
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 88 - 95
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.10
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vai aparecendo em diferentes apresentações que possibilitarão o ar-
mado de cadeias signicantes que cobrem o traumático e possibilitam
incorporá-lo a uma história vital aberta a novas ressignicações. Ligar
a invasão de afetos provocados pelo abuso: medo de sair pelo bairro
porque o abusador era vizinho, terrores noturnos quando sonhava com
a situação. Nomear afetos, colocar palavras no passado, foram os recur-
sos que contiveram a angústia.
Então apareceu a culpa, o que os outros diziam dela. Diz Carina:
- “minha mãe não me acreditava no começo, me culpava”...
Ligar o traumático esteve associado, em um segundo momento,
a restituir a imagem de si mesma danicada, a partir da culpa e do que o
discurso médico diz sobre ela. -“Agora resulta que eu tenho problemas,
que não sou normal”. Para isso, foi necessário recuperar signicações
ligadas a outras guras identicatórias do seu entorno próximo, que ti-
veram peso e lugar em sua história infantil: sua tia, irmã mais nova de
sua mãe, que milita em grupos feministas da região e participou de mo-
bilizações realizadas por esses grupos, nas semanas seguintes ao acon-
tecimento, denunciando a violência e o abuso contra Carina. A partir da
recuperação dessas guras femininas, Carina retoma os laços com esta
tia e suas primas, recuperando espaços de prazer e diversão que havia
perdido.
Podemos incluir no tratamento o benefício da contribuição sim-
bólica do olhar social sobre o fato. Sustentação e segurança que sentiu
parcialmente de sua família, não porque não a apoiaram no primeiro
momento, mas pelas dúvidas de sua mãe, reproduzindo o modelo social
patriarcal em que se a mulher foi abusada é porque fez algo por isso.
Apenas a partir dos outros, o casal, o discurso social, os prossionais, a
mãe lhe devolve a conança.
A partir do tratamento e da peritagem é gerido o apoio estatal
para os tratamentos que Carina pode receber, que a ligam ao hospital
zonal e uma rede de prossionais que a sustentarão neste período. O
trabalho interdisciplinar permitiu evitar sobreposições, dar sentido às
múltiplas intervenções, em tempos convenientes para Carina, que po-
deriam ser vivenciadas como cuidados e contribuições.
Foi necessário abordar esta situação não só do ponto de vista
interdisciplinar, mas também foi necessário trabalhar no interinstitucio-
nal, interrelacionando a intervenção psicanalítica realizada no Centro de
Orientação de Asappia, com o trabalho realizado no Hospital zonal que
frequentava Carina, para seguir seus tratamentos.
Fernando Ulloa (1969) analisava as instituições buscando resol-
ver as fraturas que causavam sofrimento aos sujeitos. Ele argumentou
que o principal objetivo da prática clínica em geral e da clínica institu-
cional, em particular, deve ser a produção de saúde mental. Falava de
saúde cultural, onde priorizamos os contextos sociais, comunitários e
institucionais, que são potencialmente facilitadores ou obturadores dos
processos de produção de saúde-doença.