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Se o leitor tem o hábito de ler os artigos de uma revista na ordem em
que são apresentados, o trabalho a seguir pode parecer mais semelhan-
te aos que são publicados no início deste número, uma vez que aborda
um tema de grande atualidade social, como é a questão das identidades
de gênero. Em Além do binarismo: corpos, resquícios e posições subjeti-
vas de gênero, seu autor, Carlos Jibaba Zárate, tenta se colocar no lugar
anunciado pelo título, além da batalha “entre essencialismo biológico
e construtivismo social”. Ele faz isso com uma abordagem metapsico-
lógica que oferece muito para pensar a partir da clínica, especialmente
se, como analistas, nos sentimos interpelados por esses pacientes, cuja
melhor compreensão não deveria ser encaixar em uma postura a prio-
ri. Para pensar analiticamente o tema, o autor o coloca na interseção
entre a estrutura psíquica e sua relação com o desejo, por um lado, e,
por outro, a matriz intersubjetiva implícita. O que se observa com essa
perspectiva é que, mais do que responder a categorias xas, os papéis
de gênero fazem parte de uma espécie de encenação, onde se jogam
“posições identicatórias múltiplas, contraditórias e multifacetadas”.
Para encerrar esta seção, propomos um artigo que sintetiza de maneira
excelente os mundos complementares da clínica e da reexão social e
que, ao mesmo tempo, oferece ferramentas para pensar o novo, reto-
mando a surpreendente atualidade de um autor clássico. Os Afetos po-
líticos em Sándor Ferenczi, de Jô Gondar, retoma o tema da ternura des-
pojada de toda idealização ingênua, colocando esse sentimento na base
de uma socialização horizontal e emancipatória. A alternativa à violên-
cia não é a subjugação, que também é em si mesma violenta, mas a
aceitação da vulnerabilidade mútua, a construção de uma sociabilidade
baseada na interdependência. Com este artigo, propomos uma espécie
de encerramento de um ciclo reexivo circular que a seção apresenta
sobre os problemas da sociedade contemporânea, as contribuições da
psicanálise para sua compreensão e, nalmente, algumas ideias basea-
das na antropologia psicanalítica que podem colaborar para encontrar
alternativas.
Como é de praxe na nossa diagramação editorial, a seguinte seção é a
que corresponde à Diretoria de Pesquisas. Também aqui há algumas
conquistas que gostaríamos de destacar. O leitor atento poderá notar
que os temas e a maioria dos autores desses três artigos já apareceram
no Volume XIV, Nº 2, de 2023. Naquela ocasião, a Diretora de Pesquisas
da FLAPPSIP, Marta de Giusti, os apresentou dizendo que eram os pri-
meiros avanços das três linhas de pesquisa que haviam sido formadas
em 2023, em resposta à convocatória da área. Agora temos o prazer de
publicar algumas conclusões dos três trabalhos de pesquisa. Deve-se
entender que essas equipes se mantiveram ao longo do tempo, avança-
ram em seu trabalho e produziram novos conhecimentos. São motivos
para comemorar e continuar com essa linha de trabalho, com a qual a
Federação se posiciona diante da interrogação sobre o que e como fazer
pesquisa em psicanálise. O trabalho da Diretoria de Pesquisas resgatou
de maneira fundamentada a especicidade do método clássico, por um