INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (2), 2025, pp 37 - 46
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI 10.60139/InterPsic/16.2.3
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FIGURAS
DEL DESVALIMIENTO SIGLO XXI
FIGURAS
DO DESVALIMENTO NO SÉCULO XXI
FIGURES
OF HELPLESSNESS IN THE 21ST CENTURY
Abel Zanotto
Asociación Escuela Argentina de Psicoterapia para Graduados
ORCID: 0009-0002-3301-5375
Correo electrónico: zanottoabel@gmail.com
Fecha de recepción: 16-09-2025
Fecha de aceptación: 08-10-2025
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Zanotto A. (2025) FIGURAS DEL DESVALIMIENTO SIGLO XXI
Intercambio Psicoanalítico 16 (2), DOI: 10.60139/InterPsic/16.2.3
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
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O signicante “desvalimento” – e outros a ele associados, como “desam-
paro” e “angústia”, para citar apenas alguns – é recorrente em nossa du-
pla condição de psicanalistas e cidadãos, e de cidadãos e psicanalistas.
No entanto, é interessante observar que nem sempre aparece registra-
do como tal nos dicionários.
Na Enciclopedia Salvat (1978, p. 3263), por exemplo, encontra-se o ter-
mo “valimento”, denido como “ação de valer-se de algo // Privança ou
aceitação particular que uma pessoa tem com outra, especialmente se
for príncipe ou personagem de alta posição”. Recomenda-se consultar o
adjetivo qualicativo “favorito”, denido na mesma obra (p. 1374) como
derivado de “favoritismo”, referindo-se a alguém “estimado e apreciado
com preferência”. A acepção “valimento” conclui: “Amparo, favor ou de-
fesa”. Já segundo uma denição geral produzida pela IA, “desvalimento”
é, de acordo com o Dicionário da Língua Espanhola da RAE, “um desam-
paro, um abandono ou uma falta de ajuda ou valor”.
Um acercamento interdisciplinar
Em “A psicanálise diante do desvalimento e do desamparo na infância
e na adolescência. Sublimar a crueldade? Subjetivação possível? Actis
Caporale (2024, p. 1) sugere “articular o conceito de desvalimento origi-
nal, tal como pensado por Freud, com a noção de hiosigkeit, entendida
como um estado de indefesa do infans devido à sua prematuridade, que
diculta a tramitação de magnitudes de estímulos”. Ao mesmo tempo,
propõe distingui-lo especicamente das vivências de desvalimento pro-
vocadas pela falta de auxílio do outro, o que permitiria pensar em expe-
riências de desamparo.
Podemos considerar, então, que a presença do prexo des- articu-
lando-se lógica e semanticamente em termos como “des-valimento”
e “des-amparo” evocaria situações de fragilidade bio-psico-social nas
quais o sujeito se vê privado de proteção, ajuda e solidariedade, em tra-
mas vinculares onde o “outro semelhante” se apresenta com o semblan-
te do “outro inimigo”.
A partir da losoa e da psicanálise, Fleury, em “O ressentimento como
motor histórico, produz efeitos reacionários (2024), retoma o termo “al-
tricilidade”, precisando alguns dos conceitos já mencionados.
Recorre à zoologia para destacar que as crias altriciais são aquelas que
nascem cegas, com os condutos auditivos fechados, praticamente sem
pelos ou penas e com mobilidade muito limitada. Seu organismo preci-
sa amadurecer após o nascimento para alcançar as características do
indivíduo adulto, exigindo um longo processo de aprendizado. No caso
contrário, quando as crias nascem bastante desenvolvidas, trata-se de
espécies precociais.
FIGURAS
DO DESVALIMENTO NO SÉCULO XXI
Abel Zanotto1
1 Licenciado em Psicologia (UBA)
e Licenciado em Sociologia (UBA).
Psicanalista. AEAPG (Associação
Escola Argentina de Psicoterapia
para Graduados), “Área de Infância
e Adolescência” e ciclo “Psicanalistas
em Diálogo com as Artes”. Buenos
Aires, Argentina.
