INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (2), 2025, pp 24 - 34
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI 10.60139/InterPsic/16.2.2
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¡VIVA LA LIBERTAD, CARAJO!
ENTRE LA LIBERTAD PENSABLE
Y EL AISLAMIENTO IMPENSABLE
VIVA A LIBERDADE, CARALHO!
ENTRE A LIBERDADE PENSÁVEL
E O ISOLAMENTO IMPENSÁVEL.
LONG LIVE FREEDOM, DAMN IT!
ON THINKABLE FREEDOM
AND UNTHINKABLE ISOLATION
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Blaustein V. L. - Manrique de Lara G. (2025) ¡VIVA LA LIBERTAD, CARAJO! ENTRE LA
LIBERTAD PENSABLE Y EL AISLAMIENTO IMPENSABLE
Intercambio Psicoanalítico 16 (2), DOI: 10.60139/InterPsic/16.2.2
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
Liliana Blaustein V.
ORCID: 0009-0009-8672-5347
Correo electrónico: lilyblaustein@gmail.com
Guillermo Manrique de Lara
ORCID: 0009-0009-6234-5788
Correo electrónico: guillermomdlb@hotmail.com
Instituto InterCambio de Psicoterapia Psicoanalítica
Fecha de Recepción: 18 – 09 – 2025
Fecha de Aceptación: 29 -09 - 2025
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Oh, é um mistério para mim
Temos uma cobiça, com a qual concordámos
E acredita que tem de querer mais do que necessitas
Até que você tenha tudo não serás livre.
Sociedade, és uma raça louca
Espero que não te sintas sozinha sem mim
Quando queres mais do que tens
Achas que precisas algo
E quando pensas mais do que queres
Os teus pensamentos começam a sangrar
Canção de Eddie Vedder. “Into the wild”
Em este trabalho, nos propomos pensar o tema da liberdade a partir da
nossa complexa experiência emocional (consciente e inconsciente), nos
diversos âmbitos em que se desenvolve a nossa subjetividade. Gosta-
ríamos de começar com uma denição de liberdade política de Noëlle
McAfee (2015):
Sustento que a liberdade política requer liberdade psíquica ou, em
outras palavras, que a política - a prática de falar e agir com outros
para decidir o que fazer e criar algo novo - requer um imaginário
político radical que só pode ser alcançado por meio da revolta in-
terior e do questionamento radical de nós mesmos (p. 87).
Na citação, McAfee inter-relaciona dois tipos de liberdades. Em este en-
saio, queremos ir mais longe no desenvolvimento destes conceitos e in-
troduzir a noção de liberdade pensável1. Acreditamos que a liberdade
pensável, se desenvolve na cadeia associativa intra, inter e trans-subje-
tiva, bem como no âmbito da participação social e política, que são os
espaços onde se entrelaçam os diferentes níveis de vínculos dos seres
humanos consigo mesmos e com os outros. Essa liberdade pensável é
a única liberdade possível, em contraste com a postulação delirante da
«liberdade absoluta» proposta pelo neoliberalismo que, por ser impossí-
vel, confunde a «liberdade» com a desvinculação omnipotente que ataca
a capacidade de pensar a experiência humana.
VIVA A LIBERDADE, CARALHO!1
ENTRE A LIBERDADE PENSÁVEL E O
ISOLAMENTO IMPENSÁVEL.
1 Slogan da campanha do atual presidente eleito da Argentina, Javier Milei.
Liliana Blaustein V.2
Guillermo Manrique De
Lara3
2 Mestre em Serviço Social
Psiquiátrico pela Yeshivah University,
Nova Iorque. Bacharel em Psicologia
pelo Hunter College, CUNY. Nova
Iorque. Presidente da Inter-
Cambio, instituto de psicoterapia
psicanalítica, membro do conselho
da IAGP (Associação Internacional de
Psicoterapia e Processos Grupais).
Participou de vários livros e revistas
especializadas com artigos como:
Mediadores terapêuticos: Dando
voz às partes silenciosas de nossa
experiência (2025); Alguns pequenos
picados (2023); Prevenir a violência.
Às vezes é melhor cantar (2021).
