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ESTUDIANTES
CONCURSO de
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 120 - 125
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.13
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EL DISPOSITIVO PSICOANALÍTICO
INTERPELADO:
DESBORDES Y NEOGÉNESIS
O DISPOSITIVO PSICANALÍTICO INTERPELADO:
TRANSBORDAMENTOS E NEOGÊNESE
THE PSYCHOANALYTIC DEVICE QUESTIONED:
OVERFLOWS AND NEOGENESIS
Rodrigo Civetta
Asociación Argentina de Psiquiatría
y Psicología de la Infancia y la Adolescencia
ORCID: 0009-0004-1004-6309
Correo electrónico: rodrigocivetta90@gmail.com
Fecha de recepción:08-03-2025
Fecha de aceptación:23-04-2025
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Civetta R. (2025) EL DISPOSITIVO PSICOANALÍTICO INTERPELADO:
DESBORDES Y NEOGÉNESIS
Intercambio Psicoanalítico 16 (1), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.13
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
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I. Transbordamentos atuais sim, mas...
Quando falamos em termos gerais de transbordamento, geralmente
enfatizamos as crises, os episódios de desorganização, descargas massivas
do afeto por meio do discurso ou atuações naqueles que procuram aten-
dimento. São momentos que colocam à prova as capacidades de ligação,
representação e simbolização do Eu. Situações-limite para nossos pacientes,
mas que também podem resultar em acontecimentos que testam nossa es-
cuta, teorização utuante e potencial simbolizante como analistas.
Diante desses transbordamentos, de que leituras, conceitos e re-
cursos clínicos dispomos? O que pensamos a respeito dos modos psicopa-
tológicos atuais? As teorizações herdadas nos são sucientes? São o divã,
a associação livre e a atenção utuante recursos que poderíamos aplicar
forçosamente no exercício clínico cotidiano? Ou é um contexto que requer
que nos disponhamos a rever, a repensar alguns elementos do dispositivo
psicanalítico?
Sabemos que existem os transbordamentos na clínica, mas seria ne-
cessário situar que poderia haver um transbordamento no dispositivo psica-
nalítico clássico em dois sentidos:
Em nível diagnóstico: A nosograa proposta por Lacan
(1966; 1981) a respeito da tripartição de estruturas em neurose,
psicose e perversão em função da inscrição ou não do signicante
Nome do Pai, com uma concepção de estrutura como invariável,
fechada e que, portanto, dene a priori os limites do possível em
termos de potencialidades do sujeito psíquico, sem possibilidade de
gênese de tecido psíquico que não seja nesses momentos míticos
fundantes.
Em nível clínico: A proposta de desvelamento do sentido
inconsciente dos sintomas por meio da atenção utuante e da asso-
ciação livre como prática privilegiada nas neuroses ou a função do
analista como secretário do alienado no trabalho com as psicoses
como modos de atuar clinicamente, embora tenham sido formas
de fazer avançar a clínica psicanalítica em direção a tratamentos
possíveis do sofrimento psíquico, nos deixam com recursos teóricos
e clínicos limitados na hora de intervir nos modos psicopatológicos
atuais.
A partir da experiência clínica e da formação de pós-graduação, o
presente trabalho propõe reexões e propostas sobre os transbordamen-
tos no espaço psicanalítico clássico, entendendo por teoria clássica as pro-
postas por Freud e por Lacan, sem revisões teóricas de seus fundamentos.
O DISPOSITIVO PSICANALÍTICO
INTERPELADO:
TRANSBORDAMENTOS E NEOGÊNESE
Trabalho que obteve Menção Honrosa no Concurso de Estudantes Jorge Rosa 2023
Rodrigo Civetta1
1 Psicólogo (UNR, Argentina).
Psicanalista. Pós-graduação em
Clínica Psicanalítica da Infância e da
Adolescência (ASAPPIA, Argentina).
Pós-graduação de Atualização em
Psicanálise e Gênero (Universidade
John F. Kennedy, Argentina).
Participou da Subcomissão de
Gênero e Diversidade Sexual do
Colégio de Psicólogos de Neuquén
Distrito I e da Rede de Psicólogxs
Feministas Regional Neuquén.
Trabalha na prática clínica no
campo de patologias graves com
Infâncias e Adolescências desde
2017 e aborda as problemáticas de
Gênero Diversidade Sexual desde
2019. Escreve artigos e ensaios
cientícos desde 2023. Recebeu
a Menção Honrosa no Concurso
Dr. Jorge Rosa no XII Congresso
FLAPPSIP. Sua última publicação foi:
“Sobre a inscrição da diferença no
aparelho psíquico: a diferença sexual
anatômica é o único e necessário
elemento ordenador?” (Nota da
Tradutora: tradução livre) (2024) em
Revista Intercambio Psicoanalítico.
