INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (2), 2025, pp 76 - 91
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: 10.60139/InterPsic/16.2.6
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PSICANÁLISE EM-LINHA/ONLINE:
CONVITE A FLUTUAR (MAIS AINDA)
PSICOANÁLISIS EN LÍNEA:
INVITACIÓN A FLOTAR (AÚN MÁS)
ONLINE PSYCHOANALYSIS:
INVITATION TO FLOAT (EVEN MORE)
Lia Pitliuk
Departamento de psicanálise/ Instituto Sedes
SapientiaeORCID 0009-0004-7453-7043
Correio eletrônico: lia.internet@gmail.com
Data de Recebimento: 14 – 04 -2025
Data de Aceitação: 23-05-2025
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Pitliuk L. (2025) PSICANÁLISE EM-LINHA/ONLINE: CONVITE A FLUTUAR (MAIS AINDA)
Intercambio Psicoanalítico 16 (2), DOI: 10.60139/InterPsic/16.2.6
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
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Resumo: Como se dá com todas as expansões da clínica psicanalítica,
também a clínica em-linha suscita o debate sobre as possibilidades
de, nela, sustentar o propriamente analítico. E uma das questões
difíceis, neste debate, é levá-lo adiante considerando que estamos
frente a funcionamentos e a experiências inéditas, que não podem
ser avaliadas com os parâmetros desenvolvidos para a análise pre-
sencial. A comparação simples e direta de settings tem sido marcada
pela ‘lógica da falta’, principalmente no que se refere à participação
dos corpos, de órgãos dos sentidos, de um espaço físico compartil-
hado. O artigo coloca em dúvida que essas diferenças funcionem
apenas em chave de restrição e carência, que impliquem um decit
da experiência
analítica
como tal, questionando, para isso, a xidez
com que se toma o que, de fato, é móvel e mutante.
O texto circula pela supramodalidade de Stern, pela gurabilidade
dos Botella, pela exibilidade do espaço analítico dos Baranger, pelo
uso singular do objeto de Winnicott e, com muito destaque, pela plu-
ralidade expressiva de Bollas: caminhos para uma reaproximação ao
‘utuante’ do psiquismo e das relações. No divã, na tela, na poltrona,
no telefone.
Palavras-chave: psicanálise, online, setting, Bollas
Resumen: Como ocurre con todas las expansiones de la clínica psi-
coanalítica, la clínica en línea también suscita el debate sobre las po-
sibilidades de sostener en ella lo propiamente analítico. Y una de las
cuestiones difíciles en este debate es llevarlo adelante consideran-
do que estamos ante funcionamientos y experiencias inéditas, que
no pueden ser evaluados con los parámetros desarrollados para el
análisis presencial. La comparación simple y directa de settings ha
estado marcada por la ‘lógica de la falta’, principalmente en lo que
respecta a la participación de los cuerpos, los órganos de los sentidos
y un espacio físico compartido. El artículo pone en duda que estas
diferencias funcionen únicamente en clave de restricción y carencia,
implicando un décit de la experiencia analítica como tal. Para esto,
cuestiona la jeza con la que se asume algo que, en realidad, es móvil
y cambiante.
El texto circula por la supramodalidad de Stern, la gurabilidad de
los Botella, la exibilidad del espacio analítico de los Baranger, el uso
singular del objeto en Winnicott y, con gran destaque, por la plurali-
dad expresiva de Bollas: caminos para un reencuentro con lo ‘otan-
te’ del psiquismo y de las relaciones. En el diván, en la pantalla, en el
sillón, en el teléfono.
Palabras clave: psicoanálisis, online, setting, Bollas
PSICANÁLISE EM-LINHA/ONLINE:
CONVITE A FLUTUAR (MAIS AINDA)
Lia Pitliuk1
1 Psicanalista. Membro do
Departamento de Psicanálise,
do Espaço Potencial Winnicott e
do Departamento de Psicanálise
com Crianças do Instituto Sedes
Sapientiae em SP. Docente no
curso de formação de analistas do
Departamento de Psicanálise com
Crianças. Coordenadora dos grupos
de estudo e pesquisa: EmLinha -
Grupo de estudos e pesquisa sobre a
clínica psicanalítica online; Winnicott:
leituras e reexões; Winnicott e
Bollas: trânsitos; Grupo de pesquisa
sobre acepções de ‘holding’ na obra
de Winnicott no Departamento
de Psicanálise. Docente em curso
de pós-graduação e em cursos
livres no Instituto Gerar em SP.
Coordenadora de grupos de estudo
sobre Freud, Winnicott e Bollas.
Autora do livro A sustentação de
uma clínica psicanalítica em-linha
e de muitos artigos e capítulos em
livros e revistas especializadas,
entre os quais o prefácio para a
edição brasileiras do livro Segure-
os antes que caiam (de C. Bollas),
Democracia e totalitarismo como
funcionamentos psíquicos, Sabemos/
podemos/queremos ser sós?
Subjetivação e análise em tempos
digitais e Christopher Bollas: por
uma psicanálise contracolonial.