Chulla-Chaqui e Catsh, o sinistro
revisitado (2014). Desenvolveu
sua prática psicanalítica clínica,
acadêmica e grupal/social em Nova
York, Manágua e Lima.
3 Mestre em Estudos Teóricos
em Psicanálise pela Pontifícia
Universidade Católica do Peru.
Professor, membro associado e atual
Diretor de Formação do Instituto
Inter-Cambio de Psicoterapia
Psicanalítica. Psicólogo clínico no
serviço de saúde mental do Centro
Médico Naval. Psicoterapeuta de
adultos e casais. É autor dos artigos
Psicanálise aplicada a um espaço
acadêmico: o grupo como um
espaço potencial em um workshop
de aprendizagem (2014) e Entrevista
com César Botella (2015), publicados
na Revista da Sociedade Peruana de
Psicanálise.
1Com a ideia de «liberdade pensável», queremos aludir à liberdade sonhável, na linha de
Ogden (2005); ou seja, uma noção de liberdade que dá conta dos complexos processos de
metabolização e integração dos diferentes aspetos relacionais da nossa experiência vivida.
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Estamos num mundo dominado por um sistema económico e político
que vende a ideia de um sujeito capaz de escolher sem limites o seu
próprio destino. No entanto, paradoxalmente, é um tempo em que tudo
o que consideramos essencial para aceder a uma liberdade possível é
dinamitado. O resultado disso é um sujeito confuso e invadido pela cul-
pa de acreditar ter tudo à sua disposição para ser «livre» e feliz, exceto
a si mesmo. Afastado de seus vínculos sociais, sua pretensa “liberdade”
vai se transformando apenas em uma liberdade de consumo; nas pala-
vras de Recalcati, essa liberdade se reduz a mero capricho, uma vez que
“o capricho é, efetivamente, uma forma de liberdade separada do senti-
do ético da responsabilidade” (Recalcati, 2014, p. 52). Mais grave ainda,
o engano de uma «liberdade absoluta» submete a grande maioria a uma
superexploração ao serviço do inútil benefício de minorias que contro-
lam e controlarão os nossos destinos, enquanto colaborarmos com elas.
A liberdade pensável
Embora possa parecer contraditório, consideramos que a liberdade
pensável tem as suas raízes no período inicial da vida. Esse momento
possui entre as suas tendências (provavelmente em continuidade com
a experiência intrauterina) uma necessidade primária que corresponde
aquilo que Freud (1914) introduz como «eu ideal», e que autores pos-
teriores se encarregam de desenvolver, ampliando as suas implicações
para a estruturação do psiquismo humano. Assim, por exemplo, Janine
Chasseguet-Smirguel (1985) vê nesta instância a herdeira do narcisismo
primário, ligando-a com uma experiência de fusão com a mãe/mundo,
onde o ela é o seu próprio ideal. A fusão e a omnipotência são caracte-
rísticas necessárias deste período.
Para além da postura kleiniana e pós-kleiniana do período inicial, em re-
lação a uma prematuridade repleta de um terror sem nome (Bion, 1962),
esse desvalimento (a nossa condição «canguru») coexiste com momen-
tos de recuperação do equilíbrio orgânico e emocional no encontro com
a satisfação. Essa satisfação primária requer, num primeiro momento,
de uma experiência de amor «sucientemente boa» (entendida como
o desejo de que esse bebé exista); de cuidado, entendido como a sus-
tentação de Winnicott (1960) e da capacidade de contenção psíquica da
identicação projetiva do intolerável que preserve esse bem-estar pleno
(Bion, 1962). Ogden (2005, p. 93) refere-se a esse período quando alude
ao termo «continuar sendo» («going on being») de Winnicott, e salienta: «é
uma frase que é toda verbo, sem sujeito. A frase consegue transmitir o
sentimento do movimento da experiência de estar vivo num momento
anterior ao bebé se ter tornado sujeito».
Assim, vai se estabelecendo uma incorporação progressiva da capaci-
dade de contenção das experiências até que seja tolerável o registo do
vínculo simbiótico com uma gura materna, sustentado por um pai ou
outro terceiro que contenha esse vínculo originário (Green, 2011). Estes
processos vão instalando a capacidade de sentir e pensar a partir do
diádico, o que, por sua vez, inicia a potencial construção da terceiridade.
