9 / FLAPPSIP
EDITORIAL
NOTA DO EDITOR
EDITORS NOTE
NOTA
10 / FLAPPSIP
Ao publicar esta nova edição de Intercâmbio Psicanalítico, nos encontra-
mos em um momento particular na trajetória da Federação e da nossa
revista.
Por um lado, no mês de outubro passado, ocorreu o XIII Congresso Lati-
no-Americano da FLAPPSIP, em Lima, Peru. Esse fato, além da importân-
cia de manter encontros regulares ao longo de mais de duas décadas,
marcou – por muitas razões – uma mudança qualitativa. O desenvol-
vimento de uma instituição com a projeção territorial da nossa, e com
um objetivo denido e original como é a construção de uma psicaná-
lise latino-americana, apresenta enormes desaos que podem ser
enfrentados com perseverança, diálogo e compromisso. Além de todos
os canais virtuais da atualidade que tornam tarefas que no passado
eram titânicas em tarefas relativamente fáceis, o encontro presencial
favorece o sentimento de pertencimento e o reconhecimento recíproco,
o que substância à estrutura federativa. De um Congresso a outro,
vamos conhecendo e apreciando cada vez mais certas linhas de pro-
dução teórico-clínica, que começam a se estabelecer como referências.
Quem revisar os programas dos treze Congressos realizados até o mo-
mento poderá notar, através dos temas, dos convidados e da dinâmica
organizacional, um avanço sustentado que supera em muito a simples
reprodução escolástica dos autores consagrados nos países centrais.
Acrescentemos a isso a crescente presença de colegas jovens, com uma
saudável marca renovadora em suas contribuições, interesses e partici-
pação.Participar das discussões após as apresentações nas diferentes
mesas permite analisar um clima de debate fundamentado e fraterno, o
que é um aspecto fundamental, pois o intercâmbio profundo e original
vida ao encontro e justica em grande medida o esforço de realizá-lo.
No que diz respeito à Revista, o Congresso também teve elementos que
devemos destacar. Por um lado, a Assembleia de Delegados renovou o
apoio ao Comitê Editorial e à Diretora, que continuará à frente da publi-
cação até 2027: uma responsabilidade que agradecemos e tentaremos
honrar com nosso maior empenho.
Por outro lado, a organização do Congresso instituiu um espaço com
duas mesas semi plenárias simultâneas: uma dedicada à Diretoria de
Pesquisas e outra às Publicações. Isso permitiu visualizar e valorizar a
existência de duas áreas de trabalho cientíco permanente que dinami-
zam a vida da Federação. Não se trata de um simples esforço somatório,
mas, além das respectivas associações e países de seus membros, ree-
tem uma trama de trabalho comum, própria da FLAPPSIP.
Luis Correa Aydo
Director de Intercambio Psicoanalítico
11 / FLAPPSIP
Além disso, em matéria de Publicações, houve a feliz coincidência de que,
poucos dias antes do Congresso, nossa Intercâmbio Psicanalítico tenha
sido indexada e incorporada ao catálogo 2.0 da Latindex. A avaliação
para obter essa classicação é muito rigorosa e implica o cumprimento
de mais de 30 parâmetros exigíveis, que conseguimos alcançar com um
esforço acumulativo que teve início com o primeiro número em 2013.
Não é este o lugar para aprofundar sobre o signicado transcendental,
do ponto de vista cientíco, acadêmico e editorial, dessa conquista, mas
basta dizer que ela melhora a pesquisa, o acesso e a recuperação de
seus conteúdos e aumenta a visibilidade e a credibilidade da publicação.
Além disso, uma divulgação maior e mais qualicada hierarquiza os au-
tores e favorece o uxo de novos e melhores conteúdos.
Quanto a este número em particular, vamos fazer uma breve revisão de
seu conteúdo:
Começamos com o trabalho vencedor do Concurso para Estudantes
Jorge Rosa, edição 2025. Sempre que é realizado um congresso, os co-
legas que estão se formando nas diferentes associações são convidados
a participar deste concurso. O resultado é sempre estimulante, pelo nú-
mero e pela qualidade das propostas. Desta vez, isso não foi a exceção.
