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INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 17 (1), 2026, pp 58 - 74
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: 10.60139/InterPsic/17.1.5
LA IMPORTANCIA DE LA SUPERVISIÓN
Y LA CLÍNICA ACTUAL
UNA EXPERIENCIA DE SUPERVISIÓN GRUPAL
AMPLIADA PARA EL ANÁLISIS COMPRENSIÓN
Y CONTENCIÓN DE LA TRANSFERENCIA Y
CONTRATRANSFERENCIA NEGATIVA
A IMPORTÂNCIA DA SUPERVISÃO
E DA CLÍNICA ATUAL
UMA EXPERIÊNCIA DE SUPERVISÃO GRUPAL AMPLIADA
PARA A ANÁLISE, COMPREENSÃO E CONTENÇÃO DA
TRANSFERÊNCIA E DA CONTRATRANSFERÊNCIA NEGATIVA.
THE IMPORTANCE OF SUPERVISION AND CONTEMPORARY
CLINICAL PRACTICE
AN EXPANDED GROUP SUPERVISION EXPERIENCE FOR
THE ANALYSIS, UNDERSTANDING, AND CONTAINMENT OF
TRANSFERENCE AND NEGATIVE COUNTERTRANSFERENCE.
Elvira Soto de Dupuy
ORCID 0009-0008-7715-9198
Correo electrónico: elvirasoto.dupuy@gmail.com
Asociación Peruana de Psicoterapia Psicoanalítica de Niños y Adolescentes
Fecha de Recepción: 30 – 04 – 2026
Fecha de Aceptación: 12 -05 – 2026
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Soto de Dupuy E. (2026) LA IMPORTANCIA DE LA SUPERVISIÓN Y LA CLÍNICA ACTUAL UNA EXPERIENCIA DE
SUPERVISIÓN GRUPAL AMPLIADA PARA EL ANÁLISIS COMPRENSIÓN
Y CONTENCIÓN DE LA TRANSFERENCIA Y CONTRATRANSFERENCIA NEGATIVA
Intercambio Psicoanalítico 17 (1), DOI: 10.60139/InterPsic/17.1.5
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I. Antecedentes
No presente trabalho, procuro reetir sobre a supervisão e sua im-
portância no nosso trabalho clínico; especialmente quando trabalhamos
com aqueles pacientes de difícil acesso que ultimamente chegam com mais
frequência ao nosso consultório; mais ainda, quando devemos enfrentar
o ódio transferencial de alguns deles, que aora na interação entre trans-
ferência e contratransferência e que provoca em nós, terapeutas, intensos
sentimentos contra transferenciais de impotência, medo, raiva e ódio.
Escrevi anteriormente na Revista Transiciones 12 (2007) sobre o ódio
na transferência a partir do meu papel como terapeuta, analisando minha
relação com Dania, uma menina de 5 anos que apresentava uma forte an-
gústia de separação. Naquela época, transcrever essas sessões tão difíceis
foi uma primeira maneira de expressar e começar a metabolizar esses senti-
mentos tão intensos. É o que Grimberg (1991) entende como uma forma de
autossupervisão. Depois, supervisá-las, foi fundamental para conter esses
sentimentos que surgiam em mim e na menina durante suas sessões, to-
mar consciência das diferentes funções do ódio na transferência (Gabbard,
1991) e, assim, conseguir reforçar a aliança terapêutica e a conança no vín-
culo; também, me permitiu analisar a intervenção que realizei através do
jogo, transformando meu sentimento de impotência em um jogo criativo
que, agora, com os novos desenvolvimentos da teoria psicanalítica, pode-
ria entender como uma interpretação metafórica, no sentido proposto por
Hilda Catz (2026). (Conceito muito interessante que ela foi desenvolvendo
ao longo da sua obra, ao trabalhar desde a análise relacional). É uma inter-
venção terapêutica que privilegia o que está acontecendo no vínculo tera-
peuta-paciente, que procura ampliar o sentido, no lugar de fechá-lo, tratan-
do de introduzir o simbólico através de imagens, metáforas, etc.
Foi assim que Dania, graças à curiosidade que consegui despertar
nela, se aproximou de mim para ver juntas o que acontecia com os piolhos
brancos. Essa foi uma representação que lhe permitiu sair desse distancia-
mento físico e afetivo e da sua atitude agressiva e de controle em relação
a mim. Assim, juntas, conseguimos ir transformando sua raiva e seu ódio,
para o qual foi muito importante mostrar a ela que eu, como terapeuta,
tinha sobrevivido à intensidade dos seus ataques e do seu ódio e, dessa ma-
neira, restaurar o espaço analítico ao comprovar que eu seguia disponível
para ela. (Winnicott, 1947/1960). Finalmente, escrever e dar um nome a essa
experiência tão mobilizadora foi o que me permitiu continuar a elaborá-la
e a integrá-la à luz dos seus aportes teóricos e dos de Gabbard (1991) (Soto
de Dupuy, E., 2007).
