INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 49 - 55
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.6
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EL DESAMPARO SOCIAL DE LOS PADRES
EN TIEMPOS Y CONTEXTOS CRÍTICOS
O DESAMPARO SOCIAL DOS PAIS
EM MOMENTOS E CONTEXTOS CRÍTICOS
SOCIAL HELPLESSNESS OF PARENTS
IN CRITICAL TIMES AND CONTEXTS
Carmen Rosa Zelaya
Asociación Peruana de Psicoterapia Psicoanalítica de Niños y
Adolescentes
ORCID: 0009-0003-5213-6778
Correo electrónico: camuzp15@gmail.com
Fecha de recepción: 23 de marzo 2025
Fecha de aceptación: 20 de abril 2025
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Zelaya C. (2025) EL DESAMPARO SOCIAL DE LOS PADRES EN TIEMPOS Y CONTEXTOS CRÍTICOS
Intercambio Psicoanalítico 16 (1), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.6
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Os países latino-americanos compartilham problemas sociais,
políticos e econômicos que geraram conitos e instabilidade durante
seu desenvolvimento histórico. As crises e os conitos sociais, que re-
montam aos tempos coloniais, se estabeleceram e persistem até os dias
atuais. São marcas dolorosas de desigualdades raciais e étnicas expres-
sas de maneira discriminatória que não reconhecem as necessidades e
os direitos de uma grande parcela da população.
Nos últimos anos, especialmente no Peru, a polarização social
aumentou em magnitude com a chegada da pandemia da covid-19. O
atendimento precário e insuciente aos casos de emergência eviden-
ciou a enorme negligência dos serviços de saúde hospitalares e a imen-
sa população economicamente desfavorecida sofreu o impacto da falta
de atendimento.
O Peru apresentou o maior número de mortes no mundo, che-
gando a alcançar a marca de 220.000. A crise de saúde cou evidente em
mortes solitárias, doentes isolados das suas famílias que morriam sem
poder se despedir e enterros restritos que não permitiam o conforto de
uma companhia próxima.
A ocorrência de mortes no Peru tem sido um evento repetido ao
longo da nossa história. Durante várias décadas o país já estava sendo
atormentado pelo conito armado interno. Como resultado dos con-
frontos entre os militares, terroristas e civis, estima-se que o número de
desaparecidos e mortos chegou a 70.000 e a população mais afetada foi
a rural1.
O DESAMPARO SOCIAL DOS PAIS
EM MOMENTOS E CONTEXTOS CRÍTICOS
Apresentado no Simposio Clínico FLAPPSIP 20241
1 Uma primeira versão foi apresentada na celebração dos vinte anos da Revista de Psicopatología y Salud Mental del Niño y el Adolescente da
Fundação Orienta (Barcelona, 2023).
Carmen Rosa Zelaya2
2 Graduada em Psicologia Clínica,
mestre em Estudos Teóricos
em Psicanálise e doutoranda
em Estudos Psicanalíticos pela
Ponticia Universidad Católica
de Perú (PUCP). É psicanalista de
adultos, crianças e adolescentes da
Sociedade Peruana de Psicanálise
(SPP), membro da International
Psychoanalytical Association (IPA),
da Comissão Cientíca da SPP e
da APPPNA. Foi coordenadora
suplente da Comissão de Infância
e Adolescência da Federação
Psicanalítica da América Latina
(FEPAL, 2020-2022), professora de
psicoterapia psicanalítica no Instituto
Inter-Cambio, no Instituto Peruano
de Psicanálise (IPP) e no Centro de
Psicoterapia Psicanalítica de Lima
(CPPL), ex-diretora da Biblioteca da
SPP, ex-presidenta da APPPNA, e
vice-presidenta do Instituto Inter-
Cambio (2025-2026). Além disso, é
coeditora do livro La maternidad y
sus vicisitudes hoy (2006). Pesquisa e
publica sobre temas relacionados à
maternidade e ao vínculo precoce.
1 O número de mortos é estimado pelo
“Informe do Grupo de Análise de Dados
sobre os Direitos Humanos” da American
Association for the Advancement of Science.
