INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 153 - 156
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.19
153 / FLAPPSIP
HOMO POLÍTICUS, MANUEL PARDO, LA
CULTURA POLÍTICA PERUANA Y SUS DILEMAS
(1871 – 1878)
HOMO POLITICUS, MANUEL PARDO, A CULTURA
POLITICA PERUANA E SEUS DILEMAS
(1871 – 1878)
HOMO POLITICUS, MANUEL PARDO PERUVIAN
POLITICAL CULTURE AND ITS DILEMMAS
(1871 – 1878)
Reseña realizada por Giancarlo Portugal Velasco
Centro de Psicoterapia Psicoanalítica de Lima
ORCID: 0000-0002-2977-9391
Correo electrónico: g.portugal@pucp.edu.pe
Fecha de recepción: 14 - 04 - 2025
Fecha de aceptación: 24 -04 - 2025
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Portugal Velasco G. (2025) HOMO POLÍTICUS, MANUEL PARDO,
LA CULTURA POLÍTICA PERUANA Y SUS DILEMAS (1871 – 1878)
Intercambio Psicoanalítico 16 (1), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.19
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
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Autor: Carmen Mc Evoy
Ano: 2022 – 393 páginas
Editorial Planeta
No âmbito do nosso XIII Congresso “Eros, alteridade e criatividade
em tempos de assombro. O Pulso Atual da Psicanálise”, que se realizará no
próximo mês de outubro, a conceituada historiadora peruana Carmen Mc
Evoy foi convidada como oradora; o convite foi prontamente aceito e, as-
sim, concretiza-se um dos objetivos do evento: contribuir à comunicação da
psicanálise com as ciências sociais. Esse espírito de interdisciplinariedade é
nativo da nossa disciplina apesar de que, por vezes, a construção de concei-
tos herméticos tem contribuído a um isolamento que tem sido – de forma
ambivalente – usufruído e sofrido. Neste contexto procura a resenha apre-
sentar o texto Homo politicus. Manuel Pardo, a cultura política peruana e seus
dilemas, publicado inicialmente no ano 2007, mas reeditado como início da
Coleção Carmen Mc Evoy, que a Editorial Planeta publica desde 2022.
Ao repto de realizar a resenha de um livro de história no âmbito de
um congresso sobre psicanálise se soma o desao de apresentar uma per-
sonagem da história peruana a um público latino-americano: Manuel Pardo
(1834-1878), quem foi o primeiro presidente cível da história do Peru (1872-
1876); antes disso, desde 1821, todos os presidentes haviam sido militares e
a constante era a venta estatal do guano a Europa, que se tornou o alvo da
corrupção. No entanto, tal como os acontecimentos anteriores ao governo
de Pardo são relevantes, é de salientar que, depois dele, o palco seria o de
um dos maiores traumas da nação: a Guerra do Pacíco, que se estenderia
desde 1879 até 1883 e que Pardo não veria porque seria assassinado aos 44
anos, pouco antes do começo da guerra. Não é certamente exagero armar
que a presidência de Pardo foi, sem dúvida, um marco na história peruana.
O livro Homo politicus, como revela seu subtítulo, centra-se em Ma-
nuel Pardo, mas procura sempre situá-lo dentro da cultura política peruana
e dos desaos que ela lhe impôs. Assim, ao longo dos seus seis capítulos, o
texto desenha o cenário e descreve a interação entre as personagens, mas
sempre com os holofotes virados para o protagonista da história: o civil cujo
projeto confronta o status quo militar. No entanto – e isto é o mais notável –
o livro aproveita especialmente a correspondência do próprio Pardo, o que
aumenta a possibilidade de se aproximar a sua subjetividade, ou seja, à in-
terpretação do seu contexto e dos seus desaos.
HOMO POLITICUS, MANUEL PARDO,
A CULTURA POLITICA PERUANA
E SEUS DILEMAS (1871 – 1878)
Resenha realizada por
Giancarlo Portugal
Velasco1
1 Psicoterapeuta psicanalítico em
formação (CPPL). Filósofo (PUCP).
Professor e pesquisador. Trabalho
clínico em adultos e adolescentes.
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 153 - 156
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Desde o primeiro capítulo se apresenta a política peruana como um
labirinto, e não um labirinto qualquer, mas um que irritaria o próprio diabo.
A expressão é de uma das cartas que o nosso protagonista recebe do seu
primo José Antonio de Lavalle1, que considera a política peruana como capaz
de levar à loucura o soberano do caos: milhares de mortos, entre cidadãos e
autoridades; instituições quase inexistentes; receio de uma ‘invasão de Lima’
pelo povo após a recente abolição da escravatura e da pena de morte; pil-
hagem da corrupção; e a geração de patologias sociais que serão batizadas
de criminalidade. Neste ambiente de, como diria o poeta José Arnaldo Már-
quez, hecatombe humana, o comércio estatal do guano era a constante no
meio de uma guerra civil permanente, consequência de uma lógica de gue-
rra até à morte. Mc Evoy expressa esta lógica como a racionalidade política
dos senhores da guerra que sobreviveram à anarquia após a dissolução do
Estado colonial para se tornarem os líderes daquele Leviatã de guano que
apenas formalmente − era chamado Estado republicano.
