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A ÉTICA NA INSTITUIÇÃO
PSICANALÍTICA
LA ÉTICA EN LA INSTITUCIÓN
PSICOANALÍTICA
ETHICS IN THE PSYCHOANALYTIC
INSTITUTION
Margarida Viñas
Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre
ORCID: 0009-0006-9545-4479
vinasmargarida@gmail.com
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Viñas M. (2023) A ética na instituição psicanalítica
Intercambio Psicoanalítico 14 (2), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/14.2.1/
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 14 (2), 2023, pp 13 - 23
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/14.2.1/
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RESUMO:
O presente trabalho visa pensar a ética nas instituições psicanalíti-
cas, partindo da premissa de que cabe a estas, uma vez incumbidas
de transmitir a psicanálise, adotar uma ética coerente com sua -
nalidade. Três proposições foram utilizadas como disparadoras, al-
mejando reexionar sobre as variadas vertentes sob as quais pode
se pensar a ética institucional: o Mênon, de Platão, para articular a
possibilidade de transmissão da ética; o “Mal-estar na Psicanálise”1,
para ponderar a postura dos psicanalistas; e, por m, o Seminário 7,
de Jacques Lacan (1959-1960), para desenvolver aspectos envolvidos
nas relações dentro das instituições.
Palavras-chave:
Ética; Instituição Psicanalítica; Mênon; Mal-estar; Seminário 7.
RESUMEN:
Con el presente trabajo se busca pensar la ética en las instituciones
psicoanalíticas partiéndose de la premisa de que cabe a esas, por
estar incumbidas de transmitir el psicoanálisis, adoptar una ética
coherente con su nalidad. Se utilizaron tres proposiciones como
disparadoras de reexiones sobre las variadas vertientes a partir de
las cuales se puede pensar la ética institucional: la obra Menón, de
Platón, para articular la posibilidad de transmisión de la ética; el li-
bro Malestar en el psicoanálisis2, para ayudarnos a identicar la postura
de los psicoanalistas; y, por último, el Seminario 7, de Jacques Lacan
(1959-1960), para desarrollar aspectos implicados en las relaciones
dentro de las instituciones.
Palabras clave:
Ética; Institución Psicoanalítica; Menón; Malestar; Seminario 7.
ABSTRACT:
This paper aims to think about ethics in psychoanalytic institutions,
based on the premise that, once they have the task of transmitting
psychoanalysis, they must adopt an ethic that is coherent with their
purpose. Three propositions were used as triggers, with the aim of
reecting on the various aspects under which institutional ethics
can be thought of: Plato’s “The Ménon”, to articulate the possibility
of transmitting ethics; “Malaise in Psychoanalysis”, to consider the
attitude of psychoanalysts; and, nally, Jacques Lacan’s Seminar 7
(1959-1960), to develop aspects involved in relationships within ins-
titutions.
Keywords:
Ethics; Psychoanalytic Institution; Ménon; Malaise; Seminar 7.
.
A ÉTICA
NA INSTITUIÇÃO PSICANALÍTICA
Margarida Viñas1
1 Psicanalista. Graduada em
Psicologia pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande
do Sul – PUCRS. Membro associado
do Centro de Estudos Psicanalíticos
de Porto Alegre - CEPdePA. Escritora.
1 Safouan, Julien e Homan, 1996.
2 Safouan, Julien y Homan, 1996
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I - INTRODUÇÃO
A leitura de “A História do Movimento Psicanalítico”, escrita por
Sigmund Freud, em 1914, mostra o quanto as instituições psicanalíticas,
desde os seus primórdios, estiveram suscetíveis a turbulências. Pelo re-
lato de Freud, rivalidades, dissonâncias, dissidências e toda a espécie de
divergências aparecem, no tocante às sociedades psicanalíticas, já no
Congresso de Munique, em 1913, sob a presidência de Jung. Mas pode-
mos pensá-las já presentes na história do Movimento bem antes, quan-
do Freud rompe com Fliess, pela disputa do conceito da bissexualidade;
ou, com Breuer, quando há discordância entre as teorias de ambos.
