INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 98 - 108
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.8
98 / FLAPPSIP
DA SENSORIALIDADE
À SIMBOLIZAÇÃO
DE LA SENSORIALIDAD
A LA SIMBOLIZACIÓN
FROM SENSORIALITY
TO SYMBOLIZATION
Regina Orth de Aragão
Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro
ORCID: 0009-0004-7773-7497
reginaortharagao@gmail.com
Data de Recebimento: 14-05-2024
Data de Aceitação: 11-10-2024
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Orth de Aragão R. (2024) DA SENSORIALIDADE À SIMBOLIZAÇÃO
Intercambio Psicoanalítico 15 (2), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.8
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
99 / FLAPPSIP
Resumo: O artigo trata dos fundamentos da constituição psíquica
a partir do ângulo da sensorialidade, tal como ela é experimentada
pelo infante nas suas relações com seus cuidadores primordiais, em
geral a mãe. E interroga como se dá a passagem da experiência sen-
sorial, gradualmente integrada nas ligações psique/soma até chegar
à simbolização, abordando os conceitos de Eu-pele, pele psíquica e
ritmicidade conjunta.
Palavras-chave: processos de subjetivação, sensorialidade, simboli-
zação, corporeidade, constituição psíquica.
Resumen: El artículo aborda los fundamentos de la constitución psí-
quica desde el ángulo de la sensorialidad, tal como la experimenta
el infante en sus relaciones con sus principales cuidadores, general-
mente la madre. Y cuestiona cómo transcurre la experiencia senso-
rial, integrándose paulatinamente en las conexiones psique/soma
hasta llegar a la simbolización, abordando los conceptos de Yo-piel,
piel psíquica y ritmicidad articulada.
Palabras clave: procesos de subjetivación, sensorialidad, simboliza-
ción, corporalidad, constitución psíquica.
Abstract: The article deals with the foundations of the psychic con-
stitution from the angle of sensoriality, as it is experienced by the
infant in its relationships with its primary caregivers, generally the
mother. And it questions how the sensory experience passes, grad-
ually integrated into the psyche/soma connections until symboliza-
tion is reached, addressing the concepts of I-skin, psychic skin and
joint rhythmicity.
Keywords: processes of subjectivation, sensoriality, symbolization,
corporeality, psychic constitution.
DA SENSORIALIDADE
À SIMBOLIZAÇÃO1
1 Texto referente à palestra apresentada na Jornada O Infantil, do Instituto Horizontes, em 15 de maio de 2021. Porto Alegre – RS – Brasil.
Regina Orth de Aragão2
2 Psicanalista, membro efetivo
do Círculo Psicanalítico do Rio de
Janeiro, professora do Curso de
Especialização em Psicologia Clínica
com Crianças, PUC/RJ
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 98 - 108
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.8
100 / FLAPPSIP
O nascimento do psiquismo e o nascimento do objeto são indissociá-
veis, o psiquismo se constitui ao mesmo tempo em que o objeto ganha,
paulatinamente, o estatuto de existência para o sujeito. Uma questão
crucial em relação aos processos de subjetivação é a de compreender
como se dá a passagem das inscrições e dos vividos no corpo, no regis-
tro da sensorialidade, para o registro do psiquismo propriamente dito,
relacionado com as capacidades de representação e de simbolização.
O bebê constitui sua subjetividade a partir de suas experiências corpo-
rais. Winnicott (1949) enfatiza a importância do processo de persona-
lização, que implica o estabelecimento de ligações entre a psiquê e o
corpo. Muitas experiências sensoriais e corporais do bebê nascem em
torno dos cuidados, nos quais a criança é objeto de investimento de seu
objeto primordial, em geral a mãe. Nessa experiência inicial prevalece
a ilusão temporária de uma indiferenciação entre o fora e o dentro. O
processo de subjetivação no bebê se faz então pela aceitação e apro-
priação de suas experiências sensoriais, mas também pela apropriação
das experiências sensoriais partilhadas com os adultos de seu ambien-
te. Trata-se então de tentar compreender como os primeiríssimos laços
psíquicos, especialmente aqueles que emanam da sensorialidade, inter-
vêm nos processos de subjetivação.
