INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 149 - 152
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.18
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DO OLHAR DO OUTRO À SUBLIMAÇÃO DE SE
CONSTITUIR NEGRO
DE LA MIRADA DEL OTRO A LA SUBLIMACIÓN DE
CONSTITUIRSE NEGRO
FROM THE GAZE OF THE OTHER TO THE SUBLIMATION
OF CONSTITUTING ONESELF AS BLACK
Resenha realizada por Thaís Rosse
Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro
ORCID: 0009-0006-9628-1880
Correio eletrônico: thaisrosse@yahoo.com
Data de Recebimento: 30-04-2025
Data de Aceitação: 08-05-2025
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Rosse T. (2025) DO OLHAR DO OUTRO À SUBLIMAÇÃO DE SE CONSTITUIR NEGRO
Intercambio Psicoanalítico 16 (1), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.18
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
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AUTORA: Nogueira, Isildinha Baptista;
Do Olhar do Outro à Sublimação de se Constituir Negro, p. 362-374. In:
I Simpósio Bienal SBPSP – O Mesmo, O Outro.
São Paulo: Blucher, 2019.
ISSN 2359-2990, DOI 10.5151/isbsbpsp-52
Desde criança eu sentia preconceito de cor. Queria o Curso de So-
ciologia para me proteger do preconceito.
(...) eu fui para a Escola de Sociologia porque eu tinha sofrimento,
tinha dor e eu queria saber o que me causava tanto sofrimento. E
eu colocava que eram condições exteriores a mim. Então eu pensei
que a sociologia iria me esclarecer sobre os motivos do meu sofri-
mento [...] e estando no curso, eu estava no segundo ano, pela pri-
meira vez em minha vida eu ouvi falar de Freud, em sublimação e
fatores internos. Então eu disse, não é sociologia que eu tenho que
estudar, eu tenho que estudar é psicanálise e Freud (Bicudo, 1994,
conforme citado em Gómez, 2013).
Isildinha Baptista Nogueira é psicanalista, mestre em Psicologia
Social pela PUC-SP e doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimen-
to Humano pela USP. Fez sua formação nos Ateliers de Psychanalyse,
em Paris, com Radmila Zygouris (uma das fundadoras da instituição).
Isildinha, em seu artigo – trabalho que foi apresentado no Fórum violên-
cia e alteridade no I Simpósio Bienal O mesmo, o outro: Psicanálise em
movimento da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – nos
convida a uma reexão sobre a constituição do negro a partir do olhar
do outro. “Se o que constitui o sujeito é o olhar do outro, como ca o ne-
gro que se confronta com esse olhar, que mostra reconhecer nele o sig-
nicado que a pele negra traz, enquanto signicante? ” (Nogueira, 2019)
Visto que existimos como sujeitos em relação a um outro, em relação
à alteridade, como se vê o sujeito negro que vê no olhar do outro o
estereótipo a ele atribuído? E como não fazer desse estereótipo uma
realidade psicológica?
Virginia Bicudo, foi uma socióloga e psicanalista brasileira, a pri-
meira não médica a ser reconhecida como psicanalista, tornando-se es-
sencial para construção e institucionalização da psicanálise no Brasil. A
citação de Virginia, no início deste texto está presente também no artigo
de Isildinha. Quando Virgínia menciona que procurou o curso de socio-
logia, e posteriormente os estudos de psicanálise, para se proteger do
preconceito, do que será que ela fala? Será que falava dos olhares que
insistiam em classicá-la até ali?
DO OLHAR DO OUTRO
À SUBLIMAÇÃO
DE SE CONSTITUIR NEGRO
Resenha realizada por
Thaís Rosse1
11Aluna em formação em psicanálise
no CPRJ. Analista de Investimento
Social. LL.M em Direito Tributário
pela IBMEC-RJ e Especialista em
Diversidade nas Organizações. Rio de
Janeiro, RJ, Brasil.
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A investigação sobre como o corpo é representado socialmen-
te permite compreender a estrutura de uma sociedade. A sociedade
valoriza um conjunto especíco de características e atributos que um
indivíduo deve possuir, sejam eles morais, intelectuais ou físicos. Esses
atributos são, em geral, comuns a toda a sociedade, embora possam
variar ligeiramente entre diferentes grupos, classes ou categorias que
compõem a sociedade. Assim, as características físicas de uma pessoa
negra, especialmente a cor da pele, mostram como essas características
foram historicamente associadas a qualidades morais e intelectuais.
