INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 88 - 95
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.10
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DESVALIMIENTO Y ABUSO SEXUAL. TRABAJO
INTER-INSTITUCIONAL COMO POSIBILIDAD DE
AMPARO EN SALUD MENTAL
DESAMPARO E ABUSO SEXUAL. TRABALHO
INTERINSTITUCIONAL COMO POSSIBILIDADE DE
AMPARO EM SAÚDE MENTAL
HELPLESSNESS AND SEXUAL ABUSE. INTER-
INSTITUTIONAL WORK AS A POSSIBILITY OF MENTAL
HEALTH PROTECTION
Marcela Marsenac
Asociación Argentina de Psiquiatría y Psicología
de la Infancia y Adolescencia
ORCID: 0009-0002-2231-2817
Correo electrónico: marcelamarsenac@gmail.com
Fecha de recepción: 08-03-2025
Fecha de aceptación: 28-04-2025
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Marsenac M. (2025) DESVALIMIENTO Y ABUSO SEXUAL. TRABAJO INTER-INSTITUCIONAL
COMO POSIBILIDAD DE AMPARO EN SALUD MENTAL
Intercambio Psicoanalítico 16 (1), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.10
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I. Introdução
A realidade da clínica atual nas instituições de saúde exige o tra-
balho com sujeitos que sofreram o desamparo em suas diversas for-
mas. Desde o desamparo que impõe a própria diminuição das possibi-
lidades de simbolização da experiência, passando pelas diculdades do
ambiente familiar para dar signicação ao vivido e acompanhar essas
problemáticas, até o ambiente social que, em vez de oferecer um exte-
rior enriquecedor, traumatiza com sua violência.
II. O contexto
No Post-scriptum sobre as sociedades de controle, G. Deleuze
(1996) arma que Foucault estava ciente da brevidade do modelo que
havia descrito como sociedades disciplinares, apontando a crise genera-
lizada das instituições. Esse modelo seria substituído pelas sociedades
de controle.
“Controle é o nome que Burroughs propõe para designar o novo mons-
tro, e que Foucault reconhecia como nosso futuro próximo.” (Deleuze,
1996).
As instituições de sequestro impunham uma passagem analógi-
ca de uma para a outra. São moldes, enquanto os controles são modu-
lações.
O capitalismo atual é de superprodução. O que se quer vender
são serviços e o que se quer comprar são ações. Não é um capitalismo
para a produção, mas para a venda e para o mercado.
“O serviço de venda se tornou a alma da empresa. O marketing é
agora o instrumento de controle social, e forma a raça impudica
dos nossos senhores. A característica do controle é que é de cur-
to prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e ilimitado,
enquanto a disciplina era de longa duração, innita e descon-
tínua. O homem já não é o homem encerrado, mas o homem
endividado.” (Deleuze, 1996).
No regime das escolas, são implementadas formas de avaliação
contínuas, passando de um nível para outro sem a nalização de cada
etapa, em modulações. As formas de subjetivação mudaram. O laço so-
cial que relacionava os sujeitos sofreu as consequências da dispersão.
Em muitas situações, os sujeitos que transitam pelas salas de aula são
anônimos, porque a organização em crise dos interiores institucionais
não permite que cada criança ou adolescente seja visto em sua singu-
laridade. As instituições já não conseguem cumprir com suas funções,
estão sobrecarregadas, não conseguem dar resposta às problemáticas
escolares e sociais que as habitam.
DESAMPARO E ABUSO SEXUAL.
TRABALHO INTERINSTITUCIONAL COMO
POSSIBILIDADE DE AMPARO EM SAÚDE MENTAL.
Apresentado no Simposio Clínico FLAPPSIP 2024
Marcela Marsenac1
1Marcela Lucila Marsenac, Graduada
en Psicología, psicoterapeuta
especializada em criancas e
adolescentes, membro titular
da Asappia, diretora professora
do programa de pós- graduacao
“Psicanálisis da Infancia e da
Adolescencias” da Asappia.
(marcelamarsenac@gmail.com).
