INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 41 - 47
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.5
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MALESTAR EN LA CULTURA,
ENTRE LA VIOLENCIA Y EL DESAMPARO
MAL-ESTAR NA CULTURA,
ENTRE A VIOLÊNCIA E O DESAMPARO
CIVILIZATION AND ITS DISCONTENTS, BETWEEN
VIOLENCE AND HELPLESSNESS
Marcela Ramírez Machuca
ORCID: 0009-0001-6914-5844
Correo electrónico:marcela.ramirez955@gmail.com
Isidora Schlesinger Ramírez
ORCID: 0009-0008-8627-9570
Correo electrónico: ps.i.schlesinger@gmail.com
Sociedad Chilena de Psicoanálisis - ICHPA
Fecha de recepción: 08 – 03 – 2025
Fecha de aceptación: 05 – 05 - 2025
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Ramírez Machuca M. Schlesinger Ramírez I. (2025) MALESTAR EN LA CULTURA,
ENTRE LA VIOLENCIA Y EL DESAMPARO
Intercambio Psicoanalítico 16 (1), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.5
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
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“... É verdade que a psicologia individual se restringe ao ser
humano singular e estuda os caminhos pelos quais busca alcançar
a satisfação de suas pulsões. Mas só raramente, sob determinadas
condições de exceção, pode prescindir dos vínculos deste indivíduo
com outros. Na vida anímica do indivíduo, o outro conta, com to-
tal regularidade, como modelo, como objeto, como auxiliar e como
inimigo, e por isso desde o começo a psicologia individual é simul-
taneamente psicologia social neste sentido mais amplo, mas total-
mente legítimo.” Sigmund Freud (1921, p. 67)
No século XXI, vivemos uma era em que os grandes relatos, as
ideologias políticas e as cosmovisões religiosas que iluminavam um ca-
minho possível têm perdido valor e credibilidade. Ao mesmo tempo, a fé
na razão, que na modernidade era considerada o farol que nos guiaria
para um futuro promissor, tem se desmoronado pouco a pouco. Hoje
vemos que nossa civilização está ameaçada por pandemias, desastres
ecológicos e conitos bélicos que colocam em risco a estabilidade mun-
dial. Nesse contexto de incerteza, surge a pergunta: qual futuro é possí-
vel? cuja resposta parece nos conduzir a um crescente desamparo so-
cial.
Da razão às paixões
Durante a modernidade, o progresso e a razão constituíram-se
como os pilares que sustentavam a civilização em um avanço constante.
Conávamos que a razão guiaria a humanidade para estados maiores
de harmonia e prosperidade. No entanto, Freud nos advertiu sobre essa
visão otimista ao apontar que nossas pulsões, de vida e de morte, Eros e
Ttânatos, exercem uma inuência determinante na vida psíquica e social
a partir do inconsciente.
Hoje, já descrentes do valor da razão e reconhecendo que a ra-
cionalidade humana é frágil, cada dia se torna mais evidente que são as
paixões e pulsões inconscientes que nos mobilizam e determinam. Esse
fato de grande repercussão social, visto que estamos expostos a uma
intensa manipulação emocional com discursos que exploram nossos
medos e raivas, nos deixa expostos ao desamparo emocional que nos
leva novamente à pergunta: qual futuro é possível?
Novamente foi Freud (1930) quem destacou o papel essencial
da lei e da cultura na regulação das pulsões humanas. Essas estruturas,
que permitem limitar as pulsões, são também as protetoras dos nossos
vínculos e criam o que chamamos de laços sociais, fundamentais para a
existência social organizada e pacíca. Sem esses laços, a violência apa-
rece como a resposta ao desamparo e pode se tornar o mecanismo pri-
mário de interação.
MAL-ESTAR NA CULTURA,
ENTRE A VIOLÊNCIA E O DESAMPARO
Apresentado na Simpósio Clínico FLAPPSIP 2024.
Versão atual corrigida.
Marcela Ramírez
Machuca1
Isidora Schlesinger Ra-
mírez2
1 Psicanalista, Membro Titular e
ex-Presidente da Sociedade Chilena
de Psicanálise - ICHPA, Mestre
em Psicologia Clínica, menção em
psicanálise, Professor Mestre UAI-
ICHPA. Psicanalista, grupalista, com
perspectiva de gênero, ex-presidente
FLAPPSIP.
