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INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 126 - 135
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.10
“DE ONDE VÊM OS BEBÊS? ”
A ESCRITA PSICANALÍTICA COMO
INVESTIGAÇÃO
“¿DE DÓNDE VIENEN LOS BEBÉS?”
LA ESCRITURA PSICOANALÍTICA COMO IN-
VESTIGACIÓN
“WHERE DO BABIES COME FROM?”:
PSYCHOANALYTIC WRITING AS RESEARCH
Ana Cláudia Santos Meira
Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre
ORCID: 0000-0002-9323-6412
anameira@gmail.com
Data de Recebimento: 15-09-2024
Data de Aceitação: 08-11-2024
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Santos Meira A.C. (2024) SOBRE LA INTERRELACIÓN
ENTRE DESBORDE SOCIAL Y ESPACIO TERAPÉUTICO
Intercambio Psicoanalítico 15 (2), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.10
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
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Resumo: O texto aborda a busca inicial das crianças em entender
“de onde vêm os bebês”, associando essa curiosidade à psicanálise.
Freud sugere que essa investigação infantil é motivada por preocu-
pações práticas, como o medo de perder afeto com a chegada de um
novo bebê. Psicanalistas, por sua vez, buscam desvelar os mistérios
do inconsciente, explorando as áreas mais ocultas da mente humana
e ouvindo o não dito. A prática da psicanálise envolve fazer pergun-
tas e enfrentar o desconhecido, o que também se reete na escrita
psicanalítica. Escrever sobre psicanálise exige deixar de lado certe-
zas e encarar dúvidas e desconhecimentos, permitindo descobertas
e criações originais. O texto enfatiza que a escrita é um processo cria-
tivo que transforma ideias e emoções em novos formatos, e promo-
vendo novas aberturas. Além disso, o texto destaca que perguntas
sem respostas denitivas geram processos psíquicos e promovem o
desenvolvimento do pensamento. A curiosidade e o desejo de saber
impulsionam tanto a análise quanto a escrita, tornando ambos exer-
cícios de investigação contínua.
Palavras-chave: escrita psicanalítica, investigação, curiosidade in-
fantil, psicanálise
Resumen: El texto aborda la búsqueda inicial de los niños por com-
prender “de dónde vienen los bebés”, asociando esta curiosidad con
el psicoanálisis. Freud sugiere que esta investigación infantil está
motivada por preocupaciones prácticas, como el miedo a perder el
afecto con la llegada de un nuevo bebé. Los psicoanalistas, a su vez,
buscan develar los misterios del inconsciente, explorando las áreas
más ocultas de la mente humana y escuchando lo tácito. La práctica
del psicoanálisis implica hacer preguntas y enfrentar lo desconoci-
do, lo que también se reeja en los escritos psicoanalíticos. Escribir
sobre psicoanálisis requiere dejar de lado certezas y afrontar dudas
e incógnitas, permitiendo descubrimientos y creaciones originales.
El texto enfatiza que la escritura es un proceso creativo que trans-
forma ideas y emociones en nuevos formatos, y promueve nuevas
aperturas. Además, el texto destaca que las preguntas sin respues-
tas denitivas generan procesos psíquicos y promueven el desarrollo
del pensamiento. La curiosidad y el deseo de saber impulsan tanto el
análisis como la escritura, convirtiendo ambos ejercicios en
una investigación continua.
Palabras clave: escritura psicoanalítica, investigación, curiosidad in-
fantil, psicoanálisis.
“DE ONDE VÊM OS BEBÊS? ’’:
A ESCRITA PSICANALÍTICA
COMO INVESTIGAÇÃO
Ana Cláudia Santos
Meira1
1 Psicóloga, Psicanalista pelo
CEPdePA, Membro do Instituto da
Sociedade Brasileira de Psicanálise
de Porto Alegre, Mestre em
Psicologia Clínica pela PUCRS e
Doutora em Psicologia pela PUCRS.
Autora dos livros “Histórias de
captura: investimentos mortíferos
nas relações mãe e lha” e “A
escrita cientíca no divã: entre as
diculdades e as possibilidades para
com o escrever”, ambos pela Editora
Blucher.