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As famílias também estão em crise: enfrentam diculdades para
planejar sua construção e assumir a possibilidade de sustento, não con-
seguem amparar os sujeitos nem orientá-los sobre como enfrentar a
realidade atual. O desenvolvimento de estratégias se ajusta a essas cir-
cunstâncias e a capacidade de contenção dos membros mais vulnerá-
veis diminui.
Em contextos de vulnerabilidade, a violência assume formas
mais explícitas, que destroem ou alteram as coordenadas do laço social.
Eva Giberti (2014) planteava que a cultura dominante deu lugar
a uma malha ideológica que sustenta a ordem social, onde o homem
exerce o poder, e este exercício implica uma violência contra a mulher,
explícita ou encoberta, visível ou invisível. Essas violências estão sendo
analisadas à luz das mudanças sociais e das aberturas que os estudos
de gênero possibilitaram, permitindo pensar as condutas dos sujeitos,
emitir discursos que sustentam novas posições e promovem mudanças
no imaginário. Isso se visualiza fundamentalmente em uma maior liber-
dade de pensamento nas novas gerações. No entanto, a violência contra
as mulheres ainda conta com as moras nos movimentos do imaginário
instituído que chamamos cultura patriarcal. O patriarcado está em crise,
de tal forma que só pode exercer seu domínio e poder a partir da violên-
cia e abuso sobre as mulheres, crianças, diversidade.
Finalmente, é necessário notar que o modelo cientíco desen-
volvido desde os primórdios da modernidade também está em crise. Diz
Deleuze: “Nos nossos dias, não é mais a razão teológica, mas a humana,
a da Iluminação, que entrou em crise e está desmoronando” (Deleuze,
1996, p. 255).
Os modelos, os paradigmas (sejam derivados de uma genera-
lização empírica, sejam postulados deduzidos da inferência da razão)
mostram-se incapazes de compreender as singularidades, os aconteci-
mentos não compreendidos nos conceitos universais. Por esta razão,
embora continuemos falando do “caso”, não se trata de uma “particula-
ridade” enquadrada dentro de uma generalidade, mas de uma singula-
ridade, que se resiste à generalização.
III. O caso
Carina é encaminhada ao Centro de Orientação M. Knobel por
um ex-aluno da pós-graduação da Asappia, que realiza as primeiras en-
trevistas e considera que é conveniente que ela seja atendida na insti-
tuição, pois há uma denúncia de abuso sexual. No encaminhamento, o
prossional aponta que coisas estranhas no caso, que “essa garota
diz coisas que soam estranhas”.
Carina tem 18 anos. Vive com a mãe. O atual parceiro de sua
mãe é quem realiza o contato e solicita o tratamento. Carina é lha do
primeiro parceiro de sua mãe. Ela tem dois irmãos dos mesmos pais e
três meios-irmãos, lhos de sua mãe e do atual parceiro dela.
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Os pais comentam que Carina relata o abuso, em um primeiro
momento, como algo que aconteceu com ela, minimizando a importân-
cia ou sem conseguir atribuir signicado ao fato vivido. Ela lhes diz que
no trabalho ocorreu uma situação pela qual ela vai ter que se casar com
X (o abusador), que é um vizinho do bairro onde vivem e que tem o do-
bro da sua idade. Ao desenvolver seu relato da situação de abuso, Cari-
na destaca que ela não queria, mas foi forçada a ir para uma casa onde
estava sozinha e a fazer uma série de coisas às quais se opôs.
O parceiro da mãe percebe e nomeia a situação como abuso.
Dessa forma, organiza o argumento e signicado ao acontecido. A
mãe de Carina dúvida em um primeiro momento e diz: “Eu não te criei
para isso”.
No âmbito de uma relação de trabalho, seu chefe, responsável
pelo grupo ou equipe em que essa jovem trabalhava, a leva para uma
casa vazia, onde guardam materiais de trabalho, e abusa dela.
Procedem à denúncia e judicialização do fato, situação que se
apresenta conituosa no início, porque ambos trabalham dentro de
uma instituição ligada ao município onde residem. As autoridades locais
se aproximam para se inteirar do ocorrido e oferecer alguma ajuda à
família.
Os grupos de mulheres locais apoiam Carina e sua família.
Com base em perícias derivadas da intervenção judicial, é diag-
nosticado retardo mental moderado e ausências causadas por epilep-
sia.
