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Kant e Sade são contrapostos. Kant, ampliando os mandamen-
tos morais em imposições coercitivas, na qual as ações humanas só po-
dem ser praticadas se valendo como princípios de uma lei universal im-
posta para todos. Todavia, girando sob o mesmo mandamento do amor
a si, a lei moral em sua pureza só pode levar a dor. Sade, do lado oposto,
pelo imperativo de gozar a todo custo, só chega ao mesmo lugar.
E o amor, seria lugar de uma ética? Que tal o amor que Lacan
chama de amor cortês? Paradigma da sublimação, é apenas uma mira-
gem, dentro de uma relação narcísica. Aliás, a própria sublimação, em
seu âmago, em sua inerência, reside no domínio ético, uma vez que,
como lembra Lacan (1959-1960), é criadora de um certo número de for-
mas, ou, em outras palavras é formadora de valores socialmente reco-
nhecidos, sempre ligados a ideais determinados.
Lacan retoma Totem e Tabu e Moisés e o Monoteísmo para lem-
brar a ambivalência nas relações dos lhos com o pai. Assim é que a ori-
gem da lei se encarna no assassinato do pai, depois animal-totem, deus
isso-ou-aquilo, até um deus que já mataram. Mas, se deus está morto,
diz Lacan, é porque “ele nunca foi pai a não ser na mitologia do lho”
(Op. cit., p. 213), ou seja, pai é alguém que só existe na mitologia do lho
e é nessa que ele ressurge mesmo após a sua morte.
Em relação à morte do pai, no tocante às instituições, é possí-
vel pensar nos movimentos de ruptura com as origens fundacionais, ou
mesmo com estatutos anteriores, diretorias ou gestões, apenas para
querer fundar uma nova marca ou imprimir uma certa sucessão gera-
cional. Entretanto, é também consabido que o assassinato do pai faz
retornar o amor, após cometido o parricídio. Anal, o assassinato do pai
não abre uma via para o gozo, mas inscreve uma dívida com a lei. Pa-
radoxalmente, o gozo transgressor só é possível se a lei existe, ou seja,
apoiando-se na própria enunciação que o proíbe.
Por outro lado, se deus está morto, nada responde por ele... Se a
lei está fundada no outro e nada a garante, não há como articulá-la. Não
havendo no Outro senão a falta, não há signicante que responda por
ela, o signicante é o signicante da morte.
No m das contas, o pai volta, mais forte que nunca, segun-
do Lacan, através do enunciado do amor ao próximo. Seria essa uma
ética institucional? Partir do Ama ao próximo como a ti mesmo voltado
para um certo princípio fraternal de uma bem tratar ao colega? Freud
(1930(1929)), no Mal-estar na civilização, já havia apontado as incon-
gruências desse princípio, começando pela injustiça que seria conceder
o mesmo amor aos que nos amam e àqueles que nada fariam por me-
recer nosso amor, ou, até mesmo, que dele são indignos. Lacan (1959-
1960), por sua vez, assinala que o problema está no como a si mesmo.
Amar o próximo como a si mesmo às vezes é odiar o próximo como a si
mesmo, desejar o mal como a si mesmo, etc. No tocante ao si mesmo, as
relações com os outro sempre tendem a superdimensioná-lo em vez de
diminui-lo.
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 14 (2), 2023, pp 13 - 23
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/14.2.1/