
159 / FLAPPSIP
Introdução:
A entrevista com Isildinha Baptista Nogueira aconteceu sob o signo das interru-
pções. Portas que se abriam, pessoas que queriam entrar na sala e o tempo
que parecia sempre se esgotar. Um espaço que precisou ser sustentado, prote-
gido, quase reconquistado a cada minuto — como se a própria cena falasse do
tema que nos convocava: anal, falar de racismo é também falar das formas de
interrupção que atravessam a história e a subjetividade: o corte da palavra, o
impedimento do gesto, a exclusão do lugar de fala. Em uma hora de conversa,
foi preciso resistir para que as falas prosseguissem, para que o sentido não se
perdesse, para que o outro — aquele que sempre foi interrompido — pudesse,
enm, dizer de si.
Entre entradas e saídas, o que se produziu ali foi mais do que uma entrevista: foi
a busca por uma escuta insistente, um exercício de presença, força e afetividade.
E talvez essa insistência — ética e afetiva — seja o que de mais urgente temos a
oferecer diante das formas sutis (ou não) de apagamento que o racismo ainda
impõe.
Isildinha é uma voz que não se deixa calar.
La entrevista:
Com uma agenda intensa — uma média de quatro compromissos semanais ao
longo de 2025 — Isildinha nos recebeu para uma conversa que se desdobrou em
quase uma hora de escuta viva e instigante. Entre lembranças de sua trajetória
e reexões sobre os temas que têm atravessado seus estudos e atividades, ela
compartilhou também seus planos para o próximo ano: reduzir o ritmo de ativi-
dades para se dedicar à escrita de A Clínica do Sujeito Negro, projeto que, como
ela mesma contou, já começa a ganhar corpo no papel:
Isildinha Baptista Nogueira: Moro em São Paulo, sou paulistana. Costu-
mo dizer que a vida foi generosa comigo. Quando defendi minha tese de
doutorado, ‘Signicações do Corpo Negro’, a banca recomendou publicação
imediata. Fui até a Editora Escuta, de um amigo, Manoel Berlinck, mas a res-
ponsável disse: “Esse assunto não nos interessa! ”. Eu então falei que a tese
caria na biblioteca da USP e, se alguém precisasse, buscaria lá. Demorou
28 anos para ser publicada, mas circulou bastante: até a Sociedade de Psi-
canálise de São Paulo tinha uma cópia. As pessoas conheciam o trabalho.
Quando nalmente foi lançada1, no nal da pandemia, mil cópias esgota-
ram-se em uma semana, o livro cou várias semanas com 5 estrelas pela
Amazon, mas nunca houve lançamento formal. Na época, eu dizia: é preciso
paciência histórica! Eu precisava também amadurecer com tudo que estava
acontecendo. A ideia desta tese surgiu de uma vivência: ao ver uma criança
negra desmaiada diante do espelho.
QUE RACISTA EU SOU?
A CLÍNICA DO SUJEITO NEGRO: ENTRE A
EXPERIÊNCIA E A SUBJETIVIDADE
Entrevista com Isildinha Baptista Nogueira
Flávia Bernardi1
Maria Beatriz Vannuchi2
1 Flávia Bernardi Graduada em
Psicologia pela Universidade de Caxias
do Sul. Psicanalista, Membro Pleno do
CEPdePA/Serra - Centro de Estudos
Psicanalíticos de Porto Alegre/Serra.
Supervisora clínica e Coordenadora de
Seminários na Formação Psicanalítica
da Escola de Psicanálise do CEPdePA/
Serra.
Uma das autoras do livro Pluralidades:
a Psicanálise entre o Feminismo, o
Racismo e as questões de Gênero
(2022), CEPdePA/Serra. Autora do
Prefácio do livro ‘A Longa Chuva’
(2024), de Adriana Antunes, editora
Libertinagem. Membro da Academia
de Letras dos Municipios de Rio
Grande do Sul - ALMURS.
2 Maria Beatriz Vannuchi, Psicanalista,
analista institucional e supervisora
clínica. Membro do Departamento
de Psicanalise do Instituto Sedes
Sapientiae e integrante do grupo de
apoio FLAPPSIP neste departamento.
Integra o comitê editorial da
Intercâmbio Psicanalítico desde 2024.
Foi professora dos cursos
Psicopatologia Psicanalítica e Clínica
Contemporânea (1999-2005) e do
Curso de Psicanalise (2004 -2013).
Integra o grupo Psicanalistas Atentos
às Relações Interraciais do Instituto
AMMA- Psiquê e Negritude desde
2018.
Autora de A violência Nossa de cada
Dia: O racismo a Brasileira, in O
Racismo e o Negro No Brasil: questões
para a psicanálise. (2017) Edição
organizada por Noemi Noemi Moritz
Kon, Criatiane Abud, & Maria Lúcia da
Silva, São Paulo, Perspectiva.
1A cor do Inconsciente: Signicações
do corpo negro (2021) Isildinha Baptista
Nogueira. São Paulo: Perspectiva