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Ou seja, da capacidade de compreender e tolerar o fato de que é no
vínculo com os outros que se cria a possibilidade da inuência mútua
e de uma síntese singular na complexidade que implica estar vivos nas
nossas vidas num contexto.
No entanto, sendo a integração sempre um processo parcial, uma parte
dessa experiência fusional primária permanece no nosso funcionamen-
to psíquico ao longo da vida. Desde a psicanálise tem se enfatizado muito
a necessária ruptura da simbiose primária com o objeto materno como
uma condição para iniciar o acesso à própria individualidade. No entan-
to, sem diminuir a importância dessa perspectiva, tem-se dado menos
ênfase à indispensável importância do vínculo primário como consti-
tuinte da continuidade psíquica que faz a ponte para uma individuali-
dade plena e criativa. Na perspectiva de acessar a liberdade individual,
pensamos que transitar interiormente protegidos por zonas menos di-
ferenciadas, por áreas de fusão psíquica com os outros signicativos, é
tão importante como se des-sujeitar deles. O fusional o alcançado está
presente, por exemplo, no sonho, na fantasia, no brincar, na criação
artística e as descobertas cientícas. No intersubjetivo, encontramos-a
no enamoramento, no encontro sexual e no vínculo terapêutico psica-
nalítico; e no social, em pertencer a grupos humanos, instituições ou
coletividades, ou quando aderimos a alguma causa social ou política.
De forma mais ampla, podemos dizer que o nosso sentido de liberdade
pensável tem as suas raízes no mais profundo dos vínculos originários
que forjamos e que nos atam silenciosamente ao humano e ao vivo. E
é justamente em esses âmbitos — intra, inter e transubjetivos — que
podemos detectá-la: uma liberdade que transcende o que é percebido
da realidade, abrindo caminho para o novo, sem se afastar do sentido
da realidade que inclui o reconhecimento dos outros e do nosso lugar
no mundo.
No entanto, o processo de desenvolvimento precoce para uma existên-
cia humana implica o triunfo em intensas batalhas entre Eros e Thana-
tos. O resultado de essas batalhas é incerto nos melhores momentos
e pode ser feroz nos piores. São processos que implicam, tanto para
o bebé como para os seus pais, a marca do histórico nos complexos
elos da cadeia que vai desde a predisposição orgânica que cada um traz
consigo até aos vínculos intersubjetivos e macro-grupais, sociais e histó-
ricos, nos quais estamos inseridos. As coisas podem falhar em qualquer
ponto da cadeia.
Vamos tomar aqui uma referência de Bolognini (2011) que, falando do
trabalho clínico com pacientes considerados graves, evoca o mito grego
de Peleu.
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A lenda narra que o herói Peleu, apaixonado por Tétis, lha de Posei-
don, por ela ser uma deusa e ele um simples mortal, teve que enfren-
tar uma prova muito difícil para conquistar o direito de se unir a ela.
A deusa... dotada da capacidade de se metamorfosear, desaou-o a
abraçá-la e segurá-la rmemente enquanto ela se transformava em
diversas formas, numa luta longa e silenciosa. Para tê-la, ele nunca de-
veria soltar o seu abraço. De acordo com diferentes versões do mito,
Tétis transformou-se nos seus braços primeiro em fogo, depois em
gelo, em ponta de echa, em serpente e em muitas outras aparências,
a última das quais, curiosamente, foi a de uma sépia. Mas Peleu, que
estava seguro do seu amor, nunca a soltou, até que a deusa — venci-
da, mas, podemos pensar, acima de tudo «convencida» da certeza do
desejo dele — se abandonou conjugalmente feliz nos seus braços (p.
186).
