
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (2), 2025, pp 37 - 46
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI 10.60139/InterPsic/16.2.3
40 / FLAPPSIP
Especica-se que mais de um bilhão de pessoas de todas as idades con-
vivem com algum transtorno mental, representando 13% da população
global e afetando mais mulheres que homens. Assim, uma em cada oito
pessoas tem um problema de saúde mental, e 71% dos indivíduos com
psicoses não têm acesso aos serviços necessários para evitar riscos a si
e aos outros.
Ao detalhar esses números, enfatiza-se o papel fundamental da epide-
mia de COVID-19 no aumento de patologias, com efeitos a longo prazo
difíceis de prever, destacando que a maior prevalência ocorre entre 40
e 44 anos, sendo o “transtorno de ansiedade” o mais comum, seguido
pelos “transtornos depressivos”. A Espanha lidera o consumo mundial
de ansiolíticos. Embora as estatísticas para a América Latina não sejam
rigorosas, no Uruguai, em 2021, foram emitidas mais de um milhão de
receitas, além do consumo favorecido pelo tráco no mercado negro e
nas redes, enquanto na Argentina, em 2022, foram vendidas quase 53
milhões de unidades de psicofármacos. Uma epidemia catastróca.
Retomando alguns conceitos de Lewcowicz, se o ponto de partida é a
catástrofe como horizonte geral do contemporâneo, abre-se a possi-
bilidade de pensar a catástrofe não como um ataque a uma estrutura
previamente formada, mas como uma condição prévia e estruturante
da subjetividade. Surge, então, a pergunta: ¿o que isso signica e quais
repercussões pode ter?
E sugere que a existência não está garantida em épocas capitalistas, e
que essa posição neoliberal, mercantilista e globalizada reduz os cor-
pos à condição de supéruos. O ser humano torna-se mais um número
em políticas de ajustes cruéis, nas quais o sujeito ca anulado, devendo
cumprir metas de superávit sob o reinado de senhores supranacionais
que redenem e atualizam as condições de escravidão e, como se verá
mais adiante, avassalam direitos humanos fundamentais a uma vida
digna.
Nesse sentido, a psicanalista argentina Braun (2018, p. 57) arma que
“na história da humanidade, existiram períodos em que a transgressão
superou e excedeu de forma alarmante a preservação dos direitos hu-
manos, constituindo verdadeiras catástrofes sociais”. Ela enumera, por
exemplo, guerras, genocídios, ditaduras, tiranias, autoritarismos, per-
seguições – às quais podemos adicionar ajustes socioeconômicos sel-
vagens – que ampliam as tragédias associadas às catástrofes naturais,
muitas delas resultado das devastadoras ações humanas no Antropo-
ceno.
É, portanto, nessas realidades conhecidas e novas que as diferentes ma-
nifestações do sofrimento humano – auto, mas geralmente heteroini-
gido – permitem sustentar que o desvalimento hoje apresenta múltiplas
guras, e que o desvalido e desamparado pode ser nomeado de diferen-
tes formas: “perdedor”, “excluído”, “inútil”, “de algum lugar”, “invisível”. O
“sem nome”. Ou, simplesmente, ser nomeado como “o outro”, embora o