Enquanto vivo, Freud conseguiu manter, sob o nome de psicanálise, ape-
nas aquilo que estava consoante com o que propunha. Afastou os dissi-
dentes, tanto assim que Carl Jung emplacou suas ideias sob o nome de
“psicologia analítica”; e, do mesmo modo, Alfred Adler, o fez como “psi-
cologia individual”. Com a morte de Freud, a IPA (International Psychoa-
nalytical Association), organização internacional fundada por ele cou de
guardiã, responsável pelo seu legado e pela transmissão da psicanálise.
Com o rompimento de Jacques Lacan e o que ele denominou sua “extra-
dição” da IPA, houve a quebra do monopólio “ipense”, com a possibilida-
de de abertura de outras instituições, em diversos países. Percebeu-se
que a psicanálise era um ofício livre, autônomo, psicanalistas poderiam
se reunir e abrir uma nova casa (pelo menos, até alguns Estados come-
çarem a intervir, era dotado de total liberdade que o campo psicanalítico
funcionava).
Contudo, uma outra faceta na proliferação das instituições ana-
líticas, desvelada pela proliferação delas, talvez também esteja associa-
da às diculdades internas dos psicanalistas de se manterem na sua
própria instituição de origem, por interesses próprios, dissidências, etc.
Geralmente, as rupturas são causadas pelos mesmos motivos que já
estavam presentes no texto de Freud de 1914. Mas, ainda mais impor-
tante, as instituições psicanalíticas, desde que portem este nome, estão
incumbidas da tarefa de transmitir o que Sigmund Freud nos deixou de
legado – a psicanálise. Muitas vezes contam com clínicas onde fazem
atendimentos e apresentam esse saber e essa experiência a seus pa-
cientes e a um público.
Pensando em todas essas implicações, o presente trabalho visa
pensar uma ética possível para as instituições psicanalíticas. Partindo da
premissa que o campo psicanalítico está permeado por peculiaridades
que lhe são próprias, fazendo com que a instituição psicanalítica não
compartilhe alguns modos com os quais se estruturam outras organiza-
ções, dividimos o trabalho em três grandes proposições, a saber: 1. Se a
ética é algo que se transmite, ou é passível de se transmitir; 2. A postura
dos psicanalistas após a formação e perante a instituição; e, 3. A ética na
instituição.
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Por uma questão de precisão conceitual, esclarecemos que
utilizamos o termo “ética”, nos moldes que Lacan a dene no último
capítulo do seu seminário de 1959-1960. Em 06 de julho de 1960, ele
diz que “a ética consiste essencialmente num juízo sobre nossa ação,
exceto que ela só tem importância na medida que a ação nela implica-
da comporta também, ou é reputada comportar, um juízo, mesmo que
implícito. A presença do juízo dos dois lados é essencial à estrutura” (La-
can,1959-1960, p. 364).
II - PRIMEIRA PROPOSIÇÃO
“Mênon” é um dos diálogos do início do período intermediário de
Platão, no qual não apenas são apresentadas as ideias de Sócrates, mas
a boca do velho mestre torna-se veículo de difusão das de sua própria
autoria. Estima-se que o encontro de Mênon e Sócrates, provavelmente
ocorrido em um ginásio ou na ágora, tenha ocorrido em ns de janeiro
ou começo de fevereiro de 402 a.C.
Mênon era um jovem de origem nobre que veio à Atenas plei-
tear apoio político para a Tessália, sua região, envolvida em disputas
políticas. Ficou hospedado na casa de Ânito. Sua escolha para compor
o diálogo com Sócrates por Platão parece não ter sido aleatória, e sim
irônica, já que Mênon seria um representante daqueles que acredita
que virtude tem a ver com poder. Aliás, depois desse diálogo, ele teria
partido de Atenas e se juntado a um exército de mercenários para lutar
contra Antaxerxes, onde morreu. Ânito, outro personagem que possui
uma aparição modesta no diálogo, aparece como antrião de Menon
em Atenas e, nos fatos históricos, é um dos três acusadores de Sócrates
e, pode-se dizer, o mais poderoso deles.