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Fleury arma, então, que a espécie humana é altricial, pois ao nascer so-
mos desvalidos e necessitamos de um longo tempo de desenvolvimento
no qual, segundo suas palavras, deve-se enfatizar o care – cuidado – no
duplo sentido: tanto das condições sanitárias próprias da saúde pública
quanto das emoções.
Apoia-se nas teorias do apego e enfatiza que todo ser humano nasce
prematuro por estrutura não apenas os denominados “prematuros”
e que a espécie humana é a que mais necessita do outro, do care
mencionado, não apenas na estrutura vincular mãe/lho, mas também
da comunidade e da sociedade. Não somente para nascer, mas também
para viver. Em denitiva: crescer em condições de amparo e valimento,
tanto vinculares quanto institucionais, pois, segundo sua visão, nasce-
mos e carregamos condicionamentos econômicos, culturais e históricos.
Em “Formas atuais da violencia” Weisse (2024, p. 72) observa que “a an-
gústia é aquele ponto em que o sujeito se encontra suspenso entre um
momento em que não sabe onde está e um futuro no qual jamais
poderá se reencontrar”.
Ou seja, se considerarmos que, nas condições globalizadas atuais, oco-
rreu uma “estabilização das catástrofes”, segundo Lewcowicz (2002, p.
30), e com base em paradigmas aportados pela história e pela semio-
logia, conrma-se o que este autor também arma: “para um habitante
da era neoliberal, a catástrofe é sempre seu ponto de partida, sua on-
tologia, sua condição originária”. Adiciona mais adiante que, uma vez
desarticuladas as condições gerais, a catástrofe se instala como marca
dominante da subjetividade contemporânea, denindo situações que
nos enfrentam a múltiplos desaos políticos e epistemológicos, que po-
dem ser resumidos na questão de como pensar as catástrofes quando
já se estabilizaram como marcas pessoais e comunitárias.
A demograa indica que, em 2024, a população mundial supera os 8
bilhões de habitantes e que, em 2021, havia 27 milhões de refugiados
no mundo, aumentando para mais de 35 milhões no ano seguinte. Se-
gundo as Nações Unidas, em 2023 mais de vinte países, com uma popu-
lação de 850 milhões de pessoas, experimentaram conitos de intensi-
dade média e alta, além de outras catástrofes sociais e naturais, como
inação, escassez de alimentos e crises climáticas, que levam milhares
de seres humanos a arriscar a vida em embarcações – muitas vezes sob
controle de máas que operam no tráco de pessoas – que naufragam
em alto mar: em Fábulas (“Página 12”, contracapa, edição de 20/06/24),
o psicanalista e escritor Martín Smud arma: “o mundo está cheio de
migrantes que se lançam ao Mediterrâneo, tentando escapar de seus
lugares de origem, onde são explorados e morrem de fome”.
Diversos meios de comunicação massivos publicaram, em setembro de
2025, um relatório alarmante da OMS, classicado como “preocupante”.
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Especica-se que mais de um bilhão de pessoas de todas as idades con-
vivem com algum transtorno mental, representando 13% da população
global e afetando mais mulheres que homens. Assim, uma em cada oito
pessoas tem um problema de saúde mental, e 71% dos indivíduos com
psicoses não têm acesso aos serviços necessários para evitar riscos a si
e aos outros.
Ao detalhar esses números, enfatiza-se o papel fundamental da epide-
mia de COVID-19 no aumento de patologias, com efeitos a longo prazo
difíceis de prever, destacando que a maior prevalência ocorre entre 40
e 44 anos, sendo o “transtorno de ansiedade” o mais comum, seguido
pelos “transtornos depressivos”. A Espanha lidera o consumo mundial
de ansiolíticos. Embora as estatísticas para a América Latina não sejam
rigorosas, no Uruguai, em 2021, foram emitidas mais de um milhão de
receitas, além do consumo favorecido pelo tráco no mercado negro e
nas redes, enquanto na Argentina, em 2022, foram vendidas quase 53
milhões de unidades de psicofármacos. Uma epidemia catastróca.