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Abstract: The text addresses children’s initial search to unders-
tand “where do babies come from,” associating this curiosity with
psychoanalysis. Freud suggests that this childhood investigation is
motivated by practical concerns, such as the fear of losing aection
with the arrival of a new baby. Psychoanalysts, in turn, seek to un-
veil the mysteries of the unconscious, exploring the most hidden
areas of the human mind and listening to the unsaid. The practice of
psychoanalysis involves asking questions and facing the unknown,
which is also reected in psychoanalytic writing. Writing about psy-
choanalysis requires setting aside certainties and facing doubts and
ignorance, allowing for original discoveries and creations. The text
emphasizes that writing is a creative process that transforms ideas
and emotions into new formats, and promotes new openings. In ad-
dition, the text highlights that questions without denitive answers
generate psychic processes and promote the development of thou-
ght. Curiosity and the desire to know drive both analysis and writing,
making both exercises of continuous investigation.
Keywords: psychoanalytic writing, research, children’s curiosity, psy-
choanalysis
E bem podemos dar um suspiro, ao perceber que a alguns indivíduos é
dado retirar sem maior esforço, do torvelinho dos próprios sentimentos,
os conhecimentos mais profundos, aos quais temos de chegar em meio
a torturante incerteza e incansável tatear.
(Freud, 1930/2010, p. 105).
“De onde vêm os bebês?”: este é o enigma que – entende Freud
(1905/2016; 1907/2015; 1908/2015) é proposto, no mito, pela Esnge
de Tebas a Édipo. É o primeiro enigma de que se ocupará também a
criança em seu crescimento. Para o autor, não são os interesses teóri-
cos, mas os práticos, que põem em marcha sua atividade investigató-
ria: a ameaça pela chegada de um novo bebê na família, assim como
o medo de que esse acontecimento acarrete a perda de cuidados e de
amor, tornam a criança pensativa e perspicaz. Um dos problemas com
os quais ela se ocupa, em consonância com a história do despertar da
pulsão de saber, é este enigma.
E não será isso que seguimos nos perguntando vida afora? Ou, dito mel-
hor, não serão derivações desta mesma indagação inicial, desta mesma
interrogação que se nos impõe, que seguimos, depois, querendo saber,
buscando desvelar, desejando descobrir?
Psicanalistas de ofício, estamos ocupados em desvendar a alma do ou-
tro, em propor um exercício de olhar mais a fundo, de ouvir o não dito,
de explorar as desconhecidas terras do inconsciente, em busca das zo-
nas mais encobertas, de desbravar os recônditos territórios submersos
pelo recalcamento e lançar luz àquilo que não facilmente se dá a ver.
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Temos nisso apoiada nossa prática e alicerçada nossa escuta: interro-
garmos aquele que deita no divã de nossa escuta e interrogarmos a nós
mesmos sobre tudo o que se põe em marcha neste outro, no que se põe
em cena no encontro analítico e no que nos põe em movimento dentro
de nós.
Na atividade de escrever a psicanálise, seremos motivados pelos mes-
mos objetivos e pelo mesmo impulso de saber. No empreendimento da
leitura e escrita, da análise e síntese, da ilustração e costuras, de cada
elemento que comporá nosso texto, será este impulso de busca, de
curiosidade, de inquietação sobre as coisas, que poremos em marcha
uma escrita diferente, uma escrita mais autoral. E como, na psicanálise,
logramos isso?
Para ganhar esta qualidade na escrita, percorreremos um longo cami-
nho entre o Eu Ideal e o Ideal do Eu, mesmo trajeto que faz o bebê, que
sai do narcisismo primário – onde ela não precisa falar, nem pedir, nem
perguntar, nem se perguntar – em direção à condição de criança, com
capacidade de fala e relações com os objetos, já reconhecidos como se-
parados dela. Ali ela terá, ante à diferenciação e à falta, muitas pergun-
tas a serem feitas a um outro.
No reino do Eu Ideal, tal como Narciso, a vivência é de um estado de per-
feição e completude; por isso, não há o que buscar, explorar, conquistar
ou elucidar. Esse reino oferece o tão esperado retorno ao que um dia
– pelo menos, em fantasia – se teve: um tempo sem espera nem neces-
sidade, uma situação de absoluta presença e plena satisfação, onde não
há problemas, nem questões, nem impasses, nem conito.