Esse triunfo de uma contenção que tenta «não soltar», esse abraço amoroso
que com-vence, instala o que ele denomina «o interpsíquico», ou seja, uma
experiência em que “é possível compartilhar um nível básico de fusionali-
dade siológica economicamente vantajosa, com áreas de união tranquila,
sem que o sujeito e o objeto se sintam invadidos, negados ou ‘substituídos’
pelo outro” (Bolognini, 2011, p. 184). Na mesma linha, formulou o conceito
de «perda e/ou abertura de limites benignos», para descrever as passagens
para experiências fusíveis saudáveis quando o eu defensivo do indivíduo é
desativado ou relaxado. De acordo com ele, essas regressões parciais não
patológicas constituem:
... uma das metas profundas da vida humana, uma vez que permitem
o acesso à fusão primária, à nutrição concreta e simbólica, à sociali-
zação, ao emparelhamento amoroso, ao contacto interno com partes
do self e à empatia” (Bolognini, 2004, p. 229).
Acreditamos que somente uma mente capaz de acolher e reconhecer sua
própria dependência dos outros, e de se permitir transitar interiormente por
essas áreas de fusionalidade criativa, alcança expressões de liberdade que
podem se estender para o bem comum. A dança entre o amoroso e o mor-
tífero das sociedades humanas pode ser expressa também na aspiração
utópica de um equilíbrio harmonioso entre o bem comum e o bem-estar
individual. É em toda essa complexidade de territórios e espaços psíquicos
que se desenvolve a liberdade pensável.
O isolamento impensável
Todo mundo que navega na amazon.com (...) vagueia num isolamen-
to construído algoritmicamente, como num panóptico em que, inca-
pazes de nos vermos uns aos outros, só vemos... o que o algoritmo
nos permite ver para maximizar seu lucro na nuvem. Yanis Varoufakis
(2024, p. 87)
Bastante cedo em seu pensamento, Freud (1908, 1912, 1930) nos colocou
na pista de que os sintomas de nossos pacientes eram também uma via de
acesso à cultura. Agora entendemos melhor que em cada trama singular
pode-se ouvir o sujeito social de cada época e, ao mesmo tempo, cada in-
divíduo contribui com seu ponto original para o tecido social que constitui.
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Sabemos atualmente que a experiência subjetiva dos nossos pacientes
nos leva a territórios cada vez mais primários, quase às fronteiras mes-
mas do surgimento da vida e do psíquico, onde, nas palavras de Ogden
(2014), se joga a vida não vivida. Hoje em dia, para dizer de forma des-
portiva, «o jogo é jogado noutro campo».
Estamos interessados em aproximar-nos para pensar sobre o que é
esse outro jogo, em que campo é jogado e quais são as regras do jogo.
Acreditamos que o sofrimento do sujeito desta época, em muitos aspe-
tos, tem a ver com a confusão entre a pseudopercepção de um mundo
de supostas «liberdades absolutas» e a impotência de se deparar com
condições subjetivas que o isolam da possibilidade de se apoiar nos
seus vínculos humanos para poder expressar a sua liberdade pensável
dentro de si e com os outros, no mundo.
Somos confrontados com estados psíquicos em que a vida mental é se-
riamente atacada: comportamentos aditivos, estados desorganizadores
de pânico e perseguição no encontro com o outro real, retiros narci-
sistas massivos para o mundo virtual (“era autistoide”, nas palavras de
Jorge Ahumada), estados de vazio e solidão insuportáveis, intolerância e
violência extrema para com o outro e para consigo mesmo, etc. Pensa-
mos aqui em alguns dos nossos pacientes que, longe de sentir saudades
do mundo que nos foi roubado pelo vírus na pandemia, começaram a
sentir-se internamente aliviados pelo connamento e, em certos casos,
francamente felizes. Como nos dizia D., quando a quarentena começou
a ser levantada: “Sabe, no fundo, tudo isso me irrita, eu queria que o
mundo casse assim... todos em suas casas e pronto, acabou-se a vida
como a conhecemos. Seria um pouco como se todos estivéssemos
iguais, equiparados. No mundo virtual, tenho mais domínio, sou alguém
diferente”. Para ele, era preferível o isolamento de uma experiência vir-
tual total do que continuar a suportar o encontro com os outros reais,
carregado de dor e perseguição; a liberdade impossível no mundo da
presença foi substituída por uma sensação de pseudo-liberdade cons-
truída sobre uma realidade mais omnipotentemente controlável, a par-
tir do espaço virtual.
