INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 140 - 144
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.16
140 / FLAPPSIP
ENTREVISTA COM SILVIA LEONOR ALONSO –
DIRETORA CIENTÍFICA DA FLAPPSIP (2023-2025)
ENTREVISTA COM SILVIA LEONOR ALONSO –
DIRECTORA CIENTÍFICA DE FLAPPSIP (2023-2025)
INTERVIEW WITH SILVIA LEONOR ALONSO –
SCIENTIFIC DIRECTOR OF FLAPPSIP (2023-2025)
Mara Selaibe
ORCID: 0009-0001-8871-4301
Correio eletrônico: maraselaibe@gmail.com
Maria Beatriz Vannuchi
ORCID: 0009-0000-8932-1094
Correio eletrônico: mbeatiche@gmail.com
Data de Recebimento: 30-04-2024
Data de Aceitação: 07-05-2025
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Selaibe M. - Vannuchi M.B. (2025) ENTREVISTA COM SILVIA LEONOR ALONSO –
DIRETORA CIENTÍFICA DA FLAPPSIP (2023-2025)
Intercambio Psicoanalítico 16 (1), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.16
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Intercambio Psicoanalítico: Como você compreende a inserção
da proposta cientíca do XIII Congresso FLAPPSIP na concepção que funda-
menta a Federação?
Silvia Alonso: Todos os Congressos bianuais realizados pela
FLAPPSIP estão ancorados na concepção que fundamenta a Federação.
Na própria ata de fundação encontra-se escrito: “A Federação nasce
pelo desejo dos integrantes de diversas associações latino-americanas
de conhecer, trocar e analisar as próprias problemáticas, tendo como
ponto de encontro a Psicanálise, teoria e clínica, e a produção de novos
desenvolvimentos”. Nesse sentido os Congressos bianuais têm um pa-
pel fundamental por serem momentos de encontros dos membros das
Associações para as trocas de seus pensamentos e suas práticas.
PensandoespecicamentenapropostacientícadesteXIIICon-
gresso,elaéumconviteaaprofundarareexãodosujeitonacultura,
imerso e banhado pelas dinâmicas do mundo contemporâneo; mundo
este fortemente marcado por permanentes, rápidas e intensas transfor-
mações. Em nossos dias, a quantidade de acontecimentos presentes no
cotidiano faz com que os sujeitos vivam permanentemente surpreen-
didos por mudanças: as mudanças climáticas a lhes alterar as rotinas e
por vezes a submergi-los em situações de caos; os avanços tecnológicos
emcujavelocidadenãosedeixamserantecipadossequerpelacção;as
bruscas transformações na política, na economia, na ética, nas comuni-
cações; as guerras e o terror. Todas essas mudanças quebram as certe-
zas,deixandoosujeitopermanentementeemcontatocomoincerto,o
inesperado e o desconhecido. Em permanente estado de assombro.
Nesseestadodeestranhamento,existeaameaçadeossujeitos
serem tomados por um medo paralisador. Mas, de outra parte, o estran-
ho pode acender a chama da curiosidade e ser a base do pensamento,
mobilizar as forças de vida, fomentar o caminho da criação, da transfor-
mação e dos espaços para o novo.
A proposta do XIII Congresso vai ao encontro da explícita in-
tenção da Federação em pensar o sintoma no mal-estar na cultura. Em
pensarumaPsicanálisearticuladacomocontextosocialecultural,não
deixandoque elase convertanum dogmafechado einamovível, mas
simquesedeixeinterrogarpelasmudançasdeseutempo.Osubtítulo:
o pulso atual da Psicanálise nos conduz a pensar na atualidade e na vita-
lidade da Psicanálise como instrumento para entender e transformar as
subjetividades submersas nos efeitos deste mundo. E também a fazer
do Congresso um fórum para conversar sobre a clínica, suas mudanças
e aberturas, de maneira a seguir o princípio da hospitalidade na direção
de ampliar seus dispositivos clínicos, bem como se permitir guiar pelo
princípiodasingularidadenaescutaenoenquadreamdedeixarca-
ber as novas formas de sofrimento, e poder caber na vida das pessoas.
EstapropostadoXIIICongressoseencontracomosprincípiosdaFLA-
PPSIP ao nos convidar a nos debruçarmos tanto sobre os fenômenos
individuais quanto sobre os coletivos – seguindo a mais forte tradição
freudianaaoincluirnoseucampodereexãoacultura,areligião,aarte
e os fenômenos de massa.
ENTREVISTA
COM SILVIA LEONOR ALONSO1
Mara Selaibe2
Maria Beatriz Vannuchi3
Representantes do Departamento
de Psicanálise do Instituto Sedes
Sapientiae no Comitê Editorial de
Intercambio Psicoanalitico
1 Psicanalista. Uma das fundadoras e
membro do Departamento de Psicanálise
do Instituto Sedes Sapientiae. Professora
e supervisora no mesmo Instituto desde
1978. Coordenadora do grupo de pesquisa
“O feminino e o imaginário cultural
contemporâneo” desde 1997. Fez parte
do grupo fundador da revista Percurso e
integrou seu primeiro conselho editorial.
