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Pelo menos a Psicanálise nunca fecha a porta a uma nova verdade.
O valor da vida (1926)
— Entrevista de Viereck com S. Freud (1926)
A proposta deste congresso nos convida a revisar e debater con-
ceitos como Eros, alteridade e criatividade, e o modo como se entrelaçam
na prática clínica contemporânea, operando em mim como impulso vita-
lizador de revisão de minhas cartograas internas a partir das quais me
posiciono na teoria e na clínica. Nessa saudável tensão entre instituído e
instituinte, necessária para sustentar a escuta, abre-se a pergunta sobre
a vigência da psicanálise: Onde reside hoje sua potência transformadora
frente aos sofrimentos subjetivos? Como nos interpelam as formas atuais
de produção de subjetividade, que, junto aos elementos universais da
constituição psíquica, conformam as demandas atuais? Longe de trans-
mitir certezas cristalizadas, proponho a interrogação como posição ética:
abertura a novas inquietações e ao inédito que se apresenta como de-
sao. Trata-se de compartilhar as hipóteses que hoje orientam minhas
bússolas, habilitando movimentos sob predominância de Eros, capazes
de gerar novas ligações e sustentar a tensão entre continuidade e trans-
formação, na busca rigorosa de um crescimento constante de nossa prá-
tica. Para tanto, recorro à conceituação de “teorização utuante”, cunhada
por Aulagnier, como uma posição a partir da qual pensar minha escuta
(Aulagnier, 1979). Um estado de disponibilidade reexiva, aberta, crítica,
em permanente diálogo interno com o que se desdobra na clínica da sin-
gularidade, campo móvel onde se dá o pensamento clínico. A partir do pa-
radigma da complexidade, a interdisciplinaridade fará parte deste espaço
em permanente construção.
A partir daí, inicio meus questionamentos. ¿Qual é hoje o lugar do
sofrimento psíquico? ¿Ele é tolerado? ¿Busca-se aboli-lo por se opor ao
ecientismo de que o capitalismo necessita para sua sustentação? Há um
movimento constante de dessubjetivação da dor psíquica, que se tenta
desconsiderar, anestesiar ou medicalizar. O sofrimento existencial, que
remete ao reconhecimento da nitude, dos limites e da fragilidade hu-
mana, é patologizado. Longe de abrir espaço para a pergunta acerca do
sofrimento, emerge a demanda por sua “reparação”, pelo retorno ao per-
formativo da “normalidade”, de modo a sustentar os brasões neoliberais
— e seguir funcionando como uma máquina bem adaptada. A pós-mo-
dernidade desconstrói os laços, instaurando certo processo de dessub-
jetivação.
É a era da hiperconexão — mas estamos de fato vinculados? Que
efeitos esse fenômeno gera sobre a produção subjetiva dos padecimen-
tos psíquicos? O sentimento de solidão comparece apesar de estarmos
intensamente “enredados”, interpelando o modo contemporâneo de
constituição do tecido social. “O laço implica estar em contato com as ca-
madas profundas que estruturam nosso ser, ao mesmo tempo em que
com os outros. Inversamente, a busca de uma intersubjetividade a qual-
quer preço nos deixa, na maior parte do tempo, numa separação compar-
tilhada.” (Benasayag, 2025, p. 18).
O PODER TRANSFORMACIONAL DE EROS
NA PRÁTICA CLÍNICA CONTEMPORÂNEA:
FERRAMENTAS CLÍNICAS, DESAFIOS ATUAIS
Lic. Silvia Schlafman 1
1 Psicanalista. Licenciada em
Psicologia (UBA). Docente da
Maestria em Psicanálise (AEAPG–
UNLaM). Coordenadora da Equipe
de Adultos do Centro Rascovsky
(AEAPG). Ex-presidente do Congresso
Anual AEAPG 2021. Delegada da
AEAPG junto à FLAPPSIP.