16 / FLAPPSIP
ESTUDIANTES
CONCURSO de
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (2), 2025, pp 17 - 21
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI 10.60139/InterPsic/16.2.1
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UNA CLÍNICA EXTRAMUROS:
HABITAR LA TERNURA,
CONSTRUIR UN SUJETO ÉTICO
UNA CLÍNICA EXTRAMUROS:
HABITANDO A TERNURA,
CONSTRUINDO UM SUJETO ÉTICO
AN EXTRAMURAL CLINIC:
INHABITING TENDERNESS,
BUILDING AN ETHICAL SUBJECT
Diego Blanco Díaz
Asociación Argentina de Psiquiatría
y Psicología de la Infancia y Adolescencia
ORCID: 0009-0004-4941-9117
Correo electrónico: diego@casadelencuentro.cl
Fecha de recepción: 01 - 09 - 2025
Fecha de aceptación: 18 - 10 - 2025
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Blanco Díaz D. (2025) UNA CLÍNICA EXTRAMUROS: HABITAR LA TERNURA,
CONSTRUIR UN SUJETO ÉTICO
Intercambio Psicoanalítico 16 (2), DOI 10.60139/InterPsic/16.2.1
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
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UUMA CLÍNICA EXTRAMUROS:
HABITANDO A TERNURA,
CONSTRUINDO UM SUJEITO ÉTICO
Trabajo ganador del Primer Premio en el Concurso para estudiantes de institutos de formación de las Asociaciones de FLAPPSIP en el Congreso 2025
Diego Blanco Díaz1
1 Diego Blanco Díaz: Psicanalista,
Fundador e Diretor Clínico da Casa
del Encuentro Chile. Psicólogo
pela Universidade Alberto
Hurtado. Mestre em Teoria e
Clínica Psicanalítica pela UDP.
Pós-graduado em Psicanálise
da Infância e Adolescência pela
ASAPPIA. Formação em Psicoterapia
Institucional na Clinique La Borde,
França. Última publicação: Niñez,
ética y ciudad: experiencias y
prácticas psicoanalíticas extramuros
(2025), Editorial Cuarto Propio,
Santiago.
Introdução
A partir de uma perspectiva psicanalítica, pensar a cidade nos permite
abordar como o planejamento urbano e sua ideologia podem congu-
rar formas de inclusão e exclusão que impactam as produções subjeti-
vantes em torno da infância. Em contextos de exclusão social, as falhas
encontradas no corpus representacional de crianças com diculdades
de linguagem remetem aos efeitos da divisão de classes sociais em que
estão inseridas, em uma cidade segmentada e fraturada por normas
legais.
Psicanálise Interpelada pela Crueldade
Na conferência intitulada “Estados de Espírito em Psicanálise”, Jacques
Derrida (2001) propõe uma questão: “Podemos pensar (...) em um além
da pulsão de morte ou do domínio soberano, portanto, além de uma cer-
ta crueldade, um além que nada teria a ver nem com pulsões nem com
princípios?” (Derrida, 2001, p. 14). Uma questão que visa desestabilizar a
própria resistência da psicanálise a si mesma e ao mundo, convida-nos
a analisar novas formas do que poderíamos posicionar como práticas
dessubjetivadoras que vêm destruindo laços. Diríamos, não sem ênfase
política, que a América Latina tem sido a terra do avanço diante do ex-
posto, promovido pelo impacto das ditaduras e das lógicas colonialistas
com seus efeitos políticos e culturais circundantes. Nesse sentido, quan-
do Derrida (2001) fala de uma crueldade psíquica para a qual a psica-
nálise poderia direcionar seus esforços, ele nos permite mergulhar nas
formas de desengajamento que nada têm a ver com a pulsão de morte,
mas com os efeitos do desmantelamento da vida coletiva, provocando
as fraturas dessas instâncias de ligação. A esse respeito, Silvia Bleichmar
(2011) aponta:
Essa fratura nas instâncias de ligação é o que gera o triunfo da
pulsão de morte. Mas não é que a pulsão de morte triunfe sobre
as instâncias de ligação, mas sim que estas últimas não conse-
guem mais reter a força pulsional, a ponto de renunciar à pulsão
exigir uma promessa (p. 118).
O que se apresenta é a imediatez biológica do corpo expulso à orfanda-
de do pensamento, sem apoio nem esperança de um projeto próprio
que abrigue um corpo social. A crueldade que recai sobre o corpo repli-
ca sua lógica silenciosa e indiferente: uma infância sem vontade de falar
e capturada como lugar de gozo. “Meu lho não fala comigo”, “Onde
meus olhos te vejam”, “Eu dou o peito a ele toda vez que ele cai, se não
chorar”, são frases comuns entre mães com lhos maiores de quatro
anos em territórios de exclusão onde a crueldade circula sob o manto
de uma ideologia da indiferença, comprometendo instâncias psíquicas.
