11 / FLAPPSIP
EDITORIAL
NOTA DO EDITOR
EDITORS NOTE
NOTA
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 12 - 15
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.1
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MEMÓRIA E DESTINO
DA PSICANÁLISE NA AMÉRICA LATINA
MEMORIA Y DESTINO
DEL PSICOANÁLISIS EN AMÉRICA LATINA
MEMORY AND FATE
OF PSYCHOANALYSIS IN LATIN AMERICA
Marcelo Lubisco Leães
Presidente do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto
Alegre Ex-delegado do CEPdePA na FLAPPSIP
ORCID: 0009-0009-8277-116X
Correio eletrônico: marcelolubiscoleaes@gmail.com
Data de Recebimento: 11-11-2024
Data de Aceitação: 08-03-2025
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Lubisco Leães M. (2025) MEMÓRIA E DESTINO DA PSICANÁLISE NA AMÉRICA LATINA
Apresentado na Jornada Cientica do CEPdePA na mesa homônima
Intercambio Psicoanalítico 16 (1), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.1
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
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MEMÓRIA E DESTINO
DA PSICANÁLISE NA AMÉRICA LATINA
Apresentado na Jornada Cientica do CEPdePA na mesa homônima
Marcelo Lubisco Leães
Presidente del Centro de Estudios
Psicoanalíticos de Porto Alegre. Ex
delegado de CEPdePA ante FLAPPSIP
É com muita alegria e responsabilidade que compartilho com
os colegas latinoamericanos considerações que tive a oportunidade de
expor na recente Jornada Cientíca do CEPdePA/Serra, evento da maior
importância para nossa instituição, discutindo temas que me despertam
profundo interesse: Psicanálise, América Latina, Memória e Destino.
Dois conceitos centrais guiam nossa reexão: Memória e Desti-
no. É possível falar sobre o destino da psicanálise ou estamos aqui para
forjar um presente que contemple a singularidade e algo comum às ins-
tituições psicanalíticas e aos psicanalistas?
Prero pensar que devemos construir um caminho possível para
a psicanálise no presente, e acredito que, através da memória — avessa
à lógica da repetição compulsiva e mortífera —, podemos avançar da
melhor maneira possível.
Quanto à função de delegado da FLAPPSIP (Federação Lati-
no-Americana de Psicoterapias Psicanalíticas e Psicanálise), junto a co-
lega Paula Triches, temos nos dedicado a cumprir os objetivos da fede-
ração: promover o intercâmbio psicanalítico, a pesquisa e a difusão da
psicanálise.
A FLAPPSIP nasceu do desejo de diversas associações psicanalí-
ticas latino-americanas de discutir, trocar e analisar suas problemáticas,
tendo como ponto comum a psicanálise com ênfase na teoria e prática
clínica. Outra convergência promovida é o aprofundamento da relação
entre a clínica e o social, reetindo sobre o movimento inaugurado por
Freud ao posicionar o sujeito em relação ao sintoma e ao mal-estar na
cultura.
O Simpósio Clínico da FLAPPSIP de 14 de setembro de 2024 dis-
cutiu a clínica do desamparo nos tempos atuais, temática que coincidiu
com a recente tragédia climática das enchentes que devastou o territó-
rio em que vivemos no Rio Grande do Sul e que tem se repetido em toda
a América Latina. O Simpósio Clínico, com 500 inscritos, abordou novas
sintomatologias dos tempos atuais.
O desao atual da FLAPPSIP é acompanhar as transformações e
encontrar modos de intervenção adequados para esses novos tipos de
sofrimento e mal-estar na cultura. Um dos principais temas é a exclusão
social, consequência grave do sistema regido pelo mercado. Questio-
namo-nos sobre como nos posicionar diante dos sujeitos excluídos e
marginalizados e como reintroduzir suas vozes no discurso público.
Para tanto, gostaria de abordar três pontos de profundo interes-
se, que possuem intersecções e participam na formação de sintomas no
sujeito contemporâneo: desequilíbrio climático, obesidade e os ataques
ao Estado Democrático de Direito na América Latina.
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 12 - 15
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.1
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Desequilíbrio Climático
Os eventos climáticos revelam profundas desigualdades. Na
América Latina, inundações, secas severas e ondas de calor sem prece-
dentes afetam principalmente populações vulneráveis. A recente tragé-
dia no Rio Grande do Sul evidenciou o abismo social e a precarização das
condições de vida. No consultório e no hospital onde atuo, testemunhei
o impacto traumático desses eventos, especialmente em pessoas de
classe social vulnerável.
