INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (2), 2025, pp 188 - 191
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: 10.60139/InterPsic/16.2.16
188 / FLAPPSIP
ADULTICIDIO.
ANATOMÍA DE UNA TRAGEDIA INVISIBLE
ADULTICÍDIO.
ANATOMIA DE UMA TRAGÉDIA INVISÍVEL
ADULTICIDE: A
NATOMY OF AN UNSEEN TRAGEDY
Reseña realizada por Daphne Gusie Torres
Asociación Peruana de Psicoterapia Psicoanalítica de Niños y
Adolescentes
ORCID: 0009-0003-1336-6888
Correo electrónico: daphne_gusie@hotmail.com
Fecha de recepción: 06 – 10 - 2025
Fecha de aceptación: 21 – 10 - 2025
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Gusie Torres D. (2025) ADULTICIDIO. ANATOMÍA DE UNA TRAGEDIA INVISIBLE
Intercambio Psicoanalítico 16 (2), DOI: 10.60139/InterPsic/16.2.16
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
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Autora: Hilda Catz
Ano 2025 - 206 páginas
Editorial: Ricardo Vergara, Buenos Aires
O recente livro de Hilda Catz, Adulticídio. Anatomia de uma tragédia invi-
sível, publicado em 2025 pela Ricardo Vergara Ediciones, constitui uma
obra de enorme atualidade, tanto em seu diagnóstico cultural quanto
em suas implicações clínicas e educativas. A autora retoma, ressigni-
ca e amplia o conceito de licídio proposto por Arnaldo Rascovsky nos
anos setenta para dar conta de uma forma de violência que não passa
pela destruição física da criança, mas sim pela destruição cultural e so-
cial da condição da adultez. Trata-se de uma categoria inovadora e pro-
vocadora, que alude a um fenômeno insidioso: adultos despojados de
sua função protetora, devastados por um contexto político, econômico
e tecnológico que os obriga a ceder, deixando crianças e adolescentes
sem referências identicatórias nem sustentação psíquica.
Adulticídio. Anatomia de uma tragédia invisível é uma obra que interpela
tanto o campo psicanalítico quanto o educativo, o político e o social. O
conceito de adulticídio condensa com lucidez um mal-estar da época:
adultos exaustos e destituídos de sua função protetora, crianças e ado-
lescentes à deriva, instituições frágeis para sustentar o desejo e o porvir.
A obra se abre com um lúcido prólogo de Andrés Rascovsky, que enqua-
dra o conceito de adulticídio em uma reexão ampla sobre a condição
da adultez. Não se trata adverte da mera acumulação de anos de
vida, mas de uma conquista psíquica e ética: a capacidade de ter resolvi-
do os núcleos narcísicos da infância, de assumir ideais, de exercer uma
repressão mais elaborada que os mecanismos defensivos primitivos e
de sustentar um desejo orientado pelo amor à humanidade. Rascovsky
sublinha que o adulto requer um legado transgeracional de vínculos e
representações que o habilitem a transmitir vida psíquica. A cultura con-
temporânea, entretanto, corrói essas condições: pressiona os pais com
demandas de produtividade e consumo, deixando-os sem tempo nem
disponibilidade afetiva para exercer a função parental. O adulticídio,
nesse sentido, é a anulação cultural do adulto como referente, mediador
e transmissor de desejo.
Nos capítulos 1 a 4, Hilda Catz desenvolve com força a noção de adulti-
cídio. Retomando e ampliando o conceito de licídio de Arnaldo Rasco-
vsky, redene-o como uma forma contemporânea de violência psíquica
e cultural: não a morte física do lho, mas a renúncia do adulto como
gura protetora e estruturante. A autora descreve como vivemos em
um contexto atravessado pela aceleração tecnológica, pela urgência do
consumo e pela precarização dos vínculos. O mandato social do “faça
já” dissolve a possibilidade da espera, do desejo e do futuro. Os adultos,
ADULTICÍDIO
ANATOMIA DE UMA TRAGÉDIA
INVISÍVEL
Resenha redigida por
Daphne Gusie Torres1
1 Licenciada em Psicologia Clínica
pela Pontifícia Universidade
Católica do Peru (PUCP). Mestre em
Docência para o Ensino Superior pela
Universidad Nacional Andrés Bello
do Chile (UNAB). Psicoterapeuta de
crianças, adolescentes e adultos
formada no Centro de Psicoterapia
Psicanalítica de Lima (CPPL). Docente
universitária e da formação em
Psicoterapia Psicanalítica do CPPL.
Membro titular e ex-secretária
cientíca da Associação Peruana
de Psicoterapia Psicanalítica de
Crianças e Adolescentes (APPPNA).
Coordenadora do Departamento
de Crianças e Adolescentes Donald
Winnicott do CPPL.
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submetidos a tais exigências, baixam os braços: exaustos, desvincula-
dos, devastados em sua capacidade de transmitir ilusão. Os adolescen-
tes, ao se encontrarem sem sustentação, “se chocam”.
O adulticídio se revela, assim, como uma epidemia silenciosa: invisível
na mídia, mas manifesta na clínica e na vida social. Seu efeito não é me-
nor: induz em crianças e jovens estados de apatia, adições, autoaniqui-
lação psíquica, depressão e violência. Catz mostra com contundência
que se trata de um problema transversal a todas as classes sociais e de
profundo impacto na subjetividade contemporânea.
