
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 41 - 47
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.5
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interessante com seu conceito de triângulo da violência no qual distin-
gue violência direta, violência estrutural e violência cultural. A violência
direta é a violência manifesta que representa apenas aquela pequena
parte visível de um iceberg. Abaixo da superfície visível, a violência es-
trutural e a violência cultural sustentam e perpetuam as condições que
possibilitam a violência direta.
A violência estrutural refere-se à desigualdade e injustiça siste-
máticas resultantes dos processos de estraticação social, que impe-
dem uma parte da população de satisfazer as necessidades humanas
básicas, perpetuando a marginalização e o desamparo social de amplos
setores da população. A violência cultural é a que cria o quadro legiti-
mador da violência que justica a violência estrutural e direta. Galtung a
dene como uma violência simbólica que se expressa em ideologias, re-
ligiões, linguagem, arte, ciência, leis, meios de comunicação, educação,
etc. A violência cultural é fundamental para entender como a violência
se normaliza em uma sociedade.
Freud (1895) descreveu o desamparo original do ser humano
como a fonte primordial de todos os motivos morais, uma condição que
tem sua raiz na relação primitiva entre mãe e bebê. No bebê aparecem
sensações fragmentadas que provêm do corpo, que podem ser fome,
cólicas, cansaço, que empurram de maneira incessante e têm então o
caráter de “apremio”, obrigando a recorrer ao Outro, por exemplo, com
seu choro. Quando não aparece a resposta satisfatória do Outro, o bebê
ca invadido pelas sensações de seu corpo diante das quais não tem re-
cursos para responder. Segundo as concepções freudianas, esse seria o
modelo do desamparo. Assim, o desamparo se estabelece quando toda
possibilidade de simbolização está abolida e o sujeito se vê à mercê de
suas forças pulsionais, estando ele, portanto, exposto a um excesso de
excitação.
Embora essa noção inicial se rera ao mal-estar subjetivo indivi-
dual, o conceito de desamparo adquiriu novas dimensões no contexto
contemporâneo, estendendo-se ao social como uma perda dos laços
sociais que poderia explicar em parte o desamparo social do século XXI.
Freud, ao se referir à “alteridade essencial do sujeito”, sublinhava a de-
pendência do indivíduo em relação ao outro — primeiro a mãe, e depois
a cultura em geral — como um elemento fundamental da psique huma-
na. É impossível pensar no desamparo sem essa relação com o outro.
Atualmente, autores como Ehrenberg apontam uma mudança
no mal-estar contemporâneo, que passou da pergunta freudiana do su-
perego, “O que me é permitido fazer?” — típica do ser neurótico repri-
mido pelas exigências tradicionais — a uma nova interrogação: “O que
sou capaz de fazer?”, que reete uma ansiedade constante acerca da
autoecácia e do sucesso individual. Nesse contexto, o desamparo se
manifesta como uma perda do outro e uma desconexão que desestabili-
za o senso de pertencimento. Esse processo é intensicado pela cultura
contemporânea, que promove o narcisismo e o individualismo, exacer-
bando a autonomia e a preocupação com a própria imagem. A desco-