Carina, aos 18 anos, trabalhava ajudando a mãe a vender pro-
dutos de limpeza no bairro, realizava parte das tarefas domésticas em
casa, tentava continuar o ensino médio de forma virtual, enquanto con-
seguia dinheiro para pagar o curso de cabeleireiro que queria fazer. E
lhe ofereceram esse trabalho para o município, no qual ela estava co-
meçando quando ocorreu o abuso. Ela tem poucos vínculos sociais, já
que não frequenta a escola e perdeu o contato frequente com suas pri-
mas adolescentes devido a diferenças entre as famílias.
IIV.O-traumático
Carina sofre a invasão de vários acontecimentos que produzem
uma soma de traumas: o abuso e a reação de sua mãe a respeito; as dú-
vidas sobre a veracidade de seu relato do ocorrido; a perda do trabalho
que havia conseguido; as informações sobre si mesma que surgem dos
exames. Seu Eu está arrasado, ela sofre com pesadelos e um estado
permanente de apatia.
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V.Desamparo
Cantis (2020) aponta que a deciência é uma das situações de
desamparo. “Freud, em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), diz que o des-
amparo psíquico se apresenta como a indefensão diante de um estímu-
lo pulsional.” (Cantis, 2020, p. 31).
Em situações de falhas internas, genéticas, muitas vezes são vi-
vidas como um trauma que vem do interior, mas que é experimentado
como algo externo; há um interior – exterior que traumatiza. A arma-
dura de proteção antiestímulo aparece voltada para o interior, onde se
manifesta um transbordamento e um estado de violência que é sofrido
de dentro para fora. Isso produz desvitalização e apatia.
Em Além do Princípio do Prazer (1920), Freud diz: “Nos casos de
neurose traumática, a causa eciente da doença não é a mínima lesão
corporal; é, ao contrário, o efeito de horror, o trauma psíquico.” (Freud,
1920, tomo 18, p. 15).
Adicionando em seguida, ao se perguntar o que devemos deno-
minar “trauma psíquico”:
“Como tal, atuará toda vivência que suscite os afetos penosos do
horror, da angústia, da vergonha, da dor psíquica.” (Freud, 1920, tomo
18, p. 15).
Laplanche (2000) diz que, se não houve mobilização prévia, nem
angústia, nem preparação, temos então o espanto, uma penetração por
uma energia que põe em perigo a própria existência; seguramente há
ainda reação, mas muito mais anárquica, uma tentativa de reconstituir
algo, uma espécie de pré-ligação não simbólica ou pré-simbólica.
Carina sofre com sonhos repetitivos. Os sonhos traumáticos são
uma tentativa do aparato psíquico de evacuar o excesso de carga libidi-
nal. Esses sonhos denunciam o acontecimento, mostrando que o sujeito
foi submetido a uma situação de desamparo, que arrasou sua armadura
de proteção antiestímulo, e que esse acontecimento ainda não pôde ser
elaborado e retraumatiza com sua aparição repetida no psiquismo.
O acontecimento traumático não pode ser inscrito no psiquis-
mo, não pode ser enquadrado nas coordenadas de organização do eu,
tempo e espaço, que permitiriam incluí-lo como experiência e transfor-
má-lo em memória.
VI. Trabalho com trauma
Trabalhar com o traumático consistirá em oferecer uma ligação
ao afeto que invade o psiquismo, facilitando a conexão das primeiras
representações a partir da experiência que o analista conhece do acon-
tencioso. Diz Silvia Bleichmar (2005) que a história narrativa, a história
ocial poderíamos dizer, justamente esconde aquilo que tem ecácia
traumática. O que não pode ser entendido ainda, é o que gera o so-
frimento do paciente em situações de abuso. Este real não-signicado
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vai aparecendo em diferentes apresentações que possibilitarão o ar-
mado de cadeias signicantes que cobrem o traumático e possibilitam
incorporá-lo a uma história vital aberta a novas ressignicações. Ligar
a invasão de afetos provocados pelo abuso: medo de sair pelo bairro
porque o abusador era vizinho, terrores noturnos quando sonhava com
a situação. Nomear afetos, colocar palavras no passado, foram os recur-
sos que contiveram a angústia.