O diálogo trata basicamente de duas aporias: a primeira, sobre
a denição da virtude; a segunda, sobre a possibilidade de se transmiti-
-la. Esse trabalho não é o único em que Platão aborda o tema das virtu-
des. Os antigos estavam bastante preocupados com essa temática que
parece ter caído em desuso atualmente. Mênon pergunta para Sócrates:
- Podes dizer-me, Sócrates: a virtude é coisa que se ensina? Ou não é
coisa que se ensina mas que se adquire pelo exercício? Ou nem coisa
que se adquire pelo exercício nem coisa que se aprende, mas algo que
advém aos homens por natureza ou por alguma outra maneira? (Platão,
2001, p. 19).
Evocamos esse diálogo pela proximidade do campo. Já os gregos
estavam preocupados com isso (a virtude, mas por que não a ética – ou
mesmo a psicanálise?) que não se trata de uma ciência. Ou melhor, que
há algo abrangido no campo da experiência, ou do próprio ser, que o
saber cientíco não conta. E que não se pode transmiti-lo ao outro
como se ensina física ou biologia. Com a virtude – essa era a questão
deles – não adianta ensinar: a pessoa pode saber o que é a virtude (ou o
que é a ética ou o que é a psicanálise) e isso não quer dizer que vai agir
de uma determinada maneira na hora certa.
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A aporia denota a diculdade relacionada a este campo onde pre-
tende-se incutir algo no outro, fazendo do externo algo interno, transmissão
onde o conhecimento possa se entranhar não apenas em um saber, nem
tampouco em um agir (know how), mas em algo do ser do sujeito. Quase
algo de pronta resposta, por já estar ali. Ortho Doxa, a correta opinião, é o
que Sócrates refere no diálogo, algo que está ou não está na pessoa.
III - SEGUNDA PROPOSIÇÃO
No livro intitulado “O mal-estar na Psicanálise” (1996), Moustapha
Safouan, Philippe Julien e Christian Homann armam que, na psicanálise,
há um mal-estar (na verdade, há vários). E que não se deve fugir de um mal-
-estar: se deve descrevê-los e analisá-los. A psicanálise se funda no saber
inconsciente, que não se didatiza, senão em uma experiência pessoal. Se-
gundo esses autores, o mal não vem da “incongruência desse exercício de
palavras”, mas “da natureza do terceiro entre o analista e o analisante” (Sa-
fouan e Outros,1996, p. 10). Anal, um psicanalista há que ser reconhecido
por uma instituição, transitar entre seus pares, para ser considerado um
bom analista.
Claro, há o velho aforisma lacaniano de que “o psicanalista só se
autoriza de si mesmo” (Lacan, 2003, p. 248). Lacan jamais quis dizer que al-
guém pode sair por aí se nomeando psicanalista. Vejam que em francês o
verbo autoriser advém da palavra autor (auteur), o agente que pratica a ação:
o que pode ser interpretado como criador de um ato, talvez o ato analítico,
ou mesmo o instituidor de sua prática. Cuidando de desfazer o equívoco
suscitado por sua armação, na aula de 09 de abril de 1974, Lacan explica a
frase, incluindo terceiros na formação do analista e concluindo que, “se com
garantia’ - refere-se aos rituais de formação tradicionais – ‘não se pode ser
nomeado à psicanálise, isso não quer dizer que qualquer um possa entrar aí
como um rinoceronte na porcelana!” (Lacan, J. 1973-1974, p. 185).
Uma vez posta a imprescindibilidade da instituição, o mal-estar, se-
gundo Safouan, Julien e Homan, provém da contradição entre o modelo
pelo qual as sociedades selecionam e reconhecem seus candidatos e a novi-
dade da experiência psicanalítica. Esse é o primeiro mal-estar.
