INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 15 (2), 2024, pp 136 - 139
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.11
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INVESTIGACIÓN EN
PSICOANÁLISIS.
UNA APUESTA CONJETURAL.
PESQUISA EM PSICANÁLISE.
UMA APOSTA CONJETURAL.
RESEARCH IN PSYCHOANALYSIS.
A CONJECTURAL WAGER.
Luis Vicente Miguelez
ORCID: 0009-0009-0625-4355
lvmiguelez@gmail.com
Fecha de recepción: 18-09-2024
Fecha de aceptación: 08-11-2024
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Miguelez L.V. (2024) INVESTIGACIÓN EN PSICOANÁLISIS. UNA APUESTA CONJETURAL.
Intercambio Psicoanalítico 15 (2), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/15.2.11
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Freud fez a proposta no livro Esquema do psicanálise, que as ciências
se baseiam nas observações e experiências fornecidas pelo nosso apa-
relho psíquico e sabemos da importância que tem no psiquismo a di-
mensão inconsciente. Em outro texto iluminador, como é Construções
em psicanálise, sustenta que o trabalho de maior signicação em um
análise, consiste na construção ou reconstrução do esquecido a partir
dos indícios que este tem deixado trás de si. E conclui que não devemos
dar-lhe a cada construção outro valor que aquele de uma suposição que
aguarda um exame, sua conrmação ou desestimação.
A ferramenta principal com a qual contamos os analistas no nosso tra-
balho, seja tanto clínico quanto de investigação sobre a cultura do nosso
tempo presente e passado, é o inconsciente. Isto signica poder utilizar
o inconsciente como lanterna que ilumina a escuridão.
Aquilo que na história da psicanálise tomou o nome de transferência-
contra-transferência e que hoje assumimos como motor necessário de
una cura, sempre que esta última não seja confundida com uma respos-
ta especular aos sentimentos do paciente, é o modo de fazer do espaço
comum onde se desenvolve a neurose, um acontecimiento “entre”,
onde o inconsciente do paciente encontre a maneira de aparecer entre-
laçado con aquele do analista
É uma questão que obriga o analista, não renunciar à própria e constan-
te interrogação sobre sua pessoa.
Assim a interpretação psicanalítica que faz ouvir o reprimido no relato
de um paciente tem sua origem nesse entrecruzamento inovador que é
o diálogo analítico, onde não se sabe tudo aquilo que se pensa nem se
pensa tudo aquilo que se sabe. Acontece nesse espaço que denomina-
mos campo de interseção de aquilo que se diz ou se mostra e aquilo que
sai ao encontro. É assim que mediante este intercâmbio inédito se atin-
ge fazer luz sobre aquilo que se oculta detrás de uma memória seletiva
ou de uma lembrança encobridora e que constitui a peça fundamental
do quebra-cabeça individual que não consegue armar o paciente.
Por quê então não utilizar o mesmo método para a investigação de obras
culturais presentes ou antigas, de criações coletivas ou individuais, de
costumes e de novidades sociais ou de aquilo que nos interroga da sub-
jetividade atual?
Assim como em um tratamento a gente se submerge na vida de um
paciente e experimenta, mediante aquilo que denomino resonância psi-
canalítica, o que permanece inconsciente e que envenenou e traumati-
zou sua vida, podemos submergirnos também em uma obra cultural y
aproximar-nos a aquilo que lhe deu nascimento, às forças inconscientes
que seguem agindo no presente. Não mais como no caso do paciente
para ajudá-lo intervir na sua doença e procurar sua cura, mas para con-
tribuir ao conhecimento de aquilo que aparece aos nossos olhos como
sintoma cultural, como mistério ao qual nos temos acostumado, tanto
que já não interrogamos.
PESQUISA EM PSICANÁLISE.
UMA APOSTA CONJETURAL.
Luis Vicente Miguelez1
1 Graduado em Psicologia.
UBA (1976). Psicanalista. Ampla
experiência clínica hospitalar e
privada. Ensino universitário.
Atualmente coordena o Espaço
de Pesquisa em Psicanálise. Ele é
membro do grupo clínico Fragments
criado por Fernando Ulloa. Ele
é o autor dos livros: “Qué cura
en el psicoanálisis. La clínica de
nuestro tiempo” “Jugar la palabra.
Presencias de la transferencia”.
“Astillas en el tiempo. La experiencia
del psicoanálisis”, “Herramientas
psicoanalíticas. Interpretación.
Construcción. Trabajo elaborativo.
Abstinencia”. “Como Freud frente
al Moisés. Recuperar el valor de
investigación en psicoanálisis”.
“Exploraciones. Un psicoanalista
por los territorios del arte”. Todos
na Editorial Letra Viva, e inúmeras
publicações em diferentes mídias no
país e no exterior.