Em um bebê a experiência sensorial passa a ser um fator subjetivante
na medida em que se dá uma adequada integração de suas polisenso-
rialidades com o papel rítmico integrador do ambiente materno (Golse,
2006) e que ele pode experimentar a vivência de um pleno compartilhar
afetivo (Ciccone, 2007). Nesse tempo dos laços iniciais os sujeitos e obje-
tos psíquicos, compreendidos como componentes de uma relação obje-
tal, não estão ainda constituídos no bebê. Eles se organizarão como tais
a partir desses primeiros vínculos, assim como irão se denir os espaços
internos e externos. Nesse primeiro momento, o objeto não existe para
o bebê enquanto outro, sendo investido de uma maneira totalmente
narcísica.
Além disso, no bebê muito pequeno as experiências psíquicas se mos-
tram pouco integradas, não coordenadas. A subjetividade se compõe
a partir de forças, impulsos e movimentos sentidos inicialmente de
uma maneira difusa, e são os aspectos quantitativos, de intensidade,
que predominam sobre os aspectos qualitativos. O campo das repre-
sentações, que podem ligar os afetos, não está constituído ainda. Bion
(1979) propõe que é a capacidade de revêrie materna e sua função al-
pha que irão pouco a pouco permitir que esses dados sensoriais brutos
possam tornar-se produções representativas, internalizadas e metabo-
lizadas gradativamente pelo psiquismo nascente do bebê. Essa capaci-
dade do psiquismo materno de contenção e de transformação leva-a a
metabolizar e transformar as primeiras produções ou proto-produções
psíquicas de seu bebê a m de torná-las utilizáveis por ele. Essa função
materna necessita uma identicação primária com seu bebê, a quem a
mãe empresta seu aparelho para pensar pensamentos, isto é, seu apa-
relho para tornar pensáveis pela criança seus primeiros pensamentos,
impensáveis por ela sozinha.
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 98 - 108
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.8
101 / FLAPPSIP
No entanto, o estudo das sensorialidades é ainda relativamente recente
na psicanálise, e são em parte as contribuições da clínica dos primórdios
e os estudos sobre o psiquismo perinatal que têm contribuído para seu
desenvolvimento. As sensorialidades podem ser descritas como o con-
junto das experiências psíquicas que se expressam em torno dos órgãos
dos sentidos. A. Konicheckis (2008) propõe considerar a sensorialidade
como o complemento libidinal da percepção, sua face afetiva.
O sensorium se forma essencialmente sobre as superfícies de encontro
entre partes do corpo e objetos do mundo externo, e encarna toda a
ambiguidade da noção de ‘partilha’, ao mesmo tempo encontro e sepa-
ração. Fenômeno de contato entre o fora e o dentro, portanto, a sen-
sorialidade comporta igualmente os laços que se estabelecem entre a
psique e o soma (KONICHECKIS, 2008, p. 6).
As primeiras experiências sensoriais do bebê são fragmentadas e des-
contínuas, e será a atividade psíquica que deverá ligá-las. As satisfações
ou as inadequações de parte dos adultos que cuidam do bebê, por falta
ou por excesso, são experimentadas por ele como uma experiência sen-
sorial. A pele ganha aqui uma importância muito grande, pois possui a
faculdade de conter e de ligar todos os órgãos dos sentidos, e favorece
assim a constituição de uma integração, como armam E. Bick (1968)
e D. Anzieu (1985). Não é possível supor no bebê experiências que se
passem fora da sensorialidade. E como arma Golse (2002) os sentidos
despertados conrmam a presença de um objeto.
