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I. Transbordamentos atuais sim, mas...
Quando falamos em termos gerais de transbordamento, geralmente
enfatizamos as crises, os episódios de desorganização, descargas massivas
do afeto por meio do discurso ou atuações naqueles que procuram aten-
dimento. São momentos que colocam à prova as capacidades de ligação,
representação e simbolização do Eu. Situações-limite para nossos pacientes,
mas que também podem resultar em acontecimentos que testam nossa es-
cuta, teorização utuante e potencial simbolizante como analistas.
Diante desses transbordamentos, de que leituras, conceitos e re-
cursos clínicos dispomos? O que pensamos a respeito dos modos psicopa-
tológicos atuais? As teorizações herdadas nos são sucientes? São o divã,
a associação livre e a atenção utuante recursos que poderíamos aplicar
forçosamente no exercício clínico cotidiano? Ou é um contexto que requer
que nos disponhamos a rever, a repensar alguns elementos do dispositivo
psicanalítico?
Sabemos que existem os transbordamentos na clínica, mas seria ne-
cessário situar que poderia haver um transbordamento no dispositivo psica-
nalítico clássico em dois sentidos:
Em nível diagnóstico: A nosograa proposta por Lacan
(1966; 1981) a respeito da tripartição de estruturas em neurose,
psicose e perversão em função da inscrição ou não do signicante
Nome do Pai, com uma concepção de estrutura como invariável,
fechada e que, portanto, dene a priori os limites do possível em
termos de potencialidades do sujeito psíquico, sem possibilidade de
gênese de tecido psíquico que não seja nesses momentos míticos
fundantes.
Em nível clínico: A proposta de desvelamento do sentido
inconsciente dos sintomas por meio da atenção utuante e da asso-
ciação livre como prática privilegiada nas neuroses ou a função do
analista como secretário do alienado no trabalho com as psicoses
como modos de atuar clinicamente, embora tenham sido formas
de fazer avançar a clínica psicanalítica em direção a tratamentos
possíveis do sofrimento psíquico, nos deixam com recursos teóricos
e clínicos limitados na hora de intervir nos modos psicopatológicos
atuais.
A partir da experiência clínica e da formação de pós-graduação, o
presente trabalho propõe reexões e propostas sobre os transbordamen-
tos no espaço psicanalítico clássico, entendendo por teoria clássica as pro-
postas por Freud e por Lacan, sem revisões teóricas de seus fundamentos.
O DISPOSITIVO PSICANALÍTICO
INTERPELADO:
TRANSBORDAMENTOS E NEOGÊNESE
Trabalho que obteve Menção Honrosa no Concurso de Estudantes Jorge Rosa 2023
Rodrigo Civetta1
1 Psicólogo (UNR, Argentina).
Psicanalista. Pós-graduação em
Clínica Psicanalítica da Infância e da
Adolescência (ASAPPIA, Argentina).
Pós-graduação de Atualização em
Psicanálise e Gênero (Universidade
John F. Kennedy, Argentina).
Participou da Subcomissão de
Gênero e Diversidade Sexual do
Colégio de Psicólogos de Neuquén
Distrito I e da Rede de Psicólogxs
Feministas Regional Neuquén.
Trabalha na prática clínica no
campo de patologias graves com
Infâncias e Adolescências desde
2017 e aborda as problemáticas de
Gênero Diversidade Sexual desde
2019. Escreve artigos e ensaios
cientícos desde 2023. Recebeu
a Menção Honrosa no Concurso
Dr. Jorge Rosa no XII Congresso
FLAPPSIP. Sua última publicação foi:
“Sobre a inscrição da diferença no
aparelho psíquico: a diferença sexual
anatômica é o único e necessário
elemento ordenador?” (Nota da
Tradutora: tradução livre) (2024) em
Revista Intercambio Psicoanalítico.