De 1977 até 1980, foi coordenadora e
professora da área de Psicanálise no
curso de formação em psicoterapias da
pós-graduação lato sensu da PUC-SP.
Residiu na Argentina até 1976, tendo sido
docente na Universidad de Buenos Aires
(UBA) e na Escola de Psicologia Freudiana
e Psicanálise (EPFSO). Autora dos livros
Histeria (Casa do Psicólogo, 2004), O tempo,
a escuta, o feminino (Casa do Psicólogo,
2011) e Ressonâncias da clínica e da cultura
(Blucher, 2022) e organizadora e autora de
outros seis livros.
2 Psicanalista membro do Departamento
de Psicanálise do Instituto Sedes
Sapientiae. Professora e supervisora no
Curso Psicopatologia Psicanalítica e Clínica
Contemporânea do mesmo Departamento.
Ele publicou o livro: Ensaio clínico sobre o
sentido - pulsões, fantasia e pensamento
onírico (2003) Edusp/Casa do Psicólogo.
3 Psicanalista e Analista institucional,
membro do Departamento de Psicanálise
do Instituto Sedes Sapientiae. Ele publicou,
entreoutros:Anal,oquefazum
psicanalista na Clínica do Testemunho?
EmPercurso,(52),103–112.Depais
paralhos,quandoashistóriassão
interrompidas, in Travessia do Silêncio,
Testemunho e Reparação (2015). Instituto
Projetos Terapêuticos, Ministério da Justiça.
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Finalmente, a proposta está feita a partir da concepção não de
uma única Psicanálise, mas sim de muitas perspectivas psicanalíticas
diferentes e convida a nos reunirmos para, a partir delas, fazermos as
trocas. Esta tem sido a postura da Federação sempre reconhecedora e
respeitosadiantedasdiferençasentreasAssociaçõesliadas,asquais,
por sua vez, evidenciam as diferenças da história da Psicanálise em cada
país.
I P: O XIII Congresso FLAPPSIP está composto por seis eixos temáti-
cos e uma diversidade de temas. Você diria haver um denominador comum
entre esses eixos ou algum o condutor a ligá-los?
S A:Sim!Conformeexplicitadonapergunta,oseixostemáticos
são seis e dentro deles encontra-se sugerida uma quantidade impor-
tantedetemas.Dosseiseixospropostos,trêssãoconceitos:Eros,alte-
ridade e criatividade; são três caminhos centrais pelos quais propomos
circularem as reexões. Dois deles explicitam o contexto, explicitam
mais especicamente mudanças que estão acontecendo no mundo e
osdesaos porelasengendrados paraopensamento psicanalítico.O
últimoeixotratadoassombro,signicantecentralcomoqualtentamos
sintetizaravivênciachavequemarcaosujeitonessecontexto.Cadaum
desseseixossedesdobraemtemasmaisespecícoscomointuitodefa-
cilitaraosautoresidenticaremsuareexãocomumdeles.Sobrecada
um deles podemos aqui, brevemente, tecer alguns apontamentos.
As mudanças na sexualidade e nas formas de amar vêm sen-
dograndes.Tambémasconguraçõesfamiliareseasformasderepro-
dução humana têm se transformado. Como nessas novas condições
Eros pode fazer seu trabalho de ligação, de vinculação, e ainda, como
trabalharcomosexcessos?
A alteridade como conceito fundamental na relação entre eu e
outro, o reconhecimento das diferenças, o respeito pela autonomia e a
individualidade do outro, a empatia com o sofrimento do outro e a pos-
sibilidade de diálogo são parâmetros fundamentais. Muitos fenômenos
defortepresençanaatualidadenosconvocamareetirsobreocampo
da alteridade: a virtualidade, as migrações de populações e as respostas
xenófobasesegregacionistasfrenteaela,osavançosnaslutasdasmul-
heres e a persistência de atitudes misóginas; as polarizações políticas e
os discursos de ódio, as guerras... Tudo isso nos interroga de que outro
se trata em cada uma dessas situações. O outro – como diferença – está
sendo borrado, sendo apagado? Ao mesmo tempo, esses acontecimen-
tostambémconvocamàreexãoosespaçosdeabertura:asclínicas-
blicas,asinclusõesnaclínicaenopensamentodassexualidadesplurais
e das diferenças de raças e etnias.
Em relação à criatividade, tanto na clínica quanto na cultura, se
traduz como caminho fundamental para transformar o sofrimento em
conhecimento, arte, inclusão do novo.
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Osdoiseixosseguintescolocamcomofocoasmudançascon-
cretas acontecidas no mundo: avanços tecnológicos, virtualidade, mu-
danças climáticas e as consequências desses fatores nas subjetividades
enosrelacionamentos.Ousoexcessivodastelaseseusefeitossobre
as crianças e adolescentes, a penetração da IA na vida humana diária,
os fenômenos de ciberbullyng, cancelamentos, fake news e seus efeitos
nas relações em todas as idades são problemáticas em relação às quais,
sem dúvida, precisamos nos debruçar e trocas ideias a respeito.
