INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 78 - 87
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.9
78 / FLAPPSIP
ADOLESCÊNCIA E EDUCAÇÃO ESCOLAR:
O SOFRIMENTO PSÍQUICO EM SUA DIMENSÃO
SOCIOPOLÍTICA
ADOLESCENCIA Y EDUCACIÓN ESCOLAR:
EL SUFRIMIENTO PSÍQUICO EN SU DIMENSIÓN
SOCIOPOLÍTICA
ADOLESCENCE AND SCHOOL EDUCATION: PSYCHIC
SUFFERING IN ITS SOCIOPOLITICAL
DIMENSION.
Deborah Joan Cardoso
Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae
ORCID 0009-0001-7713-0266
Correio eletrônico: deborah@santacruz.g12.br
Silvio Hotimsky
Departamento de Psicanálise Instituto Sedes Sapientiae
ORCID 0009-0000-8381-9852
Correio eletrônico: silvio.hotimsky@sedes.org.br
Data de Recebimento: 08-03-2025
Data de Aceitação: 17-03-2025
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Cardoso D. J- Hotimsky S. (2025) ADOLESCÊNCIA E EDUCAÇÃO ESCOLAR: O SOFRIMENTO PSÍQUICO EM
SUA DIMENSÃO SOCIOPOLÍTICA
Intercambio Psicoanalítico 16 (1), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.9
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
79 / FLAPPSIP
Resumo: Sabemos que o modo de sofrer do ser humano sempre se
transforma, pois ele é fruto de construções sociais e históricas. Nas últi-
mas décadas, constatamos um signicativo aumento do mal-estar psí-
quico, afetando nossa vida social de forma profunda.
As buscas de respostas que vemos a esse mal-estar estão no aumento
dos diagnósticos neuropsiquiátricos e excessiva medicalização da in-
fância e adolescência.
Pode-se dizer que são movimentos que procuram soluções individuais
para questões que se localizam, prioritariamente, na esfera social.
As formas de produção capitalistas neoliberais aprofundaram uma cul-
tura de desigualdade e exclusão que povoa nosso cotidiano. Uma espé-
cie de guerra total, generalizando a violência, nos mais diversos aspec-
tos da vida social.
Estudantes, por vezes, se socializam por meio da violência, aperfeiçoan-
do uma linguagem destrutiva. Essa realidade impacta a vida escolar que
se entre a reprodução dos modelos sociais impostos e a possibilidade
de reexão crítica em relação a eles.
Como a escola pode ser um espaço de elaboração social do sofrimento?
Como a escuta analítica pode contribuir com esse trabalho?
Através de duas experiências vividas no Ensino Médio , os autores, psi-
canalistas e orientadores, convidam para essa reexão.
Palavras chaves: Adolescência, Sofrimento Psíquico, Violência, Edu-
cação em Sexualidade
ADOLESCÊNCIA E EDUCAÇÃO ESCOLAR:
O SOFRIMENTO PSÍQUICO EM
SUA DIMENSÃO SOCIOPOLÍTICA
Apresentado na Simpósio Clínico da FLAPPSIP 2024
Deborah Joan Cardoso1
Silvio Hotimsky2
1 Psicóloga, Psicanalista. Membro
do Departamento de Psicanálise do
Instituto Sedes Sapientae e participa
do Grupo de Entrevistas da Revista
Percurso. Orientadora educacional
do Colégio Santa Cruz (São Paulo -SP)
desde 2000.
2 Psicanalisa e professor. Leciona
no Ensino Médio do Colégio Equipe
(SP). Membro do Departamento
de Psicanálise do Instituto Sedes
Sapientiae, é professor do Curso
Conito e Sintoma desse instituto e
participa do Grupo de Entrevistas da
Revista Percurso. É co-autor do texto:
VOLICH, R.M. & HOTIMSKY, Silvio.
“A educação e o espírito do mundo:
subjetividade, corpo e tecnologia”.
(2024). In: Escola e Subjetivação-
Diferentes perspectivas. São Paulo :
Editora Edgard Blucher Ltda, 2024.