Sensorialidade fetal
Por outro lado, numerosos trabalhos têm demonstrado a existência de
uma sensorialidade fetal. Está claro atualmente que os cinco sentidos
humanos se desenvolvem seguindo uma ordem invariável durante a
vida intra-uterina: em primeiro lugar o tato, depois o olfato e o paladar,
em seguida a audição e nalmente a visão. Além disso, as pesquisas
concordam em que, mesmo se todos não alcançam a maturação an-
tes do nascimento, esses sistemas sensoriais já se mostram funcionais
ainda no útero. Também, os estudos das últimas décadas sobre a vida
intra-uterina evidenciaram a existência de uma percepção pelo feto de
elementos de seu ambiente, tanto intra-uterino como externo. (Busnel
& Herbinet, 1982).
No embrião o desenvolvimento se dá seguindo o ritmo da embriogênese.
O embrião, depois feto, adquire progressivamente as grandes funções
biológicas cuja maturação pode ser vericada pela observação e pela
medida das variações e ondulações rítmicas. Esse desenvolvimento se
dá acompanhado do ritmo regular dos batimentos cardíacos maternos,
e pela sustentação tônica da parede uterina que transmite e amortece
as mensagens proprioceptivas e sonoras através do líquido amniótico.
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 98 - 108
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.8
102 / FLAPPSIP
A precocidade do desenvolvimento do tato aponta-o como o primeiro
órgão de transmissão das informações sobre o mundo, o que leva Prat
(2007) a supor que seja a primeira base do desenvolvimento psíquico. As
informações sobre o mundo se fariam em termos de presença/ausência
do contato. A pele então é o primeiro dos órgãos dos sentidos e também
o maior de nossos meios de comunicação com o exterior. A singulari-
dade da pele como órgão dos sentidos em relação aos demais é a sua
reciprocidade: ao tocar também se é tocado, o contato supõe e inclui o
encontro e essas são a primeiras sensações percebidas no desenvolvi-
mento do embrião.
Desde o início da vida, as primeiras experiências sensíveis são então ins-
critas em uma dualidade e feitas da alternância entre ‘estar em contato’
e ‘estar sem contato’. Elas são indissoluvelmente ligadas à ritmicidade
dos encontros com o que se tornará o outro, à medida que progride
o desenvolvimento, mas que está presente no plano sensorial desde a
origem (PRAT, 2007, p. 106).
Segundo a concepção de Prat (2007), as primeiras excitações que de-
verão ser transformadas vêm dos elementos tácteis, na alternância en-
tre contato/perda de contato, criando um modelo de base, que será o
protótipo para os demais órgãos dos sentidos, os quais virão alargar
a paleta das modalidades perceptivas ligadas a estar em contato/estar
sem contato. Nessa concepção, o ritmo primordial é o da presença e da
ausência do outro, provavelmente vivido nas experiências arcaicas de
‘seguro/deixado’, cuja alternância vai demandar uma organização que
restabeleça a continuidade. Esse ritmo primordial do ‘seguro/deixado’
vai também se manifestar nas demais atividades sensoriais quando elas
se tornarem funcionais, a olfação, o paladar, a audição e nalmente a
visão, que permitirão manter o contato com o objeto à distância.
Essas hipóteses buscam elucidar quais traços sensoriais experimenta-
dos pelo feto poderiam pré-gurar uma relação de objeto, a partir de
primeiros registros parciais e arcaicos. É nesse sentido que também a
proposição de S. Maiello (2000) tem um grande interesse, ao sugerir
que as descontinuidades da voz materna, que chegam ao feto através
da parede abdominal e uterina, lhe forneceriam uma pré-forma da ex-
periência posterior da alternância ausência/presença do objeto na vida
pós-natal.
Maiello (2000) propõe que o encontro com os sons permite ao feto ex-
perimentar as diferenças entre os ruídos de fundo, regulares e perma-
nentes e os sons aleatórios. A percepção da voz materna poderia re-
presentar a primeira experiência de alteridade do feto durante a vida
pré-natal, já que ele não tem nenhum poder sobre sua presença ou sua
ausência. A partir de seus trabalhos sobre os bebês e os dados da vida
fetal que mostram que os bebês percebem os ruídos um mês antes de
perceber as vozes, Maiello (2000) considera que “os momentos iniciais
da emergência e da diferenciação do aparelho mental em relação ao
estado primordial de união fusional psicofísica são aqueles ligados à di-
mensão acústica”.