2 Psicóloga Clínica pela Universidade
Diego Portales. Perspectiva
psicanalítica e de gênero. Docente
da Universidade Diego Portales.
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Também nesta crise de credibilidade social que marca nosso
século, uma perda de conança nas instituições que historicamente
sustentaram os laços sociais - a família, a comunidade, o Estado - o que
nos deixa em um estado de vulnerabilidade e desamparo social e subje-
tivo.
Não é possível armar que vivemos em uma sociedade mais
violenta do que em outros períodos, no entanto, podemos armar que
na sociedade contemporânea, o signicante “violência” tem uma pre-
sença quase onipresente nos discursos midiáticos, que certas violências
se naturalizaram, e que os meios de comunicação se alimentam de fatos
violentos, dotados de um grande poder de atração para parte da popu-
lação.
Violência e agressão
De uma perspectiva psicanalítica, é necessário distinguir violên-
cia de agressão. A agressão é uma característica inerente a todos os
seres vivos, uma resposta que nos permite defender e sobreviver. Nos
seres humanos, Freud conceitua a agressão como uma manifestação da
pulsão de morte que atua em conjunto com as pulsões de vida. Assim,
considera que as pulsões são necessidades do id e há apenas dois tipos:
Eros e destruição. Ambas se afetam mutuamente e produzem todas as
expressões da vida. (Freud, 1940).
A violência, por outro lado, é um fenômeno especicamente hu-
mano e social. Como aponta Pilar Soza, “a violência é própria dos seres
humanos, é um efeito das relações entre os homens; é social. Violência é
o nome do efeito de submeter outro, além de sua vontade, a uma certa
condição ou situação” (2012, par. 25). Assim, um aspecto fundamental
da violência está relacionado ao não reconhecimento do outro como
sujeito e, nesse sentido, a violência é um ato relacional no qual a subje-
tividade da vítima é negada ou diminuída.
Apsicanálisevincularofereceumadeniçãoenriquecedora
aodenirviolênciacomo
“... o exercício absoluto do poder de um ou mais sujeitos
sobreoutro,quecasituadoemumlugardedesconhecimento;isto
é, não reconhecido como sujeito de desejo e reduzido, em sua forma
extrema, a um puro objeto. Em outras palavras, consideramos a
violênciaporsuaecácia,adeanularooutrocomosujeitodiferen-
ciado, mergulhando-o em uma perda de identidade e singularidade
que assinala o lugar da angústia.” (Pachuk, Friedler, comps., 1999,
citado em Lastra, 2021, par. 9)
Desamparo e Violência
De uma abordagem sociológica, a violência pode ser entendi-
da como uma resposta falha a partir de um conito entre o sujeito e a
sociedade. A esse respeito, Galtung oferece uma ferramenta analítica
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interessante com seu conceito de triângulo da violência no qual distin-
gue violência direta, violência estrutural e violência cultural. A violência
direta é a violência manifesta que representa apenas aquela pequena
parte visível de um iceberg. Abaixo da superfície visível, a violência es-
trutural e a violência cultural sustentam e perpetuam as condições que
possibilitam a violência direta.
A violência estrutural refere-se à desigualdade e injustiça siste-
máticas resultantes dos processos de estraticação social, que impe-
dem uma parte da população de satisfazer as necessidades humanas
básicas, perpetuando a marginalização e o desamparo social de amplos
setores da população. A violência cultural é a que cria o quadro legiti-
mador da violência que justica a violência estrutural e direta. Galtung a
dene como uma violência simbólica que se expressa em ideologias, re-
ligiões, linguagem, arte, ciência, leis, meios de comunicação, educação,
etc. A violência cultural é fundamental para entender como a violência
se normaliza em uma sociedade.