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 78 - 87
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.9
80 / FLAPPSIP
Resumen: Sabemos que la manera de sufrimiento del ser humano se
transforma continuamente, ya que es resultado de construcciones so-
ciales e históricas. En las últimas décadas constatamos un signicativo
aumento del mal estar psíquico, que afecta nuestra vida social de for-
ma profunda.
La búsqueda de respuesta que se observó para esta situación está en el
aumento de los diagnósticos neuropsiquiátricos y la excesiva medicali-
zación de la infancia y adolescencia.
Puede decirse que son movimientos que buscan soluciones individuales
para cuestiones que se localizan, prioritariamente, en la esfera social.
Las formas de producción capitalistas neoliberales profundizaron una
cultura de desigualdad y exclusión que invaden nuestro cotidiano. Una
especie de guerra total, generalizando la violencia en los más diversos
aspectos de la vida social.
Los estudiantes, a veces, se socializan por medio de la violencia, per-
feccionando un lenguaje destructivo. Esta realidad impacta en la vida
escolar que se encuentra entre la reproducción de los modelos sociales
impuestos y la posibilidad de reexión crítica en relación a ellos.
¿Cómo la escuela puede ser un espacio de elaboración del sufrimiento?
¿Y cómo la escucha analítica puede contribuir con este trabajo?
A través de dos experiencias vividas en la secundaria, los autores, psi-
coanalistas e tutores, invitan a esta reexión.
Palabras clave: Adolescencia, Sufrimiento Psíquico, Violencia, Educa-
ción en Sexualidad
Abstract: The way human beings suer, as we know, always transforms
itself, for it is the result of social and historical constructions. In the past
decades we have witnessed a signicant increase in malaise, which has
aected our social life in a profound manner.
The increase in neuropsychiatric diagnostics and the excessive medica-
lization of childhood and adolescence have been the predominant ways
of dealing with this malaise.
It may be armed that these are movements that look for individual
solutions to issues that are located, primarily, in the social sphere.
The neoliberal capitalist forms of production intensied a culture of
inequality and exclusion that populates our daily lives. A kind of total
war, generalizing violence in the most diverse aspects of social life.
Students, sometimes, socialize by means of violence, perfecting a des-
tructive language. This reality impacts school life, which situates itself
between the reproduction of imposed social models and the possibility
of reecting critically about them.
How can school be a space for social elaboration of suering? How can
analytic listening contribute towards this process?
The authors, psychoanalysts and school counselors, invite readers to
reect upon these questions in their discussion of two of their expe-
riences in dierent high schools.
Keywords: Adolescence, Psychic Suering, Violence, Education on Se-
xuality
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 78 - 87
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.9
81 / FLAPPSIP
I- Vivendo a adolescência em tempos neoliberais
“Mas, o que é a sociedade? Não existe essa coisa. O que existe
são homens e mulheres, indivíduos e famílias” (THATCHER: 1987). Essa
frase de Margaret Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido de 1979
a 1990, dene de forma precisa o pensamento neoliberal que se torna
hegemônico, no contexto do modo de produção capitalista, ao nal do
século passado. Seus princípios sinalizam que o bem-estar social deixa
de ser a prioridade da vida político-econômica. Consequência disso, o
mercado passa a ser o principal regulador da vida social, valorizando a
competição e destruindo as formas de cooperação e solidariedade.
O neoliberalismo impõe-se como uma doutrina socioeconômica que
defende a produção e a reprodução de afetos antissociais. Os interes-
ses econômicos do grande capital, por meio da gura onipresente do
mercado, passam a liderar a produção das subjetividades contemporâ-
neas. No fundamento de sua visão antissocial, Thatcher se desfaz da so-
ciedade, favorecendo a vida privada em detrimento da pública.
Vivemos tempos de tentações autoritárias. Há uma espécie de
generalização de uma cultura de guerra nos mais diversos aspectos da
vida social. A desigualdade alcança níveis nunca vistos e a crise climática
coloca em risco a própria existência do planeta. Os jovens percebem
seus futuros ameaçados e, frequentemente, sem vislumbrar projetos
utópicos nos quais possam se engajar, se socializam por meio da violên-
cia. Fascinados e capturados pela tecnologia, vivem o enorme risco de
empobrecimento das dimensões subjetivas, relacionais e sociais em
suas vidas (VOLICH, R.M. & HOTIMSKY, S.: 2024).
