INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 135 - 139
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.15
135 / FLAPPSIP
ENTREVISTA CON SARA OXENSTEIN CAPLIVSKI
- PRESIDENTA DE FLAPPSIP (2023-2025)
ENTREVISTA COM SARA OXENSTEIN CAPLIVSKI -
PRESIDENTE DA FLAPPSIP (2023-2025)
INTERVIEW WITH SARA OXENSTEIN CAPLIVSKI -
PRESIDENT OF FLAPPSIP (2023-2025)
Laura Soria Torres
ORCID: 0000-0001-6055-9074
Correo electrónico: laurasoriatorres@gmail.com
Representante del Centro de Psicoterapia Psicoanalítica de
Lima ante el Comité Editorial de Intercambio Psicoanalítico
Fecha de recepción: 24-04-2025
Fecha de aceptación: 05-05-2025
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Soria Torres L. (2025) ENTREVISTA CON SARA OXENSTEIN CAPLIVSKI -
PRESIDENTA DE FLAPPSIP (2023-2025)
Intercambio Psicoanalítico 16 (1), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.15
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Entrevistamos a Sara Oxenstein em seu papel como atual Presidenta
da FLAPPSIP para saber mais sobre o próximo Congresso da Federação,
intitulado Eros, alteridade e criatividade em tempos de assombro. O pulso
atual da Psicanálise.
O Zoom, uma das heranças da pandemia, foi o espaço virtual do nosso
encontro, onde conversamos sobre este congresso que acontecerá nos
dias 16, 17 e 18 de outubro de 2025, em Lima, Peru.
Laura Soria Torres: O título do XIII Congresso da FLAPPSIP é “Eros,
alteridade e criatividade em tempos de assombro. O pulso atual da Psicaná-
lise”, e uma das primeiras questões que surgem ao ler esse título é o quão
sugestiva é a ideia de tomar o “pulso atual da Psicanálise” e, ao mesmo
tempo, contextualizar esse congresso em tempos que são qualicados como
“tempos de assombro”. Queríamos que você nos contasse mais sobre como
surgiram essas ideias que denem o tema do congresso.
Sara Oxenstein: Claro, Laura. Explico como nasceu a ideia des-
te Congresso e o que o torna particularmente relevante. Surge da ne-
cessidade de pensar a psicanálise em um mundo contemporâneo em
constante mudança, a uma velocidade vertiginosa, onde o inesperado, o
disruptivo, o incerto, fazem parte da experiência cotidiana. Propusemos
questionar como esse impacto e transbordamento repercutem na cons-
tituição do sujeito, nos vínculos, nos sintomas e nos novos sofrimentos
na prática clínica. É daí que vem o título, que nós, na Comissão, escolhe-
mos com muito cuidado.
Desse modo, Eros representa o impulso de vida, a possibilidade
de ligação e de sentido. A alteridade remete ao encontro com o outro
em sua diferença irredutível, desaando o narcisismo e seus limites na
interação transferencial e afetiva. E, nalmente, a criatividade como di-
mensão transformadora que alimenta tanto a psicanálise quanto a cul-
tura, gestando novas formas de expressão simbólica. Sabemos que, no
nosso campo, a criatividade é imperativa para permitir uma transfor-
mação na díade psicanalítica, que seja possível transformar o que o pa-
ciente precisa para si. Então, sabemos que esses conceitos não estão em
estado puro, estão sempre em constante tensão com a sua contraparte.
A que me rero? Eros coexiste com Tânatos, a alteridade coexiste com a
ameaça do estranho, e a criatividade com o risco do vazio.
É a partir dessa dialética, desse campo de tensões, que emerge
a riqueza do pensamento psicanalítico. Sempre em movimento, sempre
questionador, nunca estático. Nunca colocado em uma dimensão que
possa ser objeticada. Essa dinâmica nos parece extremamente impor-
tante.
Quisemos ir além do olhar angustiante do desamparo, que é
uma espada de Dâmocles, e abrir outras possibilidades para pensar este
tempo complexo, buscar formas inéditas de exploração que nos ajudem
a sair das crises, sem carmos presos à desesperança, mas também
sem cair numa idealização ingênua.
ENTREVISTA
COM SARA OXENSTEIN CAPLIVSKI1
Laura Soria Torres2
1 Sara Oxenstein Caplivski é Licenciada
em Psicologia Clínica pela Universidade
Femenina del Sagrado Corazón (UNIFE)
e possui um Mestrado em “Intervenção
Clínica Psicanalítica” pela Pontifícia
Universidade Católica do Peru (PUCP).
