
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 149 - 152
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.18
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A investigação sobre como o corpo é representado socialmen-
te permite compreender a estrutura de uma sociedade. A sociedade
valoriza um conjunto especíco de características e atributos que um
indivíduo deve possuir, sejam eles morais, intelectuais ou físicos. Esses
atributos são, em geral, comuns a toda a sociedade, embora possam
variar ligeiramente entre diferentes grupos, classes ou categorias que
compõem a sociedade. Assim, as características físicas de uma pessoa
negra, especialmente a cor da pele, mostram como essas características
foram historicamente associadas a qualidades morais e intelectuais.
Em algumas entrevistas Isildinha fala sobre o episódio em que,
tendo mudado de consultório, foi a uma loja de móveis comprar novas
poltronas. Ao entrar na loja, havia um casal de clientes que, perceben-
do sua aproximação, cochichou entre si; após isso o homem, que ela
supôs ser o marido, recolheu a bolsa e a segurou rme junto ao corpo,
enquanto o vendedor da loja se dirigiu a Isildinha e perguntou em tom
rude o que ela queria ali. Nesse momento Isildinha diz ter percebido
que, aos olhos daquele vendedor, ela não era a psicanalista, doutora,
professora da USP; ali ela era tampouco Isildinha. Naquele momento,
aos olhos daquele vendedor ela não era nada nem ninguém, não era
uma pessoa. NA PUC, na USP, ou entre os psicanalistas conhecidos ela
sabia quem era, mas ali não.
Ser negra era algo a mais a ser somado ao seu currículo. Esse
currículo que não guarda apenas feitos prossionais e acadêmicos, mas
que marca uma soma de valores que a sociedade vê com bons olhos.
Em outra situação Isildinha foi impedida de acessar o estacionamento
de professores em uma instituição onde participaria como convidada de
uma banca. O funcionário disse que ela não poderia estacionar ali, que
era exclusivo para professores, sem nem sequer perguntar quem ela
era, presumindo que uma mulher negra não seria uma professora. Mais
uma vez ela não era ninguém diante daquele olhar.
Em ainda outra situação Isildinha dirigia seu carro zero quando
foi parada pela polícia. Entregou os documentos do carro que estavam
em nome dela e sua habilitação com foto, como solicitado. Após olhar os
documentos o policial perguntou se o carro era dela, o que a deixou con-
fusa já que ele tinha em mãos todos os documentos que comprovavam
isso. Então ela entendeu que a pergunta real era como ela, uma mulher
negra, poderia ter um carro daqueles. Ao olhar daquele policial ela não
era um corpo compatível com aquele carro.
Quem era a Isildinha, mulher negra, nos lugares aonde o currí-
culo não chegava antes dela? Quem são os negros sem portar seus “cu-
rrículos”? Que olhar é colocado sobre eles?