Como sustentar um modelo de educação que priorize a supe-
ração do universo privado e familiar, em um contexto em que a compe-
tição se torna soberana e a solidariedade é desvalorizada? Como falar
em alteridade em um momento em que os conitos são vividos como
guerras e as agregações de grupos se dão por meio da violência? É possí-
vel questionar se em ambientes marcados por tamanhas crueldades as
crianças ascendem verdadeiramente à adolescência? 
II- Adolescência, tribalização e saúde mental 
Arminda Aberastury, em seu texto clássico, O Adolescente e a Li-
berdade, nos convida a compreender essa fase como sendo da elabo-
ração, lenta e dolorosa, de vários lutos - do corpo de criança, da identi-
dade infantil e dos pais da infância. 
Destaca que na adolescência utuações entre sentimentos
extremos de dependência e independência e que, ao serem vividos, de-
saam o sujeito a desenhar novos ideais e a promover a aquisição da
capacidade de luta para alcançá-los. A adolescência é entendida como
uma fase de moratória psicossocial, pois é por meio de construções de
projetos de vida que vão, progressivamente, se criando identidades ado-
lescentes no lugar das identidades infantis. Este é um parâmetro funda-
mental de saúde mental nessa fase da vida. 
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 78 - 87
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.9
82 / FLAPPSIP
Para que esse complexo movimento possa acontecer, Aberas-
tury demonstra a importância de haver uma multiplicidade de identi-
cações onde o adolescente possa se apresentar como “uma combinação
instável de vários corpos e identidades” (ABERASTURY:1981:15). Mas
como isso seria possível em um contexto de sociedades que não pos-
suem a socialização como prioridade? Como pode haver espaço para
as mais diversas formas de identicações em ambientes marcados pela
noção de que o outro, o diferente, é hostil e deve ser cancelado ou des-
truído? 
É cada vez mais comum ver os adolescentes se reunirem em
torno dos que julgam ser parecidos entre si. Uma espécie de tribalis-
mo, verdadeiras hordas que os fazem se aproximarem dos iguais e se
distanciarem fortemente dos que julgam diferentes, descartando assim
um enorme conjunto de possibilidades de identicações que poderiam
contribuir com suas constituições psíquicas. 
Há um empobrecimento da vida pública que diculta a vivência
dos lutos e ameaça nossas sociedades, especialmente os jovens, de se-
rem tomados por uma espécie de melancolização, já que a possibilidade
de busca de amplos universos de utopias e lutas políticas é substituído
por horizontes esvaziados de sentido social e lotados de cargas narcísi-
cas. 
Para muitos adolescentes, o próprio corpo vira esse objeto de
utopia. Não mais as transformações da sociedade, não mais a luta por
paz e justiça e sim o horizonte de um belo corpo passa a se tornar uma
utopia pessoal e social. 
III- A escola como espaço de sofrimento 
Seria a escola uma das responsáveis por produzir este enorme
sofrimento? O que vemos é um aumento alarmante de quadros diag-
nosticados, tanto no campo da aprendizagem, com diagnósticos que
apontam para a questão do desempenho (dislexia, TDAH, transtorno do
processamento auditivo e outros), quanto nos quadros apontados nos
manuais de psiquiatria (depressão e ansiedade como os de maior des-
taque) (DUNKER. C.: 2015). Evidente que muitos desses diagnósticos co-
laboram com a compreensão dos sofrimentos vividos. O risco se localiza
na banalização deles. O encaminhamento, frequentemente, tem sido a
medicalização. 
Como a escola contribui para a psiquiatrização da infância e
da adolescência? O ambiente escolar pode ser responsável por sofri-
mentos, pois também reproduz uma certa exigência por desempenho
e localiza a diculdade de aprendizagem como um problema apenas do
indivíduo.
O fato é que tem recaído excessivamente no campo escolar uma
demanda de adequar determinadas exigências, principalmente a de
desempenho, a diagnósticos psiquiátricos. Além de conversas com os
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 78 - 87
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.9
83 / FLAPPSIP
prossionais envolvidos, as escolas recebem relatórios detalhados com
os resultados de testes neuropsicológicos e, ao nal, alguns encamin-
hamentos, tais como mais tempo e menos exigências de desempenho
durante as provas, ou substituindo-as por trabalhos. São orientações
vindas dos psiquiatras, determinando como proceder. 