Observamos que é necessário ocorrer algo de grande magnitude
para que a solidariedade seja mobilizada. Há uma tendência à negação
e minimização dos riscos, vivendo sob o princípio do prazer e ignorando
demandas urgentes. Freud, em “O Mal-Estar na Cultura”, aponta que a
civilização requer renúncias instintuais para que a vida em comunidade
seja possível, e que o desmoronamento pode ocorrer com facilidade.
O problema climático é conhecido décadas, mas falta de
memória e compromisso com as evidências cientícas sobre o impacto
da ação humana no meio ambiente. A psicanálise precisa se ocupar des-
sa questão mais rmemente.
Obesidade
Outro ponto crucial é a obesidade, cujas mortes e problemas
associados requerem novas abordagens e práticas mais efetivas. Nos
últimos 50 anos, a prevalência de obesidade quase triplicou no mundo.
A América Latina enfrenta desaos signicativos, com previsões de que,
em 2035, mais da metade da população estará com sobrepeso ou obe-
sidade.
A psicanálise tem se ocupado do sofrimento psíquico ligado à
obesidade, especialmente a gordofobia, que impacta muitas vidas. Con-
tudo, é necessário ir além e considerar que a obesidade é um quadro
sistêmico, global, relacionado ao processo de industrialização e ao pro-
cessamento dos alimentos.
Grandes conglomerados controlam o mercado global de alimen-
tos, introduzindo alimentos ultraprocessados com forte componente
aditivo e impacto biológico-endócrino. Esses alimentos funcionam como
ferramentas que inclinam o sujeito ao não-pensar, promovendo um cur-
to-circuito no campo do pensamento e tornando-o propenso a recorrer
a essas substâncias para apaziguar estados de ansiedade ou angústia.
Estudos recentes apontam determinantes sistêmicos da obe-
sidade na América Latina, como exposição a produtos químicos, mu-
danças climáticas, desmatamento, urbanização, ampla disponibilidade
de alimentos ultraprocessados, interesses econômicos que inuenciam
políticas públicas, desigualdades sociais, educacionais, de gênero e de
ancestralidade.
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É evidente a intersecção nefasta entre cultura, poder político e
econômico, e a importância de políticas públicas para a saúde da popu-
lação. Esses fatores aparecem nos consultórios e hospitais, evidencian-
do a necessidade de a psicanálise se posicionar diante dessa realidade.
Fragilidade do Estado Democrático de Direito e o Laço Social
O último ponto é a crise de representatividade que assola a
América Latina. No Peru, país que atualmente preside a FLAPPSIP,
um cenário de fragmentação e agitação social e política, com forte debi-
lidade institucional com forte inuência de grupos econômicos ligados a
práticas de corrupção no poder público.
No Brasil, há uma memória histórica apagada, com anistias que
promoveram impunidade. A busca por anistiar os envolvidos na tentati-
va de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023 sob o pretexto de recon-
ciliação nacional ameaça enfraquecer a Constituição e a aplicação da lei.
A compulsão à repetição se manifesta em formas de violência
de classe, racismo, misoginia, xenofobia e negação das evidências cien-
tícas. Essas trevas do nosso tempo evidenciam a primazia do Eu e o
desprezo pelo Outro, colocando em risco o pacto social.
Há um aumento do individualismo e crises de ansiedade, com
ataques ao exercício da lei e a lógica do “cada um por si”. A supervalori-
zação da performance leva os sujeitos ao limite, com diculdade de no-
mear e elaborar o sofrimento, impedindo a elaboração da experiência
emocional e resultando em passagens ao ato destrutivas.
Avançamos no compromisso de uma transformação social que
garanta igualdade de direitos, implicando em uma posição ética de re-
conhecimento do outro e da nossa história. É fundamental questionar-
mos qual é o nosso papel na sensibilização e intervenção diante das
trevas do nosso tempo e como articular a dimensão social e política em
nossa prática clínica sem perder de vista a singularidade do sujeito.
Nos dias atuais, o processo civilizatório está ameaçado. Precisa-
mos entender melhor e agir sobre o que está acontecendo com o clima,
o padecimento do corpo e o processo político no debate público. É ne-
cessário revisitar a história que escrevemos e criar novas memórias para
pensar um futuro possível.
A presente Revista, dentro do seu marco editorial e com as me-
didas tomadas por sua coordenação e por todos os participantes ativos,
está agora ainda mais acessível a um número maior de pessoas. Acre-
dito que, dessa forma, estaremos na direção de um caminho possível
para uma psicanálise que revisita sua memória e cria um espaço amplo
de diálogo entre todos nós, unidos por este traço da América Latina.