
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (2), 2025, pp 102 - 112
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: 10.60139/InterPsic/16.2.8
107 / FLAPPSIP
Ferenczi sempre se interessou pela criança em sua posição de vulnerabi-
lidade diante do poder do adulto. Essa vulnerabilidade, contudo, nunca
foi para ele sinônimo de impotência: a criança é um ser que pensa, cria,
elabora, apresenta um saber e um modo de percepção até maior do
que o do adulto. Esse modo próprio de ser se expressa através de uma
linguagem, como ele a chama - a linguagem da ternura. Mas esta acaba
sendo mais um modo afetivo do que um modo linguístico, propriamente
dito. De fato, a despeito do título Confusão de língua entre os adultos e a
criança (1933), não é a linguagem a protagonista da cena traumática.
Mesmo que Ferenczi atribua aos adultos a uma linguagem da paixão em
contraponto à linguagem da ternura infantil, a confusão que se dá entre
eles não é linguística; o que provoca o trauma é a invasão das paixões
dos adultos sobre o universo terno da criança. Vale lembrar que o título
original do artigo não era Confusão de língua, tal como foi publicado em
1933, e sim, As paixões dos adultos e sua inuência sobre o desenvolvi-
mento e o caráter da criança (1932). Originalmente o título sugere que
um vetor apaixonado parte dos adultos e se impõe unidirecionalmente
sobre a criança. Não se trata, portanto, de uma confusão entre crianças
e adultos, mas sim de adultos que se confundem, não se dando conta
de que elas sentem, percebem e se movem a partir de outro registro
afetivo (Verztman, 2020). Envolvida na ternura, a criança se apresenta
vulnerável à possibilidade do traumático. Este ocorre quando seu modo
de ser, sua percepção e seus afetos são desconsiderados e/ou desau-
torizados pelo adulto que, voltado apenas para si mesmo, quer apenas
atuar sua paixão, invadindo-a e violentando-a.
Qual a diferença entre paixão e ternura? São dois modos de relação
consigo mesmo e com o mundo. A paixão como linguagem dos adultos
é, para Ferenczi, uma emoção forte e incontrolável. Podemos gurá-la
como uma linha reta, incisiva, tanto em seu movimento de se lançar
sobre o outro quanto no de defender-se dele. O medo e o ódio são dois
exemplos: são paixões e, como tais, cegas, taxativas, peremptórias. Isso
já teria indicado Hobbes, ao dizer: “A única paixão da minha vida foi o
medo”. Já a ternura constitui outro tipo de afecção, mais uida e porosa,
abrindo uma superfície de comunicação mais ampla com o mundo ex-
terior. É mais permeável ao outro e às potencialidades da experiência.
Constitui um mundo no qual a individualidade dos contornos, a xidez
das imagens e a solidez das ideias se dissipam, dando lugar a outras
formas de ser e de comunicar-se, menos excludentes, mais relacionais
e interdependentes.
Se o modo afetivo da ternura, aberto à heterogeneidade, torna quem
nele está imerso mais vulnerável ao trauma, esta precariedade de de-
fesas não é vista por Ferenczi de maneira apenas negativa: a criança
menos provida de ltros comunica-se mais extensamente com o uni-
verso, o que permite que ela “saiba muito mais sobre o mundo do que
permite o nosso estreito horizonte” (Ferenczi, 1932, p. 190). De fato, os
órgãos dos sentidos dos adultos excluem mais do que percebem; eles
servem, “no essencial, para excluir uma grande parte do mundo externo