Evidente que muitas escolas resistem a essas invasões, verdadei-
ras ordens de como se deve lidar com os estudantes. Costumam acolher
os sofrimentos e buscam saídas para contribuir com o processo de mel-
hora a partir dos diálogos estabelecidos entre estudantes, educadores
e famílias. Por vezes, os diagnósticos psiquiátricos buscam alcançar a
força legal e submeter as instituições escolares às suas determinações:
são os diagnósticos falando pela pessoa ao invés do sujeito dizer sobre
si mesmo (DUNKER.C.:2015). Muitos comportamentos e atitudes passa-
ram a ser classicados como distúrbios e transtornos, patologizando e
cristalizando aquilo que os adolescentes fazem de forma passageira e
experimental. 
Todos reivindicam diagnósticos: a família ca aliviada quando
ele é pronunciado e as escolas, num certo sentido, também organizam
seu encaminhamento a partir disso. A busca por tratamento tem sido
individual, e, assim, é perdida a dimensão social desses fenômenos tão
importantes de serem elaborados em processos coletivos. A escola, por
um lado, contribui e se depara com excessos de quadros de sofrimento
e dor. Por outro lado, ela pode ser um lugar privilegiado para proporcio-
nar trocas que produzam possibilidades maiores de fazer vínculos com
o outro e recuperar laços sociais. 
IV- Sofrimento e elaboração: duas experiências de construções cu-
rriculares dialogando com a Psicanálise 
Em 2017, momento em que os movimentos feministas tinham
ganho bastante espaço nos colégios, um grupo do coletivo feminista
de uma escola1 produziu um documentário. As meninas do coletivo pe-
diram a suas colegas para escreverem cartas anônimas em que rela-
tassem violências vividas de abuso, sejam nas experiências cotidianas
escolares ou na vida social do grupo. A ideia do documentário era justa-
mente apontar que relações abusivas aconteciam mais perto do que se
imaginava e que várias atitudes eram consideradas normais, pois eram
praticadas desde sempre. 
O lme foi realizado a partir dessas cartas e da dramatização
delas por companheiras convidadas pelo coletivo para interpretá-las. O
documentário foi compartilhado com a equipe de direção com o intuito
de ser apresentado para todo o Ensino Médio. 
1 Trata-se do Colégio Santa Cruz, localizado
na cidade de São Paulo que oferece
educação desde a pré-escola até o ensino
médio.
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 78 - 87
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.9
84 / FLAPPSIP
A equipe de direção aprovou a iniciativa, mas antes quis cuidar
de alguns aspectos. Muitos dos pais das alunas não sabiam sobre a par-
ticipação delas nesse lme. Foi feita, assim, uma sessão com os pais e
com todas elas. Depois do lme, houve uma boa conversa e o apoio dos
envolvidos para o seguimento do projeto, levando o lme para todos os
alunos da escola. 
Desde sua produção, esse documentário tem sido veiculado
para todos os ingressantes do ciclo. Em um primeiro momento, são rea-
lizadas duas conversas separadas: uma com os meninos e outra com
as meninas; em seguida, o lme é projetado, dando-se um tempo para
conversas entre os estudantes, sem a participação dos educadores. Em
um terceiro momento, faz-se uma roda de conversa, na qual os estudan-
tes trazem o que o lme provocou neles. O fato de ter sido produzido
por alunas e no espaço da escola abre possibilidades de identicações,
já que tratar diretamente do tema das relações abusivas e violentas é
muito difícil. Nota-se que essas conversas propiciam uma sensibilização
aos temas abordados: como perceber o outro; escutar sem precisar da
palavra; se dar conta da relação de poder estabelecida entre os gêneros
e sua violência. 
Como consequência, muitas meninas localizam eventos em que
sofreram abusos, mesmo que antes nunca tenham tido a coragem de
falar ou pensar a respeito deles, ou sequer entendido esses atos como
abusivos, e com isso conseguem nomeá-los. De uma certa forma, ao
compartilhar experiências vividas, muitas possibilidades se apresen-
tam, tais como pensar em como cuidar das marcas que o abuso sofrido
deixou, ou, ainda, entender o que experiências como essas podem cau-
sar. Por isso, muitas meninas procuram a orientação educacional para
dividir e elaborar ainda mais o que a discussão provocou. Os meninos,
por sua vez, de uma forma geral, sensibilizam-se e revisitam suas práti-
cas com uma pergunta: será que já fui abusivo?  