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Conceitos que foram desenvolvidos por Silvia Bleichmar, como do-
minância estrutural, heterogeneidade da simbolização, intervenções simbo-
lizantes e neogênese, que oferecem ao diagnóstico e ao trabalho terapêuti-
co uma contribuição inestimável em relação à temática proposta, serviram
para pensar outras formas do dispositivo analítico e suas potencialidades na
hora de lidar com o sofrimento psíquico e suas expressões psicopatológicas
atuais.
II. Atualidade e psicopatologia
Sob quais coordenadas operam os modos de produção de subje-
tividade (Bleichmar, 2006) na atualidade e que repercussões têm na estru-
turação psíquica? Como é possível que nos deparemos com uma grande
quantidade de crianças e adolescentes com falhas parciais ou severas na
constituição da tópica psíquica? Ou com tantos pais e mães desorientados a
respeito de suas funções de sustentação, cuidado e narcisização enquanto
adultos responsáveis? Nos bastam, neste contexto, a associação livre e a
interpretação, ou uma nosograa fechada e tripartida da estruturação psí-
quica para acolher e intervir sobre o sofrimento que escutamos?
Poderíamos dizer que esse transbordamento no dispositivo psi-
canalítico clássico seria precipitado por uma atualidade com certas coor-
denadas que impactam na produção de subjetividade e que, por sua vez,
têm incidência nos décits ou fracassos da constituição do psiquismo. A
vertiginosidade dos tempos atuais, articulada com o impulso neoliberal à
atuação e ao consequente desmantelamento do aparelho do pensamen-
to e dos tempos reexivos; as recorrentes e aprofundadas crises socio po-
lítico-econômicas em nosso país tiveram como consequência a queda da
promessa intergeracional de que um futuro melhor é possível e, com isso,
uma perda da esperança que nos deixa na paralisia ou na melancolização;
a virtualidade e seus múltiplos, dinâmicos e compulsivos usos aditivos com
o excesso de informações e estímulos concomitantes; a propagação dos
consumos problemáticos articulados ao vazio representacional, ao excesso
desagregador e ao desamparo psíquico; as instituições degradadas em sua
legitimidade e funções que deixam o sujeito em situação de desamparo; so-
mado aos efeitos psíquicos do traumatismo social gerado pela pandemia da
COVID-19 são algumas das coordenadas atuais que nos fazem incursionar
em uma clínica com outros sujeitos que não são os da Europa burguesa do
nal do século XIX ou de metade do século XX.
De modo que escutar os transbordamentos no dispositivo psicana-
lítico acarretaria um trabalho. Um trabalho de revisão, de recomposição e
de produção de algo novo, de uma neogênese. Não porque seja caduco e
deva ser substituído, já que evidentemente continuamos encontrando sujei-
tos subjetivados e constituídos em termos clássicos, ou mesmo no trabalho
com sujeitos com patologias graves é possível ter sessões (ou momentos
da sessão) onde haja escuta e/ou intervenções clássicas. Mas porque, além
desses sujeitos com os quais a psicanálise trabalha tão confortavelmente,
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há também toda uma pluralidade do sofrimento psíquico e sua expressão
psicopatológica que requer que nos dediquemos a pensar outras concei-
tualizações e ferramentas para acolhê-lo e trabalhar clínica e eticamente de
forma adequada. Seguindo Silvia Bleichmar (2006):
Se assumir uma herança acarreta trabalhar para merecê-la, não é
tarefa menor separar dela o que é inútil, o que impede sua implementação
plena, sabendo que quem nos legou tentou nos dar o melhor, mas não
pôde deixar de conceber o melhor nos termos da época em que teve de
viver e da história que o marcou. Na necessária combinação entre liação –
que sempre se estabelece com base no amor – e a capacidade crítica – que
não implica destruição, mas sim desconstrução reside o futuro de toda
herança. (p. 11)
III. Novas propostas, novos horizontes
A partir das contribuições de Silvia Bleichmar (1993), é possível pen-
sar a constituição do psiquismo a partir da intervenção dos outros primor-
diais – e não necessariamente pai e mãe, mas do semelhante – em termos
de uma humanização da cria humana, que surge da implantação da sexuali-
dade e do narcisismo transvasante, das propostas identicatórias por parte
des adultes, do atravessamento des própries adultes por suas repressões,
que servirão de contra investimento para a instalação da repressão origi-
nária, do atravessamento do Édipo e da castração (em termos de falta on-
tológica), e da inscrição de normas morais e valores ideais, em diferentes
tempos constitutivos.