Jonathan Haidt (2024), investigador da Universidade de Nova Iorque,
mostra-nos um panorama difícil da juventude precoce. Arma que os
smartphones provocaram uma onda de ansiedade e depressão na ge-
ração Z em todo o mundo, um acesso contínuo às redes sociais, videojo-
gos online e outras atividades baseadas na Internet. Segundo ele, há
quatro danos fundamentais neste impacto na juventude: privação social
(não há socialização fora de casa), privação de sono, fragmentação da
atenção e dependência. Os dados a esse respeito são impressionantes:
entre 2010 e 2020, os casos de automutilação aumentaram 150% e os
suicídios, 50%. (Sendo que esse número representa um aumento de
167% para pré-adolescentes e adolescentes do sexo feminino).2
2 Por outro lado, no Peru, os números do
Ministério da Saúde (MINSA, 7 de dezembro
de 2022) relataram que, entre 2016 e 2021,
71% dos suicídios ocorreram em pessoas
entre 15 e 34 anos.
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Existe uma complexidade transgeracional histórica, social e cultural por
trás destes dados distópicos do presente. As causas correspondem a
múltiplos domínios da experiência humana. A tecnologia virtual, inicial-
mente produto da livre colaboração criativa de milhares de indivíduos,
é hoje um dos principais veículos de processos nos quais os nossos vín-
culos sociais estão se destruindo. O sistema económico tem cada vez
mais poder para promover as características da nossa mente que mais
o favorecem, como os traços aditivos, e atacar as que não o favorecem,
como a empatia. A transmissão dessas preferências do sistema expres-
sa-se na intimidade dos laços com a família e a comunidade. Ou seja, nas
atuais condições sociais, até que ponto é possível aos pais e às comuni-
dades humanas manter os braços em torno das crianças e adolescentes,
contendo as suas necessidades de desenvolvimento? E até que ponto
tiveram de largar esses abraços, deixando as crianças e adolescentes
expostos a um impacto direto, não mediado, de forças onde prevalece o
destrutivo e estão ausentes a vida e o amor?
Pensando nisso, Grotstein (1995) cunhou o termo “órfãos do real” para
descrever o estado de orfandade psíquica de certas pessoas diante da
profunda negligência daqueles que deveriam cuidar delas e contê-las no
início da vida. Assim, elas são “lançadas” prematuramente à realidade.
Elas saem para o mundo sem terem tido as proteções psíquicas neces-
sárias, tendo que estabelecer defesas muito primárias que prejudicam
substancialmente a possível integração das partes de sua mente. Por
outro lado, numa análise do trabalho de Winnicott sobre «O medo do
colapso», Ogden (2014) explica-nos que o colapso psíquico a que Winni-
cott se refere não é sinónimo de psicose, mas sim um estado de agonias
primitivas impensáveis, que são vividas em momentos de desconexão
do vínculo primordial mãe-bebé; assinala:
O infante que se encontra num estado não integrado, por si mes-
mo, fora do vínculo mãe-infante, está num estado de terror e, em
vez de experimentar a agonia, impede o desenvolvimento da ex-
periência e substitui-a por uma organização de defesa psicótica»
(pp. 210-211).
Ou seja, as defesas psicóticas viriam a evitar as angústias aterrorizantes
do colapso dos primeiros momentos da vida, o mesmo que se enraíza
na desconexão do afeto amoroso no vínculo primordial na vida do bebé.
Embora esses conceitos tenham sido pensados para pacientes consi-
derados graves, acreditamos que eles nos permitem fazer uma ponte
com as condições contemporâneas de subjetivação. Os meios eletrôni-
cos conseguiram prolongar os horários de trabalho e captar a atenção
dos pais de tal forma que as funções parentais cam bloqueadas ou
enfraquecidas. Consequentemente, as crianças são lançadas prematu-
ramente e sem mediação ao contacto com um excesso de informação e
conteúdos virtuais que ultrapassam violentamente as suas capacidades
de incorporação. Hoje, quando não há tempo, exceto para o consumo e
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a hiper produtividade, as famílias parecem não ser elementos sucien-
temente mediadores/metabolizadores do impacto dessas condições de
existência. Os pais, além de seus melhores esforços, não têm di-
culdade em reetir a transformação da identicação projetiva em con-
teúdos passíveis de serem introjetados por seus lhos, mas também
em se estabelecerem como objetos de desejo mais atraentes do que
as telas. Estas, por sua vez, fornecem apenas pseudo-identicações que
«remendam» temporariamente os buracos afetivos do self. Para mui-
tas crianças, as telas substituíram esse olhar especular e narcisisante
dos pais, confundindo o que deveria ser a contenção do amor por um
simulacro de vínculo e que só pode devolver uma imagem fragmentada
e carregada de elementos persecutórios. Daí que Marta Gerez (2023)
denomine o sujeito contemporâneo como «um esboço de Narciso», isto
é, um Narciso que se afastou do espelho para se voltar para as telas,
gerando, como diz o cantor Victor Heredia: «... essa solidão que todos
carregamos, ilhas perdidas...».