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 98 - 108
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.8
103 / FLAPPSIP
Sabemos que no útero o feto percebe alguns sons, que certamente ele
tem diculdade em discernir se são internos ou externos, que esses
últimos também chegam a ele pelo corpo materno. Mas alguns sons
são regulares e ritmados, como os ruídos do coração materno, outros
são irregulares, como os ruídos digestivos, porém os sons de fora são
obviamente irregulares e imprevisíveis (barulhos do ambiente externo,
vozes de adultos e especialmente a voz materna). Para S. Maiello (2000),
a irregularidade da percepção da voz materna preguraria a problemáti-
ca da ausência e da presença que irá tomar forma de modo central após
o nascimento, durante o processo de diferenciação sujeito/objeto que a
criança irá viver.
Sensorialidade e psiquismo
O ser psíquico do sujeito bebê poderia ser denido pela intensidade
de suas sensorialidades, que instauram um espaço pessoal e fundador
do sentimento de si. Elas tratam de uma experiência íntima, única para
cada bebê e dicilmente transmissível. O sensorium delimita e cria uma
espécie de cartograa que permite estabelecer os limites, as fronteiras,
as diferenciações entre si e os outros a partir de uma experiência inter-
na, própria, pessoal, múltipla e variada. Antes do nascimento a criança
é envolvida por um meio que produz sensações cenestésicas, auditivas
e gustativas. Depois do corte do nascimento, a criança reencontra sen-
sações que estarão em relativa continuidade com aquelas que ela sentia
antes: o tom das vozes, a cadência dos movimentos, os batimentos car-
díacos e os ritmos corporais. Nos momentos de afastamento do objeto
o que a criança perde não é a guração da pessoa de sua mãe, mas sim
as experiências sensoriais que ela partilhava com a mãe. O sentimento
de identidade pessoal se cria então a partir da atividade psíquica senso-
rial, e Konicheckis propôs a noção de identidade sensorial (Konicheckis,
2000) referindo-se a essas características das experiências sensoriais
que compõem pouco a pouco a identidade própria de cada ser.
Assim, o bebê cria seu conhecimento dos objetos pelos efeitos senso-
riais que eles provocam, pois no início ele sente as sensações e as mo-
dalidades perceptivas, e não o objeto do qual elas emanam. O materno,
enquanto qualicativo, precede a formação psíquica da representação
da mãe. Lembramos que em seu texto sobre a negativa, Freud (1925)
arma que o julgamento de atribuição, que diz respeito às caracterís-
ticas do objeto, precede o julgamento de existência, o que decide se o
objeto existe ou não na realidade externa.
Myriam David (2014) sustentava que nos primeiros anos de vida da
criança sua motricidade espontânea e as vivências sensoriais de seu
corpo permitem a ela toda uma série de descobrimentos. A atividade
psíquica do bebê estaria contida e se exerceria a partir de sua sensó-
rio-motricidade, ambos os fatores estando em contínuo processo de in-
tegração para desenvolver o psiquismo. Em suas palavras:
Por psiquismo eu entendo essa força interna que habita em nós, mis-
teriosa, invisível e impalpável, em atividade perpétua e permanente,
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 98 - 108
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.8
104 / FLAPPSIP
em busca de processos de “funcionamento”, de “regulação”, de “or-
ganização”. Durante os primeiros anos, o que se dá com o psiquismo
também se dá com o desenvolvimento motor do bebê. É ele mesmo,
e somente ele, o bebê, que o elabora a cada dia, “a pequenos passos”,
utilizando os recursos que lhe são oferecidos gradualmente, de um lado
pelo estado de desenvolvimento e pela integridade de seu aparelho neu-
ro-sensório-motor, e, é claro também, por seus encontros interativos e
intersubjetivos com o ambiente próximo, material e humano, do qual
ele “se” alimenta. Para fazê-lo, o bebê dispõe dessa única, mas extraor-
dinária ferramenta que é seu aparelho neuro-sensório-motor no estágio
de desenvolvimento no qual ele se encontra (DAVID, 2014, p.280).