Para passar a existir enquanto ativa e autora da própria história, a crian-
ça necessita deixar este lugar passivo, fechado e seguro. Então, no rei-
no do Ideal do Eu, as certezas de Narciso cederão lugar a um enigma.
Édipo não sabe tudo, não conhece tudo, não domina tudo. algo a
ser descoberto e há mobilidade. Neste campo aberto, o enigma provoca
movimento e força a abrir possibilidades, como no aparato psíquico: é
quando existe a falta, que o psiquismo se põe a trabalhar, para tentar
dar conta daquilo que excedeu o ponto da acomodação.
É neste movimento que a criança já não tão pequena pode sair do narci-
sismo primário, onde acreditava tudo saber e tudo poder, que ela dá iní-
cio ao que será – na melhor das hipóteses – um perguntar e um buscar
para sempre: “de onde vêm os bebês?”. Pergunta-protótipo, inaugural e
matriz para tudo o que vem a seguir, quando sai na busca de respostas
e segue encontrando mais questões. Perguntas sem resposta deman-
dam processo psíquico, geram processos de pensamento, promovem
o falar da criança pequena e a possibilidade de escrevermos quando, já
crescidos, nós formamos psicanalistas. É nesta mesma passagem que,
analistas, escreveremos movidos pelas aberturas proporcionadas pela
queda do estado de onipotência.
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Da criança ao psicanalista, investigar o que não se sabe
Movia-me, isto sim, uma ânsia de saber
que se dirigia mais às questões humanas
do que aos objetos naturais.
(Freud, 1925/2011, p. 67).
Para Freud (1905/2016), ao mesmo tempo em que a vida sexual da
criança chega a seu primeiro orescimento, entre os três e os cinco anos,
também se inicia a atividade movida pelo que ele denomina a pulsão de
saber ou de investigar. A atividade desta pulsão corresponde, de um lado,
a uma forma sublimada de apoderamento e, de outro, trabalha com a
energia do prazer de olhar. Na criança, a pulsão de saber é atraída, se-
gundo ele, “inopinadamente cedo e com imprevista intensidade, pelos
problemas sexuais, e talvez seja inclusive despertado por eles” (p. 103).
No conhecido caso do Pequeno Hans, Freud (1909/2015) descreve:
O nascimento da irmã o incitou a um labor de pensamento que, por
um lado, não podia ter conclusão e, por outro, o envolvia em conitos
emocionais. Apareceu-lhe o grande enigma da origem das crianças, tal-
vez, o primeiro problema a desaar os poderes intelectuais da criança,
e do qual o enigma da Esnge de Tebas provavelmente é uma versão
deformada. Ele rejeitou o esclarecimento oferecido, de que a cegonha
havia trazido Hanna. Pois havia notado que, meses antes do nascimento
da pequenina, o corpo de sua mãe havia aumentado, que ela havia se
deitado na cama, gemido durante o parto e, depois, havia se levantado
mais magra. Concluiu, então, que Hanna permanecera no corpo da mãe
e dele sairá como um Lumpf (p. 268).
Em 1925, Freud (2011) segue falando sobre este movimento de busca:
“transcorre um bom tempo até a criança notar claramente a diferença
entre os sexos; nesse período da pesquisa sexual, ela engendra típicas
teorias sexuais, que, por depender da incompletude de sua organização
somática, misturam coisas certas e erradas e não podem solucionar o
problema da vida sexual (o enigma da Esnge: de onde vêm os bebês?)”
(p. 98).
No texto Sobre as Teorias Sexuais das Crianças, Freud (1908/2015) elen-
ca as pesquisas, hipóteses e teorias que a criança fará, na tentativa de
compreender as inúmeras incógnitas que se lhe impõem: o nascimento
de um irmão ou uma irmã, a gravidez da mãe, a relação sexual entre os
pais, a diferença anatômica entre os sexos, as dessemelhanças entre as
pessoas. A partir de cada hipótese por ela levantada, caberá ao ambien-
te estimular e responder; o impulso nascente de saber será encorajado
e o movimento de conhecer será incentivado. Nos piores casos, o am-
biente irá repreender e inibir.