Por outro lado, é necessário pensar as condições estruturais e históri-
cas de produção do sofrimento contemporâneo. Desde “O mal-estar na
cultura” (Freud, 1930), a psicanálise tem se questionado sobre os de-
saos que enfrentamos como espécie na busca de soluções coletivas
que contribuam não apenas para a nossa sobrevivência, mas também
para o nosso bem-estar. De acordo com Kaes (2007, p. 4), a criação das
estruturas sociais e da cultura impõe “o pacto de renúncia à realização
direta dos ns pulsionais que funda a comunidade de direito, que nos
protege contra a violência, impõe o trabalho da cultura e torna possível
o amor”. Acreditamos que a natureza desses pactos coletivos, embora
estruturantes, sempre contém um aspecto ilusório. Atualmente, Kaes
(2007, p. 2) postula que a nossa experiência subjetiva é ameaçada pela
«instabilidade dos seus alicerces, pelas fraturas dos receptáculos que
enquadram e sustentam os processos do seu desenvolvimento». Pode-
ríamos dizer com Bolognini: a queda dos braços que sustentam.
A história dos «acordos metasociais» da humanidade reete
avanços e retrocessos caóticos, onde muitas vezes a violência e a menti-
ra impõem a ordem social. Temos momentos de triunfo do amoroso e do
vivo, seguidos pela devastação do destrutivo no interior das sociedades
e nas ligações com outras sociedades. Um exemplo desses momentos
em que a vida abre caminho é a experiência da democracia grega entre
os séculos VIII e V a.C. Surge um período de plena participação de todos
os cidadãos nas decisões que afetam a vida coletiva. É um momento que
conrma que uma convivência mais justa e inclusiva é possível (James,
1956).
Contrariamente, na experiência contemporânea, o bem individual apa-
rece separado de qualquer referência (ou esperança) do bem-estar cole-
tivo. Acreditamos que uma “reprimarização” do funcionamento mental
vem ganhando protagonismo: na falta de um espaço interpsíquico cons-
tituído, as aproximações com o outro podem estar imbuídas de intrusi-
vidade, abandono ou indiferença mortífera, tornando quase impossível
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qualquer convivência viva criadora de intimidade. É quando o paranoi-
de, o violento, o aditivo e a sombra escura do narcisismo negativo inva-
dem a cena, mostrando-nos os rostos da loucura contida no isolamento
impensável.
McGowan (2016) arma:
O capitalismo transcende a cultura... A cultura proporciona ao su-
jeito um sentido de pertencimento que o capitalismo não propor-
ciona... O capitalismo oferece a promessa de pertencimento com
cada mercadoria ..., mas o sujeito nunca pode comprar a merca-
doria perfeita, ou as sucientes, para desvendar o segredo do per-
tencimento... (p. 19).
Essa adesão a um objeto que promete uma satisfação que apenas au-
menta a necessidade de preencher um vazio impossível de ser preenchi-
do é ilustrada por Director, L. (2002), quando apresenta a experiência de
um paciente que convive, ao mesmo tempo, com um sucesso prossio-
nal árduo e um vício suicida em álcool:
... os seus sonhos pareciam trazer-lhe uma liberdade paradoxal
— ele cobrava vida quando adormecia — desde que os seus son-
hos nunca se tornassem realidade; como era conveniente, então,
beber álcool: oferecia-lhe um estado condicional para se permitir
uma vivicação. Ele podia fazer ou ser o que quisesse, no álcool ou
no sonho, desde que permanecesse somente em esses universos
(p. 551).