O capítulo 5 oferece uma das análises mais originais e sensíveis da obra.
Catz vincula o adulticídio a certas formas de autismo secundário encap-
sulado, sublinhando como um ambiente cultural hostil pode interrom-
per a reverie materna e a função paterna de sustentação. Em sociedades
marcadas pela urgência e pela futilidade, muitas mães cam impedidas
de sustentar a simbiose inicial necessária, e os bebês enfrentam um ros-
to indiferente, uma presença ausente. Seguindo André Green, a autora
fala de uma “mãe morta” que, embora cumpra funções mecânicas de
alimentação e cuidado, permanece emocionalmente desconectada. O
resultado são crianças que crescem em bolhas encapsuladas, condena-
das a viver sem contato humano essencial. Trata-se de um fenômeno
que não pode ser compreendido sem considerar a devastação cultural
da adultez, que priva a mãe do apoio comunitário e o pai de sua função
de continente. O adulticídio aparece aqui como um fator de risco no
desenvolvimento precoce, ilustrando como a cultura incide nas formas
mais primárias do laço humano.
O capítulo 6 explora a relação entre o adulticídio e a emergência da cri-
minalidade juvenil. Catz sustenta que a delinquência adolescente não
pode ser compreendida sem considerar os vínculos iniciais, a estrutu-
ração psíquica e os contextos socioculturais. Quando o adulto se au-
senta como gura de sustentação, o adolescente ca exposto a uma
compulsão à repetição de experiências negativas. Tal como a autora
aponta, assim como as boas experiências nutrem a bondade interna,
as experiências adversas promovem a maldade interna, impulsionando
condutas violentas e destrutivas. Essa abordagem abre um horizonte clí-
nico e preventivo: em vez de se limitar ao castigo, a sociedade precisa de
políticas que restaurem a função adulta, oferecendo referências simbó-
licas e espaços comunitários capazes de contrabalançar a transmissão
da destrutividade.
No capítulo 7, a autora enriquece sua proposta com vinhetas clínicas
que ilustram como o adulticídio se encarna nos sintomas de crianças e
adolescentes. Casos de apatia escolar, depressões silenciosas, compul-
são ao consumo ou autoagressões aparecem como testemunhos de um
vazio simbólico: jovens sem referências que os sustentem, sem adultos
capazes de transmitir ilusão pelo futuro. Essas cenas clínicas conrmam
a potência do conceito de adulticídio, ao permitir articular o social e o
subjetivo. As vinhetas constituem uma contribuição inestimável para o
trabalho clínico, oferecendo chaves interpretativas e mostrando como a
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psicanálise pode dar nome e lugar a essas experiências de desamparo.
Em seu capítulo nal, capítulo 8, Catz sintetiza o percurso do livro com
uma reexão sobre a subjetividade em risco. As crianças e adolescentes
de hoje se encontram diante de um oceano de solidões e abandonos
vinculares. Como adverte Ricardo Rey na apresentação da obra na Asso-
ciação Psicanalítica Argentina, o adulticídio conduz a um estado crônico
de carência que se traduz em desinteresse pelo conhecimento, desâni-
mo, desinvestimento do porvir. A autora alerta que, se a sociedade não
sustentar a ecácia simbólica das funções parentais, estas inevitavel-
mente cairão, arrastando consigo os jovens. A prevenção, então, requer
não apenas fortalecer as famílias, mas também as instituições, a comu-
nidade e as redes de transmissão cultural. Trata-se de recuperar, como
diz Rascovsky, a erótica do viver, de restituir a esperança e de garantir
um horizonte para as novas gerações.
O livro culmina com um epílogo a cargo de Guillermo Carvajal, que reto-
ma a tese de Catz e a projeta para um horizonte ético e político. Carvajal
sublinha que o adulticídio não é um fenômeno isolado, mas um sintoma
coletivo de uma época que degrada a condição humana. Rearma a ne-
cessidade de defender as gerações futuras, de proteger a transmissão
simbólica e de sustentar a condição de adulto como uma conquista psí-
quica que não pode ser dada como certa.
Do meu ponto de vista, uma das contribuições mais signicativas do li-
vro é que Catz não se limita a um diagnóstico social abstrato: ilustra-o
com vinhetas clínicas, referências artísticas e literárias (de O senhor das
moscas a um grate em Berkeley que sentencia: “Por falta de interesse,
o futuro foi cancelado”). Essas cenas dão corpo à noção de adulticídio
e mostram como ela se inltra na vida cotidiana, nas salas de aula, nas
famílias e no consultório psicanalítico.
O livro oferece uma contribuição clínica, educativa e preventiva de gran-
de relevância: ajuda a compreender sintomas frequentes em crianças e
adolescentes apatia, autoaniquilação, compulsão ao consumo, violên-
cia ou desconexão emocional como efeitos da renúncia da função
adulta no tecido social. Assinala a urgência de fortalecer as funções pa-
rentais e comunitárias, e interpela escolas, instituições e prossionais
da saúde mental a recuperar a ecácia simbólica do adulto como sus-
tentação do desejo e do porvir. Com sua riqueza de vinhetas clínicas,
referências culturais e diálogo com a tradição psicanalítica, Adulticídio se
converte em uma obra indispensável para psicanalistas, educadores e
todos aqueles preocupados com o destino das novas gerações, ao mes-
mo tempo em que abre uma reexão urgente sobre a erótica do viver e
a transmissão do futuro.