Freud (1895) descreveu o desamparo original do ser humano
como a fonte primordial de todos os motivos morais, uma condição que
tem sua raiz na relação primitiva entre mãe e bebê. No bebê aparecem
sensações fragmentadas que provêm do corpo, que podem ser fome,
cólicas, cansaço, que empurram de maneira incessante e têm então o
caráter de “apremio”, obrigando a recorrer ao Outro, por exemplo, com
seu choro. Quando não aparece a resposta satisfatória do Outro, o bebê
ca invadido pelas sensações de seu corpo diante das quais não tem re-
cursos para responder. Segundo as concepções freudianas, esse seria o
modelo do desamparo. Assim, o desamparo se estabelece quando toda
possibilidade de simbolização está abolida e o sujeito se vê à mercê de
suas forças pulsionais, estando ele, portanto, exposto a um excesso de
excitação.
Embora essa noção inicial se rera ao mal-estar subjetivo indivi-
dual, o conceito de desamparo adquiriu novas dimensões no contexto
contemporâneo, estendendo-se ao social como uma perda dos laços
sociais que poderia explicar em parte o desamparo social do século XXI.
Freud, ao se referir à “alteridade essencial do sujeito”, sublinhava a de-
pendência do indivíduo em relação ao outro — primeiro a mãe, e depois
a cultura em geral — como um elemento fundamental da psique huma-
na. É impossível pensar no desamparo sem essa relação com o outro.
Atualmente, autores como Ehrenberg apontam uma mudança
no mal-estar contemporâneo, que passou da pergunta freudiana do su-
perego, “O que me é permitido fazer?” típica do ser neurótico repri-
mido pelas exigências tradicionais a uma nova interrogação: “O que
sou capaz de fazer?”, que reete uma ansiedade constante acerca da
autoecácia e do sucesso individual. Nesse contexto, o desamparo se
manifesta como uma perda do outro e uma desconexão que desestabili-
za o senso de pertencimento. Esse processo é intensicado pela cultura
contemporânea, que promove o narcisismo e o individualismo, exacer-
bando a autonomia e a preocupação com a própria imagem. A desco-
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nexão resultante entre o eu e os outros fomenta a desubjetivação do
outro, intensicando o desamparo. Como aponta De Oliveira, “a palavra
desamparo começou a aparecer com muita frequência no discurso psi-
canalítico, signicando uma estrutura psíquica cuja essência é o vazio”,
gerando uma sensação de perda daquilo que dava sentido à realidade.
A modernidade também trouxe consigo uma necessidade constante de
justicar o capitalismo do século XXI e, de acordo com Boltanski (2012),
a autojusticação do sistema baseia-se em uma forma de dominação
que ele chama de gerencial, fundada na valorização e exploração da
mudança, na qual se geram necessidades que exigem uma mudança
constante, a qual, em vez de fortalecer, enfraquece a ação social. Ofe-
recem-se promessas de melhoria constante, mas não ocorrem as mu-
danças estruturais necessárias na sociedade, a população é deixada em
uma posição de inquietação moral que entendemos ser o desamparo.
Violência na Clínica Psicanalítica
Sob uma perspectiva psicanalítica clínica, Brignoni, Esebbag e Grisales
(2022) contribuem para a compreensão das manifestações da violência.
Eles apontam que a violência, em alguns casos, pode ser classicada
como acting-out, onde o sujeito busca convocar um outro do qual se
espera uma resposta interpretativa. Esse ato, então, possui uma signi-
cação sintomática e é uma forma de comunicar um conito interno que
não pode ser expresso verbalmente.
Em outros casos, a manifestação da violência pode ser entendi-
da como um passage à l’acte, na medida em que se trata de romper o
vínculo com o outro, do qual não se espera mais nada. Aqui, a violência
não busca uma interpretação nem uma resposta: é uma ação que corta
o laço com o outro, reetindo um estado de desespero ou desamparo
absoluto.
Em ambas as manifestações da violência, acting-out e passage
à l’acte, há uma interrupção no modo de um curto-circuito psíquico, de
forma que, quando surge a pulsão e as sensações que a acompanham,
não pode ser contida nem transformada em palavras, resultando em
um ato destrutivo.
As ideias de Winnicott (1998) complementam essa visão, ao re-
lacionar a tendência antissocial com experiências de privação precoce.