Voltando ao aforisma de Lacan (2003, p. 248), “um psicanalista só se autoriza
de si mesmo”, interpretado como excludente da instituição, o que ele queria
dizer é que o analista é o único responsável pela análise por ele praticada.
Os três autores apontam que o “terceiro, que tem de ser reconhecido entre
ele e o analisante é primeiramente o Outro, isto é, esse lugar que Freud
chama de inconsciente e que tem estrutura de linguagem” (Safouan e Ou-
tros,1996, p. 10). E o que acontece no m da análise?
E se na análise o sujeito é responsável por seu inconsciente, segun-
do o enunciado de Freud – Wo es War, sol Ich werden -, em contraposição,
no m da partida, o sujeito se faz responsável pela psicanálise. Verdadeiro
retorno, pelo qual, ao se autorizar, ele autoriza a psicanálise no mundo (Sa-
fouan e outros, 1996, p. 11).
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E aqui aparece o mal-estar que realmente nos interessa. Pois,
segundo esses os autores, o sujeito pode seguir de duas maneiras como
analista. Pela primeira maneira, ele se dirige a um público, com a missão
de fazer conhecer a psicanálise e a seu nome. A instituição psicanalíti-
ca, torna-se, nesse caso, um trampolim necessário para essa passagem,
tal qual uma agência de publicidade, exigindo que cada um faça dela
um lugar de militância. “O terceiro é o lugar onde instituir seu próprio
renome, sob a égide da psicanálise. Insensatez e canalhice aí se dão as
mãos facilmente” (Op. cit., p. 10).
Segunda maneira: o sujeito prossegue como analista com uma
orientação bem diferente, livre de um ideal de eu que é sempre ideal de
um outro. Mas permite que, desse personagem, esteja sempre destituí-
do. Assim autorizar-se sozinho (sem o ideal de eu) é não estar só, mas
compartilhando com seus pares (outros sozinhos) discussões importan-
tes, clínicas, questões de peso, surgidas na prática analítica.
No mal-estar na Psicanálise, os autores trazem uma imagem que bem
cabe aqui: Trata-se de um general que após uma batalha vitoriosa acam-
pa com seu exército ao pé de uma montanha. Vendo que mais acima
havia um homem sentado, fica furioso. Quem seria aquele que ousaria
estar sentado acima dele? O general vai lá e interpela este homem:
- Quem é você, que se permite sentar acima de mim?
O homem responde:
- Perguntai-me quem sou sem dizer-me quem sois?
- Sou o chefe de todo o exército que você está vendo lá embaixo.
- E quem está acima de vós?
- O marechal, naturalmente.
- E acima do marechal?
- Só há o rei acima do marechal.
- E acima do rei?
- Nada está acima do rei.
- Pois eu sou esse nada (Op.cit., p. 34-35).
A fala do homem sinaliza justamente o ponto onde todos somos
iguais. Onde é possível a discussão e a troca de ideias sem medo de crí-
ticas. Ou, nas palavras dos autores, onde o analista é convidado a dizer
a esses iguais, que são colocados por ele (quer ele saiba ou não) na po-
sição do Outro testemunha, algo do que ele aprendeu do seu saber in-
consciente, ou do lugar onde ele responde àqueles que a ele se dirigem
ou, ainda, se possível, ao que estava em jogo no momento em que ele
resolveu ocupar esse lugar (Safouan e outros, 1996, p.35).
Ou seja, a destituição do ideal de eu é necessária para a troca de
ideias dentro da Instituição, com a possibilidade de dar contas de sua
prática, ouvir críticas e errar, podendo trabalhar na tecitura de novas
proposições e teorias.