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Dando um salto no tempo, desde o desenvolvimento da criança até nos-
so lugar de analistas, na escrita, também o estado de não saber será
ponto de partida para investigar e descobrir. Desde o início do processo
até o resultado da escrita, uma série de dúvidas e desconhecimentos
acompanham aquilo que saberemos depois. A ausência de denições
prévias e conhecimento anterior pode angustiar por nos colocar desam-
parados e vulneráveis a tudo o que virá, tal como a criança.
Felizmente, tal como anuncia Freud (1905/2016), como ela, queremos
saber. Cada sessão com um analisando é uma experiência que põe à
prova a teorização existente e nossas próprias convicções. Cada encon-
tro analítico nos reserva uma surpresa, convertendo a clínica em um
permanente exercício de exibilidade e de revisão.
O tema que será foco de nossa investigação em cada texto será lá onde
a compreensão se fechou, e não sabemos mais na prática para onde
ir. É onde algo resiste que pode se abrir uma brecha para que algo de
novo emerja. O que nos mobiliza em um caso ou na situação que vamos
examinar, os conceitos que resistem ao nosso saber, o que não sabemos
ainda da teoria e da técnica. O que nos coloca em xeque, é desde onde
iremos traçar caminhos a explorar.
O ponto de partida da escrita será, pois, o tema que nos provoca, nos
inquieta, nos desacomoda, nos perturba, nos deixa curiosos, nos con-
fronta, o que nos faz duvidar, nos faz pensar... Esse será o tema que
nos põe a trabalhar, que movimenta a busca de sustentação teórica, a
escolha de um material clínico ilustrativo, o exame mais profundo e o
desenvolvimento do texto.
Nessa postura, Freud foi exemplar. Em sua Autobiograa, Freud
(1925/2011) descreve todo seu movimento investigativo, que foi toman-
do novas formas a cada passo dado. Desde a hipnose, passando pelo
método catártico, até chegar à associação livre que caracteriza a psica-
nálise propriamente dita, sua posição era sempre a de um observador,
pensador, desbravador, uma posição própria a um explorador, arqueó-
logo ou cientista.
Na Conferência Acerca de uma Visão de Mundo, Freud (1933/2010) des-
creve a Weltanschauung como “uma construção intelectual que, a partir
de uma hipótese geral, soluciona de forma unitária todos os problemas
de nossa existência, na qual, portanto, nenhuma questão ca aberta”
(p. 322). Ele entende que uma visão assim atende aos ideais de todo ser
humano e dá-lhe segurança; ela, porém, está longe dos ideais da psica-
nálise e – acrescentamos agora – da escrita psicanalítica. É neste sentido
que ele compara a realização de um trabalho escrito com o processo de
análise:
Levamos expectativas para o trabalho, mas temos que refreá-las. Atra-
vés da observação, aprendemos algo novo – ora aqui, ora ali –, e, ini-
cialmente, as peças não encaixam. Estabelecemos hipóteses, fazemos
construções auxiliares, que retiramos quando não se conrmam; ne-
cessitamos de muita paciência, de prontidão para toda possibilidade;
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renunciamos a convicções prematuras, que nos obrigariam a não enxer-
gar fatores novos e inesperados, e, por m, todo o esforço é recom-
pensado, os achados dispersos se combinam, obtemos uma visão de
toda uma parcela do funcionamento mental, completamos nossa tarefa
e estamos livres para a próxima (p. 343).
Na clínica, estamos neste lugar de estarmos livres, prontos para a próxi-
ma pergunta a respeito de um enigma que nos lança na renovada ativi-
dade de investigação. Na elaboração de um trabalho, o tema nos faz ir à
busca de uma resposta, ainda que, na verdade, não precisemos encon-
trar uma resposta que nos satisfaça de todo, pois uma denição nal
nos faria parar. Por isso, vamos o tempo todo lançar o olhar mais uma
vez, e outra e outra, para algo que não foi apreendido sucientemente,
não para obturar com uma resposta única. Ao contrário disso, vamos
mexer, examinar, explorar, abrir e deixar o vazio ali.
