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Revisões necessárias em relação às conceitualizações psicanalíticas clás-
sicas da inscrição da diferença no aparelho psíquico
A escolha do presente tema de pesquisa decorre da possibilidade de
responder a perguntas que me acompanham desde a graduação: é
possível pensar a constituição do aparelho psíquico e, portanto, a se-
xuação (Lacan, 1973) em termos não heteronormativos? Que outras pro-
postas existem, além das conceitualizações clássicas de Freud e Lacan?
Que lugar é possível para a diversidade sexual no campo da psicanálise
sem cair na maquiagem da teoria clássica?
Desde minhas primeiras aproximações com Freud e Lacan na graduação,
tanto nas leituras quanto nos conteúdos ministrados pelos professores,
sempre achei incômoda (e às vezes violenta) a normatividade dos enun-
ciados e conceitos desenvolvidos, embora mais tarde tenha conseguido
identicar o porquê. Esses discursos estavam inseridos em uma matriz
heteronormativa, em um dispositivo de heterossexualidade compulsó-
ria (Reitter, 2019), que deixava tudo o que não se tornasse/não fosse
heterossexual do lado do não normal. No curso de Psicologia da Universidade
Nacional de Rosário, a disciplina Estrutura Psicológica Individual do Sujei-
to III colocava a “homossexualidade” na unidade Perversão e o “traves-
tismo” na unidade Psicose. Com essa base explícita, meu encontro com
esses tipos de posições violentas e patologizantes da diversidade sexual
e, portanto, geradoras de maior sofrimento psíquico, impulsionaram-me
a algumas das questões colocadas.
Embora encontre na psicanálise uma proposta emancipadora, com
grande poder explicativo e crítico e com efeitos concretos na prática clí-
nica, também considero que é necessário colocar a teoria para trabal-
har em relação a seus fundamentos, localizando o lastro que a enviesa,
deixando-nos questionar pelo tempo em que vivemos e, fundamental-
mente, pelas subjetividades a partir das quais trabalhamos: os pacientes
e nossas próprias subjetividades. Seguindo Silvia Bleichmar (2006):
Se a assunção de uma herança implica trabalhar para merecê-la, não é tarefa
pequena separar dela o que é inútil, o que atua como obstáculo ao seu
pleno desdobramento, sabendo que aqueles que nos legaram tentaram
nos dar o melhor, mas não puderam deixar de conceber o melhor em termos
dos tempos em que viveram e da história que os marcou. Na necessária
combinação de liação - que sempre se estabelece com base no amor - e
capacidade crítica - que não implica destruição, mas desconstrução
- reside o futuro de toda herança (p. 11).
SOBRE A INSCRIÇÃO DA DIFERENÇA
NO APARELHO PSÍQUICO:
SERÁ APENAS E NECESSARIAMENTE
A DIFERENÇA SEXUAL ANATÓMICA O
ELEMENTO ORDENADOR?
Rodrigo Civetta1
1Psicólogo (Universidade Nacional
de Rosario). Psicanalista. Pós-
graduação em Clínica Psicanalítica
da Infância e Adolescência
(ASAPPIA). Pós-graduação em curso
de Atualização em Psicanálise
e Gênero (Universidade John F.
Kennedy). Menção Honrosa no
Concurso Dr. Jorge Rosa no XII
Congresso FLAPPSIP com o trabalho
“Desbordamentos e Neogênese: o
dispositivo psicanalítico interpelado”.
Ex-membro da Subcomissão de
Gênero e Diversidade Sexual
do Conselho de Psicólogos de
Neuquén Distrito I e da Rede de
Psicólogxs Feministas Regional
Neuquén. Prática clínica no campo
de patologias graves com Infâncias
e Adolescências desde 2017 e nas
questões de Gênero e Diversidade
Sexual desde 2019. Escreve artigos e
ensaios cientícos desde 2023.