O isolamento impensável insere-se em condições em que o neolibera-
lismo parece ter fundado uma nova organização económica e social ba-
seada na manipulação nanceira através da tecnologia. No centro desse
sistema está a promoção do engodo da “liberdade absoluta”. Como diz
cinicamente o atual presidente da Argentina, Javier Milei (2022), este é
um sistema onde: “O indivíduo tem liberdade absoluta de escolha, e se
as suas opções são trabalhar 14 horas ou morrer de fome, caberá a ele
decidir o que escolhe”.
Em este momento, uma desigualdade como nunca antes na história
deixa uma minoria ínma com o poder de controlar um sistema que os
enriquece de uma forma sem precedentes, enquanto o resto da huma-
nidade empobrece económica, vincular e psiquicamente. A isto pode-
mos acrescentar a destruição iminente do mundo natural que nos sus-
tenta. Esta “reprimarização” da nossa psique é absolutamente funcional
para nos manter compartimentados e cegos ao nosso interesse comum.
Sendo tudo isto prevalente, não podemos deixar de mencionar que os
mesmos meios eletrônicos que destroem os nossos vínculos tem sido,
são e poderão ser usados para favorecer uma vincularidade familiar,
comunitária e política, desde que estejam ao serviço do humano.
Por outro lado, é importante marcar a diferença entre o norte e o sul glo-
bal. Por um lado, o Sul tem suportado a destruição proveniente do colo-
nialismo e do pós-colonialíssimo extrativo e destrutivo do norte global,
incluindo o impacto das alterações climáticas. No obstante, acreditamos
que, pelo menos parcialmente, o sul global (Ásia, África e América Latina,
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que compartilham a herança pós-colonial) conseguiu a sobrevivência de
vínculos e recursos culturais comunitários, incluindo a arte. Além dis-
so, o Sul abriga territórios de natureza ainda preservada, vitais para a
sobrevivência da humanidade. As persistências de mediações criativas
possibilitam a esperança de uma resistência ao destrutivo e uma rebe-
lião em favor do vivo, em coletivos que integrem nossos interesses inter-
seccionais. A partir do que vive e persiste, é possível sonhar com novos
tecidos de vínculos que nos sustentem. Um exemplo desse potencial
está na expressão de J., um pescador pertencente à Associação Pacha-
cutana, que reúne os e es vizinhos de Ventanilla organizados para se
defenderem do pior derrame de petróleo na costa do Peru. Ele nos diz:
Como não sentir saudade de acordar de madrugada e sair com
os companheiros para pescar e depois voltar para casa e chamar:
Pai, mãe, esposa, já trouxe peixe. Vamos fazer um ceviche para o
almoço.3
A contribuição da psicanálise para a revelação da verdade vincular e das
cadeias afetivas que constituem o humano podem também apoiar os
processos grupais e macro-grupais que transformariam as circunstân-
cias atuais. Isso implica apropriarmo-nos da liberdade de abrir os nos-
sos braços, primeiro em torno das crianças e adolescentes. Mas, além
disso, consideramos urgente estender esse abraço para unir forças com
indivíduos e organizações, no Norte e no sul. É vital enfrentar a mentira
de que a nossa destruição é inevitável. Este é o único planeta com vida
no universo conhecido e resulta monstruoso que essa vida sucumba à
voracidade da ganância de alguns. Cabe-nos, dentro e fora do consul-
tório, sonhar e fazer para que a força criativa, a liberdade possível do
amoroso dentro de nós e entre nós, reivindique o direito de fundar uma
nova utopia: transformar a vida dos nossos vínculos sociais, favorecendo
o complexo e inseparável entrelaçamento entre o bem-estar individual
e o bem comum, hoje ameaçados, mortiferamente, como nunca antes
3 Esta citação pertence a “Mediações,
criatividade e vínculos diante de um
desastre ecológico”, intervenção
psicanalítica comunitária da I-Cels
(Intercâmbio na sociedade) em dois centros
de saúde mental do MINSA. Realizada entre
maio e outubro de 2022.
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (2), 2025, pp 24 - 34
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI 10.60139/InterPsic/16.2.2
34 / FLAPPSIP
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