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Summary: As with all expansions of the psychoanalytic clinic, the on-
line clinic also raises the debate about the possibilities of sustaining
what is properly analytic within it. One of the dicult issues in this
debate is how to carry it forward while considering that we are faced
with unprecedented modes of functioning and experiences, which
cannot be assessed using the parameters developed for in-person
analysis. The simple and direct comparison of settings has been mar-
ked by the ‘logic of lack,’ particularly concerning the participation
of bodies, sensory organs, and a shared physical space. The article
questions whether these dierences operate solely in terms of res-
triction and deciency, implying a decit in the analytic experience
as such. To this end, it challenges the rigidity with which something
that is, in fact, mobile and mutable is perceived.
The text moves through Stern’s supramodality, the Botellas’ gu-
rability, the Barangers’ exibility of the analytic space, Winnicott’s
singular use of the object and, most prominently, Bollas’ expressive
plurality pathways toward a reapproach to the ‘oating’ aspect
of the psyche and relationships. On the couch, on the screen, in the
armchair, on the phone.
Keywords: psychoanalysis, online, setting, Bollas
I. Introdução
Como todas as expansões da clínica psicanalítica, também a clínica
em-linha1 suscita o debate sobre sua capacidade de manter o psicana-
lítico propriamente dito – sempre ameaçado de sucumbir ao pragma-
tismo e ao imediatismo, assim como ao bom senso e ao senso comum.
Quando, quanto e de que formas podemos sustentar a experiência ana-
lítica nas práticas em-linha? Sobre que bases processar essa questão?
É legítimo pensá-la a partir do que se costuma chamar de análise-tipo
ou análise-padrão, a modalidade inventada por Freud para o trabalho
psicanalítico individual com adultos neuróticos?
Desde as suas origens a psicanálise tem se caracterizado por múltiplas
transformações: clínica não com adultos, não individual e não
com neuróticos; alterações do setting de grande magnitude como a da
frequência semanal das sessões, do uso ou não do divã, da diversi-
cação dos espaços de trabalho (hospitais, prisões, espaços abertos); e,
mais recentemente, a da questão que aqui nos ocupa, a análise mediada
por tecnologias de comunicação. São transformações que não apenas
desaam teorizações e práticas estabelecidas, mas que exigem também
uma reavaliação contínua dos fundamentos sobre os quais a psicanálise
se apoia. Num plano subjetivo, cada uma dessas transformações repre-
senta, tanto para analistas quanto para analisantes, uma ruptura com
as certezas que, em um contexto tão instável e multifacetado como o da
prática psicanalítica, proporcionavam um certo grau de segurança.
1 Opto por essa expressão por dois
motivos principais. Por um lado, para
evitar mais um estrangeirismo como self,
insight, après-coup, setting etc. Contudo,
a razão primordial é a riqueza evocativa
da linha, do o, que tão bem simboliza o
composto distância-proximidade, ou união-
separação. Considero inadequados os
termos ‘psicanálise remota’ ou ‘psicanálise
à distância’ justamente por excluírem esse
paradoxo central da clínica mediada por
aparatos digitais; e certamente descarto
a expressão ‘psicanálise virtual’ por sua
associação ao que está em um plano não
material – o que certamente não se aplica
à clínica analítica mediada por tecnologia
digital.
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por princípio, uma psicanálise é sempre uma experimentação, precisa
poder ser reinventada a cada sessão, com cada sujeito e em cada con-
texto um contínuo desao em relação a certezas e limites; e a soma
dessas experiências produz continuamente movimentações de peso no
modo como nos relacionamos com a clínica, com a teoria, com o outro
e conosco mesmos. Ao mesmo tempo, o mundo se transforma conti-
nuamente, demandando mutações da prática nada fáceis de manejar.
Faço minha a observação de Soler quando, referindo-se à contempo-
raneidade, aponta “quão importante é para os psicanalistas se mante-
rem em contato com seu próprio tempo, e, com isso, quero dizer estar
livre de velhas categorias – não para ceder a modas impulsionadas pelo
mercado, mas simplesmente para poder responder – como analistas –
àqueles que a eles se dirigem no início deste século” (Soler, 2018, p. 215.
Tradução livre).
Sublinho a questão que nos compete: responder como analistas. E a in-
corporação do em-linha entre nossas práticas nos propõe uma innida-
de de questões às quais, como analistas, responder. A começar pela di-
culdade de manter elementos ritualísticos, um ‘é assim que se faz’ que,
certamente, tem muitas funções importantes - entre elas a de abrandar
a sensação de desamparo que a clínica produz. Abrir mão de muitos
destes elementos apaziguadores, de uma só vez, principalmente antes
que outros padrões se estabeleçam, tem efeitos perturbadores que não
podemos negligenciar, que precisam ser acolhidos, considerados, trata-
dos.
Por outro lado, reconhecer as funções protetoras e defensivas do “já
conhecido” não deve implicar em apoio condescendente e acrítico às
novas modalidades. É frequente o argumento de que a crítica seria uma
posição defensiva frente a mudanças e, portanto, algo conservador que
buscaria apenas preservar tradições, valores e estruturas pré-existen-
tes. Essa é uma argumentação covarde e irresponsável. Claro que as po-
sições críticas podem ser usadas para nalidades conservadoras, como
meios de resistência ao questionamento e à transformação; mas essa
possibilidade não deve levar à renúncia à função crítica, que é essencial
sob diversos pontos de vista: ético, epistemológico, metodológico etc.