A IMPORTÂNCIA DA SUPERVISÃO
E DA CLÍNICA ATUAL
Uma experiência de supervisão em grupo ampliada para a análise,
compreensão e contenção da transferência e da contratransferência negativas
Elvira Soto de Dupuy1
1 Licenciada em Psicologia Clínica
pela PUCP. Candidata do Instituto
da SPP, com formação em
psicanálise de adultos, crianças e
adolescentes. Membro fundador
do Centro de Desenvolvimento e
Assessoria Psicossocial (CEDAPP)
e da Associação Peruana de
Psicoterapia Psicanalítica de
Crianças e Adolescentes (APPPNA).
Membro do Comité Editorial da
revista Transições e atual secretária
cientíca. Prática privada com
crianças, adolescentes e adultos
desde 1978. Supervisora do trabalho
com crianças e adolescentes
no CEDAPP e ex-supervisora do
Departamento de Crianças e
Adolescentes D. Winnicott do CPPL.
Autora de diversos artigos sobre
clínica com crianças publicados
na revista Transições. Coautora e
coeditora do livro A maternidade e
as suas vicissitudes hoje (2006) e de
A continuidade através do vínculo.
Lugar simbólico e real que os avós
ocupam para os seus netos (2002).
Lima. elvirasoto.dupuy@gmail.com
https://orcid.org/0009-0008-7715-
9198
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Quando supervisei as colegas que tão generosamente me fornece-
ram o material clínico que vou apresentar, associei imediatamente com Da-
nia pela situação de turbulência emocional dos seus pacientes e pela força
do ódio na transferência. A reação de apoio dos outros membros do grupo
de supervisão, além de me comover, me fez pensar no que denominei su-
pervisão grupal ampliada (Soto de Dupuy, E., 2025) e, posteriormente, es-
crever sobre ela para analisá-la através de aportes teóricos e clínicos sobre
a supervisão.
Pessoalmente, aprecio muito a supervisão individual, mas, pela min-
ha experiência, a supervisão grupal e a de pares
“Torna-se um espaço privilegiado que nos a possibilidade de ob-
servarmos em grupo, de mostrar nossas diculdades e barreiras em
um ambiente de respeito, tolerância, reconhecimento e escuta aten-
ta. Nos permite tomar consciência daqueles aspectos inconscientes
que dicultam o desenvolvimento do processo terapêutico e é tam-
bém um espaço de contenção para quem apresenta o caso.” (Grupo
de supervisão de pares da APPPNA, 2012, pp. 81-89)
Vale destacar a maior distância emocional que os membros do gru-
po de supervisão mantêm em relação ao material clínico apresentado por
um dos terapeutas e o valor das diferentes perspectivas e contribuições de
cada um deles ao “destacar, dentro da sessão, que o terapeuta não tinha
captado, precisamente, por estar imerso no diálogo e no encontro terapêu-
tico” (Grupo de supervisão de pares da APPPNA, 2012), oferecendo-lhe uma
nova oportunidade para voltar a observar, analisar e repensar o material a
partir de uma perspectiva mais ampla. Isso facilitará sua integração e trans-
formação numa interpretação ou observação que oferecerá a seu paciente
quando considerar que é o momento adequado para intervir novamente e
devolver-lhe, agora, esses conteúdos assimilados.
É uma ferramenta que tem um valor adicional que facilita a apren-
dizagem permanente, uma vez que a discussão do material clínico de um
paciente nos permite analisar a relação terapeuta-paciente e os aspectos
teóricos e técnicos subjacentes; ou seja, compreender os processos incons-
cientes do nosso paciente e os que se apresentam no enquadramento e
no vínculo terapêutico, as identicações projetivas e a transferência e con-
tratransferência (Grupo de supervisão de pares da APPPNA, 2012); o que é
fundamental para ajudar nossos pacientes com o sofrimento mental e as
experiências vividas que nos trazem, as que, em muitos pacientes, ainda
estão no nível do conhecido, mas não pensado (Bollas, Ch., 1987); ou, dos
elementos beta (Bion, 1962) devido às falhas precoces que sofreram e que
impediram que o paciente possa conter, dar um sentido e simbolizar.
Isso também nos permite “revelar o impacto das ansiedades incons-
cientes que o terapeuta não conseguiu detectar, em si mesmo e no seu
paciente, assim como analisar a transferência e a contra identicação pro-
jetiva.” (Ungar & Busch, 2003) e aprofundar na análise e compreensão da
aliança terapêutica, essencial para a construção do vínculo emocional com
ele e para favorecer o processo terapêutico. (Falvy, M., 2011, Serrano de
Dreifuss, 2012).