O autor distingue duas orientações da tendência antissocial: o roubo e
a destrutividade. O roubo estaria ligado a uma demanda de amor do
qual o sujeito foi privado, e, portanto, pode ser entendido como um sin-
toma que pode ser interpretado. Por outro lado, a destrutividade ligada
à violência pode ser entendida como uma maneira inconsciente de re-
cuperar uma estabilidade ambiental perdida, um suprimento ambiental
perdido. Seria então uma espécie de regulação pulsional, uma forma
de reinstaurar limites que protejam o sujeito do desbordamento pulsio-
nal. A partir dessa perspectiva, podemos compreender a violência como
uma tentativa desesperada de lidar com o desamparo.
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Estudo de caso
Com o objetivo de ilustrar como esses conceitos se reetem no
desenvolvimento intrapsíquico, é apresentado o caso de Alberto.
Em Alberto, paciente de 38 anos, prossional, seu modo
de vida era de constante raiva e exaltação. Raiva contra pedes-
tres que jogam lixo, motoristas que dirigem mal, ciclistas que
não respeitam suas vias, sua parceira, sua lha, sua mãe… si-
tuações nas quais ele reagia de forma exaltada e violenta, sendo
então a violência parte de sua vida cotidiana.
Foi uma criança solitária, com uma mãe que uctuava
entre a sobreproteção e o abandono, sem conseguir fornecer a
conança básica necessária. Um de seus recuerdos encobrido-
res1, segundo Freud, é de estar aprendendo a andar de bicicleta
e a mãe, por cuidar de seu irmão, o soltou e foi rua abaixo sem
saber frear. Quando a mãe percebeu, gritou para ele se jogar
contra um muro lateral, o que ele fez, resultando em fortes bati-
das e feridas.
Pouco a pouco, suas reações violentas têm diminuído e,
em seu lugar, começam a aparecer as palavras. Ele se lembra de
uma ocasião em que teria pedido para namorar uma ex-parceira
e ela disse que preferia continuar como estavam. Ele diz: “Eu vivi
isso como uma rejeição e toda a conança que eu tinha foi para
o buraco… O mesmo aconteceu quando Maria (atual parceira)
me soltou a mão no carro. Senti muita insegurança… E sempre
respondo com irritabilidade… não sei, diante dessa insegurança
eu tenho que mostrar que não perco o controle, que eu sou o
que manda e que tenho uma resposta mais contundente… irrita-
do… Parece que é minha defesa diante de todas essas coisas…”
Consideramos que essa vinheta ilustra alguns dos processos in-
ternos que entrelaçam a violência com o desamparo.
Sob uma perspectiva sociológica, Alberto está imerso em uma
cultura, impulsionada pelo individualismo, marcada pela perda de laços
sociais e de marcos normativos. Esse contexto favorece uma desco-
nexão subjetiva que o coloca numa posição de desamparo, terreno fértil
para o surgimento da violência. Na clínica, podemos interpretar que a
lembrança encobridora de sua infância revela sentimentos precoces de
desamparo e remete a um ato violento — a queda e os ferimentos —
que se repete posteriormente como um acting out violento.
1 Freud denominou “lembrança
encobridora” a certos recuerdos
conscientes que funcionam como
substitutos de outros reprimidos que não
conseguem acessar a consciência. Esses
recuerdos não são preservados por seu
conteúdo próprio, mas pela associação que
mantêm com o material reprimido. Por
isso, constituem uma formação substitutiva
ou uma solução de compromisso entre o
reprimido e a consciência (Freud, 1899).
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Reexões Finais
A partir da clínica psicanalítica, a violência — seja como acting
out ou como passagem ao ato — aparece como uma resposta que não
passa pela palavra nem pela simbolização, é um agir... sem pensar.
O modelo inicial do desamparo, por sua vez, é aquele em que a
possibilidade de simbolização está abolida e o sujeito ca exposto a um
excesso de excitação. Assim, em ambos os processos há uma falha, uma
interferência no processo de simbolização, de modo que desamparo e
violência estão estreitamente entrelaçados no psiquismo humano, mas
também na estrutura social contemporânea — relação essa que é ne-
cessário compreender e abordar em ambos os âmbitos.
Em um mundo globalizado e tecnologicamente interconecta-
do, no qual a realidade social se impõe com dramatismo crescente em
nossas vidas, consideramos imprescindível encontrar e aprofundar os
vínculos entre a clínica, a teoria e a realidade social de nossa América
Latina.
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