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Fazer o que Freud denominou mal-estar na cultura matéria de investi-
gação psicanalítica está, na minha opinião, na linha que Fernando Ulloa
colocou no debate como necessidade de distingui-lo de deixar-se tomar
por uma cultura do mal-estar. Signica entrar no diálogo analítico com
aqueles acontecimentos culturais de maneira que nossa subjetividade
lesada por eles faça de caixa de resonância. É dizer, que aquilo que na
subjetividade de nosso tempo permanece enterrado, oculto ao nosso
conhecimento, possa começar a vislumbrar-se mediante a exploração
analítica. Freud comparava o trabalho analítico com o trabalho do ar-
queólogo que lê nos restos de peças encontradas, os signos que lhe per-
mitem reconstruir a história enterrada. Esta tarefa é levada a bom termo
se esse pesquisador na sua busca não se deixa inuir somente pelo que
sabe mas também pelo que não sabe mas suspeita.
Assumir o desao requerimento que o material cultural faz ao analista é
semelhante ai material que lhe impõe a escuta do sintoma de um pacien-
te. O leva a dirigir sua atenção utuante aos aspectos desconcertantes
de este. Aberto ao inédito que se desliça no dito e ao dizer antigo no
novo.
Neste sentido aquilo que a psicanálise tributa à investigação é algo di-
ferente ao conhecido como método cientíco, onde o que se procura
é garantir a objetividade do descoberto. Aquilo que o método psicoa-
nalítico oferece é uma aproximação à questão de maneira diferente. A
introdução da dimensão do inconsciente no trabalho investigativo sobre
acontecimentos culturais contribui com um elemento substancial que é
solidário com a formação dos mesmos. A descoberta tem qualidade de
insight, de iluminação nova sobre velhas questões. Mais que descobrir
do que se trata é de produzir novas interpretações que têm seu ponto
de partida na recuperação do reprimido ou do excluído dos fatos cultu-
rais.
Tomá-los como formações do inconsciente à maneira do sonho e da
piada, ilumina uma nova mirada sobre o assunto. Trata-se menos de
conferenciar sobre eles que de permitir que o silenciado neles se possa
escutar.
Desta maneira, a investigação analítica sem descuidar o tratado desde
diferentes pontos de vista, desde diversas perspectivas teóricas, procu-
ra recuperar a dimensão inconsciente nos acontecimentos culturais.
Entendo que aceitar esta direção na investigação é aceitar que nossa
subjetividade participa do reprimido no social e cultural da mesma ma-
neira que um sintoma cultural participa do reprimido no pessoal. Esta
intrincação do individual e o social outorga ao psicanalista a oportuni-
dade de trabalhar sobre o material sóciocultural que lhe é apresenta-
do, de maneira semelhante como o faz com um analisador. Sua escuta
e exploração dos casos, sejam estos obras artísticas, sonhos, aconteci-
mentos culturais, ritos neuróticos, delírios ou crenças losócas começa
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colocando entre parénteses suas opiniões e juízos ao respeito permitin-
do que estes impactem no seu inconsciente. Trata-se mais que de seu
saber sobre alguma coisa, contribuir com um granito de areia no enten-
dimento de uma obra humana, isto é, a dimensão inconsciente da qual
se sustenta e que lhe outorga à mesma sua complexidade apaixonante.
Alguém poderá objetar que, a diferença de um paciente, uma obra de
arte não fala, penso no entanto que quando Freud se encontrou perante
o Moisés de Miguel Ángel, este lhe falou com seus gestos. Questão que o
levou a escrever seu famoso texto a partir das associações que sabemos
gerou nele esse encontro, determinadas por sua história e a história de
seu tempo. A outros antes ou depois seguramente lhes fale de outras
maneiras, llevando-os a confeccionar artigos, desenhar, pintar, compor
música ou pronuciar palestras. Entendo que quando uma obra tem valor
de acontecimento cultural é porque possue a virtude de gerar no obser-
vador um novo impulso criador. Estabelece contato de inconsciente a
inconsciente. É a força da pulsão do criador a que se faz palavra no sujei-
to que se comove com ela. Investigar para a psicanálise está em estreita
proximidade com uma tarefa criativa.
Assin é que a investigação em psicanálise evita cair na oposição clássica
entre saber cognitivo e saber inconsciente e entre aquilo individual e
aquilo social, sua articulação constitui sua aposta teórica e prática.
Somos ao nal de contas, rastreadores e narradores de histórias que fo-
ram enterradas em razão de convicções novas ou razoamentos provei-
tosos. Estas histórias sacricadas em função de formas mentais e rígidas
pautas de pensamento racional estão repletas de verdade inconsciente.
Sem ela nossas produções culturais seriam como pássaros sem asas.
Referências bibliográcas
Freud Sigmund (1986) Esquema del psicoanálisis. Amorrortu editores. Tomo XXIII (Trabajo
original publicado en 1940).
Freud Sigmund (1986) Construcciones en psicoanálisis. Amorrortu editores. Tomo XXIII (Trabajo
original publicado en 1937).
Miguelez, Luis Vicente (2019) Como Freud frente al Moisés. Recuperar el valor de investigación del
psicoanálisis, Letra Viva.