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Pezo, M.A. (2020), que tem uma vasta experiência de trabalho com
grupos, enfatiza que a supervisão grupal não deve ser vista como uma su-
pervisão individual em grupo, mas sim deve levar em consideração os pro-
cessos especícos mobilizados pela ferramenta psicanalítica no encontro
com os outros colegas. Assim, um membro do grupo, ao escutar o relato de
um colega sobre seu paciente, associa e conecta com o que este mobilizou
no seu mundo intrapsíquico. A mesma autora faz referência a Kaes (1962),
que fala de dispositivo grupal e não de enquadramento, e oferece elemen-
tos valiosos para seguir pensando:
“O dispositivo grupal coloca o supervisor numa posição de alguém
capaz de assegurar os processos associativos grupais em relação ao
que acontece com o(s) paciente(s), com os colegas e a instituição, os
processos de transferência-contratransferência e as modalidades de
intervenção requeridas de acordo com o funcionamento do paciente.
E, como em qualquer encontro grupal, o analista-supervisor pode se
reconhecer e se desnarcisar; com esta palavra, enfatizamos que o su-
posto conhecimento do analista se dilui no momento em que recon-
hece as contribuições dos colegas e é capaz de valorizar e trabalhar
os aspetos percebidos pelos outros. Já não é o detentor da experiên-
cia e do conhecimento, tão comum no “supervisor”; o trabalho de gru-
po desnarcisiza o analista, o coordenador, uma vez que no encontro
com o(s) outro(s), o seu conhecimento é apenas mais um. Talvez se
prioridade a uma intervisão, a um olhar mútuo, a uma construção
rica e nutritiva de copensamento, cosentimento, coreexão.” (Pezo,
2020, trabalho inédito)
II. A experiência da supervisão grupal ampliada
II.1. O enquadramento
Agora vou me referir a um grupo de supervisão que compartilha
as características e o enquadramento próprios da supervisão em grupo. É
composto por 4 colegas mais jovens, mas muito bem formadas, com mais
de uma década de experiência em consultório privado, somada a uma prá-
tica clínica prévia em instituições. É um grupo particular porque, quando me
procuraram como supervisora, se conheciam entre si e haviam compar-
tilhado espaços de formação ou trabalhado juntas; pelo que entre elas se
percebe uma relação de conança, respeito, reconhecimento, compromis-
so, generosidade e desejo de pensar e aprender. O que facilita a troca de
experiências e conhecimentos. Em geral, a supervisão se desenrola num cli-
ma de cordialidade e benevolência (Chasseguet-Smirgel, 2007; Parres, 2007)
e com uma vontade de se apoiarem mutuamente, especialmente quando
surge alguma diculdade.
Foram elas próprias que propuseram o enquadramento da super-
visão e criaram, desde o início, um grupo de bate papo para fazer as coor-
denações necessárias. Originalmente, nos reunimos presencialmente e com
uma frequência quinzenal; mas, devido à pandemia, passou a ser semanal
e por Zoom, sempre durante uma hora e quinze minutos. Começamos e
terminamos pontualmente, salvo algum problema técnico ou de outro tipo.
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Elas se organizaram de maneira que cada uma delas apresente um
caso, todas as semanas. Ocasionalmente, se tem alguma diculdade ou ur-
gência, fazem uma alteração. O pagamento dos honorários é feito no nal
de cada mês, por turnos, e presumo que depois se acertam entre si. Cada
uma escolhe o caso que deseja supervisionar; geralmente, é um paciente
que, naquele momento, esteja lhe causando alguma dúvida ou diculdade.
Ocasionalmente, se perguntam sobre qual paciente supervisionar e, geral-
mente, escolhem aquele que considera mais urgente. Embora eu presumo
que cada uma registre o material de cada paciente, elas o apresentam de
maneira informal e vívida (Da Rosa Silva, M., Hallberg, A., Steibel, D., von
Megden, P. e Pereira, K., 2012), dando muita ênfase na atitude do seu pa-
ciente e nos sentimentos transferenciais e contratransferenciais.
Se for um paciente novo, mencionam os dados relevantes sobre o
paciente (liação e história) e sobre a sua família e ambiente próximo, bem
como o motivo da consulta, quem o encaminhou e por quem é acompan-
hado, caso seja uma criança ou adolescente. Se o paciente se encontra num
processo de diagnóstico, podem compartilhar alguns dos testes psicológi-
cos que aplicaram; isso nos ajuda a analisar o material para chegar a uma
presunção diagnóstica e prognóstica. Se for um caso que tenha sido apre-
sentado em outras ocasiões, farão um resumo para nos lembrar de quem
se trata e apresentarão alguma situação difícil que tenha surgido, seja com
o paciente, os seus pais, o cônjuge, a escola ou o trabalho, na relação tera-
peuta-paciente ou com a aliança terapêutica.
É importante ressaltar que tanto a apresentação do material como
as perguntas, esclarecimentos e intervenções dos diferentes membros do
grupo ocorrem de forma bastante livre e espontânea, mas respeitando a
palavra de quem está falando, e procurando esclarecer o material, propor
hipóteses, relacioná-lo a alguma contribuição teórica ou com a lembrança
de algum paciente que tenham atendido anteriormente.