Pós-pandemia, tivemos, na escola, um esvaziamento do movi-
mento feminista e esses temas se calaram. Com esse esvaziamento, o
documentário passou a ser fundamental para que essas problemati-
zações possam voltar a circular.
Uma segunda experiência que destacamos é de um curso te-
mático realizado em uma outra escola de Ensino Médio2. Ele reúne, na
mesma classe, estudantes das três séries que compõem esse ciclo, de
forma a permitir o diálogo entre aqueles que recém entraram nele e
colegas que estão nalizando o último ano. 
2 Trata-se do Colégio Equipe, localizado na
cidade de São Paulo que oferece educação
desde a pré-escola até o ensino médio.
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 78 - 87
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.9
85 / FLAPPSIP
O curso é intitulado “Juventudes e Identidades Contemporâ-
neas: Gêneros, Corpos e Sexualidades”. Ele tem como proposta o desen-
volvimento de um programa de educação em sexualidade para a escola
inteiraa partir da realização de estudos e pesquisas tendo por referên-
cia teorias psicanalíticas. 
Para realizar esse desao, tornou-se necessário conhecer o que
já é trabalhado desde o início da escolarização, com crianças de 3 anos
até o término do Ensino Médio. Busca-se compreender a ampla relevân-
cia do conceito de sexualidade no percurso freudiano e sua centralidade
na constituição da vida psíquica. Optou-se por convidar dois educado-
res que pensam essas questões a partir de vivências sociais, econômi-
cas e culturais diferentes daquelas dos estudantes, buscando promover
assim uma escuta de diversidade: um companheiro de uma produtora
cultural de hip-hop localizada na periferia de São Paulo e uma liderança
indígena guarani. Os dois se somaram aos educadores da escola como
professores do curso. 
As aulas permitem que gravíssimos problemas como a questão
da violência e do abuso sexual sejam abordados. No Brasil, segundo o
Anuário Brasileiro de Segurança 2022, no ano de 2021, 61,3% dos estu-
pros registrados foram contra menores de 13 anos. As maiores vítimas
são meninas que sofrem essa enorme violência dentro dos seus lares,
por aqueles que deveriam protegê-las. Não é possível que as escolas se
omitam em relação a essas questões que se mostram como estruturais
na constituição da sociedade brasileira. O passado colonial brasileiro
ainda é motivo de orgulho para vasta parcela das classes dominantes
e o racismo disseminado nas relações sociais impede a constituição de
uma sociedade verdadeiramente democrática por meio do desenvolvi-
mento de uma ética de proteção e cuidados. 
Pesquisamos, ainda, temas como: diversidade sexual; hierar-
quias e desigualdades; marcadores sociais de diferença; intersecciona-
lidade, preconceitos e violências; pornograa; a importância da luta dos
movimentos feministas; e, os estudos de gênero em torno do campo
político. Analisamos os discursos religiosos, médicos e pedagógicos que
contribuíram para o desenvolvimento de concepções biológicas redu-
cionistas e todas as formulações que têm como objetivo justicar as
desigualdades. A ideia de que o controle dos corpos e da sexualidade
são formas de repressão social se constitui como um pilar dos estudos
desenvolvidos. 
A possibilidade de jovens conversarem entre si, mediados pela
escola, como um ambiente livre e seguro, colabora para um verdadeiro
encontro entre gerações, no qual se torna possível aprofundar as re-
exões relacionadas com os enigmas da sexualidade humana, fortale-
cendo o reconhecimento mútuo entre os participantes do curso e o va-
lor criativo da pulsão de saber. Cabe salientar que, em relação a vários
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 78 - 87
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.9
86 / FLAPPSIP
desses temas, os educandos estão muito à frente de seus educadores.
Seus saberes recebem a escuta e o reconhecimento da instituição esco-
lar, que procura incorporar essa experiência geracional na construção
de um programa de educação em sexualidade. Essa escuta concen-
tra-se, prioritariamente, na ideia da valorização da diversidade humana
na vivência das sexualidades. 