Essa força de atividade permanente e dinâmica em busca de processos
de organização e ligação tem como ponto fundamental o encontro com
o outro, com as características de sua ritmicidade e narratividade. Esse
início da vida é de certa maneira o reino da sensorialidade, da motricida-
de e do ritmo, ancorados no corpo e no contato com o outro.
Partimos da base de uma sensorialidade inata do bebê que une o inte-
rior e o exterior por intermédio dos órgãos sensoriais e das excitações
que recebem e geram sensações. Essa sensorialidade primitiva con-
guraria uxos sensoriais (D. Houzel, 2002) inicialmente indiferenciados.
As excitações serão diferenciadas, coordenadas e integradas pelo papel
do outro subjetivante, que ao reeti-las, espelhá-las e traduzi-las, possi-
bilitará que se crie uma ‘ritmicidade conjunta’ no vínculo. É o ritmo que
funcionará como organizador dessas polisensorialidades. (Golse, 2010).
Um dos pontos a enfatizar nos estudos sobre o bebê é a relativa discre-
pância entre, de um lado, sua “aptidão” sensorial, e, de outro, sua “incom-
petência” motora, o que parece levá-lo a precisar, literal e metaforica-
mente, do corpo, dos braços do outro. Dentro do campo da psicanálise,
lembramos Winnicott, que ao descrever a função materna, serve-se de
um vocabulário corporal quando fala em “holding”, em “handling” como
meios fundamentais para dar ao bebê humano sua consistência numa
continuidade de existir.
As conceituações de Didier Anzieu (1985) sobre o Eu-pele e o envelope
psíquico, e de Esther Bick (1968) sobre a pele psíquica oferecem mode-
lizações interessantes a respeito dessa passagem entre sensorialidade e
simbolização. As duas noções, de envelope psíquico e de pele psíquica,
apontam para o papel da função continente do objeto externo internali-
zado.
Anzieu (1985), ao propor a noção de “Eu-pele”, busca reintroduzir dentro
do campo teórico da psicanálise a dimensão do corpo, considerado por
ele como estando recalcado no pensamento psicanalítico. O Eu-pele teria
uma dupla origem, epidérmica e proprioceptiva, e a partir dela estabe-
lecem-se as primeiras barreiras defensivas que ltram as trocas, tanto
internas quanto com o mundo externo. Foi denido por Anzieu (1985)
como uma guração da qual o Eu da criança se serve durante as fases
precoces do seu desenvolvimento para se representar a si próprio como
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 98 - 108
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.8
105 / FLAPPSIP
Eu contendo os conteúdos psíquicos, a partir de sua experiência da su-
perfície do corpo...isso corresponde ao momento em que o Eu psíquico se
diferencia do Eu corporal no plano operativo, mas permanece confundido
com ele no plano gurativo (ANZIEU, 1985, p.39).
As três funções principais do Eu-pele foram denidas no artigo de 1974,
(Anzieu, 1974) e correlacionadas diretamente com as proposições de
Winnicott sobre o desenvolvimento emocional primitivo e as funções da
mãe. A primeira dessas funções é a da manutenção do psiquismo, ligada
ao fato de a pele sustentar os músculos e o esqueleto, e se desenvolver
por interiorização do holding materno. A segunda relaciona-se com o
fato de a pele recobrir todo o corpo, assim o Eu-pele envolve o psiquis-
mo e o contém, desenvolvendo-se igualmente pela interiorização do
handling materno. A terceira função é a de proteção contra os estímulos
externos excessivos, função de para-excitação.
Na leitura de R. Roussillon (2007) a problemática central tratada pelo
Eu-pele é aquela da diferenciação eu/não-eu, já que sua função é a de
oferecer uma primeira forma de delimitação entre o Eu e seu ambiente.