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IV - TERCEIRA PROPOSIÇÃO
Lacan talvez tenha sido o psicanalista que mais trabalhou a éti-
ca. Além de várias outras oportunidades em que ele se debruçou sobre
a questão, nos anos de 1959-60 ele dá esse título ao Seminário daquele
ano, sendo o primeiro que ganha um nome que não se refere aos con-
ceitos base da psicanálise. A pergunta de pesquisa que Lacan está se
fazendo é, basicamente: Sobre o que fundar uma ética da psicanálise
para além da concepção de ‘Bem’ - seja ela teleológica ou moral?
Procurou-se aqui fazer uma transposição do que Lacan cons-
truiu referente à ética da psicanálise, indagando-se se as mesmas per-
quirições feitas nesta seara serviriam de parâmetro para uma ética ins-
titucional, tendo sempre em vista que as instituições psicanalíticas têm
como m a transmissão da psicanálise. Mesmo os que não estão fami-
liarizados com Lacan não tem maiores entraves com esse Seminário,
já que a discussão travada se pauta basicamente sobre os pressupos-
tos teóricos estabelecidos por Freud. Lacan convoca também lósofos
como Platão, Aristóteles, Heidegger, Kant, Bentham, Spinoza, Pascal e
outros para fazer essa discussão.
Trabalhando com a ética, Aristóteles fala de uma certa ordem,
que se apresenta primeiro como ciência – uma episteme. Depois, há
uma ciência do que deve ser feito, uma ordem que dene a norma de
um certo caráter, ethos. Como submeter-se, adequar-se a esse ethos, é a
pergunta seguinte. Trata-se, na perspectiva do lósofo grego, da busca
de um Bem Supremo, cujo paradigma seria, em última instancia uma
idealização de um certo ideal humano revestido em uma espécie de
mestre antigo, nous. Lacan diz que a sua ética não serve de modelo para
a psicanálise, por se tratar de uma ética de caráter, de adestramento e
de educação.
Freud, diferentemente, articulara a ética em uma certa relação
com o real. Por isso, nesse Seminário, Lacan vai retomar a Das Ding, a
Coisa, do Projeto freudiano, para realçar o pulsional em seus dois lados.
Em um deles, é a pulsão de morte que se apresenta cada vez que o Su-
jeito se aproxima do representante da representação desse objeto que
Lacan chamou de fora-do-signicado.
No tocante às Instituições, há que ser dispensada a ética Aris-
totélica, haja vista o contrassenso entre o que seria pregado e o pre-
tendido, ou seja, entre a experiência psicanalítica pautada pela fala e
permeada pelo pulsional, e uma ética de ensinamento visando um ideal.
Seguindo na sua busca, Lacan evoca Jeremy Bentham, considerado por
muitos o pai do utilitarismo - a escola que dizia que “os ns justicam
os meios”. Alinhada aos termos assim propugnados, uma posição ética
seria aquela cujos ns fossem aceitáveis, independente dos meios to-
mados. Cabe lembrar, no tocante a “ns” seja de análise, seja do sujeito
humano, seja de propósitos almejados, que no seu Mal-estar na civiliza-
ção Freud desvalida toda e qualquer busca da felicidade.
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O que almeja uma análise? Como questionar essa ética? Lacan
segue se perguntando. Por aqui, a questão é transposta: como pensar
a ética de uma instituição psicanalítica? Na esteira dessas indagações,
outras vão se revelando... Qual a porcentagem dos que efetivamente se
tornam psicanalistas nas Instituições brasileiras? O que nossas Institui-
ções estão vendendo? Referindo-se à promessa de certos psicanalistas
de que uma análise bem-sucedida ou feita à termo seria a panaceia para
todos os males, Lacan chama de via americana essa tentativa de apre-
sentarmo-nos em uma determinada postura de promessa de todos os
bens como acessíveis (Lacan, 1959-1960, p. 262).3
Lacan apresenta alguns paradoxos com os quais o próprio Freud
se deparou, na sua clínica. Um deles é a diculdade do sujeito de car
bem, traduzida no além do princípio do prazer – elevado ao mal-estar
na civilização. Se a versão subjetiva deste paradoxo é a exigência moral,
e quanto mais exigente e severa ela for mais o sujeito se sente culpado;
sua a versão cultural é o totem e tabu, onde a morte do pai não traz o
gozo fácil, mas apenas reforça a proibição (Viñas, 2021).