Cabe-nos trabalhar sobre as motivações embutidas nas argumentações
críticas, discernindo aquelas que são sustentáveis e que então deman-
dam (e merecem) trabalho, das que se revelam como meras defesas
rígidas e conservadoras.
Responder como analistas implica escapar do binômio revolucionário/
conservador, na direção do experienciar e do analisar a experiência
a experiência em-linha, em nosso caso. Poder reconhecer o que, nela,
é singular e, frequentemente, incomparável. Em o livro Andamios del
psicoanálisis, Ricardo Rodulfo (2013), analista argentino que trabalha
incansavelmente a desconstrução de dogmas na psicanálise, sustenta
que não se trata de hierarquizar a experiência presencial como mais
autêntica ou profunda em relação à experiência em-linha. Trata-se de
reconhecer que estamos diante de um tipo de proximidade que não se
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enquadra em códigos pré-estabelecidos e que implica, necessariamen-
te, em disposições diferentes das que conhecemos no setting presencial.
Elementos antes familiares, como o silêncio ou o frente-a-frente, assu-
mem características inéditas no contexto em-linha: o silêncio em uma
sessão realizada via vídeo não é equivalente ao silêncio no consultório,
com o paciente no divã ou engajado em uma atividade como o desenho;
as nuances do frente-a-frente certamente se alteram, tornando insu-
ciente qualquer tentativa de transposição direta dos modos tradicionais
de escuta e presença.
Em outras palavras, a experiência em-linha inaugura um território ainda
indenido, marcado por mutações “concernentes a todo o nosso siste-
ma de distâncias com a subjetividade do próximo, de inscrições corpo-
rais, pictogramáticas, incomuns e por agora obscuras, de ritmos e inten-
sidades nos contatos” (Rodulfo, 2013, p. 43. Tradução livre). Um desao
de peso aos padrões tradicionais de comunicação, de proximidade/dis-
tância, de relação.
É assim que, frente aos novos settings clínicos digitalmente mediados,
a prática psicanalítica se vê convocada a revisitar suas bases. Não se
trata, de modo algum, apenas de uma adaptação “técnica”, não se trata
de reproduzir mecanicamente, em um formato digital, os moldes do se-
tting que chamamos de presencial2. Trata-se de o analista se colocar em
posição de apreender as especicidades desse contexto, considerando
a análise em-linha como um campo de direito próprio, cujas caracterís-
ticas não só desaam algumas de nossas concepções tradicionais como,
ainda, abrem caminho para recongurações da clínica psicanalítica
como um todo.
Este artigo se pretende uma contribuição para esta tarefa.
II. A lógica da falta
Estamos acostumados a nos confrontar com as diferenças em ter-
mos comparativos, isto é, a avaliar o novo por aquilo que faz com
que seja diferente do já conhecido, mas com uma particularidade:
temos uma tendência a considerar em termos pejorativos aquilo
que, no novo, é marca de diferença. Ou seja, tendemos a consta-
tar, no que faz com que seja diferente, não tanto a armação da
sua especicidade, senão sua suposta impotência para se equi-
parar com o que é conhecido. Continuamos, nesse sentido, a
seguir os passos da criança pequena do relato edípico freudia-
no, condenada a avaliar a confrontação com o genital feminino e
privilegiar o que lhe falta para ser igual ao genital conhecido. De
modo análogo, tendemos também a valorizar as particularidades
de um novo dispositivo pelo que carece em relação ao dispositivo
com que já estamos familiarizados (Cabral, 2020, pp. 153-154).
2 Adjetivo muito inadequado já que
estamos, cada vez mais, revendo nossos
conceitos de presença, não-presença
e ausência. Muitas línguas optam
pela expressão “em-pessoa”, também
inapropriado por evocar a ideia de que
nas experiências mediadas haveria menos
pessoalidade (in-person em inglês, em
personne em francês, di persona em
italiano, persönlich em alemão, persoonlijk
em holandês). Entretanto, até o momento
não encontrei um termo adequado para a
experiência de compartilhamento de um
mesmo espaço físico.
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Esta sagaz observação foi apresentada por Alberto Cabral no início da
pandemia, a propósito dos embates relativos à adequação ou não do
trabalho em-linha. De fato, essa clínica costuma ser pensada através de
uma lógica da falta, através da ideia de que nela falta o que nos acos-
tumamos a encontrar na clínica presencial. Faltariam a proximidade
corporal, o compartilhamento de um mesmo ambiente físico, o divã, as
paredes, as experiências do trajeto para se chegar à sessão, os cheiros,
a visão tridimensional ou de corpo inteiro do outro... a lista seria inn-
dável. A marca principal, aqui, está na ideia de privação, décit, insu-
ciência, falta.
Quando se trata da mulher, entendemos que essa “falta” não é uma en-
tidade real, uma característica da coisa ou da situação em si: à mulher
não falta nada. A castração, em que algo essencial teria sido retirado,
cortado, perdido, é uma teoria infantil, uma concepção a partir de uma
suposição prévia de que ali ‘deveria haver’ uma outra coisa. Oscar Ma-
sotta (1987) brinca com isso, sugerindo que imaginemos que alguém
entrasse numa sala dizendo que ali faltam poltronas roxas; ou um astro-
nauta que, da lua, dissesse que em certo ponto do solo lunar falta uma
montanha.