Esse documento foi preparado para a
Comissão da Verdade e Reconciliação (CVR,
2003).
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Um reexo claro da precariedade e degradação do Estado foi a
incapacidade para conter e responder a estados de emergência. A ins-
tabilidade no Governo cou evidente nas sucessivas mudanças de pre-
sidentes: nos últimos seis anos, tivemos seis presidentes, e quase todos
foram presos ou manchados pela corrupção. Além disso, nos últimos
tempos, se produziu uma ruptura (aparentemente irreconciliável) entre
o Governo e a sociedade. As autoridades desacreditadas, enfrentadas
entre elas no Congresso da República, são incapazes de ouvir ou aten-
der às demandas sociais. Em vez disso, usam a força para reprimir as
manifestações, o que acabou causando ainda mais mortes. Diante de
momentos críticos da realidade peruana, cou evidente a fragilidade de
uma estrutura institucional que seja capaz de conter a ordem social.
No texto Tótem y tabú (1913), Freud propõe a hipótese sobre a
origem das instituições humanas, por meio da qual destaca a necessi-
dade de resolver o conito fundamental entre o desejo e a proibição. A
gura paterna se coloca como a autoridade que representa a lei que es-
tabelece os limites que tornam possível uma convivência social segura.
Nesse sentido, as instituições encarnariam a gura paterna, destinadas
a garantir a ordem e o cuidado da população.
No contexto da atual conjuntura política, presidentes, vários mi-
nistros e parlamentares, considerados como “os pais da pátria”, foram
caindo no descrédito total ao serem descobertos em graves atos de co-
rrupção. A imagem daquela gura paterna, que no imaginário coletivo
deveria garantir a ordem, desapareceu logo após ser eleito. Isso levou
não só a protestos e apelos por uma intervenção justa, mas também, o
que é ainda mais sério, a um estado generalizado de desamparo e des-
esperança.
Diante da crise sanitária, o direito à vida e à subjetividade pa-
recia normalizar-se para alguns privilegiados, enquanto a precariedade
afetava a grande maioria. Embora as mortes tenham acontecido em to-
dos os estratos sociais, para os menos privilegiados o risco da perda,
tanto da vida como do trabalho, se tornava uma realidade mais imedia-
ta, exacerbando seus níveis de ansiedade.
O clima de insegurança, incerteza e medo da morte tem se tor-
nado um fenômeno cotidiano crescente: as famílias tentam sobreviver
ao excesso de uma realidade ameaçadora, que vem sobrecarregando a
capacidade de representação. Parece não haver espaço mental para re-
etir sobre o choque produzido pelas experiências traumáticas das per-
das e sofrimentos que enfrentaram. O sofrimento psicológico prolonga-
do e a falta de apoio levaram a que se estabeleça um estado de ânimo
melancólico e desesperador. Isso levou a relacionamentos agressivos e
paranóicos tanto dentro das famílias como nas ruas, o que se manifesta
pelo aumento da criminalidade.
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A psicanálise vem destacando a importância do papel dos pais
no cuidado e no apoio emocional dos lhos, a quem corresponde des-
empenhar a função de para-excitação, atuando como escudo protetor,
diante da ansiedade excessiva proveniente tanto do mundo externo
como interno. Winnicott (1971) enfatiza a importância da qualidade do
olhar materno como expressão do grau de conexão entre ela e os esta-
dos emocionais do bebê. Ele argumenta que um olhar capaz de identi-
car as necessidades e de responder oportunamente a elas facilitaria o
desenvolvimento de um senso de identidade. Ver-se reetido no rosto
da mãe lhe permitiria reconhecer-se como agente ativo e criativo du-
rante seu desenvolvimento emocional. A partir dessa consideração, a
ampla experiência de Winnicott na observação da díade mãe-lho deixa
claro que o encontro com o Outro parental é fundamental para o pro-
cesso de subjetivação.