Assim, os padrões que permitem à criança se posicionar como outro ser
possível são suspensos e, portanto, o corpo se posiciona como única
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testemunha da existência, uma vez que os destinos da pulsão carecem
do suporte que lhe permita mediar a resolução de um prazer que po-
deria ser adiado em busca de um projeto futuro. Freud (1933), mesmo
em sua resposta à pergunta “Por que a Guerra?” de Einstein, situava os
eventos cruéis da história impulsionados por motivos ideais reforçados
pelo inconsciente. No entanto, a crueldade precisa ser pensada, como
propõe Silvia Bleichmar (2001), como um destino da pulsão onde, além
disso, a questão do apoio social que esta pode ter é um requisito para o
seu futuro. Onde estão os ideais para a construção de um projeto histó-
rico do sujeito se circulamos em territórios cujos trânsitos são afetados
por ideologias que promovem a indiferença ao outro?
A Construção de um Sujeito Ético em um Dispositivo Extramuros
Os muros da cidade foram organizados para separar. Portanto: como
nós, clínicos, nos preparamos para trabalhar com tudo o que perma-
nece extramuros? Qual será o objeto de trabalho em uma clínica ex-
tramuros? O fora, aquilo que separa e divide, e constitui os resíduos
institucionais que compõem tudo o que não tem lugar, aquilo que não é
instituído, aquilo que não cabe ou não pode ser visto. É aqui, tomando a
noção de Extramuros proposta por Laplanche e também elaborada por
Silvia Bleichmar, que parece necessário propor novas modalidades que
ultrapassem a caixa tradicional e facilitem entradas de reconhecimento
e inscrição que propiciem recomposições simbolizantes onde o coletivo
como coro social possa participar, introduzindo produções de um co-
mum que sustente e recomponha aqueles cenários onde a crueldade
se deposita em seus silêncios. Para que isso ocorra, são necessários dis-
positivos que abordem a ética em dinâmicas intersubjetivas. De outro
modo, o que se revela são dinâmicas relacionais lançadas na imediatez
biológica do corpo, na ausência de um sistema de representações que
não permita a introdução do pensamento como organizador e articu-
lador de necessidades. É o que Silvia Bleichmar (2001) aborda como a
construção de um sujeito ético:
O problema da ética começa pela maneira como o adulto limitará
seu próprio gozo em relação ao corpo da criança, inscrevendo,
assim, no cuidado que presta, algo de uma circulação delimitada
que, embora libidinal, não é, contudo, puramente erógena, mas
também organizadora (p. 18).
Temos então que a função do outro e seus desdobramentos tornam-se
requisito para um vínculo, onde as necessidades possam ser diferencia-
das para que a criança não que presa à sexualidade do adulto, que
o que se revela em contextos de negligência social é que o corpo parece
ser o primeiro e o último meio de comunicação em um cenário de sobre-
vivência, silêncio e/ou ausência de linguagem.
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Casa del Encuentro: Um Centro Psicanalítico na Cidade
Localizada no Chile, em uma comuna nos arredores de Santiago, Chile,
a Casa del Encuentro é um centro inspirado na Casa Verde, fundada por
Françoise Dolto. Aberta a crianças de 0 a 6 anos, acompanhadas por um
cuidador, oferece um espaço para socialização precoce e para abordar
as preocupações cotidianas da parentalidade. Abaixo, um breve relato
deste local:
Eu estava conversando com duas mães no pátio da Casa del Encuentro
sobre os diagnósticos de autismo de seus lhos, que estavam com elas
naquele dia. A conversa surgiu quando uma das mães mencionou que
havia ido ao neurologista no hospital e lhe disseram: “Bem, você sabe o
que sua lha tem, não é? Sua lha tem autismo. Você sabe o que é isso,
certo?”. Essa mãe, que estava com sua lha de 3 anos no consultório
do neurologista, respondeu que sabia de algo, mas que realmente não
sabia como responder. “Fiquei chocada”, respondeu ela. Perguntei como
ela estava se sentindo desde a resposta do neurologista. Ela respondeu
que estava chocada, que não queria dizer nada porque não conseguia
pensar em nada, mas tudo o que sabe é que saiu do hospital triste, con-