Seriam absurdos, não falta nada: a sala é como é, a lua é como é. A este
propósito o professor Luiz Fuganti nos traz o pensamento do lósofo:
“Espinosa diz: ao cego não falta a visão, do mesmo modo que não falta a
visão à pedra. Porque a visão é um afeto que alguém tem, e aquele que
não tem esse afeto, a sua potência é preenchida com outros elementos
e não com a visão. Então não falta a visão ao cego” (Fuganti, 2016).
Pois bem, a ideia das coisas que faltam numa análise em-linha não coin-
cide com esta lógica? Não é com base em premissas, derivadas da aná-
lise presencial, que pensamos em tantas faltas na análise em-linha? Pa-
rafraseando Fuganti, a potência da clínica não é preenchida com outros
elementos, nesta outra forma de presencialidade?
Para evitar caminhos generalistas e simplicadores, esta questão nos
demanda algum foco. Trabalharemos então com uma das dimensões
mais privilegiadas do “pensamento da falta” na clínica em-linha: a da me-
nor participação, no encontro, de órgãos dos sentidos, em comparação
com a análise presencial. Comumente se supõe um grande prejuízo
tanto da capacidade do analista apreender a subjetividade de seu pa-
ciente, quanto da riqueza das experiências do analisante ao longo do
processo. Ou seja, o trabalho analítico caria prejudicado, ou inviabili-
zado, no setting em-linha pelo fato de vários elementos da percepção
cotidiana estarem excluídos do encontro: a proximidade corporal, os
cheiros, a abrangência da visão, as sensações advindas de estar com o
outro em um mesmo ambiente físico etc.
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Colocaremos em discussão a ideia de que quanto mais órgãos dos sen-
tidos estiverem envolvidos num encontro analítico, maior a capacidade
de comunicação, de apreensão, de compreensão. E podemos já adiantar
o campo dos argumentos: por um lado, a complexidade do psiquismo e
das relações humanas nos fornece um campo de ideias muito mais am-
plo e intricado; por outro, o que podemos entender por comunicação,
apreensão ou compreensão analítica – e mesmo por experiência - nos
afasta bastante de uma equiparação/redução do que se experimenta a
uma somatória de captações pelos órgãos dos sentidos. Minha intenção,
então, é apresentar algumas vias que contestam a ideia de que quanto
mais órgãos dos sentidos estiverem envolvidos, maior a potência e a
efetividade analítica.
Para evitar equívocos de partida: é óbvio que quando os corpos não
compartilham o mesmo espaço físico, quando o encontro é mediado
por tecnologias digitais, certas formas de expressão que seriam facil-
mente percebidas no encontro presencial, e certas experiências que
poderiam ser vividas, são reduzidas ou estão completamente ausentes.
Pode-se não notar, no outro, tremores nas mãos ou gestos ansiosos,
roupas desleixadas, angústia ou resistência expressos nos movimentos
ou nas posturas corporais etc. Não há dúvida de que o encontro media-
do por tecnologias digitais seja diferente do encontro presencial.
O que temos a discutir é se essa diferença pode ser equiparada a um
décit para a experiência analítica em-linha. Penso que não. Penso que
não isomora entre presença física e apreensão do outro, entre a
multiplicidade das captações sensoriais e a riqueza do encontro.
Sem nenhuma pretensão de cobrir o campo dos fenômenos em jogo,
este artigo pretende contribuir para esse debate, evocando qualidades
da vida subjetiva e relacional que, nele, tendem a ser deixadas de lado.
III. O supramodal e a pluralidade das produções associativas
O supramodal alude ao trânsito entre categorias perceptivas. Penso que
temos boas razões para conceber que o reconhecimento do outro e a
experiência da presença não dependem de alguma modalidade percep-
tiva, que a informação não está ligada a algum modo sensorial particu-
lar. Notemos, por exemplo, o uso do divã na clínica tradicional, focada
na escuta: a exclusão parcial de elementos visuais é não tolerada
como desejada, protegendo a relação de capturas por essa via sensorial.
Formulemos então a pergunta: restringindo-se tanto a participação do
olhar no uso do divã, como é possível que o trabalho analítico perma-
neça rico e potente? Penso que responderíamos prontamente que ali
ocorrem outros modos de comunicação e de sintonia, e é este o princí-
pio que veio sustentando, também, a clínica psicanalítica em-linha.
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O trabalho de Daniel Stern nos fornece uma pista interessante. Referin-
do-se a bebês, o autor sugere que a informação exista em uma forma
supramodal e “que então possa ser reconhecida em qualquer um dos
modos sensoriais” (Stern, 1992, p. 45). Essa é uma sugestão preciosa
para concebermos também o que se passa quando o contato se dá por
dispositivos que restringem os canais sensoriais disponíveis - pela au-
dição por aparelhos e, em alguns casos, pela visão através de telas. Ri-
cardo Rodulfo também pensa desse modo, armando uma “indiferença
do inconsciente com respeito a preferências por um ou outro tipo de
materialidade” (Rodulfo, 2004, p. 88).