Além disso, é Psicoterapeuta Psicanalítica
formada pelo Centro de Psicoterapia
Psicanalítica de Lima (CPPL). Nesta
instituição, atuou como professora na
disciplina de “Psicopatologia” (2006–2019),
bem como tutora da Turma XXXIII (2016–
2019). É membro associada do CPPL e
da ADPP. Atualmente, é coordenadora
da disciplina de “Técnica Psicanalítica”
e professora na equipe acadêmica do
Instituto Psicanalítico Interdisciplinar (IPI).
Autora de artigos publicados em revistas
e livros especializados. Trabalha em
consultório particular com jovens, adultos
e idosos. Atualmente, preside a FLAPPSIP
pela Associação de Psicoterapia Psicanalítica
(ADPP) durante o período 2023–2025.
2 Laura Soria Torres é Mestre em
Gênero, Sexualidade e Políticas Públicas
pela Universidade Nacional Mayor de
San Marcos (UNMSM). Psicoterapeuta
psicanalítica formada pelo Centro de
Psicoterapia Psicanalítica de Lima (CPPL).
Formada em Antropologia pela Pontifícia
Universidade Católica do Peru (PUCP).
Coordenadora do Departamento de
Pesquisa e Publicações do CPPL. Ministra
de forma conjunta o curso Características
da Psicoterapia Psicanalítica e é assistente
no curso Psicanálise e Cultura no CPPL.
Atende em consultório particular e
no Departamento S. Freud do CPPL.
Recentemente publicou: Soria Torres, Laura
et al. (2024) Sobre la interrelación entre el
desborde social y espacio terapéutico. Em
Intercambio Psicoanalítico, 15(1).
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Você também mencionou o assombro. Para mim, esse conceito
abraça toda a temática por trás dos demais termos conceituais escolhi-
dos. O assombro é aquilo que nos invade nesses momentos, diante de
tudo que acontece no mundo globalizado, na América Latina, em nos-
sas sociedades. Esse tempo de assombro, esse afeto ambíguo e liminar.
Gostei do termo liminar. Agora vou entrar nesse conceito também. Esse
sentimento parece pender mais fortemente para o espanto e a perplexi-
dade diante do sinistro, do que para o outro lado da balança, isto é,
esse brilho poético, aquele que desperta desejo, admiração ou espe-
rança. Ainda assim, apostamos em sustentar espaços onde o assombro,
em seu registro duplo, possa ser elaborado, acolhido e simbolizado. E,
a partir daí, talvez vislumbrar novas formas de evitar o presente. Como
nos lembra Tomás Ogden, a psicanálise não é otimista nem pessimista;
simplesmente, não idealiza.
Essa renúncia à ilusão do pleno. Longe de nos condenar ao des-
encanto, abre possibilidades para uma escuta mais verdadeira, uma es-
cuta das polifonias da linguagem e de uma criação que não negue a
fragilidade, mas que a integre.
Gostei do termo liminar, que é relativamente pouco usado, não
é? Mas é algo transicional. É uma borda entre dois estados, uma zona
de passagem de transformação potencial, um estado incerto, mas fértil,
onde algo novo pode surgir. Ao dizer que o assombro é um afeto am-
bíguo e liminar, estou sugerindo que o assombro se situe nesse limiar
entre o espanto e a admiração, entre aquilo que desestabiliza e o que
comove, sem cair completamente em um ou outro. É um território inter-
mediário, suscetível de se tornar símbolo, trauma ou criação.
L S T: E justamente isso que você menciona me permite fazer um gan-
cho com a segunda pergunta, que trata de como o congresso nos convida a
olhar com profundidade para dinâmicas tanto individuais quanto coletivas.
Queríamos saber em que dinâmicas vocês se inspiraram para propor isso e
quais dinâmicas estavam “assombrando” o comitê organizador.
S O: Muito bem, sim: o individual e o coletivo. Desde Freud, na
sua obra Malestar de la cultura, somos convidados a pensar não apenas
no intrapsíquico, mas também no social e o coletivo. E hoje a psicanálise
também está cada vez mais orientada para o comunitário, porque o que
vem acontecendo no mundo nos atravessa como sujeitos. Isso nos as-
sombra, nos desaa, nos faz sentir frágeis e vulneráveis.
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Estou falando de violência, das desastres naturais, dos riscos que cada
indivíduo enfrenta diariamente. Diante de todas essas novas situações,
entre a tecnologia e o tempo que tem uma uidez vertiginosa e descon-
certante; entre o que não entendemos e o que não tem resposta, mas
que abre questões. É aí que a psicanálise se desdobra: naquele terreno
incerto do liminar. Então, para mim, assombro é um conceito inspirado
no livro de Leopold Nosek La disposición para el asombro. Pensei em
como o assombro nos cerca e nos afeta de várias maneiras. O assombro
é uma experiência primária, é inerente à infância. É maravilhoso ver o
assombro nos olhos de uma criança: há uma emoção genuína e pura
que emociona profundamente. No entanto, à medida que nos tornamos
adultos, esse assombro é diluído, deslocado pelas exigências da cultu-
ra, pelos mandatos do ambiente, pela irrupção do estranho, do sinistro.
