
137 / FLAPPSIP
Freud fez a proposta no livro Esquema do psicanálise, que as ciências
se baseiam nas observações e experiências fornecidas pelo nosso apa-
relho psíquico e sabemos da importância que tem no psiquismo a di-
mensão inconsciente. Em outro texto iluminador, como é Construções
em psicanálise, sustenta que o trabalho de maior signicação em um
análise, consiste na construção ou reconstrução do esquecido a partir
dos indícios que este tem deixado trás de si. E conclui que não devemos
dar-lhe a cada construção outro valor que aquele de uma suposição que
aguarda um exame, sua conrmação ou desestimação.
A ferramenta principal com a qual contamos os analistas no nosso tra-
balho, seja tanto clínico quanto de investigação sobre a cultura do nosso
tempo presente e passado, é o inconsciente. Isto signica poder utilizar
o inconsciente como lanterna que ilumina a escuridão.
Aquilo que na história da psicanálise tomou o nome de transferência-
contra-transferência e que hoje assumimos como motor necessário de
una cura, sempre que esta última não seja confundida com uma respos-
ta especular aos sentimentos do paciente, é o modo de fazer do espaço
comum onde se desenvolve a neurose, um acontecimiento “entre”,
onde o inconsciente do paciente encontre a maneira de aparecer entre-
laçado con aquele do analista
É uma questão que obriga o analista, não renunciar à própria e constan-
te interrogação sobre sua pessoa.
Assim a interpretação psicanalítica que faz ouvir o reprimido no relato
de um paciente tem sua origem nesse entrecruzamento inovador que é
o diálogo analítico, onde não se sabe tudo aquilo que se pensa nem se
pensa tudo aquilo que se sabe. Acontece nesse espaço que denomina-
mos campo de interseção de aquilo que se diz ou se mostra e aquilo que
sai ao encontro. É assim que mediante este intercâmbio inédito se atin-
ge fazer luz sobre aquilo que se oculta detrás de uma memória seletiva
ou de uma lembrança encobridora e que constitui a peça fundamental
do quebra-cabeça individual que não consegue armar o paciente.
Por quê então não utilizar o mesmo método para a investigação de obras
culturais presentes ou antigas, de criações coletivas ou individuais, de
costumes e de novidades sociais ou de aquilo que nos interroga da sub-
jetividade atual?
Assim como em um tratamento a gente se submerge na vida de um
paciente e experimenta, mediante aquilo que denomino resonância psi-
canalítica, o que permanece inconsciente e que envenenou e traumati-
zou sua vida, podemos submergirnos também em uma obra cultural y
aproximar-nos a aquilo que lhe deu nascimento, às forças inconscientes
que seguem agindo no presente. Não mais como no caso do paciente
para ajudá-lo intervir na sua doença e procurar sua cura, mas para con-
tribuir ao conhecimento de aquilo que aparece aos nossos olhos como
sintoma cultural, como mistério ao qual nos temos acostumado, tanto
que já não interrogamos.
PESQUISA EM PSICANÁLISE.
UMA APOSTA CONJETURAL.
Luis Vicente Miguelez1
1 Graduado em Psicologia.
UBA (1976). Psicanalista. Ampla
experiência clínica hospitalar e
privada. Ensino universitário.
Atualmente coordena o Espaço
de Pesquisa em Psicanálise. Ele é
membro do grupo clínico Fragments
criado por Fernando Ulloa. Ele
é o autor dos livros: “Qué cura
en el psicoanálisis. La clínica de
nuestro tiempo” “Jugar la palabra.
Presencias de la transferencia”.
“Astillas en el tiempo. La experiencia
del psicoanálisis”, “Herramientas
psicoanalíticas. Interpretación.
Construcción. Trabajo elaborativo.
Abstinencia”. “Como Freud frente
al Moisés. Recuperar el valor de
investigación en psicoanálisis”.
“Exploraciones. Un psicoanalista
por los territorios del arte”. Todos
na Editorial Letra Viva, e inúmeras
publicações em diferentes mídias no
país e no exterior.