
18 / FLAPPSIP
Para abrir os trabalhos deste Simpósio, começo trazendo a voz
do escritor, líder indígena e pensador ambientalista Ailton Krenak. Num
episódio de “Conversa na Rede”, ele arma: “Os brancos estão interes-
sados no mundo; quanto mundo tem para comer. E os povos indígenas
estão interessados em quantos mundos eles podem criar” (Partículas...,
[2023], 35’30”).
O tema que propusemos para este Simpósio é “Sonhar um futu-
ro é possível? A clínica do desamparo nos tempos atuais”.
Nesse título, há duas referências temporais: o futuro e os tem-
pos atuais.
Sabemos que as temporalidades psíquicas são eixos importan-
tes da metapsicologia psicanalítica: o tempo da repetição, o tempo ins-
tantâneo do traumático, o tempo do futuro na construção das instâncias
ideais, o tempo assimilado ao espaço do sonho, o tempo do après-coup...
Mas também são o que distingue as categorias psicopatológicas: o tem-
po circular da bulimia, o tempo instantâneo das toxicomanias, a recusa
do tempo nas perversões, o tempo imediato das neuroses narcísicas; o
“tempo morto” do irrepresentável... e assim por diante. Também sabe-
mos que os tempos psíquicos estão entrelaçados com o tempo social
na sua vivência e na sua representação. No início do século XX, Freud
(1908/1993) já se referia à aceleração da vida pela industrialização e a
urbanização como causadoras de sofrimento psíquico. A experiência do
tempo em nosso século está muito marcada pelo prolongamento das
vidas e pela aceleração produzida pelos avanços tecnológicos que, so-
mados à exigência de eciência e ao demérito do tédio, converteu cada
vida numa verdadeira maratona.
Mas e o tempo futuro? Um dos conferencistas no último Congresso da
FLAPPSIP, o pensador italiano Franco Berardi (2019) fala na diferença
da representação do futuro entre o início do século XX, quando havia
uma “crença no futuro”, uma “fé na realização nal da razão”, e a se-
gunda metade do mesmo século, quando se quebrou a percepção atual
do futuro e instalou um “Iluminismo escuro”, um futuro ameaçador. Ao
mesmo tempo, Berardi (2019) reconhece que é necessária uma potência
criativa intensa para se opor à ameaça.
Por outro lado, em conferência proferida em 2023, que deu origem ao
livro O espírito da esperança: contra a sociedade do medo, o lósofo co-
reano Byung-Chul Han fala numa “esperança radical”. Segundo o autor,
vivemos num mundo de consumo e de trabalho, sem celebração, sem
esperança. Mas, quando se refere à esperança, esclarece que o modo da
esperança é o “ainda não”. Ou seja, não se deve confundir a esperança
com otimismo, menos ainda com pensamento positivo. Não se trata da
certeza de que “algo dará certo”, e sim de que algo “tem sentido”, dê
certo ou não. Otimismo e pessimismo seguem a mesma lógica: tudo
vai dar certo, tudo vai dar errado. Tanto no otimismo quanto no pessi-
mismo, temos um “tempo fechado antecipadamente”. Pelo contrário, a
esperança nos permite escapar de um tempo concluído; ela se dirige ao
aberto, ao desconhecido. A esperança tem uma dimensão ativa, já que,
CRIAR
NOVOS MUNDOS
Abertura do Simpósio Clínico da FLAPPSIP 2024
Silvia Leonor Alonso1
Secretaria Cientíca FLAPPSIP –
2023/2025
1 Psicanalista. Uma das fundadoras
e membro do Departamento de
Psicanálise do Instituto Sedes
Sapientiae. Professora e supervisora
no mesmo Instituto desde 1978.
Coordenadora do grupo de pesquisa
“O feminino e o imaginário cultural
contemporâneo” desde 1997. Fez
parte do grupo fundador da revista
Percurso e integrou seu primeiro
conselho editorial. De 1977 até
1980, foi coordenadora e professora
da área de Psicanálise no curso
de formação em psicoterapias da
pós-graduação lato sensu da PUC-
SP. Residiu na Argentina até 1976,
tendo sido docente na Universidad
de Buenos Aires (UBA) e na Escola
de Psicologia Freudiana e Psicanálise
(EPFSO). Autora dos livros Histeria
(Casa do Psicólogo, 2004), O tempo,
a escuta, o feminino (Casa do
Psicólogo, 2011) e Ressonâncias da
clínica e da cultura (Blucher, 2022) e
organizadora e autora de outros seis
livros.