Outro elemento que fez a diferença é que o chat de grupo, que ini-
cialmente servia para alguma coordenação pontual, foi se transformando
em algo completamente diferente, onde, ocasionalmente, compartilhavam
alguma dúvida, inquietação ou um breve comentário sobre alguma situação
complicada com um paciente que as havia afetado; ou para contar como
lhes tinha corrido, por exemplo, uma reunião delicada com os pais ou pro-
fessores de algum paciente que tivéssemos supervisionado naquela sema-
na. Também escreviam, às vezes, para transmitir o alívio ou a satisfação de-
pois da situação terapêutica ter recuperado o rumo e, assim que nos era
possível, respondíamos, cada uma ao seu ritmo. Assim, foi-se dando, de
forma espontânea, uma ampliação das funções para as quais o chat tinha
sido criado.
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Poderíamos dizer, então, que esta experiência foi possível graças à
tarefa comum e às características apontadas, que conformam a identida-
de grupal (da Rosa Silva, M. et al., 2012), o que a torna única, tal como são
únicos cada um dos nossos pacientes; identidade que foi se armando com
o vínculo de conança e os anos de trabalho conjunto neste grupo de su-
pervisão, do qual tenho a sorte de ser supervisora faz 7 anos. Devo dizer
que a forma como eu gosto de supervisionar e a liberdade que sinto foram
aprendidas com alguns dos meus supervisores e com os membros do gru-
po de supervisão entre pares da APPPNA; tem também a ver com o fato de
que, neste grupo, o meu compromisso é apenas com as colegas que super-
visiono e, através delas, com os seus pacientes. Isto porque foi formado a
pedido delas, de forma independente; ou seja, sem terem que provar seu
trabalho a ninguém, a não ser para elas mesmas e para os seus pacientes,
sem ter que prestar contas a uma instituição, nem procurar uma boa quali-
cação. Ou seja, onde a tarefa principal é continuar pensando, aprendendo
e criando, fazendo alusão ao espaço transicional de Winnicott (1972), onde
a preocupação e a tarefa principal são aprender a pensar (Grimberg, 1991)
para compreender e ajudar o seu paciente da melhor maneira possível.
Embora saibamos que a supervisão tem que ocorrer dentro de um
enquadramento, fui observando que, neste grupo em particular — quando
a situação era realmente difícil — esse enquadramento se ampliava de for-
ma espontânea ao dar um uso adicional ao chat, transformando-o em uma
nova ferramenta para conter as ansiedades e medos intensos que tinham
sido inoculados na terapeuta por meio da identicação projetiva massiva e
do apoio emocional. Tal como vou narrar através das vinhetas, esta nova
função do chat foi muito valiosa, quando duas das terapeutas, cada uma
no seu momento, com a sua respetiva paciente e no seu próprio consultó-
rio, enfrentaram uma situação crítica resultante da turbulência emocional
que invadiu a mente das suas pacientes; levando-as a “representar” a sua
frustração, raiva e intolerância diante da incapacidade de ouvir, atacando as
suas terapeutas e transgredindo os limites próprios do setting. Foi este des-
bordamento que produziu nestas últimas uma reação contratransferencial
negativa e, tal como Gabbard (1991) descreve mais adiante, elas se sentiram
impotentes, ameaçadas, aterrorizadas e com a sua capacidade de pensar e
conter totalmente paralisada. Jacob Parade, N. (2007) analisa o desdobra-
mento da transferência e da contratransferência no campo dinâmico da
sessão e no vínculo terapêutico, como “instrumentos nobres de trabalho,
especialmente nos casos de transferências peculiares de pacientes autistas,
psicóticos ou borderline”; ou seja, pacientes cujo eu é extremamente frágil
e está em busca de um continente. Refere-se também a mecanismos primi-
tivos como a cisão e, em especial, à identicação projetiva que “ao mesmo
tempo em que comunica, evidencia uma forma de se livrar de experiências
de dor insuportáveis e de projetá-las na analista.” (Jacob Parade, 2007).
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Quando trouxeram as suas duas pacientes para a supervisão, nos re-
lataram de forma muito vívida e dramática no sentido literal do termo
— o conteúdo da sessão, a atitude das suas pacientes e os acontecimentos
que ocorreram, conseguindo transmitir aos demais membros do grupo os
sentimentos tão intensos que experimentaram nas suas respetivas relações
terapêuticas para, dessa forma, poderem ajudá-las a contê-los, compreen-
dê-los e metabolizá-los.
Penso que foi graças ao que mencionei acima que elas me permitiram
compartilhar as vinhetas extraídas dessas duas experiências clínicas tão di-
fíceis: quando as apresentaram, foi grande a preocupação e a comoção que
geraram em todas nós e, assim como elas, sentimos muita raiva em relação
às pacientes; mas, ao mesmo tempo, um sentimento de compaixão— com
paixão — e de compromisso em ajudá-las.