Retomando alguns conceitos de Lewcowicz, se o ponto de partida é a
catástrofe como horizonte geral do contemporâneo, abre-se a possi-
bilidade de pensar a catástrofe não como um ataque a uma estrutura
previamente formada, mas como uma condição prévia e estruturante
da subjetividade. Surge, então, a pergunta: ¿o que isso signica e quais
repercussões pode ter?
E sugere que a existência não está garantida em épocas capitalistas, e
que essa posição neoliberal, mercantilista e globalizada reduz os cor-
pos à condição de supéruos. O ser humano torna-se mais um número
em políticas de ajustes cruéis, nas quais o sujeito ca anulado, devendo
cumprir metas de superávit sob o reinado de senhores supranacionais
que redenem e atualizam as condições de escravidão e, como se verá
mais adiante, avassalam direitos humanos fundamentais a uma vida
digna.
Nesse sentido, a psicanalista argentina Braun (2018, p. 57) arma que
“na história da humanidade, existiram períodos em que a transgressão
superou e excedeu de forma alarmante a preservação dos direitos hu-
manos, constituindo verdadeiras catástrofes sociais”. Ela enumera, por
exemplo, guerras, genocídios, ditaduras, tiranias, autoritarismos, per-
seguições às quais podemos adicionar ajustes socioeconômicos sel-
vagens que ampliam as tragédias associadas às catástrofes naturais,
muitas delas resultado das devastadoras ações humanas no Antropo-
ceno.
É, portanto, nessas realidades conhecidas e novas que as diferentes ma-
nifestações do sofrimento humano auto, mas geralmente heteroini-
gido – permitem sustentar que o desvalimento hoje apresenta múltiplas
guras, e que o desvalido e desamparado pode ser nomeado de diferen-
tes formas: “perdedor”, “excluído”, “inútil”, “de algum lugar”, “invisível”. O
“sem nome”. Ou, simplesmente, ser nomeado como “o outro”, embora o
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artigo neutro “o” anule qualquer traço humano e qualquer forma de ser
nomeado. Como indicado anteriormente, simplesmente “um número”.
Um último aporte nesse sentido. O escritor e ensaísta francês Houelle-
becq impregnado por um evidente pessimismo arma em O mun-
do como supermercado (1998, p. 42) que é surpreendente observar “a
alegre despreocupação com que se tenta desbancar a psicanálise para
substituí-la por uma leitura reducionista do ser humano baseada em
hormônios e neurotransmissores”. Ele acrescenta que catástrofes inca-
pacitantes, como a dissolução progressiva dos laços sociais e a tendên-
cia crescente de considerar os sujeitos meras partículas em constantes
colisões, “impedem a aplicação de qualquer solução política”.
A novela societal
Aproximemo-nos novamente de Fleury, que sustenta que, anos, a
precariedade e a metropolização têm desvalorizado muitas e extensas
regiões do mundo, questionando ao mesmo tempo qual é a estrutura
latente desses fenômenos massivos e incontroláveis. Ela esboça sua res-
posta: a degradação das sociedades ocidentais e a percepção dessa de-
gradação pelas classes médias e trabalhadoras acrescida de seus co-
rrespondentes estados intra e intersubjetivos de desvalimento – seriam
reforçadas pela crise da moradia, do poder aquisitivo e do desemprego.
Fundamentalmente, a sensação de redução e mercantilização do indi-
víduo é central: na medida em que o vínculo social está mediado pelo
dinheiro e pelas trocas que ele facilita ou impede, generaliza-se o senti-
mento de que o sujeito é uma mercadoria, pois, segundo suas reexões,
o indivíduo é fundamentalmente denido e valorizado por seu poder
aquisitivo e por suas capacidades exclusivamente pessoais.
A autora também se interroga sobre quem mantém erguido o sujeito
e o que mantém erguidas as sociedades. Uma resposta possível res-
salta que não são a violência nem o ressentimento, mas a sublimação
da violência numa operação psíquica, na qual a violência não é negada,
mas sublimada por meio de simbolizações individuais e coletivas.