O prazer e a moral são cotejados para deduzir que esta arma-
-se contra aquele. A dualidade prazer-realidade cede lugar a uma nova
dupla: prazer e seu mais além, a pulsão de morte. A lei moral, estrutura-
da no simbólico, presentica o real. Real, aqui, como pulsão de morte.
No que tange às Instituições, a pulsão de morte aparece sob as
mais variadas facetas. Muitas vezes, apresenta-se escondida sob atitu-
des extremamente cuidadosas, sob a rubrica de uma moral que mais
pretende atribuir para si todas as virtudes a ao outro as desconanças
inquisitórias. Comportamentos que servem, segundo o Mal-estar, ape-
nas para apaziguar a culpa e aplacar a vilania do seu próprio supereu.
São conhecidos os efeitos mortíferos causados por esse tipo de conduta
nas instituições.
Lacan evoca os dez mandamentos para lembrar que apenas a
lei pode fazer-nos viver socialmente. Da Das Ding, a Coisa, do Projeto
freudiano, só pode restar o representante de uma representação; dela,
o Bem seria uma metáfora. A partir do Bem, Lacan lembra o ápice do
mandamento ético amarás ao próximo como a ti mesmo (que já estava
em Freud, no Mal-estar na civilização), apontando que este só pode ser
uma falácia. Isso na medida em que só podemos amá-lo (ao próximo) se
o mantivermos a nossa imagem e tal qual o desenhamos.
Aí vem uma crítica a boa parcela de psicanalistas, que Lacan
(1959-1960, p. 230) denominou de “pastoral analítica”, e que pode ser
bem utilizada para pensarmos a ética institucional, nas questões de
transferência e identicação. “Pastoral analítica” é a expressão que ele
usou ironicamente para se referir aos psicanalistas bonzinhos, interes-
sados no bem de todos, dos colegas, da instituição, mas cujo altruísmo
serve como capa para os mais diversos interesses. Vamos voltar a isso
mais adiante.
3 Nessa mesma página também fala que
os analistas falam apenas do seu desejo de
curar os pacientes, sem jamais se referirem
ao seu desejo de não curar.
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Kant e Sade são contrapostos. Kant, ampliando os mandamen-
tos morais em imposições coercitivas, na qual as ações humanas só po-
dem ser praticadas se valendo como princípios de uma lei universal im-
posta para todos. Todavia, girando sob o mesmo mandamento do amor
a si, a lei moral em sua pureza só pode levar a dor. Sade, do lado oposto,
pelo imperativo de gozar a todo custo, só chega ao mesmo lugar.
E o amor, seria lugar de uma ética? Que tal o amor que Lacan
chama de amor cortês? Paradigma da sublimação, é apenas uma mira-
gem, dentro de uma relação narcísica. Aliás, a própria sublimação, em
seu âmago, em sua inerência, reside no domínio ético, uma vez que,
como lembra Lacan (1959-1960), é criadora de um certo número de for-
mas, ou, em outras palavras é formadora de valores socialmente reco-
nhecidos, sempre ligados a ideais determinados.
Lacan retoma Totem e Tabu e Moisés e o Monoteísmo para lem-
brar a ambivalência nas relações dos lhos com o pai. Assim é que a ori-
gem da lei se encarna no assassinato do pai, depois animal-totem, deus
isso-ou-aquilo, até um deus que já mataram. Mas, se deus está morto,
diz Lacan, é porque “ele nunca foi pai a não ser na mitologia do lho”
(Op. cit., p. 213), ou seja, pai é alguém que só existe na mitologia do lho
e é nessa que ele ressurge mesmo após a sua morte.