Mas o que realmente me fez pensar na ampliação do enquadramen-
to foi a reação imediata das terapeutas envolvidas nesse vínculo, que tinha
se tornado tóxico e quase letal devido aos conteúdos tanáticos que estavam
em jogo: elas escreveram no chat de grupo pedindo ajuda e contenção e a
resposta dos outros membros do grupo também foi imediata, solidária, em-
pática, de apoio e compreensão. Penso que foi uma resposta espontânea
diante do impacto que sentiram pela urgência, intensidade e gravidade que
tinham nos transmitido, oferecendo-lhes apoio e compreensão com uma
atitude calorosa, empática e estando à sua disposição. As duas terapeutas
precisavam recuperar sua capacidade alfa, de rêverie, que lhes permitisse
reconhecer, compreender, conter e metabolizar todos esses elementos beta
que lhes tinham sido inoculados através da identicação projetiva (Bion,
1962). Ou seja, recuperar a sua capacidade de pensar, saindo da situação de
paralisia, terror e impotência que nos transmitiram no chat.
Para mim, foi muito revelador e comovente porque senti que elas re-
correram ao apoio do grupo assim como faria um bebé aterrorizado à pro-
cura da mãe para ser contido por ela, respondendo ela a partir da sua rêve-
rie e contenção, ajudando-o a recuperar, a se acalmar, colocando palavras e
afeto que dessem sentido ao que aconteceu, compreendendo e discernindo
para depois voltar a sentir-se seguro; além, é claro, do apoio emocional ou
holding proposto por Winnicott (1979). Penso que é essa a função da super-
visão de grupo ampliada sobre a qual escrevi no trabalho que apresentei
no Congresso da FLAPPSIP (Soto de Dupuy, 2025) e que agora, neste artigo,
ampliei para continuar reetindo sobre o assunto.
Quando supervisionamos o material clínico de um colega, é co-
mum associá-lo a algum dos nossos pacientes e, neste caso, a minha
associação com Dania e os sentimentos que se manifestaram na min-
ha relação com ela não foi por acaso. Mas, ao contrário de Dania, cujo
ódio e agressão se expressaram com distanciamento físico e afetivo e
com uma atitude controladora e expressões verbais que “gritavam o seu
ódio” contra mim; as pacientes que veremos a seguir, além de se encon-
trarem em outro momento do seu desenvolvimento evolutivo e psico-
lógico, passaram à ação ao atacar o setting e agredir sicamente as te-
rapeutas, colocando em risco a sua integridade e o vínculo terapêutico.
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Por isso, requerem ser pensadas e compreendidas de outra forma, buscan-
do o apoio da teoria e da técnica para iluminar e esclarecer as características
próprias das pacientes adolescentes, com tendência à atuação e a se colocar
em situações limítrofes (Botbol, 2011), e para fazer as modicações e ajustes
necessários na abordagem clínica.
Me parece interessante observar que, ao escrever este trabalho, utili-
zei várias vezes o gerúndio, reetindo que a nossa tarefa como terapeutas,
analistas ou supervisores é sempre um processo. E considero fundamental
que esteja pela vitalidade, pelo compromisso e pela paixão que nos inspira.
Sabemos que momentos muito difíceis e desaantes, mas também ou-
tros que nos enchem de satisfação e de gratidão compartilhada.
II.2. Material Clínico (cedido e relatado por duas colegas)
Vinheta 1
“Vania, uma pré-adolescente de 11 anos, foi encaminhada para a con-
sulta porque se frustrava frequentemente na escola e ultrapassava os limi-
tes. Isso se agravou após a pandemia, porque durante esta, seu pai faleceu
no estrangeiro de um infarto cardíaco. Foi necessário medicá-la devido aos
seus acessos de raiva na escola, que se viu obrigada a expulsá-la, pelo que
Vania teve de mudar para outra escola.
As suas sessões se tornaram cada vez mais difíceis; embora houves-
se momentos de maior reexão, conversa e elaboração no jogo, predomi-
navam os desaos, a agressividade, a desvalorização e a crítica constante
a mim, enquanto terapeuta e prossional. Foram muitas as ocasiões em
que me questionei — em privado e no grupo de supervisão — sobre como
continuar com uma paciente assim, que me esgotava, com quem me sen-
tia encurralada, que me desvalorizava, que me gerava um ódio que não re-
conhecia como meu, mas ao qual também não conseguia dar forma; como
poderia continuar a ver alguém que não queria ver? Me questionei sobre a
minha capacidade de compreendê-la, de estar fazendo um bom trabalho.
Fui percebendo que Vania ocupava cada uma das minhas oportunidades de
supervisão, ocupava toda a minha mente e tomava completamente a minha
capacidade de pensar.