Oúltimoeixosituaoassombrocomovivênciapermanenteque
permeia nossas vidas. Nesse mundo de constantes e rápidas mudanças
quequebramasnossascertezasenosexigemconviverotempointeiro
com as incertezas, com o desconhecido, com o inesperado, nos levando,
por vezes, à paralisia pelo medo, mas podendo também estimular a cu-
riosidade que impulsiona o pensamento e move as transformações.
Vale ainda rearmar um dos fundamentos da FLAPPSIP: a ex-
periência de transferência no espaço de uma análise individual é fonte
essencial na qual o pensamento analítico se nutre, mas não a única: ou-
trosespaçoscoletivosdeexistênciatambémsãofontesalimentadoras
dopensamentopsicanalítico.Estefundamentoalinhavaoseixostemáti-
cos propostos. Como a psicanálise conversa com o mundo atual? Como
o mundo atual interroga a psicanálise e provoca aberturas na clínica?
Como, a partir de nosso ofício, colaboramos para sustentar o humano?
I P: Em tempos de primazia da virtualidade, que ofusca as di-
mensões de alteridade, o fato de o XIII Congresso ser realizado de modo
exclusivamente presencial não poderia ser considerado também como uma
escolha que valoriza a convivência, marcando a importância da presencia
física nos coletivos de psicanalistas?
S A: Não farei aqui uma análise das vantagens e das perdas a
partir da generalização da virtualidade em nossas vidas. Certamente
reexionessobreseusefeitosserãotemasdeanálisenopróprioCon-
gresso.Pensoquesãoreexõesmuitonecessáriasjáqueosefeitossão
muito amplos: na constituição do psiquismo, nos campos das formas
derelacionamentosesexualidades,naconstruçãodeidentidadesede
alteridade, na própria constituição do inconsciente. Alguns autores já
sereferemaoinconscienteconectivo.Mascertamenteestasreexões
amplasecomplexasnãocabemnoespaçodestaentrevista.
No que se refere aos congressos posso dizer que a virtualidade
nos deu possibilidade de manter o congresso FLAPPSIP durante a pan-
demia e realizar um híbrido na pós-pandemia. Neste momento conside-
ramos que era importante retomar o modo presencial por entendermos
que um congresso, além de ser intercâmbio de informações (o que pode
ser feito nas duas modalidades: virtual ou presencial), também é uma
oportunidadedeencontroedetrocasafetivasentreaspessoas,deex-
periências vibrantes compartilhadas desde um abraço até uma refeição
ou um evento cultural. Em um congresso está o que se transmite numa
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apresentação, num texto lido numa mesa ou numa conferência, mas
está também o que se transmite num diálogo espontâneo, ou num con-
fronto num debate, estes certamente favorecidos pela circulação mais
espontânea do presencial.
Gostaria de marcar três pontos do Congresso FLAPPSIP:
I- O congresso não é um encontro, mas, sim, o encontro dos
seus membros. Por estes pertencerem a diferentes países, não temos
outros encontros de grande porte a não ser esse momento de grande
importância para se fortalecer os vínculos entre as instituições e as pes-
soas.
II- Um dos fundamentos da FLAPPSIP consiste em fazermos uma
psicanálise situada, no tempo e no espaço, marcada pela História deste
pedaço do planeta que é a América Latina. Para contemplar essa com-
plexidadegeográca,dedoisemdoisanosasededaDiretoriaétrans-
ferida para outro país, num sistema de rodízio entre todos. Assim, cada
congresso acontece no país sede. Desta vez será no Peru. Dessa manei-
ra,cada encontrosedá numdeterminadocontexto, noqualalgo das
marcas históricas e culturais do país pode banhar o encontro e permitir
compreender melhor a Psicanálise que se faz nesse país e os pontos
sobreosquaisasreexõesprevalecemnesselugar.Além,inclusive,de
permitir trocas com outras Associações do país fora da FLAPPSIP. Pode-
ríamos costurar a linha de história dos Congressos FLAPPSIP através de
seus temas; contudo, poderíamos fazê-lo também costurando os peda-
cinhosdeHistóriapelasmarcasdeseuscontextosgeográcosculturais.
De outra parte, em cada Congresso acontece também a Assembleia de
delegados de todos os países membros. A oportunidade para eles se
conhecerem pessoalmente e conviverem por três dias, de modo inten-
so,dáaessaredeumamaterialidadedeexperiênciasmuitoimportante
para se sustentar como rede conectada no restante do tempo.
III-Porúltimo, querolembraraespecicidadedenossoofício,
um trabalho no qual a subjetividade, o mundo afetivo e a intimidade
estãonocentro.Issofazcomqueumcongressovirtuallimitesignica-
tivamente as trocas diretas sobre a clínica. Tanto por questões de sigilo
em relação aos analisandos, quanto pelo necessário acolhimento das
expressõesde sentimentosou deangústia transferencialdo ladodos
analistas.Anal,osateliersclínicossópodemserfeitosdeformapre-
sencial.
Essas são algumas das razões pelas quais entendemos a impor-
tânciadoXIIICongressoserrealizadopresencialmente.Esperamosque
apresençadetodossejagrandeesignicativa!
IP: Muito obrigado!