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Os países latino-americanos compartilham problemas sociais,
políticos e econômicos que geraram conitos e instabilidade durante
seu desenvolvimento histórico. As crises e os conitos sociais, que re-
montam aos tempos coloniais, se estabeleceram e persistem até os dias
atuais. São marcas dolorosas de desigualdades raciais e étnicas expres-
sas de maneira discriminatória que não reconhecem as necessidades e
os direitos de uma grande parcela da população.
Nos últimos anos, especialmente no Peru, a polarização social
aumentou em magnitude com a chegada da pandemia da covid-19. O
atendimento precário e insuciente aos casos de emergência eviden-
ciou a enorme negligência dos serviços de saúde hospitalares e a imen-
sa população economicamente desfavorecida sofreu o impacto da falta
de atendimento.
O Peru apresentou o maior número de mortes no mundo, che-
gando a alcançar a marca de 220.000. A crise de saúde cou evidente em
mortes solitárias, doentes isolados das suas famílias que morriam sem
poder se despedir e enterros restritos que não permitiam o conforto de
uma companhia próxima.
A ocorrência de mortes no Peru tem sido um evento repetido ao
longo da nossa história. Durante várias décadas o país já estava sendo
atormentado pelo conito armado interno. Como resultado dos con-
frontos entre os militares, terroristas e civis, estima-se que o número de
desaparecidos e mortos chegou a 70.000 e a população mais afetada foi
a rural1.
O DESAMPARO SOCIAL DOS PAIS
EM MOMENTOS E CONTEXTOS CRÍTICOS
Apresentado no Simposio Clínico FLAPPSIP 20241
1 Uma primeira versão foi apresentada na celebração dos vinte anos da Revista de Psicopatología y Salud Mental del Niño y el Adolescente da
Fundação Orienta (Barcelona, 2023).
Carmen Rosa Zelaya2
2 Graduada em Psicologia Clínica,
mestre em Estudos Teóricos
em Psicanálise e doutoranda
em Estudos Psicanalíticos pela
Ponticia Universidad Católica
de Perú (PUCP). É psicanalista de
adultos, crianças e adolescentes da
Sociedade Peruana de Psicanálise
(SPP), membro da International
Psychoanalytical Association (IPA),
da Comissão Cientíca da SPP e
da APPPNA. Foi coordenadora
suplente da Comissão de Infância
e Adolescência da Federação
Psicanalítica da América Latina
(FEPAL, 2020-2022), professora de
psicoterapia psicanalítica no Instituto
Inter-Cambio, no Instituto Peruano
de Psicanálise (IPP) e no Centro de
Psicoterapia Psicanalítica de Lima
(CPPL), ex-diretora da Biblioteca da
SPP, ex-presidenta da APPPNA, e
vice-presidenta do Instituto Inter-
Cambio (2025-2026). Além disso, é
coeditora do livro La maternidad y
sus vicisitudes hoy (2006). Pesquisa e
publica sobre temas relacionados à
maternidade e ao vínculo precoce.
1 O número de mortos é estimado pelo
“Informe do Grupo de Análise de Dados
sobre os Direitos Humanos” da American
Association for the Advancement of Science.
Esse documento foi preparado para a
Comissão da Verdade e Reconciliação (CVR,
2003).