Eu me alinho com esses autores, como aponto no capítulo “Percepção
amodal” em meu livro A sustentação de uma clínica psicanalítica em-linha
(online):
De fato, com o tempo – e nisso é fundamental a dimensão da ex-
periência ao longo do tempo -, fui tendo a impressão de, mesmo
sem utilizar vídeo, “enxergar” cada vez mais cada analisante, por
uma espécie de transporte privilegiado das trocas para o universo
da sonoridade e de suas tonalidades afetivas, compondo toda a
atmosfera clínica. Não seria, portanto, de espantar que recente-
mente eu tenha dito a um analisante com quem trabalho só por
áudio: “quando você fala disso, seus olhos brilham! ” (Pitliuk, 2022,
p. 76).
Se isso é assim, se a expressão e a comunicação não cam restritas a
determinados canais, podemos então compreender quanto o encontro
analítico se sustenta numa diversidade de elementos, quanto os inte-
grantes do par analítico são impactados pelas formas múltiplas e parale-
las de expressão e de apreensão do outro. De fato, ao longo da história
da psicanálise, a gama de fatores incluídos se ampliou enormemente, de
modo que a análise foi cada vez mais deixando de se focar nas formas
verbais de expressão do paciente.
Claro que isso já estava em Freud: desde o início do seu trabalho com a
histeria as expressões corporais dos pacientes eram incluídas como ele-
mentos a serem apreendidos pelo analista em sua compreensão do que
se passava. Desde então não apenas foram sendo incluídas as represen-
tações que o analista tem do analisante, mas também o que o analista
descobre em si mesmo como efeito do que se passa com o paciente.
Entende-se que essas impressões são resultantes da comunicação in-
consciente que se dá no movimento intersubjetivo.
Isto levou a um movimento descentralizador muito importante na clí-
nica, compreendendo-se que nada, em si, é “o essencial”: a sequência
narrativa, os efeitos de sentido dos sons das palavras, a dimensão cor-
poral, a transferência ou a contratransferência. A comunicação incons-
ciente é plural, as formas como somos impressionados pelo paciente e
como nós o impressionamos são múltiplas e paralelas.
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Nessa linha de pensamento, Christopher Bollas faz uma ampliação mui-
to importante da noção freudiana de associação livre, que em seu pen-
samento passa a abarcar as mais diversas categorias e subcategorias,
levando em consideração tanto os movimentos psíquicos individuais
quanto a relação com o ambiente. Diríamos, talvez, que para ele o mais
essencial... é não apostar em essências, entendendo que o corporal,
o ideacional e o afetivo estão permanentemente articulados, sem que
nenhum mereça lugar de prevalência.
Um dos exemplos mais bem-acabados dessa concepção é sua metáfora
da partitura sinfônica representando a sessão clínica:
Imagine que o movimento temporal dos discursos do analisando
seja um eixo horizontal, da esquerda para a direita, do início da
sessão ao m da hora. Então, imagine um eixo vertical que con-
siste em diferentes categorias de apresentação ou representação
inconsciente. Cada uma dessas categorias tem sua própria linha
de movimento — sua própria lógica, se preferir —, e muitas vezes
elas convergem para criar pontos nodais, mas não são as mesmas
(Bollas, 2024, pp. 60-61).
Bollas marca que sua metáfora não pretende ser uma representação do
inconsciente, e sim uma ferramenta para concebermos a complexidade
e a riqueza das diferentes formas de expressão, assim como seu poten-
cial de articulação:
Se imaginarmos cada categoria como um instrumento musical
simbólico uma, o violino; outra, a auta —, então a metáfora
sinfônica se torna mais rica porque você pode ver como os ins-
trumentos tocam em momentos diferentes, às vezes juntando-se
a outros, às vezes sozinhos, às vezes todos juntos — mas separa-
damente —, formando uma peça e, embora eu não queira forçar
essa metáfora além da credibilidade (e talvez esteja fazendo isso),
não obstante, penso que nos ajuda a ver que existe algum modo
de orquestração no pensamento inconsciente (Bollas, 2024, p. 63).
De fato, a música como modelo imaginativo é muito interessante justa-
mente porque nos permite conceber como linhas de pensamento inde-
pendentes – que Bollas metaforiza como diversas pautas da partitura,
cada uma como um instrumento em particular – se movem e se com-
põem, convergindo em alguns momentos (os pontos nodais), soando
em conjunto em outros, mas cada uma seguindo seu próprio uxo.
Categorias e subcategorias como instrumentos numa partitura sinfô-
nica. Assim, por exemplo, a categoria sônica (que envolve timbre,
tom, ritmo, duração, ênfase etc., e pela qual tanto pode ser expresso:
resignação, ironia, raiva etc.); a categoria fonêmica (signicantes e signi-
cados); a linguagem (incluindo lógica narrativa, retórica, sintaxe etc.); a
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imaginária (incluindo a projeção entre suas subcategorias); a relacional
(implicando transferência, identicação projetiva, enactement, uso do
objeto etc.); a da expressão corporal (movimentos, expressões faciais,
posturas, respiração etc.); a contratransferência (em suas múltiplas for-
mas de apresentação).