Em algumas entrevistas Isildinha fala sobre o episódio em que,
tendo mudado de consultório, foi a uma loja de móveis comprar novas
poltronas. Ao entrar na loja, havia um casal de clientes que, perceben-
do sua aproximação, cochichou entre si; após isso o homem, que ela
supôs ser o marido, recolheu a bolsa e a segurou rme junto ao corpo,
enquanto o vendedor da loja se dirigiu a Isildinha e perguntou em tom
rude o que ela queria ali. Nesse momento Isildinha diz ter percebido
que, aos olhos daquele vendedor, ela não era a psicanalista, doutora,
professora da USP; ali ela era tampouco Isildinha. Naquele momento,
aos olhos daquele vendedor ela não era nada nem ninguém, não era
uma pessoa. NA PUC, na USP, ou entre os psicanalistas conhecidos ela
sabia quem era, mas ali não.
Ser negra era algo a mais a ser somado ao seu currículo. Esse
currículo que não guarda apenas feitos prossionais e acadêmicos, mas
que marca uma soma de valores que a sociedade vê com bons olhos.
Em outra situação Isildinha foi impedida de acessar o estacionamento
de professores em uma instituição onde participaria como convidada de
uma banca. O funcionário disse que ela não poderia estacionar ali, que
era exclusivo para professores, sem nem sequer perguntar quem ela
era, presumindo que uma mulher negra não seria uma professora. Mais
uma vez ela não era ninguém diante daquele olhar.
Em ainda outra situação Isildinha dirigia seu carro zero quando
foi parada pela polícia. Entregou os documentos do carro que estavam
em nome dela e sua habilitação com foto, como solicitado. Após olhar os
documentos o policial perguntou se o carro era dela, o que a deixou con-
fusa já que ele tinha em mãos todos os documentos que comprovavam
isso. Então ela entendeu que a pergunta real era como ela, uma mulher
negra, poderia ter um carro daqueles. Ao olhar daquele policial ela não
era um corpo compatível com aquele carro.
Quem era a Isildinha, mulher negra, nos lugares aonde o currí-
culo não chegava antes dela? Quem são os negros sem portar seus “cu-
rrículos”? Que olhar é colocado sobre eles?
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Virginia Bicudo, em seu tempo, não teve escuta à sua fala sobre
questões raciais. Seus pares não acharam relevante ou real a temática
que ela trazia. Ela defendeu o que hoje chamamos de sua dissertação
de Mestrado, intitulada Estudos de Atitudes Raciais de Pretos e Mulatos
em São Paulo. Seu trabalho buscava entender as relações sociais sob
a inuência do racismo. Em 1945, sua tese foi muito criticada porque
a Academia, na época, acreditava que não havia preconceito racial; ela
foi acusada de não esclarecer sucientemente o preconceito de cor e a
discriminação. Foi silenciada.
Imagino que ela tinha muitos exemplos práticos para trazer esse
esclarecimento, Isildinha nos contou alguns dos seus, todos nós negros
temos os nossos.
Mas e hoje? “Será que vão nos enxergar como semelhantes e
não como uma excepcionalidade, uma exceção, uma curiosidade?’’ No-
gueira 2019). Qué olhar está posto em nós?
Referências bibliográcas
GOMES, Janaina Damaceno. Os Segredos de Virgínia: estudos de atitudes raciais em São
Paulo. (1945-1955). São Paulo, 2013:49.
NOGUEIRA, Isildinha Baptista. (1998:40). Signicações do Corpo Negro. Doutorado em
Psicologia. Universidade de São Paulo.
NOGUEIRA, Isildinha Baptista (2019) Do Olhar do Outro à Sublimação de se Constituir Negro”,
p. 362-374. In: I Simpósio Bienal SBPSP – O Mesmo, O Outro. São Paulo: Blucher.
ISSN 2359-2990, DOI 10.5151/isbsbpsp-52
NOGUEIRA, Isildinha Baptista. (2021). A cor do inconsciente: signicações do corpo negro.
Editora Perspectiva.
NOGUEIRA, Isildinha Baptista (2022). Psicanalistas Que Falam: Episódio #9 Isildinha Baptista
Nogueira. YouTube, 10 de setembro de 2022. Min. 30:10.
https://www.youtube.com/watch?v=bCJgctIJetA
NOGUEIRA, Isildinha Baptista (2021) Conversa com Isildinha Nogueira - 17/06/2021. Canal
de vídeos SBPRJ YouTube, 17 de junho de 2021. Min. 49:40. https://www.youtube.com/
watch?v=6tGi7vbqC9E&t=1188s