
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 78 - 87
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.9
81 / FLAPPSIP
I- Vivendo a adolescência em tempos neoliberais
“Mas, o que é a sociedade? Não existe essa coisa. O que existe
são homens e mulheres, indivíduos e famílias” (THATCHER: 1987). Essa
frase de Margaret Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido de 1979
a 1990, dene de forma precisa o pensamento neoliberal que se torna
hegemônico, no contexto do modo de produção capitalista, ao nal do
século passado. Seus princípios sinalizam que o bem-estar social deixa
de ser a prioridade da vida político-econômica. Consequência disso, o
mercado passa a ser o principal regulador da vida social, valorizando a
competição e destruindo as formas de cooperação e solidariedade.
O neoliberalismo impõe-se como uma doutrina socioeconômica que
defende a produção e a reprodução de afetos antissociais. Os interes-
ses econômicos do grande capital, por meio da gura onipresente do
mercado, passam a liderar a produção das subjetividades contemporâ-
neas. No fundamento de sua visão antissocial, Thatcher se desfaz da so-
ciedade, favorecendo a vida privada em detrimento da pública.
Vivemos tempos de tentações autoritárias. Há uma espécie de
generalização de uma cultura de guerra nos mais diversos aspectos da
vida social. A desigualdade alcança níveis nunca vistos e a crise climática
coloca em risco a própria existência do planeta. Os jovens percebem
seus futuros ameaçados e, frequentemente, sem vislumbrar projetos
utópicos nos quais possam se engajar, se socializam por meio da violên-
cia. Fascinados e capturados pela tecnologia, vivem o enorme risco de
empobrecimento das dimensões subjetivas, relacionais e sociais em
suas vidas (VOLICH, R.M. & HOTIMSKY, S.: 2024).
Como sustentar um modelo de educação que priorize a supe-
ração do universo privado e familiar, em um contexto em que a compe-
tição se torna soberana e a solidariedade é desvalorizada? Como falar
em alteridade em um momento em que os conitos são vividos como
guerras e as agregações de grupos se dão por meio da violência? É possí-
vel questionar se em ambientes marcados por tamanhas crueldades as
crianças ascendem verdadeiramente à adolescência?
II- Adolescência, tribalização e saúde mental
Arminda Aberastury, em seu texto clássico, O Adolescente e a Li-
berdade, nos convida a compreender essa fase como sendo da elabo-
ração, lenta e dolorosa, de vários lutos - do corpo de criança, da identi-
dade infantil e dos pais da infância.
Destaca que na adolescência há utuações entre sentimentos
extremos de dependência e independência e que, ao serem vividos, de-
saam o sujeito a desenhar novos ideais e a promover a aquisição da
capacidade de luta para alcançá-los. A adolescência é entendida como
uma fase de moratória psicossocial, pois é por meio de construções de
projetos de vida que vão, progressivamente, se criando identidades ado-
lescentes no lugar das identidades infantis. Este é um parâmetro funda-
mental de saúde mental nessa fase da vida.