Em relação à morte do pai, no tocante às instituições, é possí-
vel pensar nos movimentos de ruptura com as origens fundacionais, ou
mesmo com estatutos anteriores, diretorias ou gestões, apenas para
querer fundar uma nova marca ou imprimir uma certa sucessão gera-
cional. Entretanto, é também consabido que o assassinato do pai faz
retornar o amor, após cometido o parricídio. Anal, o assassinato do pai
não abre uma via para o gozo, mas inscreve uma dívida com a lei. Pa-
radoxalmente, o gozo transgressor só é possível se a lei existe, ou seja,
apoiando-se na própria enunciação que o proíbe.
Por outro lado, se deus está morto, nada responde por ele... Se a
lei está fundada no outro e nada a garante, não há como articulá-la. Não
havendo no Outro senão a falta, não signicante que responda por
ela, o signicante é o signicante da morte.
No m das contas, o pai volta, mais forte que nunca, segun-
do Lacan, através do enunciado do amor ao próximo. Seria essa uma
ética institucional? Partir do Ama ao próximo como a ti mesmo voltado
para um certo princípio fraternal de uma bem tratar ao colega? Freud
(1930(1929)), no Mal-estar na civilização, já havia apontado as incon-
gruências desse princípio, começando pela injustiça que seria conceder
o mesmo amor aos que nos amam e àqueles que nada fariam por me-
recer nosso amor, ou, até mesmo, que dele são indignos. Lacan (1959-
1960), por sua vez, assinala que o problema está no como a si mesmo.
Amar o próximo como a si mesmo às vezes é odiar o próximo como a si
mesmo, desejar o mal como a si mesmo, etc. No tocante ao si mesmo, as
relações com os outro sempre tendem a superdimensioná-lo em vez de
diminui-lo.
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No Mal-estar na civilização (1930(1929)), Freud lembra a cota de
agressividade que cabe a cada um de nós. Ao m e ao cabo, até o uti-
litarismo de Bentham conjugado com a suposta melhor das intenções,
serve para disfarçar, sob o manto do altruísmo, o mal desejado por cada
um. É no nível do útil que o discurso altruísta deve ser apreciado. Esta é
a interpretação cabível, no nível ético, para esse tipo de discurso dentro
das instituições.
A agressividade encoberta, face ao mandamento altruísta, se
volta contra si mesmo, abastecendo a energia do supereu. O que existe
aqui é um jogo de espelhos, já que se o eu é um outro, o outro sou eu.
E se ele é igual a mim, tanto faz de quem é a maldade, quem sofre ou
inige sofrimento. O gozo se apresenta então como satisfação de uma
pulsão, a pulsão de morte, que aqui ganha uma função criadora.
Ao apresentar o Seminário dos anos 1959-1960, Lacan foi des-
construindo um a um, a moral, o altruísmo, a sublimação e o hedonismo
como capazes de responder por uma ética. No m, ele apresenta Antí-
gona, a tragédia de Sófocles, para pensar a questão do desejo. Trata-se
da lha de Édipo, que é, ao mesmo tempo, sua irmã. Moça entre duas
posições familiares e simultaneamente entre duas leis: a da família e
a da cidade, editada pelo tio. Lacan diz que ela se encontra em uma
posição “entre duas mortes”: decidindo ir na direção de seu desejo (e
enterrar o irmão), Antígona morre pela letra da lei do tio (é condenada).
Ficando ao lado da lei e obedecendo o tio, ela perde uma parte de si,
sua parte desejante – o desejo de ter o irmão enterrado conforme os
mandamentos divinos. Antígona morre, mas não cede no seu desejo a
demandas de ninguém. Agiste em conformidade com teu desejo? É a
pergunta que se impõe e com a qual Lacan marca a Ética da psicanálise.