A segunda diferenciação tratada pelo conceito é a que se dá entre o Eu
psíquico e o Eu corporal, porém esses processos não podem se passar,
lembra Roussillon, “sem um tempo prévio, o da construção de uma pele
comum entre a mãe e o bebê” (Roussillon, 2007, p. 95). Essa pele comum
é diretamente dependente da qualidade dos cuidados maternos, e das
satisfações dadas à pulsão de apego e à comunicação precoce que ela
subentende. Está aqui assim em primeiro plano o registro sensório-mo-
tor, sendo esta uma primeira forma de ‘compartilhar de afetos’.
No que diz respeito à dimensão da reflexividade, o desafio primeiro
colocado pelo Eu-pele seria justamente o de (se) sentir, e o bebê aprenderia
a (se) sentir a partir da maneira com a qual ele é sentido por seus objetos
primordiais; em seguida, tratar-se-ia do se ver, e também aqui o bebê
aprenderia a se ver a partir da maneira como ele é visto. O mesmo valeria
para ser ouvido e se ouvir. D. Anzieu (1985) enfatiza que a pele representa
o primeiro modelo da reflexividade, pois ao tocar o sujeito percebe-se
de fora pela parte que toca, e de dentro pela parte que é tocada. Para
Roussillon (2007), “o interesse do paradigma da reflexividade é o fato de
abrir sobre a questão do lugar do objeto no nascimento e nas formas”
(Roussillon, 2007, p. 101) que ele apresenta. “Se a forma “se sentir” é a
primeira da reexividade, como pensar aí o lugar do objeto? ” (Roussillon,
loc. cit.). A partir da suposição da ‘pele comum’ desempenhando uma re-
gulação ‘transicional’ no seio da unidade dual mãe-bebê, pode-se com-
pletar descrevendo a função do objeto na passagem da sensório-motri-
cidade inicial ao afeto sensório-motor, que adquire valor de mensagem.
Esse compartilhar sensório-motor opera por meio de micro trocas e ajus-
tamentos micro posturais entre o bebê e a mãe, e poderíamos completar
que ele opera também a partir da ritmicidade conjunta que se constitui
entre ambos, e “permite dar progressivamente à experiência sensorial o
valor de uma mensagem, e, portanto, de um “signicante” psíquico” (Rou-
ssillon, 2007, p. 102).
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 98 - 108
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.8
106 / FLAPPSIP
É a passagem progressiva da experiência corporal ao estatuto
de mensagem intersubjetiva que me parece estar na origem do
descolamento da pele a pele inicial, do descolamento da pele de um
e da pele do outro, ao mesmo tempo em que se opera a passagem e
a transformação do propriamente corporal à representância psíquica,
que será, ela, capaz de se perceber como representação psíquica, como
representação de si ou de momentos de si (ROUSSILLON, 2007, P. 102).
Assim se daria a passagem do Eu-pele corporal ao Eu-pele psíquico, re-
presentante do envelope psíquico do sujeito, e também do encontro
com o objeto. Essa compreensão proposta por Roussillon (2007) descre-
ve exatamente o deslizamento do corpo para o psíquico, para o campo
das primeiras representações, nos processos iniciais de diferenciação
entre o sujeito e o objeto.
Podemos constatar que a abordagem de Anzieu remodelou nossa con-
cepção do psiquismo em relação à experiência sensorial e à continência
psíquica do outro, primordial para que o sujeito constitua seu envelope
psíquico. O Eu-pele metaforiza assim, ao mesmo tempo, a intimidade
sensorial e a função materna.