Bollas dirá que, por um lado, as categorias não são estáticas, que elas se
movem e se transformam; por outro, que um mesmo pensamento pode
ser expresso simultaneamente em várias categorias (como, por exem-
plo, na expressão “sai daqui! ”, em que alguém se expressa de modo
sonoro, gestual e transferencial). E, também, que nem todas estão ativas
ao mesmo tempo. É assim que discurso verbal, afetos, sensações, co-
municações, estados de corpo do analisante e do analista: todos têm
a possibilidade de assumir protagonismo, compor-se, opor-se, calar-se.
O autor sintetiza:
Nossas mentes são complexas demais para se tratar de apenas
uma coisa, seja uma ideia reprimida, um derivado do id, a trans-
ferência ou qualquer coisa. Na realidade, se em algum momento
do tempo psíquico pudéssemos dar uma olhada na sinfonia in-
consciente, isso seria uma vasta rede de combinações criativas
(Bollas, 2024, p. 65).
Notemos: é a complexidade que vem para o “centro” da cena analítica.
E isso transforma tudo.
São evidentes as consequências desta ampliação da noção de asso-
ciação livre para a clínica psicanalítica em geral, e particularmente para
a clínica psicanalítica em-linha. O analisante associa por palavras, ges-
tos, expressões corporais, atos, manifestações transferenciais, mani-
festações contratransferenciais. Tudo acontecendo ao mesmo tempo.
Num certo momento algo ganha mais relevância, em outro são outras
as coisas que tomam o espaço. Do mesmo modo que quando ouvimos
uma música: às vezes somos afetados por sua letra junto com o som de
um violino; em outro momento somos tocados pelo silêncio, quando há
uma suspensão da execução, e daí talvez pelo ritmo da música, quando
ela recomeça depois da pausa. De repente parece que o conjunto todo
nos emociona, ou nos irrita, de uma só vez.
É assim que Bollas nos convida a uma articulação com a grande varieda-
de do que emerge num encontro analítico, com o analista recepcionan-
do o que lhe chega não por um único canal, mas por “todos os poros”,
por todos os canais de que dispõe. E não de um modo objetivante, não
é disto que se trata em análise: a atenção utuante é nossa estratégia
metodológica para escapar da captura de uma categoria, seja qual for, e
nos disponibilizarmos para vias múltiplas de apreensão e de elaboração.
Destaquemos o que então se produz.
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IV. Encontrar o paciente em nós mesmos
Um dos aspectos que mais têm surpreendido os analistas na clínica
em-linha é, também nela, a potência da identicação projetiva como
modalidade de comunicação transferencial. É um fenômeno que se ma-
nifesta no analista não apenas sob a forma de pensamentos e emoções,
mas também por processos mais arcaicos como sensações corporais e
imagens mentais, captando e dando um contorno psíquico a vivências
primitivas do analisante.
Como Ogden sintetiza:
O terapeuta que se permite ser moldado por esta pressão inter-
pessoal e é hábil para observar essas mudanças em si mesmo,
tem acesso a uma fonte de dados muito rica sobre o mundo inter-
no do paciente – o grupo induzido de pensamentos e sentimen-
tos que são experienciados de maneira viva, vívida e imediata.
No entanto, eles também são extremamente elusivos e difíceis de
formular verbalmente porque a informação se apresenta na for-
ma de um enactment no qual o terapeuta está participando, e não
na forma de palavras e imagens sobre as quais o terapeuta possa
reetir prontamente (Ogden, 2005, p. 4. Tradução livre).
O que a experiência tem nos mostrado é que, a depender das capaci-
dades de continência e de simbolização do analista, esse processo se
mantém vivo e atuante na clínica em-linha. Kowacs compartilha dessa
opinião: “através de aparatos eletrônicos, aspectos muito primitivos do
mundo interno do paciente penetram na mente do analista, com objeti-
vos evacuativos, comunicativos, ou ambos” (Kowacs, 2018, p. 395).
Retomo minha proposta do trabalho da gurabilidade como uma noção
particularmente útil para conceber como isso se dá. A expressão, cun-
hada pelos Botella (2003), é por eles referida a um processo psíquico
que, numa direção regressiva, compõe numa única gura os elementos
presentes num dado momento:
trabalho de ligação dos elementos mais diversos que, então, con-
vergem numa entidade, numa gura, composta por elementos
múltiplos e heterogêneos: o discurso ou a ação do analisante;
a transferência e a contratransferência, obviamente; o material
perceptivo atual e as impressões corporais do momento; etc. Em
resumo: pela via regressiva, os estímulos presentes na situação
- e suas ressonâncias - convergem numa guração, numa atuali-
zação, que pode mesmo se parecer com uma alucinação (Pitliuk,
2022, p. 66).
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Figuração que se apresenta sob variadas formas: imagens mentais, sen-
sações corporais, formações que os Botella chamam inclusive de ‘qua-
se-alucinações’, pela intensidade da impressão que produzem em que
as experiencia. Por estas vias, realidades até então não perceptíveis e
não representadas se fazem presentes no(s) psiquismo(s) como expe-
riências e, desta forma, produzem transformações.
