
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 12 - 15
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.1
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Desequilíbrio Climático
Os eventos climáticos revelam profundas desigualdades. Na
América Latina, inundações, secas severas e ondas de calor sem prece-
dentes afetam principalmente populações vulneráveis. A recente tragé-
dia no Rio Grande do Sul evidenciou o abismo social e a precarização das
condições de vida. No consultório e no hospital onde atuo, testemunhei
o impacto traumático desses eventos, especialmente em pessoas de
classe social vulnerável.
Observamos que é necessário ocorrer algo de grande magnitude
para que a solidariedade seja mobilizada. Há uma tendência à negação
e minimização dos riscos, vivendo sob o princípio do prazer e ignorando
demandas urgentes. Freud, em “O Mal-Estar na Cultura”, aponta que a
civilização requer renúncias instintuais para que a vida em comunidade
seja possível, e que o desmoronamento pode ocorrer com facilidade.
O problema climático é conhecido há décadas, mas há falta de
memória e compromisso com as evidências cientícas sobre o impacto
da ação humana no meio ambiente. A psicanálise precisa se ocupar des-
sa questão mais rmemente.
Obesidade
Outro ponto crucial é a obesidade, cujas mortes e problemas
associados requerem novas abordagens e práticas mais efetivas. Nos
últimos 50 anos, a prevalência de obesidade quase triplicou no mundo.
A América Latina enfrenta desaos signicativos, com previsões de que,
em 2035, mais da metade da população estará com sobrepeso ou obe-
sidade.
A psicanálise tem se ocupado do sofrimento psíquico ligado à
obesidade, especialmente a gordofobia, que impacta muitas vidas. Con-
tudo, é necessário ir além e considerar que a obesidade é um quadro
sistêmico, global, relacionado ao processo de industrialização e ao pro-
cessamento dos alimentos.
Grandes conglomerados controlam o mercado global de alimen-
tos, introduzindo alimentos ultraprocessados com forte componente
aditivo e impacto biológico-endócrino. Esses alimentos funcionam como
ferramentas que inclinam o sujeito ao não-pensar, promovendo um cur-
to-circuito no campo do pensamento e tornando-o propenso a recorrer
a essas substâncias para apaziguar estados de ansiedade ou angústia.
Estudos recentes apontam determinantes sistêmicos da obe-
sidade na América Latina, como exposição a produtos químicos, mu-
danças climáticas, desmatamento, urbanização, ampla disponibilidade
de alimentos ultraprocessados, interesses econômicos que inuenciam
políticas públicas, desigualdades sociais, educacionais, de gênero e de
ancestralidade.