IV – CONSIDERAÇÕES FINAIS
Retomando a diculdade percebida, pelos antigos, quanto à
transmissão daquilo que ultrapassa o domínio da ciência, ou do saber,
posto que o campo epistemológico não sucientemente capaz de abran-
ger todo campo da experiência, coloca-se toda diculdade no tocante à
ética. Estaria ela na mesma alçada da virtude, para a qual Sócrates diz
que é apenas por concessão divina que ela provém?
Mesmo que não fossemos tão pessimistas, seria incorrer em
uma lógica de Polyana esperar que todos fossem éticos dentro das ins-
tituições psicanalíticas. De sua parte, no tocante à instituição psicanalí-
tica, nosso único norte em termos de desejo é transmitir a psicanáli-
se – o legado que nos foi passado por Freud: a responsabilidade pelo
inconsciente, pela psicanálise, no mundo. Cabe às instituições serem as
guardiãs desse legado, se responsabilizarem por ele. Porém, como se
defenderem contra os seus próprios membros, no sentido que Safouan,
Julien e Homan apontaram, servindo-se das instituições como agencias
publicitárias para angariarem pacientes ou supervisionandos ou mesmo
promovendo seu próprio nome: servindo-se das Instituições e não ser-
vindo a elas?
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 14 (2), 2023, pp 13 - 23
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/14.2.1/
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Se a ética da psicanálise é a ética do desejo, a Instituição psica-
nalítica só pode ser demarcada pela sua outra face, a ética da castração.
Obviamente, não se trata da castração no sentido de torná-la amarrada
ou impotente, pelo contrário. A lei é justamente o que permite dese-
jar. Trata-se de buscar amparo em um regulamento bem escrito, com o
princípio bem assentado de que só os atos que tiverem, direta ou indire-
tamente, como nalidade a transmissão da psicanálise serão válidos.
Transmitir a psicanálise, o legado de Freud, a responsabilidade
pelo inconsciente, no mundo é o desejo do qual não podemos ceder.
Observe-se a minúcia com que Lacan se refere ao único mandamento
ético possível no campo psicanalítico (não ceder do seu desejo):
O que chamo ceder de seu desejo acompanha-se sempre no
destino do sujeito (...) de alguma traição. Ou o sujeito trai sua via, se trai
a si mesmo, e é sensível para si mesmo. Ou mais simplesmente, tolera
que alguém com quem ele se dedicou mais ou menos a alguma coisa
tenha traído sua expectativa, não tenha feito com respeito a ele o que
o pacto comportava, qualquer que seja o pacto, fausto ou nefasto, pre-
cário, de pouco alcance, ou até mesmo de revolta, ou mesmo de fuga,
pouco importa.
Algo se desenrola em torno da traição, quando se tolera, quan-
do, impelido pela ideia do bem-quero dizer, do bem daquele que traiu
nesse momento – se cede a ponto de diminuir suas próprias pretensões
e dizer-se. (...)
Transposto esse limite, em que com um termo vinculei para vo-
cês o desprezo pelo outro e por si mesmo, não há retorno. Pode-se tra-
tar de reparar, mas não de desfazer. Não é esse um fato da experiência
que a psicanálise é capaz de nos fornecer uma bússola ecaz no campo
da direção ética? (Lacan, 1959-1960, p 375).
Referências
Freud, S. (1914). A história do movimento psicanalítico. In: Edição standard brasileira das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago.
Lacan, J. (1959-1960). O Seminário, Livro 7. Rio de Janeiro: Zahar.
Lacan, J. (2003). Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. Outros
Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
Lacan, J. (1973-1974). Os não tolos vagueiam. Publicação não comercial, circulação aos
membros do Espaço Moebius. Salvador, Bahia.
Viñas, M. (2021) Sobre o Seminário 7. O tempo sombrio que nos afetaPensando a ética da
psicanálise. Porto Alegre: Artes e Ecos.
Safouan, M. e Outros. (1996). O mal-estar na psicanálise. Campinas: Papirus.
Platão (2001). Mênon. São Paulo: Loyola.
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 14 (2), 2023, pp 13 - 23
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/14.2.1/