Isto se relaciona, muito diretamente, ao que entendemos por capaci-
dade de sonhar - e, chego a dizer, de co-sonhar, porque na análise a
gurabilidade é um trabalho do e no campo da superposição analista/
analisante:
O produto desse trabalho – a gura se presentica em um dos
membros da dupla analítica, ou alternadamente em um e em
outro, ou no que se tece entre eles; o fundamental é que não o
situemos como produto de um psiquismo, mas como operação
desdobrada no espaço transicional da transferência (Pitliuk, 2022,
p. 68).
Este percurso, aliás, nos auxilia a (re)pensar a questão do(s) corpo(s) na
análise em-linha, pois a clínica mediada por aparatos digitais tem mos-
trado quanto o trabalho da gurabilidade incide muito diretamente nas
experiências corporais dos membros do par analítico, um dos palcos
privilegiados da comunicação inconsciente. Os Baranger já haviam for-
mulado que “cada analista (...) responde, com seu próprio corpo, à co-
municação inconsciente do analisante” (Baranger, M. & Baranger, W.,
1969, p 136. Tradução livre). E bem podemos ampliar isso, constatando
que tanto o analista quanto o analisante guram, com seus corpos, o
conjunto dos elementos presentes no encontro – e isto tanto na clínica
presencial quanto na em-linha.
Costumo recorrer a uma situação clínica que ilustra muito bem o que ex-
perimento cotidianamente no ambiente em-linha. Em uma determinada
sessão, Fernando descrevia com entusiasmo sua mudança para a casa
de praia da família, enfatizando sua sensação de segurança e liberdade,
assim como o retorno a boas lembranças da infância e adolescência.
Enquanto ele pintava cenários bucólicos, repletos de detalhes de dias
ensolarados e momentos de lazer, comecei a sentir calor, opressão e
falta de ar; olhando em volta, associei o aposento em que eu me encon-
trava – num edifício - a ideias de restrição e connamento, uma contra-
posição ao que Fernando descrevia.
O processamento desse contraste nos levou a considerar que eu estava
experienciando os medos profundos do paciente relacionados à perda
de autonomia e ao retorno ao aprisionamento em velhos padrões fa-
miliares, o que inaugurou uma via extremamente fértil naquela análise
(Pitliuk, 2022, pp. 72-74).
É mais uma vez Bollas quem traduz nitidamente quanto encontramos o
paciente em nós mesmos, assim como em objetos que nos servem para
encontrá-lo:
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Pareço estar dizendo que os analistas são médiuns para o pro-
cessamento psicossomático do psique-soma do paciente. E que
“encontramos” pacientes diferentes em diferentes locais, depen-
dendo de como somos inconscientemente convidados a proces-
sá-los. Eu posso estar trabalhando com alguém no meu soma no
estômago, nas costas ou no meu sistema respiratório. Eu posso
estar considerando alguém na parede, numa nuvem ou em algum
lugar no tapete. Eu posso textualizar o discurso de um paciente
em um script fonêmico, ouvindo a pontuação do inconsciente (Bo-
llas, 2019, p. 45. Tradução livre).
temos a dimensão criativa e brincante das nossas relações com os
objetos, com os ambientes, com os corpos – nosso e do outro. E é dessa
perspectiva que emergem as possibilidades e potências da clínica psica-
nalítica, incluindo-se as da clínica em-linha.
V. Hesitar, piscar, utuar: o uso do objeto
Assim, para além da atenção utuante, vamos nos dando conta de quão
utuantes são as relações do analista com toda a materialidade do que
o cerca, e consigo mesmo. Aliás, de quão utuantes elas precisam poder
ser para que o espaço analítico seja um espaço promotor de aberturas e
articulações. Trata-se, diríamos, de uma disponibilidade do analista para
“utuar” - como encontramos, por exemplo, numa passagem clínica de
Bollas, referida ao trabalho com uma paciente esquizofrênica:
(...) depois de muito tempo trabalhando com ela, quando o tecido
do pensamento coerente se dissipava e eu me sentia um tanto
perdido, percebi que, quando a ouvia, sempre olhava para os dife-
rentes padrões de luz na parede ou para as formações de nuvens
pela janela, mas raramente “viajava” pela sala olhando os objetos
“internos” do espaço. Reetindo, eu acredito que minhas orien-
tações visuais metaforizavam meu estado mental. Eu não conse-
guia focar nos objetos internos desta paciente, nem nos objetos
muito concretos da sala. Imagino que quando olhava para os pa-
drões visuais complexos, visualmente articulados do tapete, isso
fosse um ato psicológico diferente de quando estava perdido na
parede. E, às vezes, eu olhava para os meus sapatos, para o meu
torso, ou para as minhas mãos. Por quê? Onde eu estava? (Bollas,
2019, p. 43. Tradução livre)
O trabalho psíquico, em qualquer setting, se dá num entre-espaços e
num entre-tempos, um entre “aberto para o desfocado, para o impre-
ciso, para os deslocamentos que impedem a nitidez”, escreve Tania Ri-
vera; um trabalho em que se trata de “entrever algo. De abrir brechas,
de permitir que surja algo que revira a lógica da imagem encobridora e
da narrativa familiar. Trata-se de piscar” (Rivera, 2020). Ou seja, dar es-
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paço mental para objetos psíquicos, produzidos-inventados-encontrados
no espaço potencial da análise, que possam ser usados. Equivalente ao
que Winnicott nomeia como “hesitar” no famoso jogo da espátula que
propunha a bebês que recebia em consulta.