Ao tolerar o desconhecido, o vazio e este nada que se impõem, desen-
volvemos a capacidade para enfrentar o novo e conter pacientemen-
te aquilo que do outro ainda não tomou forma, e aquilo que do texto
ainda não foi denido. É assim que a escrita promoverá descobertas e
nos reservará surpresas. Isso acontecerá apenas quando nos sentirmos
desobrigados da posse do saber e abandonarmos a proteção que as
certezas nos dão.
O processo de uma escrita com mais qualidade e com mais propriedade
inicia-se aí, quando adentramos no movimento de procura e descober-
ta, rastreando lugares vazios, por onde nos aventuramos a questionar
postulados rmados, em um lugar de dúvida, desde onde podemos
reetir. Se pudermos atravessar com mais tranquilidade esse estado
inicial de investigação, no qual nada está estruturado, nos deixando pe-
netrar pelo que não sabemos, pelo que nos desaa e nos confronta,
ocuparemos a folha com uma produção criativa. Mas como fazer isso?
A investigação precede a criação do novo
Pela escrita, buscamos outros arranjos e diferentes soluções, conceden-
do um novo formato dantes desconhecido ao material com o qual tra-
balhamos. Damos representação ao que existia somente no campo das
ideias e das emoções; damos imagem ao que nos habita. Transforma-
mos o que nos serviu de estímulo, conferindo a este conteúdo já outra
forma. Ao escrever, uma nova construção se efetua.
O escrever é um ato original, como a inauguração do próprio pensar.
Através dele, transitamos com liberdade por entre os escritos, as vozes,
as falas, as cenas, que surgem dos livros, das atividades e aulas, das
conversas e trocas, dos grupos, dos colegas e de nossos analisandos.
Neste trânsito, estabelecemos novas vias de compreensão sobre o obje-
to de nossa reexão. Como construção, a escrita deixa de ser uma mera
repetição; ela é criação de novos elementos mentais, de algo que ganha
sentido exato e somente na escritura.
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Em um artigo publicado após sua morte, Freud (1940/2018) expõe dois
métodos que podem ser escolhidos pelo autor que se dispõe a intro-
duzir algum ramo do conhecimento ou da investigação: o método ge-
nético e o método dogmático. O que ele dene como método genético
requer que partamos daquilo que todo leitor sabe sem contradizê-lo, à
espera da oportunidade de chamar sua atenção para fatos do mesmo
campo que, embora lhe sejam conhecidos, até então negligenciara. Par-
tindo desses, apresentamos-lhe novos fatos dos quais não tem conheci-
mento. Tomada tal precaução, preparamos o caminho para uma melhor
aceitação de novos pontos de vista, diferentes de seus juízos anteriores.
Assim, conseguimos que ele tome parte na construção de uma nova teo-
ria sobre o assunto, em um trabalho conjunto, no qual o leitor percorre
o mesmo caminho pelo qual viajamos anteriormente. A desvantagem
desse método é que o leitor não cará tão impressionado por algo a que
assistiu ser criado lentamente, como cará por algo que lhe é apresen-
tado já pronto e acabado.
Exatamente esse último efeito é produzido pelo método alternativo de
apresentação de uma nova teorização, o dogmático. Esse outro método
começa expondo diretamente o enunciado de nossas conclusões, exi-
gindo a atenção do leitor e rogando que ele acredite no que está pos-
to, mesmo ignorando a forma como chegamos a tais conclusões. Freud
(1940/2018) imaginava um ouvinte crítico meneando a cabeça e se per-
guntando: “Isso tudo parece esquisito! Como ele sabe disso?” (p. 352).
Sua preocupação naturalmente girava em torno do risco que a psicaná-
lise não se tornasse apreciada ou popular, na época de sua solidicação.
Não é difícil identicar o método mais utilizado por Freud e sua escrita,
e que mais caberia a nós: a escrita psicanalítica – tal como o método
genético refaz um conhecimento xo, introduzindo elementos novos;
ela despertará para criações e provocará diferentes associações. Freud
assim o fez mais de cem anos, e seus textos seguem com essa função
junto ao leitor até hoje. Abertas, as brechas do texto funcionam como
um espaço a partir de onde podemos pensar. E muito se pensou.
