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INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 126 - 135
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.10
Dando um salto no tempo, desde o desenvolvimento da criança até nos-
so lugar de analistas, na escrita, também o estado de não saber será
ponto de partida para investigar e descobrir. Desde o início do processo
até o resultado da escrita, uma série de dúvidas e desconhecimentos
acompanham aquilo que só saberemos depois. A ausência de denições
prévias e conhecimento anterior pode angustiar por nos colocar desam-
parados e vulneráveis a tudo o que virá, tal como a criança.
Felizmente, tal como anuncia Freud (1905/2016), como ela, queremos
saber. Cada sessão com um analisando é uma experiência que põe à
prova a teorização existente e nossas próprias convicções. Cada encon-
tro analítico nos reserva uma surpresa, convertendo a clínica em um
permanente exercício de exibilidade e de revisão.
O tema que será foco de nossa investigação em cada texto será lá onde
a compreensão se fechou, e não sabemos mais na prática para onde
ir. É onde algo resiste que pode se abrir uma brecha para que algo de
novo emerja. O que nos mobiliza em um caso ou na situação que vamos
examinar, os conceitos que resistem ao nosso saber, o que não sabemos
ainda da teoria e da técnica. O que nos coloca em xeque, é desde onde
iremos traçar caminhos a explorar.
O ponto de partida da escrita será, pois, o tema que nos provoca, nos
inquieta, nos desacomoda, nos perturba, nos deixa curiosos, nos con-
fronta, o que nos faz duvidar, nos faz pensar... Esse será o tema que
nos põe a trabalhar, que movimenta a busca de sustentação teórica, a
escolha de um material clínico ilustrativo, o exame mais profundo e o
desenvolvimento do texto.
Nessa postura, Freud foi exemplar. Em sua Autobiograa, Freud
(1925/2011) descreve todo seu movimento investigativo, que foi toman-
do novas formas a cada passo dado. Desde a hipnose, passando pelo
método catártico, até chegar à associação livre que caracteriza a psica-
nálise propriamente dita, sua posição era sempre a de um observador,
pensador, desbravador, uma posição própria a um explorador, arqueó-
logo ou cientista.
Na Conferência Acerca de uma Visão de Mundo, Freud (1933/2010) des-
creve a Weltanschauung como “uma construção intelectual que, a partir
de uma hipótese geral, soluciona de forma unitária todos os problemas
de nossa existência, na qual, portanto, nenhuma questão ca aberta”
(p. 322). Ele entende que uma visão assim atende aos ideais de todo ser
humano e dá-lhe segurança; ela, porém, está longe dos ideais da psica-
nálise e – acrescentamos agora – da escrita psicanalítica. É neste sentido
que ele compara a realização de um trabalho escrito com o processo de
análise:
Levamos expectativas para o trabalho, mas temos que refreá-las. Atra-
vés da observação, aprendemos algo novo – ora aqui, ora ali –, e, ini-
cialmente, as peças não encaixam. Estabelecemos hipóteses, fazemos
construções auxiliares, que retiramos quando não se conrmam; ne-
cessitamos de muita paciência, de prontidão para toda possibilidade;