Antes de Anzieu, mas na mesma perspectiva que enfatiza a relação do
corpo com a constituição do psiquismo da criança, Esther Bick (1968)
havia proposto a noção de “pele psíquica”, objeto continente introjetado
pelo bebê que delimita as fronteiras entre o interno e o externo. Se-
gundo essa concepção, a função primária da pele do bebê é a de unir
as partes do corpo ainda não diferenciadas e não integradas. Em sua
forma mais primitiva essas partes da personalidade são sentidas como
não tendo nenhuma ligação entre si e são mantidas unidas passivamen-
te pela pele funcionando como limite. Essa função de contenção das
partes não-integradas do bebê depende da introjeção inicial de um ob-
jeto externo, (mãe/seio), que dará lugar à fantasia dos espaços interno
e externo. O objeto continente introjetado é experimentado como uma
pele – tem a função da “pele psíquica”, limite e fronteira entre o interno e
o externo. Apenas mais tarde a identicação com essa função do objeto
substitui o estado não-integrado e dá origem à fantasia de espaços in-
ternos e externos, e só então a criança poderá se servir dos mecanismos
de cisão e idealização. Até então a identicação projetiva segue sendo o
mecanismo psíquico dominante.
Esther Bick (1968) propõe elementos para a diferenciação entre os esta-
dos de não-integração, enquanto experiência passiva de total desampa-
ro, e os de desintegração, que já envolve uma operação defensiva ativa,
por meio dos processos de cisão. O desenvolvimento insuciente dessa
função da pele pode ser atribuído a falhas de adequação do objeto, e
podem levar ao desenvolvimento de uma “segunda pele”, por meio da
qual a criança se mostra numa pseudo-independência, usando inapro-
priadamente certas funções mentais, com o propósito defensivo de criar
um substituto para essa função de pele continente.
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 98 - 108
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.8
107 / FLAPPSIP
Por seu lado, A. Konicheckis aborda a importância do movimento da
criança, armando que “o movimento corporal se expressa como um
o que liga as excitações esparsas e difusas”. (Konicheckis, 2008, p. 49).
Assim, a identicação aos seus próprios movimentos favorece os pri-
meiros sentimentos identitários da criança, de certa forma o movimen-
to comportaria então o berço da representação do objeto A percepção
do movimento e da ritmicidade interna vão permitir ao bebê articular
suas próprias atividades e movimentos ao ritmo de sua mãe, ou daquele
com o qual ele se encontra em relação. Trata-se nesse ajustamento recí-
proco de uma criação rítmica a dois, cada díade terá seu ritmo próprio,
seu estilo temporal. As situações de cuidado corporal, de alimentação,
são o protótipo disso: a articulação profunda dos ritmos do bebê e da
mãe determina uma dança e uma música que acompanham o texto das
palavras. E pelo movimento, o corpo gura e transforma, interpreta e
simboliza.
G. Haag (1986), ao estudar a estrutura rítmica do primeiro continente, a
mãe, mostrou a importância dessas primeiras articulações da interpe-
netração dos olhares, dos ritmos e dos corpos como experiências para
o bebê se sentir contido nesse envelope primário, condição para a cons-
trução do psiquismo. Essa interpenetração rítmica realiza uma relação
onde cada aspecto de um é recebido e contido pelo outro numa relação
de holding psíquico.
Vemos então como as diversas expressões da sensorialidade, por meio
de pré-simbolizações corporais, conrmam e aprofundam o postulado
de Freud de que “o Eu é antes de tudo um Eu corporal, ele não é somen-
te um ser de superfície, mas é ele-mesmo a projeção de uma superfície”
(Freud, 1923, p. 270).
Essas várias concepções buscam descrever como se constrói o pensa-
mento e a atividade psíquica do bebê no seu próprio corpo: gestos, mí-
micas, movimentos do bebê sendo ao mesmo tempo indicativos e cons-
trutivos da própria atividade psíquica. A observação nos mostra que, nas
origens, tudo se passa no corpo e na relação. O corpo do bebê apresen-
ta-se como o teatro privilegiado no qual a experiência, a expressão e a
elaboração de seu vivido na relação com o outro se dá, construindo as
passagens entre o nível sensitivo-sensorial até a futura simbolização do
objeto ausente.
Assim uma das necessidades básicas do bebê é a de ser contido em sua
vida psíquica. A partir daí ele vai descobrir a alteridade e desenvolver a
capacidade de simbolizar as experiências, o que pressupõe poder lidar
com a experiência da ausência do objeto. É importante lembrar que o
objeto continente é interativo – a continência se dá no jogo relacional,
entre as capacidades perceptivas do bebê e a capacidade materna de
sintonia afetiva.