Em condições sociais instáveis e precárias, os pais dicilmente
poderão desempenhar tais funções. Se estiverem angustiados ou de-
primidos, ameaçados em sua capacidade de conter e representar um
momento crítico, como em algumas perdas vitais (de entes queridos,
trabalho, moradia), então, seu olhar transmitirá medo, perplexidade, im-
potência, desolação e até apatia. Isso se aproxima ao que André Green
(1993) chama de “mãe morta”, que se refere ao estado mental da mãe
ou cuidadora que está psiquicamente ausente e que sofre de um vazio
mental, cuja imagem diante da criança passa por uma transformação:
de ser uma fonte potencial de vitalidade, ela se torna uma gura “distan-
te, apática, praticamente inanimada” (p. 209). Green nos diz que, nes-
ses casos, os pais são mergulhados em um luto branco, sobrevivendo à
custa de uma “morte psíquica” e expondo seus lhos às consequências
da falta de apoio parental. Esse último pode levar a uma subjetivação
fracassada, quase um estado de orfandade que leva à desconança das
oportunidades da vida ou, pelo contrário, à organização de um “falso
self” que assume prematuramente a responsabilidade de se sustentar.
Quando os problemas da realidade surgem, rompendo o tecido social,
as famílias cam desamparadas. Acima de tudo, nas populações vulne-
ráveis que cam esquecidas, não há ninguém a quem recorrer para con-
ter e intervir diante do caos e do perigo.
Winnicott (1971) dene o “desamparo” como o estado original
do indivíduo ao nascer, que é sinónimo de dependência absoluta. Essa
condição torna essencial a intervenção do outro, a quem ele denomina
“mãe ambiente”. Esse papel pode ser desempenhado por qualquer cui-
dador que esteja comprometido a cuidar do bebê. As falhas repetidas
na função de cuidado darão origem a experiências de desintegração,
expressas em agonias primitivas e impensáveis, que descrevem o colap-
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so do ego. Em momentos críticos, a ausência de medidas de proteção
atualiza o “medo do colapso”, que envolveria reviver uma experiência
de devastação subjetiva que já foi vivida. Em estados de ansiedade, a
função do pensamento no sentido primordial é afetada, ou seja, a pos-
sibilidade de conceituar, nomear, expressar e compreender a ansiedade
como uma forma de processar a experiência emocional.
Entre o connamento obrigatório prolongado durante a pande-
mia, e um ambiente social caótico e ameaçador que não oferece uma
estrutura que acolha e proteja as angústias, predispõe-se a que se pre-
cipite a experiência de estar “morto em vida” (Green, 2001). Isso gerou
profundos sentimentos de solidão, vazio e falta de sentido.
É difícil compreender o impacto traumático que produz a soma
de todas essas circunstâncias violentas nas habilidades parentais quan-
do não há instituições sólidas capazes de responder reconhecendo e
abordando as necessidades de apoio emocional, ouvindo e responden-
do com medidas que aliviam as angústias. A experiência da pandemia,
assim como a crise política e social, nos revela que o desamparo em
situações críticas leva à degeneração das relações. Além disso, interfere
na capacidade de discriminar os outros como sujeito e, mais ainda, de se
identicar com sua condição. As experiências de carência prejudicam as
funções parentais na capacidade de transformar a ansiedade excessiva
gerada pelo medo e pela incerteza, com o risco de manifestação através
de diferentes formas de abuso. Estas podem alcançar dimensões alta-
mente violentas ou uma fuga que reproduz o desamparo vivido pelos
próprios pais.
Parece que o distanciamento social e a instabilidade contínua
dos últimos anos criaram um estado generalizado de confusão defensi-
va, no qual uma tendência a destacar apenas o ruim, o prejudicial e
tudo aquilo que poderia ameaçar a integridade.
Em sua abordagem sobre experiências traumáticas, Steven Ma-
rans (2020) arma que, em momentos trágicos, as capacidades do ego
da família são afetadas, o que restringe a possibilidade de dispor de
recursos que permitem lidar com a tensão com certo controle. Marans
também aponta a diculdade em identicar as razões e os detalhes do
contexto desestabilizador, e, consequentemente, a diculdade de pen-
sar em possíveis soluções para os grandes problemas.