fusa e com muita raiva. “Eu a levei porque ela não falava, e me disseram
outra coisa”, conta. Sobre o que as diculdades de linguagem da lha
signicaram para ela, ela diz: “Eu não entendia nada, e ela também não
falava. Desde que cheguei aqui, há cerca de três meses, minha lha está
falando, ela diz palavrinhas que eu consigo entender um pouco. Algo
aconteceu aqui. Acho que é a maneira como a tratam ou como a ouvem,
não sei.” Enquanto conversávamos, vimos a lha dela, que brincava na
nossa frente, cair, chorando alto e car parada, eu diria até mais, dei-
tada no chão sem se mexer ou fazer nada além de chorar. No entanto,
sua mãe, com quem eu conversava e observava a situação, permaneceu
sentada, observando a situação com certa impassibilidade. Então, eu lhe
disse: “O que você acha de irmos ver o que aconteceu com ela? Esse cho-
ro talvez seja um chamado, e me ocorre que ela talvez queira um abraço
e um beijo seu para se acalmar.” Essa mãe se levanta e vai até a lha,
que estava deitada no chão. Ela gentilmente pega sua mão, mas a mão
da menina permanece solta e foi justamente ali que ela se machucou. Eu
disse à mãe: “E se você tentar segurar a mão dela e acariciá-la? Talvez isso
possa acalmar suas lágrimas de dor.” Essa mãe pegou a mão dela onde
havia se machucado e começou a cantar para ela enquanto a acariciava:
“Cura, cura, meu sapinho, se não sarar hoje, sarará amanhã.” Depois de
um tempo, sua lha parou de chorar e voltou a brincar. No entanto, de-
pois de um tempo, sua lha tropeçou e caiu novamente. “Ela deve estar
com sono, está caindo muito”, disse ela, sentando-se novamente. Nesse
momento, ouve-se a lha chorando alto e gritando “Mãe!”. “Sua lha te
chamou, ela nunca fez isso antes”, diz uma mãe que estava por perto e
que já tinha vindo aqui em outras ocasiões para compartilhar com ela
e a lha. “É verdade, é a primeira vez que a ouço me chamar de mãe.”
Nós duas nos levantamos, tomadas por aquele chamado e chorando ao
mesmo tempo. Enquanto ele estende a mão para a lha, outro menino,
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um pouco mais velho — uns 6 anos — que estava brincando com ela
antes de ela cair, diz: “Acho que ela precisa de um beijo como você deu
antes. Dê um para ela brincar comigo de novo.” Rindo, essa mãe lhe dá
um beijo e, com lágrimas de alegria, me diz: “... esta é a primeira vez que
ela me chama de mãe... talvez ela já tenha dito isso antes, mas agora eu
a ouvi, não sei... estou muito feliz. Desculpe por chorar.”
Uma Casa como Reservatório de Amor Narcisista
Novamente, quando Derrida (2001) pergunta: “Onde começa a cruelda-
de e onde termina?” (P. 52), pode-se dizer que uma maneira possível
para a psicanálise responder a essa pergunta é considerar que tanto o
início quanto o m da crueldade estão em seu destino. O estado con-
gelado — se não petricado — da mãe quando consulta a lha, e o cor-
po caído, sem chorar ou ser ajudado a princípio, são representações da
crueldade. Corpos separados, deslibidinizados, sem serem reconheci-
dos em seu status humano. Em resposta à questão de onde termina a
crueldade, o que acontece na vinheta é que, de diferentes direções, a
ternura aparece como um limite à representação da crueldade. A ternu-
ra, como propõe Fernando Ulloa (2011), é aquela instância ética em que,
paulatinamente, se organiza aquele “sujeito esperançosamente dese-
jante” (p. 123) e onde se “freia o objetivo último, o m da descarga, da
pulsão” (p. 122) para não deixá-la abandonada. A Casa do Encontro atua
então como recipiente e reservatório da ternura, para que se construam
as diretrizes psíquicas de um sujeito ético, por meio do qual o olhar do
outro é aquela garantia necessária para que a infância possa falar na
calma da linguagem.
Referências bibliográcas
BLEICHMAR, S. (2011). La construcción del sujeto ético. Editorial Paidós
BLEICHMAR, S. (2010) Psicoanálisis extramuros. Editorial Entre Ideas.
DERRIDA, J. (2001) Estados de ánimo del psicoanálisis. Editorial Paidós
FREUD, S. (1933) ¿Por qué la guerra? Em Obras Completas, Vol. XXII. Editorial Amorrortu Año
2008
LAPLANCHE, J. (1989) Nuevos fundamentos para el psicoanálisis. Amorrortu Editores.
ULLOA, F. (2011) Novela clínica psiconalítica. Editorial Libros del Zorzal.