Aquilo que irrompe sem aviso prévio e nos confronta com a nossa fragi-
lidade mais íntima.
L S T: Que interessante! Sim, esses conceitos trazidos pelo congresso
são bastante sugestivos e provocadores; nos permitem incorporar outros
temas, outras formas de interpretar as coisas. E, nessa linha, queríamos per-
guntar também — esta é a última pergunta que eu gostaria de fazer — sobre
as novidades que este congresso nos trará. Como vocês o estão imaginando
para conseguir “nos assombrar”?
S O: Veja, temos expectativas de que o congresso abra possibi-
lidades, não apenas clínicas ou teóricas, mas de ser um espaço de pen-
samento vivo, afetivo, onde a psicanálise não apenas reita sobre os
mal-estares contemporâneos, mas também se deixe afetar por eles. Nos
interessa sustentar uma escuta sensível que permita acolher aquilo que
irrompe sem forma, sem nome. Que nos permita repensar as práticas
psicanalíticas a partir das marcas da época, em um ambiente conjunto
e fraterno que nos convide a isso, a reetir além da solidão dos con-
sultórios, a trocar opiniões interculturais da América Latina e de outras
partes do mundo.
A identidade do sujeito está sendo redenida em um mundo
onde as redes sociais modicaram a construção do Eu. É como se pre-
cisássemos voltar a nos humanizar. O congresso os espera de braços
abertos para uma experiência, além de cientíca, cultural, gastronômi-
ca, turística, em que possamos juntos, não apenas conversar e dialogar
sobre a preocupação de um mundo temível, mas também sobre aquilo
que nos ilusiona, sem idealizá-lo ingenuamente, obviamente, mas recu-
perar o Eros, Laura, recuperar esse sopro vital, esse laço de integração
psíquica, de transformação. Então, aí estão os termos conceptuais do
nosso título. Criatividade, pensá-la para além do artístico, como uma
função psíquica essencial que questiona como lidar com o perturbador,
o traumático e sublimá-lo. E assim, esses eixos temáticos que estão in-
cluídos no Eros, na alteridade, na criatividade e no pulso atual da psica-
nálise.
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L S T: É muito interessante, Sarita, e árduo o trabalho para todo o Co-
mitê.
S O: Denitivamente. Estou muito animado para que todos os
participantes se sintam muito à vontade para poder compartilhar suas
ideias nesses espaços acolhedores de diálogo fraterno. Laura, espera-
mos que os participantes levem a experiência, a vivência, além da re-
exão acadêmica, sobre esse encontro humano afetivo e caloroso.
Quero que, ao nal do Congresso, cada participante se sinta
mais vivo, mais permeável às complexidades do desejo, da alteridade, e
que possamos reconhecer com espanto não apenas uma ameaça, mas
uma oportunidade de criar, de ressignicar, de continuar interrogan-
do o desejo, o vínculo com o outro e os processos de transformação
subjetiva. O lósofo Martin Heidegger expressa lucidamente o seguin-
te: “Onde está o perigo, o que salva também cresce”. Parece-me que
nessa frase está alojado algo do espírito da psicanálise: uma disciplina
que considera que não há crescimento sem risco, nem elaboração sem
desordem prévia, nem subjetividade sem passar pela dor. A psicanálise
nos incomoda e questiona, nos confronta com o que não sabemos so-
bre nós mesmos, mas é justamente nesse movimento que o que salva
pode crescer. Gostaria que este Congresso, nessa tradição, não só bus-
casse respostas denitivas, mas que nosso encontro fosse um convite
a caminhar juntos por esse terreno incerto, abrindo portas para nossas
próprias experiências, emoções e vivências mais profundas; e, talvez,
fechando algumas outras.
L S T: Que inspirador! Eu acho que sim. Vamos todos trabalhar para
que isso seja assim e para que possamos estar nesse encontro, como você
disse, em uma experiência muito viva e de intercâmbio entre todos e todas.
S O: Espero vocês com grande entusiasmo. Agradeço este es-
paço, minha gratidão ao Diretor da Revista Intercambio Psicoanalítico,
Luis Correa, e a toda a equipe editorial pelo seu grande trabalho.
L S T: Muito obrigada, Sarita! Vamos nos encontrar no congres-
so.