Diego Blanco Díaz, colega chileno que está se formando na ASAPPIA,
apresentou um trabalho que articula um compromisso social inspirador
com uma reexão teórica renada. Uma clínica para além dos muros: ha-
bitar a ternura, construir um sujeito ético, poderia muito bem exempli-
car o conjunto de compromissos e objetivos fundacionais da FLAPPSIP.
O sustento nas ideias de Silvia Bleichmar é um excelente exemplo do
signicado de falar sobre “psicanálise latino-americana” e a experiência
relatada exemplica com eloquência o sentido do mote “levar os divãs
para a rua”.
Entramos então no núcleo dos Artigos Cientícos e, para não deixar
dúvidas sobre o sentido de urgência que às vezes tem nosso trabalho, o
artigo Viva a liberdade, caralho! Entre a liberdade pensável e o isolamento
impensável, de Liliana Blaustein e Guillermo Manrique de Lara, mergulha
de cabeça no debate político mais atual. No entanto, o leitor que espera
de uma revista psicanalítica contribuições que não se prendam à minú-
cia da discussão menor não cará desapontado. Os autores transcen-
dem a superfície das palavras e dos apelos da tribuna para propor uma
reexão séria sobre a liberdade. Eles cuidadosamente desvendam os te-
rritórios losócos e antropológicos contidos no conceito e sustentam,
na “contribuição da psicanálise para a revelação da verdade relacional e
das cadeias afetivas que constituem o humano”, a possibilidade de uma
liberdade pensável, apoiada em um projeto comum de caráter ético e
ecológico.
12 / FLAPPSIP
A seguir, Abel Zanotto nos apresenta o reverso do triunfalismo mes-
siânico da liberdade entendida como utopia narcisista. Em Figuras do
desamparo Século XXI, ele argumenta que o desamparo ontológico do
ser humano, longe de ser contido e diminuído pelo amor e pela corres-
ponsabilidade, parece agora amplicado. Nas condições civilizatórias
atuais, a fragilidade da condição humana originária adquire caracterís-
ticas catastrócas (Lewcovicz). Esse aspecto desaa particularmente o
psicanalista, na medida em que deve atender pacientes cujo sofrimento
tem raízes que, no fundo, são políticas. O romance social, como antes
o romance do neurótico, exige que no espaço analítico se construa um
reencontro com o “semelhante”, um trabalho de humanização para abri-
gar uma esperança possível.
Em seguida, apresentamos três artigos que exploram novamente de-
saos muito concretos da clínica psicanalítica. No primeiro deles, In-
tervenções psicanalíticas na clínica do autismo infantil, de Rafael Hernán
Kröhling, são expostas particularidades na abordagem psicanalítica des-
sa condição, que atualmente tem tanto protagonismo na clínica infantil.
Não é a primeira vez que esse tema aparece em nossas páginas. Sabe-
mos que a psicanálise fez algumas primeiras abordagens ao tema que
nem sempre foram as mais adequadas, por isso é relevante a tarefa de
revisão teórico-clínica aqui proposta. E é ainda mais relevante na medida
em que, como neste caso, se ana a questão do diagnóstico diferencial
e as diferentes técnicas de trabalho que surgem como resultado disso.
Da mesma forma, no artigo Os transtornos da conduta alimentar e o furor
curandis, suas autoras Jackeline Morgan e Flavia Pareja retomam o pro-
blema dos transtornos alimentares, que também tem sido um tema reco-
rrente na revista. Sua abordagem tenta estabelecer uma distinção opera-
cional e necessária entre abordar uma problemática com as ferramentas
psicanalíticas ou se concentrar na eliminação de um sintoma. Como oco-
rre com os comportamentos viciantes em geral, a demanda social exige
respostas adaptativas, omitindo que o sintoma pode ser, como costuma
ocorrer com os transtornos alimentares, a última fronteira diante da sen-
sação de colapso psíquico iminente. Completando esta tríade de artigos
clínicos, Lía Pitliuk, com sua proposta Psicanálise em linha/online: convite
a utuar (mais ainda), questiona que a terapia virtual, que foi uma boa so-
lução para oferecer assistência em uma circunstância especial e que ain-
da pode sê-lo em muitos casos, se torne uma ferramenta habitual, como
se fosse simplesmente substituível pela experiência terapêutica presen-
cial. O artigo descentraliza o problema da forma e o redireciona para os
elementos constituintes da situação analítica. O que não se deve perder
de vista em uma boa clínica é “O ‘utuante’ da psique e das relações.