Agora que o auge da pandemia passou, podemos começar a
pensar como nos encontramos, e quais marcas ou consequências de-
vem ser levadas em conta. Por enquanto, podemos conceber relaciona-
mentos em estados de “convalescença”, termo que vem do latim e signi-
ca “reviver”; ou seja, refere-se ao processo de recuperação da pessoa
doente, mas que não está totalmente recuperada.
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Como podemos pensar em formas de recuperação que inte-
grem o reconhecimento e a validação das necessidades dos pais e dos
cuidadores que formam parte de uma população completamente diver-
sa e com grandes setores socialmente excluídos? A realidade dos países
latino-americanos nos mostra a fragilidade de seu sistema institucional,
que facilmente se quebram diante de situações críticas.
Estamos assistindo a um momento histórico que nos convoca a
pensar sobre as diferentes formas de desconstruir e construir sistemas
de representação e reconhecimento do outro, considerando suas neces-
sidades emocionais como parte do direito a existir, e facilitando a busca
por autonomia e novos sentidos de convivência.
A função da sociedade, através de suas instituições; a cultura,
através da promoção de espaços de expressão; a psicanálise ou outras
intervenções terapêuticas, através da validação dos estados emocionais
em momentos e contextos críticos, requerem o aporte de elementos
que reitam e reconheçam o choque vivenciado. Isso permitiria que os
pais e cuidadores passassem do caos, do vazio, do desânimo e da des-
esperança para a simbolização do trauma.
Seria uma tarefa coletiva e solidária de recuperação da dignida-
de, como enfatiza Julia Kristeva (1999) em seu conceito de “revolta” ao
propor uma ação crítica de colaboração e apoio mútuo nos processos
de transformação. O conceito nos convida a questionar e reetir sobre
a necessidade de se comprometer com a transformação social, o que
implica uma ética de reconhecimento do outro, que respeite e valorize
os diversos modos de existência e contribuição de cada indivíduo para
sua sociedade.
O momento atual apresenta uma oportunidade não só para ex-
pressar nossas emoções, mas também para analisar e reetir sobre nos-
sas deciências, identicando e revelando aquelas dinâmicas que ne-
gam nossa vulnerabilidade e negligenciam as necessidades da maioria.
Considerando que as instituições são organizações em contínua cons-
trução, nos questionamos se poderiam ser redesenhadas, tornando-se
mais presentes na vida de seus moradores, conhecendo-os, reforçando
os valores interculturais2, dialogando, convidando-os a participar ativa-
mente das transformações, e reforçando a consciência de que os pais e
cuidadores adultos são importantes para as crianças.
2 O conceito de ayni em quéchua se refere
à reciprocidade, igualdade e justiça. A
partir dos ayni as relações sociais foram
se organizando nas comunidades andinas
desde a época inca.
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Estudos recentes nos Estados Unidos e na América Latina indi-
cam que a solidão e a violência que caracteriza a vida urbana predis-
põem os padres a sofrerem de ansiedade e depressão, a quem se tem
dado muito pouca atenção.
A realidade atual representa um desao. Precisamos de um
tempo para processar o trauma, para recuperar a capacidade de pensar,
para aprender e para procurar novas soluções que deem continuidade
à vida. Acima de tudo, é necessário recuperar um espaço de esperança,
e um compromisso sério para “reviver” ou restaurar aqueles laços que
foram danicados.
Diante da convulsão social, a psicanálise tem muito a oferecer:
pode fortalecer a consciência da importância do cuidado, aliviando o
mal-estar sentido na cultura atual. Devemos isso às novas gerações, que
têm um futuro pela frente.
Referências bibliográcas:
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KRISTEVA, J. (1999). El porvenir de la revuelta. Fondo de Cultura Económica.
MARANS, S. (Presentador). (2020, 13 de setiembre). Psychoanalysis at the Interface of the
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community-and-the-police-with-steven-marans-ph-d/
WINNICOTT, D. W. (1971). Playing and reality. Penguin Books.