V- Considerações Finais 
As sociedades contemporâneas não oferecem redes de apoio
para lidar com o mal-estar que elas mesmas produzem nas relações do
sujeito consigo mesmo e com o outro. Os efeitos disso na escola são
claros, não só nos laços sociais entre os estudantes, mas também na re-
lação com o conhecimento. Os educandos têm se tornado pragmáticos:
querem aprender, pois precisam apresentar um bom desempenho, mas
tendem a não se identicar com a construção coletiva do conhecimento,
por meio de debate e embate de ideias, evitando o conito. 
No lugar das antigas modalidades de sofrimentos centradas
no conito psíquico, o mal-estar atual se manifesta como dor, ins-
crevendo-se nos registros do corpo, da ação e das intensidades (BIR-
MAN.J.:2012). Isso permite fazer do mal-estar uma doença – o sintoma
é classicado por um diagnóstico e, com isso, a psiquiatria se expande
e a medicalização se apresenta fortemente como tratamento possível.
Vemos uma epidemia de diagnósticos psiquiátricos e uma banalização
de atos como a automutilação, que indica um acesso maior do jovem ao
sentimento da dor e um distanciamento da percepção do sofrimento. 
A escola se vê colocada entre a reprodução dos modelos sociais
impostos e a possibilidade de criticá-los e buscar transformá-los. Seu
papel deve ser o de questionamento dessa ordem das coisas por meio
da criação de novas linguagens que valorizem o belo, o poético e o fra-
terno. 
Os adolescentes e seus educadores, partilhando um mundo
comum, podem encontrar na escola o espaço de elaboração dos sofri-
mentos, inclusive daqueles criados por ela mesma, e buscar transformar
aquilo que é confronto em conito. Conitos que podem ajudar a elabo-
rar os lutos próprios dessa fase da vida e inventar novas formas de viver,
amar e trabalhar. 
A exclusão do adulto pelo jovem e/ou do jovem pelo adulto im-
pede a reexão sobre as experiências e, com isso, todos cam desampa-
rados e solitários, com consequências graves de saúde mental. A escola
pode oferecer um lugar que propicie novas possibilidades de saídas me-
nos adoecidas para ir na contramão da exigência neoliberal, fabricadora
de sintomas? 
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 78 - 87
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.9
87 / FLAPPSIP
Dialogar e acolher os medos e partilhar as esperanças de cons-
truções de democracias radicais é um desao social que só será realiza-
do com a participação das escolas. Favorecer parcerias com a sociedade
civil nos estudos e reexões sobre os gravíssimos dilemas sociais que
vivemos pode passar a fazer parte dos currículos escolares. Somente o
fortalecimento da sociedade civil, por meio de uma educação crítica e
democrática, pode responder às tentações fascistas e às ameaças que
vivemos enquanto espécie. As propostas curriculares aqui mencionadas
criam espaços de atuação social transformadora, apoiando a possibili-
dade de engajamento dos jovens por meio da construção de projetos
coletivos. 
A entrada dos saberes e das sensibilidades inspiradas pela Psi-
canálise no ambiente escolar pode contribuir muito com nossos currícu-
los.
Referências Bibliográcas
ABERASTURY, A. (1981) O adolescente e a liberdade. In: ABERASTURY, A. & KNOBEL, M.
Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. (10ª edição, pp. 13-23). Trad. S. M. G. Ballve.
Porto Alegre: Artes Médicas.
ARENDT, Hannah (1972). Entre o passado e o futuro. Trad. Mauro Barbosa de Almeida. São
Paulo: Perspectiva.
BIRMAN, J.(2012) O sujeito na Contemporaneidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
DUNKER, C.I.L.(2015) Mal-estar. Sofrimento e sintoma. São Paulo: Boitempo Editorial.
THATCHER, M. (1987). https://www.margaretthatcher.org/document/106689
VOLICH, R.M. & HOTIMSKY, Silvio (2024). A educação e o espírito do mundo: subjetividade,
corpo e tecnologia. In: Escola e Subjetivação- Diferentes perspectivas. (pp. 223-262). São Paulo
: Editora Edgard Blucher Ltda.