Então apareceu a culpa, o que os outros diziam dela. Diz Carina:
- “minha mãe não me acreditava no começo, me culpava”...
Ligar o traumático esteve associado, em um segundo momento,
a restituir a imagem de si mesma danicada, a partir da culpa e do que o
discurso médico diz sobre ela. -“Agora resulta que eu tenho problemas,
que não sou normal”. Para isso, foi necessário recuperar signicações
ligadas a outras guras identicatórias do seu entorno próximo, que ti-
veram peso e lugar em sua história infantil: sua tia, irmã mais nova de
sua mãe, que milita em grupos feministas da região e participou de mo-
bilizações realizadas por esses grupos, nas semanas seguintes ao acon-
tecimento, denunciando a violência e o abuso contra Carina. A partir da
recuperação dessas guras femininas, Carina retoma os laços com esta
tia e suas primas, recuperando espaços de prazer e diversão que havia
perdido.
Podemos incluir no tratamento o benefício da contribuição sim-
bólica do olhar social sobre o fato. Sustentação e segurança que sentiu
parcialmente de sua família, não porque não a apoiaram no primeiro
momento, mas pelas dúvidas de sua mãe, reproduzindo o modelo social
patriarcal em que se a mulher foi abusada é porque fez algo por isso.
Apenas a partir dos outros, o casal, o discurso social, os prossionais, a
mãe lhe devolve a conança.
A partir do tratamento e da peritagem é gerido o apoio estatal
para os tratamentos que Carina pode receber, que a ligam ao hospital
zonal e uma rede de prossionais que a sustentarão neste período. O
trabalho interdisciplinar permitiu evitar sobreposições, dar sentido às
múltiplas intervenções, em tempos convenientes para Carina, que po-
deriam ser vivenciadas como cuidados e contribuições.
Foi necessário abordar esta situação não só do ponto de vista
interdisciplinar, mas também foi necessário trabalhar no interinstitucio-
nal, interrelacionando a intervenção psicanalítica realizada no Centro de
Orientação de Asappia, com o trabalho realizado no Hospital zonal que
frequentava Carina, para seguir seus tratamentos.
Fernando Ulloa (1969) analisava as instituições buscando resol-
ver as fraturas que causavam sofrimento aos sujeitos. Ele argumentou
que o principal objetivo da prática clínica em geral e da clínica institu-
cional, em particular, deve ser a produção de saúde mental. Falava de
saúde cultural, onde priorizamos os contextos sociais, comunitários e
institucionais, que são potencialmente facilitadores ou obturadores dos
processos de produção de saúde-doença.
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VII. Conclusões
A partir de uma psicanálise implicada na realidade que tentamos
compreender e modicar, acreditamos que podemos encontrar formas
de abordagem que ajudem a diminuir o sofrimento.
O trabalho com o trauma implica oferecer representação e gerar
gurabilidade. Permite historizar e dar sentido, como forma de contri-
buir para a rede da subjetividade enquadrada em um ambiente familiar.
Além disso, tece uma malha simbólica com tudo aquilo que o tecido so-
cial, a partir das instituições e grupos sociais, vai oferecendo.
Os movimentos sociais, grupos sociais intermediários, susten-
tam as signicações imaginárias da sociedade, estruturam-se com base
nelas, recriando-as, apresentando-as e desenvolvendo-as. Fazem cir-
cular signicações e trabalham na rede de ideias e ideais. Nesse sen-
tido, são subjetivantes. No laço social, mediado por essas instituições
sociais, podem circular as signicações que fornecem ao Eu uma nova
construção identicatória, mais ampla e diversa, que ajuda a signicar a
própria história e permite a projeção e uma esperança de mudança.
A concepção de saúde mental como saúde cultural possui uma
série de particularidades que denem sua especicidade. Pretende su-
perar o âmbito psi, buscando uma base mais ampla como pertinência
e inscrição. Essa amplitude possibilita considerar a saúde mental como
“uma produção cultural, uma variável política e, sobretudo, um con-
tra-poder para trabalhar em condições adversas.” (Ulloa, 2012).
Nos interstícios dos marcos institucionais, podemos buscar os
recursos que nos permitam responder à singularidade de cada sujeito.
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