Um dia, Vania cou muito irritada numa sessão, começou a atirar e
quebrar todo o material de pintura com os quais às vezes trabalhávamos
e, como os meus limites verbais não funcionaram, na minha ânsia de esta-
belecer limites e contê-la, ou — talvez — numa questão mais omnipotente,
tentei impedi-la, me colocando entre ela e o material e a convidei a reetir.
Não me lembro exatamente como, mas de repente Vania estava em cima
de mim, exercendo muita pressão. Quando percebi a sua força e como era
difícil me mover, me assustei. O seu olhar é algo que ainda não consigo des-
crever com palavras. A intensidade da sua raiva, a violência da situação… Eu
não conseguia cuidar dela, nem contê-la. Consegui tirá-la de cima de mim,
consegui abrir a porta e, com rmeza, disse-lhe que íamos interromper a
sessão porque assim não podíamos trabalhar. A entreguei à mãe dela. “Já
não é minha responsabilidade”, pensei. Voltei para o meu consultório, fechei
a porta e desabei. Estava aterrorizada, paralisada, tremendo, com o corpo
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todo dolorido. Depois de alguns instantes, recorri ao chat da supervisão:
“Meninas, estão aí?”, escrevi. Em menos de meia hora, tinha falado com cada
uma das minhas colegas-amigas. Aos poucos, o medo e a angústia foram
diminuindo e pude começar a pensar que aquele devia ser o m da relação
terapêutica com a Vania, mas como fazê-lo? Sentia muita culpa por deixá-la,
porque seria uma nova perda para ela”.
Vinheta 2
“L., uma adolescente de 15 anos, tinha chegado um mês ao
meu consultório devido a episódios de desregulação no controle das suas
emoções e impulsos, tanto em casa como no colégio, motivo pela qual tin-
ha deixado de frequentá-lo. Expressava sentimentos de tristeza e uma sen-
sação de negligência e falta de cuidado por parte dos pais. Estava sendo
medicada algum tempo. Até essa sessão, não tinha demonstrado com-
portamentos agressivos, embora tivesse atitudes hostis e resistência para
fazer os testes psicológicos durante a avaliação. Naquele dia, L. chegou ao
consultório acompanhada pela tia. Desde que entrou, parecia irritada e sem
vontade de falar. Quando lhe perguntei como estava, ela disse que não que-
ria falar sobre isso; de repente se levantou, saiu gritando do consultório,
bateu a porta e foi direto para o elevador, local onde a detive, dizendo-lhe
que não podia ir sozinha para a rua, nem sair assim tão alterada, e a convidei
a entrar novamente para que se acalmasse e para tentar compreender esta
reação abrupta. A sensação de se sentir presa desencadeou nela um com-
portamento ainda mais violento. Os gritos e chutes na direção do elevador
e na minha direção aumentaram, reetindo ódio e muita força nela. Numa
tentativa da tia de lidar com a situação, ela me passou a mãe ao telefone e
L. aproveitou que me distraí por um instante para me encurralar contra a
parede e me chutar. No meio dos gritos dela e da tia, consegui me soltar e
pedi que se retirassem. A situação me deixou absolutamente desarmada,
magoada e tremendo. Me senti profundamente vulnerável e quase incapaz
de articular palavras; chorando, me comuniquei com meu grupo de super-
visão. Imediatamente, elas me responderam, me acolheram, me ajudando
a compreender e a processar o que tinha acontecido, assim como a pensar
em como continuar a lidar com o caso.
A violência desencadeada por L. me fez duvidar do meu desempenho;
me perguntei se estava preparada para estes casos, se tinha feito o que era
certo num caso tão difícil. Me senti frustrada, com muita raiva e dor pelo que
aconteceu, mas também com muito medo e dúvidas em voltar a recebê-la
e ser capaz de cuidar dela, de mim e do espaço. O grupo de supervisão me
apoiou, me ajudou a repensar e a analisar a situação e os meus sentimentos
e me ajudou a me recuperar. Somente depois disso, de falar com os pais de
L., com o psiquiatra e de reestruturar o espaço terapêutico, é que consegui
tentar retomar o contacto com L., me sentindo novamente mais forte, mais
lúcida e mais serena para estabelecer limites diante de um comportamento
agressivo e violento.”
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II.3. Discussão das vinhetas a partir de algumas contribuições
teóricas sobre o ódio transferencial e contratransferencial
Em uma breve análise das vinhetas, podemos observar que ambos
os casos, muito diferentes entre si, têm em comum a violência e os senti-
mentos agressivos de Vania e L., que elas não conseguiam conter e que,
pior ainda, se agravaram com as tentativas das terapeutas de intervir com a
palavra e impor limites que as contivessem.