Winnicott deixava uma espátula de metal sobre uma mesa, de modo
que o bebê, sentado no colo de sua mãe, pudesse alcançá-la. Ele nos
conta que os bebês saudáveis hesitavam, desviando repetidamente o
olhar do objeto. Bollas discute a experiência, sublinhando que o desvio
do olhar é um modo de situar o objeto no mundo interno, dando-lhe
assim um estatuto de objeto psíquico (Bollas, 2019, pp. 70-72).
Sem dúvida, um dos desaos de nossa época é que as pessoas dêem es-
paço e tempo para isso. O essencial, aqui, é a atitude de desconstrução
da xidez do sentido das coisas e do mundo, de modo que cada um,
analista e paciente, no ambiente em que se encontra, brinque com os
padrões do abajur, as cores de um quadro, a textura da cortina. Que
se conectem com sua experiência subjetiva dos objetos e de si mesmos
o que é muito diferente de pensar em coisas objetivamente percebi-
das, em objetos, ambientes, corpos, como coisas em si, com sentidos e
funções concretas e conhecidas de antemão.
Claro, a natureza dos objetos não é indiferente: tela, telefone, poltronas
e divãs, o som mediado ou não das palavras, a imagem bi ou tridimen-
sional, todos os objetos e todas as condições ambientais são elementos
importantíssimos, têm características próprias com múltiplos potenciais
de evocação, com promoção de afetos e reações de innitos matizes. O
que se trata de reconhecer, aqui, é que valorizar a natureza do objeto ou
da situação não implica que suas especidades determinem o que vai se
passar num encontro.
Já em 1969, e se referindo estritamente à clínica presencial, os Baranger
cuidaram desse tema:
O espaço da relação analítica também pode se contrair até incluir
apenas analista e analisante, com negação da existência dos limi-
tes naturais do cômodo e dos móveis que contém, ou se estender
incluindo um ou outro objeto (quadros, livros, etc.) que estão no
aposento, ou ainda se estender para fora dos limites do aposento:
o outro analisante na sala de espera que está escutando, os ruídos
provenientes do prédio ou da rua, podem ganhar um signicado
importante e congurar um espaço momentâneo muito distinto
do espaço analítico comum” (Baranger, M. & Baranger, W., 1969 ,
p. 130. Tradução livre).
Temos aí uma representação muito el ao que vivemos na clínica analí-
tica: movimentos permanentes de extensão e contração, de exclusão e
inclusão, de duplicação e negação movimentos que cam ainda mais
evidentes nas análises em-linha, em que temos uma ilusão menor em
relação à objetividade. O espaço analítico se congura de modos singu-
lares e mutantes, ele se situa entre realidade física e realidade psíquica,
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e se transforma com cada paciente, em cada sessão, em cada momento
das sessões. Vale dizer: sendo apreendido sempre de modos singulares
nas redes afetivas e associativas do sujeito, cada objeto vai ser usado
de maneiras únicas e imprevisíveis, e não de modos xos como muitas
vezes se acredita.
Vemos esta xidez imaginária voltada, por exemplo, ao binômio objeto
verbal / objeto não-verbal. décadas o não-verbal veio ganhando
um lugar privilegiado na psicanálise, num caminho de oposição às ten-
dências logocêntricas e racionalistas que continuamente ameaçavam o
campo analítico. Em detrimento do discurso verbal, então, passou-se
a priorizar a dimensão estética e a afetação intercorporal, entendidas
como expressões do mais verdadeiro, do mais primário, do mais pro-
fundo.
Nossa experiência clínica mostra que não é assim. Uma cena visual ou
um cheiro podem ser tomados de modo muito mais defensivo – racio-
nal, por exemplo do que uma narrativa verbal; um som ouvido pelo te-
lefone pode evocar uma experiência sensível de grande magnitude em
um sujeito anestesiado em seus encontros presenciais. É o que a clínica
analítica mais demonstra: que cada elemento de uma situação afetará
as pessoas de maneiras únicas, promoverá movimentos subjetivos úni-
cos, será apreendido e usado conforme as necessidades, os terrores, as
capacidades de quem os usa.
Então, usos singulares dos objetos, o supramodal, a pluralidade expres-
siva: não é surpreendente que se insista tanto no que falta, em lugar
de reconhecer a enormidade do que se apresenta? A gura criada por
Bollas – a partitura sinfônica metaforizando o desdobramento de uma
sessão psicanalítica – não é, de fato, uma ferramenta potente para ultra-
passarmos esse triste pensamento da falta (triste no sentido espinosa-
no: articulado à diminuição da potência)?
Este modo de conceber a clínica não deixa lugar para o postulado da
falta. A questão, em qualquer setting, passa a ser a do que se faz com a
innidade de elementos permanentemente se organizando e se com-
pondo. Quanto se cria e se recria um espaço facilitador e receptivo para
o trabalho propriamente analítico. Quanto se consegue tomar o que
emerge – por sua presença ou por sua não presença - como objeto psí-
quico, produzido/inventado/encontrado no espaço potencial da análise.
No divã, na tela, na poltrona, no telefone.
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