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 98 - 108
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.8
108 / FLAPPSIP
Tudo isso indica que o trabalho psíquico do outro é fundamental para a
maneira como a criança vai conseguir, ou não, constituir seus processos
de subjetivação e de simbolização. Dito de outro modo, nesses proces-
sos iniciais de constituição psíquica, importa não somente a alternância
presença/ausência do objeto, mas importam também as características
e a qualidade da presença do objeto.
Referências bibliográcas:
ANZIEU, D. Le moi-peau. Nouvelle Revue de
Psychanalyse, Paris, n. 9, p. 195-203, 1974.
________ Le Moi-Peau. Paris: Dunod, 1985.
BICK, E. The experience of the skin in early
object-relations. International Journal of
Psychoanalysis, Londres, v. 49, p. 484-486,
1968.
BION, W. R. (1962). Aux sources de
l’expérience. Paris: PUF, 1979
BUSNEL, M.C. e HERBINET, E. – (orgs.).
L’aube des sens. Paris: Stock, 1982
CICCONE, A. Naissance à la pensée et
partage d’aects. Conférence au Colloque
«Vínculos tempranos, clínica y desarrollo
infantil», Montevidéo, 31 août 2007.
DAVID, M. Prendre soin de l’enfance.
Toulouse: Érès, 2014.
FREUD, S. Edição Standard Brasileira das
Obras Psicológicas completas de Sigmund
Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
_________ (1923). O ego e o id. In: Edição
Standard Brasileira das Obras Psicológicas
completas de Sigmund Freud. Rio de
Janeiro: Imago, 1976. v. XIX, p. 73-148.
_________ (1925) A negativa. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de
Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. XIX, p.295-300.
GOLSE, B. Le bébé à l’épreuve des sens. In: ANDRE J. e BAUDIN M., La vie sensorielle. Paris,
P.U.F.. 2002
________ L’être-bébé. Paris, Presses Universitaires de France, 2006.
GOLSE, B.; ROUSSILLON, R. – La naissance de l’objet, Paris: PUF, 2010.
HAAG, G. Hypothèse sur la structure rythmique du premier contenant,Gruppo,no2, 1986, p.
45-53.
HOUZEL, D. L’aube de la vie psychique. Paris: ESF, 2002.
KONICHECKIS, A. – Identité sensorielle chez le bébé et à l’adolescence. In: GUTTON, P. &
GODENNE, G. Troubles de la personnalité, troubles de la conduite. Monographie ISAP. Paris:
GREUPP, p. 139-149, 2000.
_______________ De génération em génération: la subjectivation et les liens précoces. Paris,
P.U.F. Coll. Le l rouge, 2008.
_______________ Continuités, discontinuités... de la diculté à établir des liens psychiques. In:
CHABERT, C. (org.). In: Les séparations. Toulouse: Érès, 2013, p. 57-70.
MAIELLO, S. – Trames sonores et rythmiques primordiales,In: Journal de psychanalyse de
l’enfant,no26, Paris, 2000.
PRAT, R. - La préhistoire de la vie psychique: son devenir et ses traces dans l›opéra de la
rencontre et le processus thérapeutique.In: Revue française de psychanalyse1/2007, vol.71,
p. 97-114. Paris
ROUSSILLON, R - Paradoxos e situações limite da psicanálise, São Leopoldo, Ed. Unisinos,
2006.
_______________ Le Moi-peau et la réexivité. In: Didier Anzieu: le Moi-peau et la psychanalyse
des limites. CHABERT, C.,CUPA, D., KAES, R., ROUSSILLON, R. (orgs.) Toulouse: Érès, 2007.
_______________ Le transitionnel, le sexuel et la réexivité, Paris, Dunod, 2008.
WINNICOTT, D. (1949). L’esprit et ses rapports avec le psyché-soma. In: De la pédiatrie à la
psychanalyse. Paris: Payot, 1969, p.66-79.