Segundo Fleury, no momento “emblemático da sessão”, no espaço “em-
blemático” do consultório, transmite-se uma relação do sujeito consigo
mesmo e com o mundo. Ali convergem uma trama, um desenho entre
o romance familiar e a neurose do analisando, e o que ela denomina
“romance societal” e suas múltiplas disfunções, mas também o aporte
criativo de intensas forças sublimares, geralmente associadas à cultura,
e, mais especicamente, à educação e ao cuidado vincular no microcos-
mo familiar.
Partindo e ampliando as ideias de “O romance familiar dos neuróticos
(Freud, 1908), Fleury arma que nesse “romance societal” se desdobra-
riam as múltiplas guras do desvalimento atual. Ela se refere à sua ex-
periência prossional, que, com seus matizes diferenciadores, reete
nossas próprias experiências prossionais, e sustenta que hoje “o sofri-
mento é eminentemente político”.
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A vida no consultório
Então, sobre o que alguns pacientes falam hoje? Emília é uma aposenta-
da que, como todo aposentado, se pergunta desde sempre – mas talvez
hoje mais do que nunca como levar uma vida digna baseada em re-
núncias e sacrifícios. Ou seja: como seguir seus dias com recompensas
quase insignicantes e alegrias cada vez menores, para não dizer inexis-
tentes.
O analisando Damián se pergunta até quando seus pais poderão con-
tinuar custeando sua universidade privada; Luis precisa ir a um hospi-
tal público às quatro da manhã para conseguir uma consulta, pois não
pôde continuar pagando seu plano de saúde; e María Eugenia dorme
muito mal esperando a conrmação se poderá continuar alugando o
estúdio onde vive.
As quatro pessoas mencionadas sentem “medo”. E “medo não é bobo”.
É preciso ouvi-lo. A psicanálise tem se aproximado diversas vezes do
tema do medo. Entre múltiplas contribuições de vários autores, compar-
tilha-se a reexão da psicanalista espanhola Rodríguez Rendo, que ar-
ma que a fragilidade simbólica está presente todos os dias e em todas
as vidas, e que a atualidade do desamparo é – e deve ser – considerada
ainda mais pela teoria psicanalítica, pois o medo impacta de forma es-
magadora o psiquismo e leva o sujeito a conviver com ele à intempérie.
E dene o medo, em suas reexões nais, como um sócio da vida, re-
sultado de uma renovação permanente que, conforme apontado nas
primeiras linhas destas reexões e segundo Actis Caporale, transitou da
angústia infantil para um companheiro inseparável no cenário denido
por Bauman como “modernidade líquida”. Por isso, exorta os psicana-
listas a continuarem reetindo sobre como o passado opera no tempo
presente, mas também a entender que o futuro é um verbo a ser con-
jugado para viver e criar. Ou seja: não ter medo do medo. Novamente,
apegar-se a Eros.
¿E qual é um dos maiores medos da classe média argentina, uma classe
que nos caracterizou e diferenciou na América Latina? Cair na pobreza.
Periodicamente, nos confrontamos com dados da mídia que indicam
quanto uma família de classe média precisa para não ser pobre. Os nú-
meros variam vertiginosamente. Crescem sem parar. Como crescem as
las de pessoas que vão buscar um prato de comida onde houver um
grupo de voluntários…
Segundo um relatório do Observatório da Dívida Social da Argentina,
publicado em 13/02/25, os planos de desvalorização, liberalização de
preços e ajustes de gastos aplicados durante 2024 resultaram, no pri-
meiro trimestre do ano seguinte, em um crescimento interanual da po-
breza de 38,7% para quase 55%, e a indigência passou de 8,9% para
20,3%. Além disso, quatro em cada dez pessoas são pobres, e entre elas,
mais de metade das crianças sofre pobreza, com mais de uma em cada
dez crianças vivendo em extrema pobreza (13,4%). Apesar do aumento
do emprego, este foi informal e mais precário.