Do ponto de vista teórico, poderíamos pensar que a transgressão dos
limites próprios do quadro terapêutico implicou um passo para a ação; e,
considero que o mais grave foi, nos dois casos, a agressão física às suas
terapeutas; como se fosse a única maneira que encontraram de revelar as-
pectos muito primitivos e dolorosos que Vania e L. não conseguiam tolerar;
poderia ter sido também uma repetição de algum conito a nível do seu
mundo interior ou das suas relações, ainda não resolvido, que provocou ne-
las intensos sentimentos de ódio e raiva que foram depositados nas suas te-
rapeutas através da identicação projetiva. Diante do grave desbordamento
dos seus impulsos, o ataque a elas e ao setting e a impossibilidade de serem
ouvidas, as terapeutas tiveram de estabelecer um limite, inclusive físico, en-
tre elas e a paciente e dar por terminada a sessão, como forma de cuidar da
sua paciente e de se protegerem da fúria incontrolável e do ataque massivo
que se tinha desencadeado, numa tentativa de preservar o vínculo. Era ne-
cessário evitar que os mecanismos de projeção e de identicação projetiva
continuassem operando. Foram situações-limite que produziram, a nível de
contratransferência, intensos sentimentos de ódio, medo, impotência, raiva
e desvalorização nas terapeutas, levando-as a sentir-se paralisadas na sua
capacidade de pensar.
O apoio, o acolhimento, a empatia e a compreensão que o grupo pro-
porcionou através da supervisão ampliada permitiram que as terapeutas
fossem se recuperando dos ataques e reencontrassem a sua capacidade
de pensar e a sua função de reverie; depois, pouco a pouco, foram recon-
hecendo, elaborando e contendo seus sentimentos contratransferenciais.
Para poder expressá-los em palavras, compreendê-los e metabolizá-los e,
então, encontrar o momento para devolvê-los à paciente, ou seja, quando
esta estiver pronta para ouvi-los, pensar e processá-los e, na melhor das hi-
póteses, continuar avançando no seu processo de desenvolvimento mental.
Com a elaboração da experiência e o processo de metabolização atra-
vés do vínculo, da empatia e das interpretações da terapeuta, seria possível,
no melhor dos casos, recuperar o vínculo, restabelecer o espaço transicional
e transformar essa experiência emocional corretiva que ajude tanto pacien-
tes quanto terapeutas.
Apresentarei a seguir várias contribuições de autores citados por Ga-
bbard (1991) que nos permitirão reconhecer, pensar e compreender os sen-
timentos de contratransferência que as terapeutas sentiram.
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Gabbard (1991) faz alusão à erosão real da competência técnica do
analista e do trabalho analítico que pode ser causada pelo desejo consciente
ou inconsciente do paciente de transformar o seu analista em um objeto
mau, expresso através de aspectos transferenciais primitivos, o ódio, por
exemplo, aos quais o analista tem de chegar; acompanhando o paciente
até ao limiar do desespero, o que levará o analista a sentir-se questionado
e desvalorizado. Bird (1972) arma que esse é talvez “o único tipo de trans-
ferência no qual os impulsos mais profundamente destrutivos do paciente
podem ser analisáveis”.
É precisamente nesses momentos, como vimos no material clínico,
que as terapeutas se questionaram se poderiam ou deveriam (do ponto de
vista ético) continuar atendendo os seus pacientes, duvidando da sua ca-
pacidade e eciência. Foi muito importante para elas compartilhar com os
outros membros do grupo essas dúvidas e reexões. Se perguntavam se,
após recuperarem as suas funções como terapeutas, seria possível retomar
o vínculo e reforçar a aliança terapêutica, caso as condições estivessem re-
unidas ou, se seria melhor encerrar o processo, após explicitar e devolver
às adolescentes e aos seus pais o que tinha ocorrido, os conteúdos mentais
que lhes tinham sido depositados e o possível caminho a seguir para que as
duas adolescentes pudessem continuar a sua tarefa de desenvolvimento.
Fleming (1961) enfatiza que o analista precisa conseguir uma cisão
entre os aspetos observadores e os aspetos experiênciais do seu eu de
analista (Kris, 1956), sobretudo quando estes aspetos são ameaçados pelo
poderoso processo de identicação projetiva (Gabbard, 1991). Também é
muito importante a armação que Galdston (1987) faz a este respeito:
“o paciente não consegue superar isso sozinho, porque o ódio o une a
um objeto do passado com a força de um rancor antigo que requer a
transferência para poder diminuir a sua pressão. O analista logo será
colocado no papel daquele que causou danos ao paciente e a única
esperança que este último tem de superar a sua amargura e ressen-
timento é resolvendo tais sentimentos no âmbito da transferência”.
(Gabbard, G., 1991, pp. 81-95).
