
189 / FLAPPSIP
Autora: Hilda Catz
Ano 2025 - 206 páginas
Editorial: Ricardo Vergara, Buenos Aires
O recente livro de Hilda Catz, Adulticídio. Anatomia de uma tragédia invi-
sível, publicado em 2025 pela Ricardo Vergara Ediciones, constitui uma
obra de enorme atualidade, tanto em seu diagnóstico cultural quanto
em suas implicações clínicas e educativas. A autora retoma, ressigni-
ca e amplia o conceito de licídio proposto por Arnaldo Rascovsky nos
anos setenta para dar conta de uma forma de violência que já não passa
pela destruição física da criança, mas sim pela destruição cultural e so-
cial da condição da adultez. Trata-se de uma categoria inovadora e pro-
vocadora, que alude a um fenômeno insidioso: adultos despojados de
sua função protetora, devastados por um contexto político, econômico
e tecnológico que os obriga a ceder, deixando crianças e adolescentes
sem referências identicatórias nem sustentação psíquica.
Adulticídio. Anatomia de uma tragédia invisível é uma obra que interpela
tanto o campo psicanalítico quanto o educativo, o político e o social. O
conceito de adulticídio condensa com lucidez um mal-estar da época:
adultos exaustos e destituídos de sua função protetora, crianças e ado-
lescentes à deriva, instituições frágeis para sustentar o desejo e o porvir.
A obra se abre com um lúcido prólogo de Andrés Rascovsky, que enqua-
dra o conceito de adulticídio em uma reexão ampla sobre a condição
da adultez. Não se trata — adverte — da mera acumulação de anos de
vida, mas de uma conquista psíquica e ética: a capacidade de ter resolvi-
do os núcleos narcísicos da infância, de assumir ideais, de exercer uma
repressão mais elaborada que os mecanismos defensivos primitivos e
de sustentar um desejo orientado pelo amor à humanidade. Rascovsky
sublinha que o adulto requer um legado transgeracional de vínculos e
representações que o habilitem a transmitir vida psíquica. A cultura con-
temporânea, entretanto, corrói essas condições: pressiona os pais com
demandas de produtividade e consumo, deixando-os sem tempo nem
disponibilidade afetiva para exercer a função parental. O adulticídio,
nesse sentido, é a anulação cultural do adulto como referente, mediador
e transmissor de desejo.
Nos capítulos 1 a 4, Hilda Catz desenvolve com força a noção de adulti-
cídio. Retomando e ampliando o conceito de licídio de Arnaldo Rasco-
vsky, redene-o como uma forma contemporânea de violência psíquica
e cultural: não a morte física do lho, mas a renúncia do adulto como
gura protetora e estruturante. A autora descreve como vivemos em
um contexto atravessado pela aceleração tecnológica, pela urgência do
consumo e pela precarização dos vínculos. O mandato social do “faça
já” dissolve a possibilidade da espera, do desejo e do futuro. Os adultos,
ADULTICÍDIO
ANATOMIA DE UMA TRAGÉDIA
INVISÍVEL
Resenha redigida por
Daphne Gusie Torres1
1 Licenciada em Psicologia Clínica
pela Pontifícia Universidade
Católica do Peru (PUCP). Mestre em
Docência para o Ensino Superior pela
Universidad Nacional Andrés Bello
do Chile (UNAB). Psicoterapeuta de
crianças, adolescentes e adultos
formada no Centro de Psicoterapia
Psicanalítica de Lima (CPPL). Docente
universitária e da formação em
Psicoterapia Psicanalítica do CPPL.
Membro titular e ex-secretária
cientíca da Associação Peruana
de Psicoterapia Psicanalítica de
Crianças e Adolescentes (APPPNA).
Coordenadora do Departamento
de Crianças e Adolescentes Donald
Winnicott do CPPL.