Após um começo que mostra o Peru da época, o livro centra-se no
protagonista, que, no texto da Dra. Mc Evoy, é o vital — aquilo que está vivo,
que se move e procura mobilizar e que se materializa na gura de Manuel
Pardo, produto das contradições do seu tempo: lho do intelectual ministro
Felipe Pardo y Aliaga, formado em economia pelo Collège de France e em lo-
soa pela Universidade de Barcelona, rico empresário, herdeiro intelectual
de José Faustino Sánchez Carrión2, ministro das Finanças, prefeito de Lima,
primeiro presidente civil do Peru, exilado no Chile, presidente da Câmara do
Senado no seu retorno. É assim como Mc Evoy procura recuperar a visão
de Pardo não apenas como representante da burguesia nacional – o que
ele era – mas também como gura essencialmente dialogante, integradora.
Ou seja, mais do que um empresário que ascende ao mais alto cargo esta-
tal, nas páginas do livro, Pardo revela-se como um intelectual que, apoiado
inicialmente pela Sociedade de Independência Eleitoral (SIE), matriz do que
viria a ser o Partido Civil, aposta na construção de um projeto nacional atra-
vés de conceitos como a República Prática - a República da Verdade baseada
na educação, no trabalho e na indústria, conceitos com os quais construiu
uma retórica que lhe permitiria a vitória eleitoral contra o setor militar do-
minante, o que lhe facilitaria também governar e que, posteriormente, lhe
permitiria opor-se, mesmo do exílio, ao Leviatã revivido na gura do gene-
ral Mariano Ignacio Prado, presidente durante os períodos de 1865-1868 e
1876-1879.
1 Deputado (1860-1865), senador (1874-
1879) e Ministro de Relações Exteriores
(1883) do Peru.
2 Político e ideólogo da independência
peruana, conhecido como o “Solitário de
Sayán”.
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Homo politicus: Manuel Pardo, A cultura política peruana e seus dilemas
não engana: os protagonistas estão no título, mas oferece muito mais. Uma
vez iniciado o livro, poderá ser lida uma nova introdução à obra; da mes-
ma forma, qualquer pessoa interessada pode encontrar um dossier com
fotograas, charges e mapas relevantes. É o caso do gráco Desembarque
do senhor Pardo em Callao, que representa o aclamado retorno do protago-
nista desde o exílio no Chile. Da mesma forma, há uma cronologia que vai
desde o nascimento de Manuel Pardo, em 9 de agosto de 1834, até 16 de
novembro de 1878, com o seu traiçoeiro assassinato pelo sargento Melchor
Montoya na porta principal do Senado. Da mesma forma, encontrar-se-á
um compêndio de correspondências do ex-Presidente, onde cam à mostra
as quantias, o destino geográco e o destinatário. Por m, o livro inclui uma
bibliograa anotada pela autora, que permite a quem tiver dúvidas especí-
cas identicar claramente quais as leituras recomendadas para cobrir as
necessidades epistemofílicas.
Por m, gostaria de aventar algumas sugestões psicanalíticas sobre
o livro. Embora a autora assegura que o motivo da republicação do estudo
se deve aos 150 anos da tomada de posse presidencial de Manuel Pardo,
permitam-me especular: este texto é uma tentativa de “olhar para o projeto
original da república peruana” do nal do século XIX como uma expressão
de angústia e esperança pelo “período de incerteza” permeando o Peru
atual. É sugestivo, para a nossa leitura, que a autora procure inspecionar as
fundações, cômodos e varandas do referido projeto, mas que, ao mesmo
tempo, arme que tenta “inclusive penetrar, lanterna na mão, nos porões e
sótãos que guardam muitos segredos ainda à espera de serem revelados”.
É igualmente sugestivo que expresse não apenas uma procura de respostas
no passado, mas também aguarde uma dose “da energia e criatividade polí-
tica que tanto necessitamos” (23).
Igualmente abertas às interpretações estão as próprias reexões de
Pardo sobre a contingência; chama-lhe aquele “animal” que “inconsciente-
mente devorava as plantas necessárias à sua vida, desprezando e espezin-
hando aquelas que já não lhe eram úteis” (331). Esta citação, tão oportu-
namente resgatada para nós pela Professora Mc Evoy, é comentada pela
própria e – parece-me – resume muito bem aquilo que foi a lógica do nosso
protagonista: “sua aposta nal foi pela razão (...) pelo predomínio de uma
ideologia republicana que ele acreditava indestrutível (...) é provável pen-
sar, então, que o seu regresso premeditado àquele turbilhão de paixões e
apetites que era o Peru em 1878 – ato que se pode chamar suicida – teve
a ver com uma decisão, cujo objetivo nal era vericar a possibilidade de
transcender a contingência (...) ele próprio assinalou, após um dos atenta-
dos contra a sua vida, que se pode matar o homem, mas nunca a ideia”
(331). Estas expressões tão sugestivamente neuróticas permitem-nos – creio
eu – admirar e desidealizar uma personagem que viveu um feito que per-
maneceu incompleto e que convida ao questionamento da necessidade de
completude ou, melhor, a procurar outras alternativas criativas perante a
real inevitabilidade do assombro perante a incerteza.
Notas al nal
1 Agência: “Capacidade de uma pessoa
para agir e escolher de acordo com a sua
vontade, de maneira simultaneamente
criativa e responsável, em oposição ao
sentimento de ser conduzida passivamente
por forças externas e impessoais.”(León y
Ortuzar,2020)