No divã, na tela, na poltrona, no telefone”.
13 / FLAPPSIP
Se o leitor tem o hábito de ler os artigos de uma revista na ordem em
que são apresentados, o trabalho a seguir pode parecer mais semelhan-
te aos que são publicados no início deste número, uma vez que aborda
um tema de grande atualidade social, como é a questão das identidades
de gênero. Em Além do binarismo: corpos, resquícios e posições subjeti-
vas de gênero, seu autor, Carlos Jibaba Zárate, tenta se colocar no lugar
anunciado pelo título, além da batalha “entre essencialismo biológico
e construtivismo social”. Ele faz isso com uma abordagem metapsico-
lógica que oferece muito para pensar a partir da clínica, especialmente
se, como analistas, nos sentimos interpelados por esses pacientes, cuja
melhor compreensão não deveria ser encaixar em uma postura a prio-
ri. Para pensar analiticamente o tema, o autor o coloca na interseção
entre a estrutura psíquica e sua relação com o desejo, por um lado, e,
por outro, a matriz intersubjetiva implícita. O que se observa com essa
perspectiva é que, mais do que responder a categorias xas, os papéis
de gênero fazem parte de uma espécie de encenação, onde se jogam
“posições identicatórias múltiplas, contraditórias e multifacetadas”.
Para encerrar esta seção, propomos um artigo que sintetiza de maneira
excelente os mundos complementares da clínica e da reexão social e
que, ao mesmo tempo, oferece ferramentas para pensar o novo, reto-
mando a surpreendente atualidade de um autor clássico. Os Afetos po-
líticos em Sándor Ferenczi, de Gondar, retoma o tema da ternura des-
pojada de toda idealização ingênua, colocando esse sentimento na base
de uma socialização horizontal e emancipatória. A alternativa à violên-
cia não é a subjugação, que também é em si mesma violenta, mas a
aceitação da vulnerabilidade mútua, a construção de uma sociabilidade
baseada na interdependência. Com este artigo, propomos uma espécie
de encerramento de um ciclo reexivo circular que a seção apresenta
sobre os problemas da sociedade contemporânea, as contribuições da
psicanálise para sua compreensão e, nalmente, algumas ideias basea-
das na antropologia psicanalítica que podem colaborar para encontrar
alternativas.
Como é de praxe na nossa diagramação editorial, a seguinte seção é a
que corresponde à Diretoria de Pesquisas. Também aqui algumas
conquistas que gostaríamos de destacar. O leitor atento poderá notar
que os temas e a maioria dos autores desses três artigos já apareceram
no Volume XIV, Nº 2, de 2023. Naquela ocasião, a Diretora de Pesquisas
da FLAPPSIP, Marta de Giusti, os apresentou dizendo que eram os pri-
meiros avanços das três linhas de pesquisa que haviam sido formadas
em 2023, em resposta à convocatória da área. Agora temos o prazer de
publicar algumas conclusões dos três trabalhos de pesquisa. Deve-se
entender que essas equipes se mantiveram ao longo do tempo, avança-
ram em seu trabalho e produziram novos conhecimentos. São motivos
para comemorar e continuar com essa linha de trabalho, com a qual a
Federação se posiciona diante da interrogação sobre o que e como fazer
pesquisa em psicanálise. O trabalho da Diretoria de Pesquisas resgatou
de maneira fundamentada a especicidade do método clássico, por um
14 / FLAPPSIP
lado, mas também abriu portas para enriquecer nossa disciplina com
outras metodologias do repertório qualitativo das ciências humanas.
Sugerimos ao leitor que faça uma revisão dos artigos de Pesquisa publi-
cados em 2023 antes de abordar os desta edição. Nas três linhas - Psi-
cossomática, Psicanálise e literatura infantil e adolescente, e Trajetórias das
Assexualidades - será possível observar, de maneira diferente em cada
uma, as evidências de um trabalho de equipe, sustentado e fecundo.