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Em denitiva, segundo este relatório, existe um piso estrutural de 30-
35% de pobreza crônica, difícil de modicar, especialmente para tra-
balhadores informais e precarizados. Portanto, a demanda por bons
empregos impossibilita que os setores pobres e de classe média baixa
acessem um melhor caminho de progresso social.
No âmbito da saúde mental, não podemos deixar de considerar os -
meros da OMS apresentados anteriormente: 28% da população apre-
senta sintomas de ansiedade e 30% sintomas depressivos. Estes -
meros escondem que, por trás deles, sempre uma pessoa que foi
desalojada do espaço do “semelhante”, segundo S. Bleichmar. Também
permitem sustentar que “o desvalimento é todo nosso”.
Um relato mais atenuado também é escrito pelos jovens que emigram
entusiasmados, pois especulam que, em outros países, terão uma vida
melhor. Segundo estudos acadêmicos que destacam as diculdades
metodológicas para obter certos dados, entre junho de 2021 e 2022,
295.000 argentinos entre 18 e 29 anos emigraram como se se esvazias-
se a cidade argentina de Bahía Blanca.
Aqui podemos fazer uma observação, recorrendo a outro conceito cun-
hado pelo sociólogo Bauman quando se referiu ao constructo de “mo-
dernidade sólida” para contextualizar ideias de nacionalidade, cidada-
nia localizada, pertencimento e enraizamento como eixos estruturais
das sociedades sob tutela estatal. Na mencionada “modernidade -
quida”, esses elementos parecem ter se diluído, pois uma signicativa
proporção de adolescentes tardios e/ou jovens adultos vive com outros
suportes ideológicos: a ideia de nação foi neutralizada pela globalização;
a cidadania localizada, pela cidadania ubíqua; o pertencimento, pela re-
ferência; e o enraizamento, pela volatilidade.
Bauman cunhou a categoria “cidadãos do mundo”, visível no presente e
com validade futura, apoiada na teoria do “lastro zero”. Jovens leves de
bagagem, migrantes permanentes que preferem viver em nomadismo
contínuo. É como se dissessem: “não sou daqui nem sou dali”. Mas essa
transumância incessante ¿não seria uma expressão do desvalimento
atual? ¿por trás do brilho e do esplendor aparente, não seria, como no
paradigma de Fleury, uma manifestação velada da dor e do sofrimento?
Compartilhamos alguns dados: no primeiro trimestre de 2023, mais de
11.000 pessoas se radicaram na Espanha. Um retorno, gerações depois,
a uma terra que expulsou os antepassados, mas que agora é percebida
como a “terra prometida” pelos descendentes. Um Nirvana que prome-
te pão e trabalho, paz e futuro, permitindo voltar a sonhar e a ter es-
peranças. Um retorno ao seio materno que nos proteja do desamparo
inicial reetido por Freud, mas que, metonimicamente, se atualiza em
massas populacionais – sobretudo jovens que veem na imigração um
salvo-conduto para a vida. Um “passaporte” que transporta a outro es-
paço…
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Um retorno à “Mãe Pátria” ou, como observou um colega já mencionado
(Rodríguez, 2024, p. 37), à “Matria”, porque enquanto “Pátria” também
pode remeter a exércitos e guerras, o signicante “Matria” abriga um
espaço e uma língua familiares. Algo que ampara, algo mais intangível,
amoroso e duradouro, além de estético e estendido no tempo.
Assistimos ao m de vários mitos nacionais argentinos. não somos o
“país das vacas gordas” nem o “celeiro do mundo”. Aquela pampa in-
nita, fértil até o inimaginável, na qual “se jogava um pau e crescia uma
planta” desapareceu. O “princípio da realidade” mina os alicerces do
“princípio do prazer”, e a “magia do impossível” se esvaiu, confrontan-
do-nos com a crua realidade de que os tetos nunca foram nem são de
ouro e que o rio nunca foi nem é de prata.
