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Marta De Giusti: Para começar, gostaria de fazer algumas per-
guntas, que são reexões que surgiram ao longo de nossa experiência de
pesquisa em psicanálise.
A primeira seria: que características você considera que a pesquisa
em psicanálise possui e se ela tem traços especícos que a diferenciem da
pesquisa em ciências humanas em geral ou em ciências sociais?, a respeito
do método, os tipos de desenho, etc.
Você encontra diferenças no fato de pesquisar no âmbito de insti-
tuições psicanalíticas em relação à pesquisa em psicanálise no âmbito aca-
dêmico universitário, quais seriam?
Que lugar você considera que deveria/seria desejável que a clínica tivesse
como objeto de reexão e produção de conhecimento na pesquisa em psi-
canálise?
Como você pensa a formalização dessa produção neste caso ou
você imagina que a pesquisa em psicanálise deveria buscar outras fontes e
objetos de reexão? (produção artística, a própria obra da psicanálise, etc).
E, por último, que temas/problemas você considera que merecem
hoje produzir conhecimento através de pesquisas no campo da psicanálise?
Ricardo Bernardi: Na primeira pergunta faria uma primeira su-
gestão que muda muito o enfoque e é: por que falamos no singular? Por
que investigação em vez de investigações? Então, me permito responder
à pergunta: que tipo de investigações interessam à psicanálise? E não
que tipo de investigação? Muda muito, porque o modelo positivista clás-
sico era o da ciência unicada, esse desenvolvimento… bom, é toda uma
concepção losóca que buscava a unicação total do conhecimento.
Mas, as décadas seguintes foram trazendo a diversidade, enfoques, mé-
todos, aportes, teorias. Inclusive em física há muitas físicas, relativista,
quântica, etc., etc. Mas existe a unidade do raciocínio cientíco e qual
era o centro da unidade do método cientíco? O pensamento cientíco
é crítico e é cooperativo e tem método. Então, que seja crítico quer dizer
que você tem o direito de me perguntar: “por que eu digo algo, do que
me valho, de onde tiro isso?”. E que você possa dizer: “não, olha, há uma
maneira melhor de resolver essa pergunta”. Isso signica pensamento
crítico e é cooperativo porque se conseguiu na medida em que entre os
seres humanos trocamos e hoje em dia com a inteligência articial e ou-
tros esquemas digitais de comunicação essa possibilidade se multiplica.
Então, você me perguntava “em que contexto?”, bom, dependendo de
que pergunta e de que método…
ENTREVISTA
COM RICARDO BERNARDI1
Marta de Giusti2
Directora de Investigaciones de
FLAPPSIP
1 Médico, Psiquiatra, Universidade da
República, Uruguai. Mestre em Psicanálise
e Doutor em Psicologia pela Universidade
de Buenos Aires. É professor emérito da
Faculdade de Medicina da Universidade da
República, membro da Academia Nacional
de Medicina e membro honorário da
Associação Psicanalítica do Uruguai e da
Sociedade de Psiquiatria do Uruguai. Foi
membro do Grupo Consultivo Cientíco
Honorário da Presidência da República
para a epidemia de Covid 19. Ele é um
pesquisador de Grau II da Agência Nacional
de Pesquisa e Inovação, bem como
vice-presidente do Comitê de Pesquisa e
consultor do Comitê de Observação Clínica
da Associação Psicanalítica Internacional.
2 Psicologa (UBA). Psicanalista. Membro
Titular da AEAPG. Diretora da Diretoria
de Pesquisa da FLAPPSIP. Professora
dos Programas de Pós-Graduação em
Psicanálise da AEAPG, em convênio com
a Universidade Nacional de La Matanza
(UNLaM)