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Nós nascemos indefesos
Nascer prematuramente torna os seres humanos fracos desde o
início e para sempre. Isso cria uma armadilha, mas também uma possi-
bilidade. O outro é necessário para abrigo. Mais um que a cada momen-
to histórico será atravessado por uma fantasia diferente. Neste encon-
tro entre a criança e o pai adotivo, Freud localiza “a fonte primordial de
todos os motivos morais”.
Desde o início, carregamos a energia pulsional que se resolve
num conito entre Eros e Thanatos, inerente ao desejo, que surge pri-
mariamente. Eros é o desejo de presença, movimento, prazer, tende a
conectar, a representar, seu objetivo é unicar. Thanatos tende a rejei-
tar, num movimento de desinvestimento, aqueles objetos que promo-
vem desejos. A tendência ao prazer busca manter um equilíbrio e uma
tensão toleráveis.
Os humanos desenvolvem a capacidade de representar, pensar,
imaginar, fantasiar e criar tudo o que torna possível a conexão com a
energia com a qual nascemos. É uma exigência de trabalho da psique -
segundo Freud - que torna possível sair do primeiro estado. Trata-se de
fazer algo com o que nos é dado: a vida.
A realidade que nos é apresentada, muitas vezes excessiva,
agrava o desamparo. Ao longo da história, assumiu diferentes formas.
Hoje, mais do que nunca, devido ao fenômeno da globalização, o sujeito
cultural está sob a inuência de poderes que regem o planeta sob dife-
rentes perspectivas: política, econômica, nanceira e tecnológica. Toda
a humanidade sofre efeitos semelhantes, tendo perdido o que tornava
as pessoas diferentes: os costumes, as tradições e os valores que lhes
serviam de sustentação.
Que lugar há então para a psicanálise?
Em princípio, o psicanalista não deve abrir mão de sua própria
prática.
A psicanálise começou com a clínica desde o início. Mais tarde,
uma teoria sobre a psique foi construída. Se a psicanálise perdura, é
por causa da prática e não da teoria. Os teóricos só podem transmitir
seu conhecimento se tiverem trabalhado com seu próprio inconscien-
te, daí sua convicção. A prática rearma conceitos fundamentais e gera
novas teorias. Sem ela, a psicanálise seria letra morta, apenas mais uma
teoria.” O potencial do discurso psicanalítico está na sua prática clínica,
na sua prática de leitura e de pensamento”, propõe Lidia Ferrari (2024),
psicanalista argentina radicada na Itália.
Julia Kristeva ( 2011) arma que a noção de texto não vai além
da expressão da experiência, e que para produzir um texto é preciso
questionar o modo de sentir, a sexualidade e a linguagem.
CONDENADO
AO DESEJO
Apresentado na Simpósio Clínico FLAPPISIP 2024
Adriana Cabuli1
1 Graduada em Psicologia. Membro
titular da Associação Argentina
de Escolas de Pós-Graduação em
Psicoterapia (AEAPG). Professor
titular da AEAPG. Diretora editorial
da revista Psicoanálisis. Ayer y hoy
Secretária do Centro de Pesquisa e
Orientação Comunitária “ Dr. Arnaldo
Rascovsky” Membro da comissão
organizadora da série El Malestar en
la Cultura desde 2021.