Aportes literários
O preâmbulo da Constituição Argentina arma que nossa terra é “para
todos os homens do mundo que queiram habitar o solo argentino”. A
frase irônica atribuída a Borges: “O argentino é um italiano que fala es-
panhol, pensa em francês e gostaria de ser inglês” reete uma identi-
dade condensada e também remete à maior imigração estrangeira en-
tre nós. Entre 1870 e 1920, aproximadamente 2,5 milhões de italianos
emigraram para a Argentina, principalmente do Piemonte, ao norte da
península, e da Calábria. É nessa região do Piemonte que se passa uma
cena do romance Stefano, da escritora argentina María Teresa Andrue-
tto. Stefano é a história de um adolescente italiano piemontês que emi-
gra para a Argentina fugindo da miséria e da fome.
Compartilho o momento da despedida: a mãe pergunta: “Você vai vol-
tar? ” E ele responde: “Em dez anos…”. Depois, ela o viu partir e não fez
um gesto. Através da distância que os separava, distinguiu os tirantes
caídos, os cabelos rebeldes do menino, a postura ainda infantil. A mãe
sabia que seu lho correria riscos, mas não disse uma palavra, manten-
do o olhar xo na curva que engolia o lho”
Inspirando-me nessas linhas, em 2021 compartilhei uma cena que es-
crevi parafraseando o trecho anterior: “Estamos em Ezeiza, em um dia
qualquer destes anos. Um lho vai morar em outro país. Durante -
cadas, os portos foram os pontos de chegada de nossos avós. Agora,
os aeroportos são os pontos de partida de nossos lhos. Tentando
reproduzir o estilo de Andruetto: “Ezeiza. O lho se despediu. Os pais sa-
biam que ele correria riscos, mas não disseram uma palavra, mantendo
o olhar xo no céu, naquele avião que se perdia no horizonte cada vez
mais alto, cada vez mais distante, engolindo o lho. ”
Outra cena literária: trechos iniciais do romance “A neta do senhor Linh”
(2013, p. 9-10), do escritor francês Philippe Claudel. O cenário é um bar-
co, em algum lugar do mundo, em algum momento: “Um idoso na popa
do barco. Nos braços, segura uma mala leve e uma criança ainda mais
leve. O idoso se chama Linh. Ele é o único que sabe, porque o restante
das pessoas que sabiam estão mortas.
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De no convés, vê seu país se afastar, o país de seus antepassados e
de seus mortos… O país se afasta, tornando-se innitamente pequeno,
e o senhor Linh o observa desaparecer no horizonte durante horas, ape-
sar do vento que sopra e o sacode como uma marionete… Dias e dias.
E o idoso passa todo esse tempo na popa, com o olhar xo no rastro
branco que se funde com o céu, escrutando a distância em busca da
margem invisível…
Finalmente, um dia de novembro, o barco chega ao destino. Mas o ido-
so não quer descer, pois seria abandonar denitivamente o que ainda
o liga à sua terra. Porém, desce. Faz muito frio. O senhor Linh aspira o
cheiro do novo país. Não sente nada. Não há cheiro algum. É um país
sem cheiro. ”
Concluo estas reexões com um comentário da mencionada escritora
Andruetto (citada por Sánchez, 2020, p. 8) sobre o papel do escritor ou
de qualquer outro observador da realidade. ¿Como não incluir os psica-
nalistas nessa última categoria? A escritora se pergunta se um escritor
deve se ocupar, em sua escrita, do social, do político; se é adequado
escrever sobre a miséria, a miséria social, a violação dos direitos. Sobre
o desvalimento, acrescentaríamos.
Ela responde: “Sinceramente, acredito que isso não deva nos preocupar
a priori. O que realmente deveria preocupar todos nós cada um de
nós que vivemos neste país – é aprender a ser homens e mulheres com-
prometidos, como homens e mulheres com nosso tempo e com nosso
povo. ”
E conclui: “Depois virá o que escrevemos. E aquilo que escrevemos terá
a marca do que somos, porque, embora pareça óbvio, a pessoa que so-
mos vem antes do escritor que podemos vir a ser.”
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