estatuto de estrangeiro, sacode o
dogmatismo ameaçador de uma teoria e uma clínica pautadas principal-
mente pela lógica ouvintista.
Em consonância como o que diz Derrida (2003, p. 69),
digamos sim ao que chega (grifos do autor), antes de toda determi-
nação, antes de toda antecipação, antes de toda identicação, quer se
trate de um estrangeiro, de um imigrado, de um convidado ou de um
visitante inesperado, quer o que chega seja ou não cidadão de um outro
país, um ser humano, animal ou divino, um vivo ou morto, masculino ou
feminino. (p. 69)
Digamos sim ao surdo que chega na sala de análise, no campo teórico
da psicanálise e estejamos dispostos e disponíveis a uma hospitalidade
absoluta, que não se impõem como dever ou caridade (Wrigley, 1997) ou
como atitude hostil mascarada de benevolência (Lane, 1992).
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