A autora convida a pensar o aparelho psíquico como estraticado,
aberto ao real e em constantes intercâmbios, funcionando sob dominância
estrutural psicótica ou neurótica, atravessado por diferentes correntes aními-
cas e não como uma estrutura fechada sem possibilidade de novas gêneses
em outro tempo diferente do constitutivo. Propõe-se um aparelho psíquico
cuja materialidade é heterogênea: há heterogeneidade na simbolização. E
nem todos os elementos do psiquismo são linguageiros. Uma conceitua-
lização vital, pois a clínica psicanalítica não teria unicamente como tarefa
privilegiada escutar os signicantes à espera do surgimento da verdade do
sujeito, mas também realizar intervenções que gerem tecido psíquico, fazer
trabalhos de ligação com elementos traumáticos que provocam curtos-cir-
cuitos no psiquismo, acompanhar a organização do pensamento, a geração
de fantasmagorias, oferecer outras representações que sirvam de material
psíquico para os novos contextos, rearticular a tópica psíquica em caso de
colapso narcísico ou desmantelamento, reinstalar e sustentar as lógicas es-
truturantes do pré-consciente em termos de eu-não eu, presença-ausência,
dentro-fora, falo-castração ou, inclusive, veicular momentos fundantes da
constituição do psiquismo no trabalho com infâncias.
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Dessa forma, o trabalho com as dominâncias estruturais não se re-
duz a um diagnóstico em que determinado signicante operou ou não, mas
a cura poderia implicar “[…] a proposta de uma neogênese: como movimento
que, na prática, não se limita a recuperar o já existente, mas que tenta gerar
novas condições de simbolização, abrir novas possibilidades de vida” (Blei-
chmar, 1999, p. 12), mediante intervenções simbolizantes.
Com relação à cura, as intervenções simbolizantes permitem trans-
formar a quantidade em qualidade (Bleichmar, 2020). Mas também há ele-
mentos qualitativos que só provêm de outros elementos qualitativos. Se-
gundo a autora: “Por exemplo, o eu não pode ser produzido senão sob os
modos do transvasamento narcísico” (p. 108). Portanto, não haveria apenas
intervenções simbolizantes, mas também um sustento narcísico e um trans-
vasamento narcísico a partir da transferência, que auxiliaria na instalação
tópica do Eu e da repressão originária no trabalho com infâncias, ou que
funcionaria como suporte ao Eu de sujeitos com severas desorganizações
ou transtornos borderline. A transferência e a contratransferência também
são elementos potentes na hora de pensar as intervenções e como operar
em um contexto em que o paciente que se senta à nossa frente não depo-
sita necessariamente nem confortavelmente saber em nós e começa a falar
do seu mal-estar. Marina Calvo (2017) assinala:
Falar de psicanálise ‘de fronteira’ implica uma forma de denominar
essa clínica realizada em ocasião de transtornos precoces em crianças ou
frente a processos não neuróticos em sujeitos já constituídos, que requerem
novas ferramentas de intervenção. Ali, onde interpretações, apontamentos
ou construções encontram um limite, as simbolizações de transição ofere-
cem vias de resolução da tensão psíquica e do sofrimento concomitante.
Necessárias diante do surgimento de transtornos que não resultam
da relação conitiva entre desejo e defesa, que não remetem a fantasmas,
as intervenções simbolizantes visam a uma reorganização do psíquico. (p.
14)
IV. Pontos de partida ou pontos de chegada?
O modelo metapsicológico proposto por Bleichmar e pelos autores
que continuaram aprofundando seus desenvolvimentos permitiu encontrar
outras formas de pensar e intervir clinicamente, mais coerentes com per-
guntas e reexões próprias, mas fundamentalmente coloca no centro uma
tentativa de entendimento do sofrimento psíquico que tem como base uma
ética do semelhante. Os conceitos de dominância estrutural, heterogeneida-
de da simbolização, intervenções simbolizantes e neogênese abrem outras
vias possíveis para o tratamento do sofrimento psíquico daqueles que nos
procuram e que desaam as nomenclaturas e nosograas herdadas. Con-
sequentemente, permitem trabalhar com maior consistência teórico-clínica
e acolher os novos modos de apresentação clínica do sofrimento que trans-
bordam o dispositivo psicanalítico clássico.
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Ficar apenas com uma clínica baseada nas produções do incons-
ciente reduz nossa possibilidade de escuta, de pensamento e de potencia-
lidade de intervenção. O sujeito psíquico, subjetivado de acordo com fun-
cionamentos institucionais estáveis e patriarcais, com garantia de acesso
à satisfação das condições materiais de existência, com ritmos mais lentos
e sem virtualidade, não é o sujeito psíquico com o qual necessariamente
nos deparamos hoje. Pensando sempre em uma prática situada, enraizada
e enquadrada em um contexto sociocultural e histórico, as mudanças nos
modos de produção de subjetividade teriam gerado grandes décits de nar-
cisização e de capacidade simbolizante. Hoje nos deparamos com infâncias,
adolescências e adultos aos quais é necessário acompanhar ativamente na
geração do que não pôde ser produzido em outros tempos, na qualicação
dos afetos e na ligação e articulação simbólica diante de tanto excesso pro-
veniente do exterior, intrusivo e desarticulador. O sujeito psíquico com um
inconsciente funcionando e produzindo sintomas e formações, normótico,
em várias ocasiões é mais um ponto de chegada do que um ponto de parti-
da.
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