Nossa seção de Entrevistas é composta por conversas com duas das
convidadas especiais do XIII Congresso. As colegas brasileiras Maria Bea-
triz Vannuchi, que integra nosso Comitê Editorial, e Flavia Bernardi tive-
ram um longo diálogo com Isildinha Baptista Nogueira. A entrevistada,
que foi protagonista do Congresso não apenas pela sua contribuição
especíca, mas também por sua presença e participação em diversas
mesas ao longo dos três dias, consegue tecer seu testemunho pessoal
e sua trajetória intelectual em uma síntese que comove e desperta o
pensamento de quem a escuta. Sua obra, em muitos sentidos fundacio-
nal, permitiu colocar o tema do racismo como objeto de estudo em um
nível metapsicológico solidamente fundamentado, constituindo-se em
referência incontornável para quem quiser abordá-lo hoje e no futuro.
A segunda entrevista, com a historiadora peruana Carmen Mc Evoy, re-
úne um diálogo animado, onde a solidez do conhecimento da pesquisa-
dora exaustiva se combina com o risco intelectual assumido na formu-
lação de ideias em estado embrionário. O resultado é produtivo e fresco,
estimulante para a reexão e para o compromisso efetivo Talvez duas
circunstâncias tenham contribuído para que assim fosse. Por um lado,
a conjuntura político-institucional do Peru, especialmente acalorada du-
rante os dias do Congresso, e, por outro, o caráter dos entrevistadores,
Tamara Durant e Giancarlo Portugal, ambos jovens psicanalistas perua-
nos. As luzes e sombras da trajetória histórica do Peru, em muitos sen-
tidos paradigmática da história de todo o continente, geram, por meio
desse diálogo interdisciplinar e intergeracional, motivos fundamentados
para a esperança.
A seção de Resenhas Bibliográcas, que sempre busca trazer infor-
mações atualizadas para apoiar o trabalho dos psicanalistas, apresenta
comentários de duas edições deste mesmo ano e uma de 2023. Esta
última, escrita por Liber Rodríguez, comenta o livro Viva a farra! A psi-
canálise argentina descobre o LSD, de Krapp e Huergo. Trata-se de uma
investigação que remonta a meados do século passado, quando uma
circunstância quase novelística abre as portas para experimentos com
drogas psicodélicas no âmbito da saúde mental na Argentina. Esse pro-
cesso, com implicações cientícas, éticas e culturais, antecipou-se em
dez anos ao que Leary e outros levaram adiante durante a revulsiva dé-
cada de 1960. Em ambos os casos, algumas questões ainda merecem
interesse e precisam ser revisadas.
15 / FLAPPSIP
Quanto aos livros de 2025, o primeiro a ser comentado é Amanhã, psi-
canálise! O trabalho de colocar o tratamento no paciente, de L. A. Fran-
cischelli. O comentário de Liane Porn Dutra resgata a importância e a
atualidade de se contar com ensaios sobre teoria da técnica. Partindo
das recomendações freudianas que originaram o conceito de enquadra-
mento, o texto problematiza a prática, reetindo sobre a necessidade
de evitar o trabalho padronizado. Essa atitude, de alerta permanente
ao “aqui e agora” dos tratamentos, pode se estender ao trabalho com
os novos temas que surgem na clínica como reexo das mudanças na
cultura. O próprio título, que alude ao componente cíclico, cotidiano, da
tarefa de analisar, leva a pensar que a atitude analítica é unitária, mas
seu desdobramento concreto deve ser modulado “à medida” para cada
situação clínica e para cada momento de sua evolução.
Finalmente, com a resenha de Daphne Gusie Torres sobre Adulticídio.
Anatomia de uma tragédia invisível, cuja autora é a psicanalista argentina
Hilda Catz, encerramos esta edição da Revista voltando à interação per-
manente entre psicanálise e cultura. Por um lado, a psicanálise se apre-
senta como uma teoria integral da condição humana, mas, por outro, as
condições de subjetivação geradas pela matriz civilizatória hegemônica
parecem tão decientes que desaam os pressupostos que a susten-
tam. A comentarista recomenda o livro para quem trabalha no acom-
panhamento e na formação das novas gerações, pois constitui uma fe-
rramenta valiosa para abrir “uma reexão urgente sobre a erótica do
viver e a transmissão do futuro”.
E, anal, é disso que se trata tudo isso.