A escrita psicanalítica é produto renado de um desenvolvimento men-
tal; é ligação, já que dá unidade, sentido, lógica e ordenamento; ao mes-
mo tempo, é desligamento, já que produz novas aberturas. Assim, nes-
se interjogo entre a pulsão sexual (que liga) e a pulsão de morte (que
desliga), esta produção será tanto o resultado do que se mexeu, como
acomodará as questões que internamente se abriram ao escrever.
Quando Freud (1930/2011) declara, em O Mal-estar na Civilização, que “a
escrita é, na sua origem, a linguagem do ausente” (p. 51), podemos pen-
sar também na brecha, na lacuna, na fenda, que só se fazem se Narciso
desvia o olhar do lago e, ao invés de olhar para si mesmo, olha para o
mundo. Enquanto ocupados com as questões narcísicas, ou não escre-
vemos, ou escrevemos um texto defendido, uma cópia, para não arris-
carmos sermos vistos pelo outro. Narciso mostra só o que ele mesmo
enxerga em seu reexo; nada além disto.
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O igual, a imagem e semelhança dos grandes autores, o sim, o conheci-
do, o sabido, isso tudo fecha. Não somos pegos de surpresa, Laio não
atravessa nosso caminho, e não há embate com ninguém. A escrita nos
moldes de Édipo suporta a pergunta, vai em busca de descobrir, entra
em confronto e é capaz de um parricídio simbólico necessário. Édipo
supõe-se incompleto e sabe-se insuciente. Por isso, precisa falar.
Como a perfeição nunca é alcançada na escrita, somos levados a levan-
tar a cabeça e, com um olhar não tão apaixonado, enxergar aquilo que
a realidade nos apresenta. Como Édipo, temos coisas pendentes a re-
solver. O próprio Freud nos deixou várias indicações de que ainda havia
muito a explorar, e diversos pontos ainda obscuros, prontos para se-
rem por nós examinados. Dessa busca e desse encontro, pode nascer o
novo, a criação, a produção psicanalítica com nossa marca pessoal.
Para seguir, sem concluir
Nosso pequeno investigador pode descobrir bastante cedo que todo sa-
ber é fragmentário, e que em cada estágio permanece um resíduo não
solucionado.
(Freud, 1909/2015, p. 233).
“De onde vêm os bebês? ”, é pergunta que dá início e não visa a um m.
No psiquismo, sabemos que a representação-coisa é aberta e represen-
tação-palavra é fechada; na análise, que as perguntas abrem e que as
respostas fecham; na escrita psicanalítica, que as introduções dão pon-
tos de partida e que as conclusões dão pontos de chegada. Tais pontos
de chegada, contudo, não podem ser um encerramento de questões
que, idealmente – tal como a pergunta mítica e inicial da criança peque-
na –, só começaram!
Dito de outra forma, quando começamos a escrever um texto psicana-
lítico, partiremos em busca de algo que, por certo, desejamos e vamos
encontrar; este encontro, contudo, pode ser somente lugar de um pou-
so que, em seguida, nos faz buscar pelo próximo ponto e assim suces-
sivamente.
Encerro esta reexão com o modesto mas realista reconhecimento
de Freud (1925/2011) sobre a psicanálise:
O próprio termo “psicanálise” adquiriu mais de um signicado. Original-
mente a designação de um método terapêutico, agora tornou-se tam-
bém o nome de uma ciência, a do psíquico-inconsciente. Raramente esta
ciência é capaz de resolver um problema inteiramente por si só; mas
parece destinada a contribuir de modo relevante a diversos campos do
saber. A área de aplicação da psicanálise tem a mesma extensão que a
da psicologia, à qual fornece um complemento de grande envergadura.
Posso então dizer, volvendo o olhar para o trabalho de minha vida até
o momento, que iniciei muitas coisas e lancei muitas sugestões, de que
algo deve resultar no futuro. Mas eu mesmo não saberia dizer se será
muito ou pouco. Posso apenas manifestar a esperança de haver aberto
o caminho para um importante progresso em nosso conhecimento (p.
162).
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