Strachey (1993) arma que “a única forma de quebrar o círculo vicioso
é que a imagem projetada no analista através da transferência não se con-
funda totalmente com a real, para o que são necessários o setting analítico
e a interpretação”. São estes que facilitarão a contenção e a possibilidade
de devolver ao paciente esses conteúdos primitivos e transformá-los gra-
dualmente através do vínculo paciente-analista. Acrescentaria que isso
será possível quando essa interpretação puder ser formulada e oferecida
pelo analista e, ao mesmo tempo, pelo menos ser ouvida pelo paciente no
interior do campo dinâmico desdobrado. Mas, nas vinhetas apresentadas,
ocorreu exatamente o aposto, uma vez que Vania e L., com a sua atuação,
atacaram e romperam o setting e agrediram o analista, paralisando a sua
capacidade analítica, impedindo-o de pensar e interpretar, pela força da
identicação projetiva massiva. Como vimos, diante desse ataque massivo
(porque foi físico e verbal), restou às terapeutas apenas nalizar a sessão.
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É preciso ressaltar, no entanto, que graças a um processo profundo e
doloroso de análise dos seus sentimentos de contratransferência e da com-
preensão do que se tinha desenrolado e atuado na relação com os seus pa-
cientes, as terapeutas conseguiram sobreviver a estes ao compreenderem,
conterem e metabolizarem esses sentimentos e se recuperarem da fragili-
dade, do terror e da impotência que os seus pacientes lhes tinham incutido.
“Embora a situação varie de paciente para paciente, alguns deles, nos
momentos mais regressivos da sua análise, utilizarão identicações
projetivas patológicas para evacuar suas fantasias e afetos dolorosos
e persecutórios na mente do analista, provocando nele reações de
contra identicação projetiva”. (Grimberg, 1956, 1963, 1990) São nes-
ses momentos que colocamos especialmente à prova nossa tolerân-
cia e capacidade de receber e conter fantasias e emoções”. (Grimberg,
1997, pp. 11-22)
Nesses momentos de turbulência desencadeada no campo analítico
(Winnicott, 1947, 1969), propõe que o terapeuta tente ajudar os seus pacien-
tes e façam uso delas como terapeutas, e a serem percebidos novamente
como uma “gura verdadeiramente externa, fora do seu controle omnipo-
tente”, transmitindo-lhes que conseguiram sobreviver aos seus ataques e
que não foram abandonadas pelo analista e que ele não está respondendo
com atitudes retaliatórias, apesar do ódio e da desvalorização que lhes fo-
ram projetados; E, somente após um processo de metabolização, o analista
poderá usar a interpretação para devolver ao paciente o que realmente lhe
pertence, sendo isto o que curará o analista do conito contratransferencial
(Pichon Riviere, citado por Etchegoyen, 1993), permitindo-lhe recuperar-se
dos sentimentos de ódio transferidos através da intensa e massiva projeção
identicatória.
Voltando às vinhetas, a terapeuta de Vania precisou de vários dias
para conseguir se recuperar de tudo o que lhe foi projetado e tomar uma
distância saudável. E, depois de falar com a mãe de Vania e o seu psiquiatra,
encontrar o momento e a forma adequados para devolver à sua paciente
esses sentimentos dos quais ela tinha se defendido através da evacuação
massiva e da sua atuação. Ajudaram neste processo o longo vínculo que
existia entre as duas e a disposição da mãe para colaborar.
Infelizmente, no caso de L., nem ela nem os seus pais estavam dispos-
tos a regressar e facilitar este processo de reintegração tão importante para
eles, para a sua lha, bem como para a terapeuta; repetindo-se o círculo vi-
cioso de desqualicação e abandono do processo terapêutico, que acabava
de começar, colocando, mais uma vez, as graves diculdades da adolescen-
te e as deles, como pais, nas mãos de um terceiro.
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Seguindo Gabbard (1991), que arma que, ao trabalhar com pacien-
tes com estas características, só na medida em que o analista consegue con-
ter os sentimentos que surgem do paciente e de si mesmo — que podem
estar carregados, como vimos, de hostilidade e ódio e ser muito intensos
— é que poderá tomar consciência das múltiplas funções do ódio na trans-
ferência, o qual pode ocultar anseios de amor e aceitação do paciente (assim
como a transferência erotizada pode ocultar uma enorme agressão para
com o analista). Poderíamos pensar que, pelo menos no caso de Vania, foi
o terror de ser rejeitada e abandonada e seu desejo de continuar sendo
amada e aceitada, que puderam ser expressos através do ataque que
desencadeou uma dinâmica muito intensa no campo analítico e na relação
com a sua terapeuta.
Como vemos, a transferência, a contratransferência, a identicação e
a contra-identicação projetivas são temas muito relevantes, mas escapam
à possibilidade de serem revistos no presente trabalho.
II.4. Algumas hipóteses formuladas a partir do material clínico
Embora esta seja uma tarefa impossível, porque apenas temos o re-
lato de um momento das sessões de Vania e de L., e porque, por razões de
condencialidade, a breve informação sobre as pacientes foi devidamente
ocultada, podemos tentar apresentar algumas hipóteses ou presunções clí-
nicas.
As situações críticas que se surgiram no processo de avaliação de L. e
no processo terapêutico de Vania, tiveram que ver com o fato de que ambas,
por diferentes motivos, quebraram o enquadramento terapêutico, transgre-
diram os limites e passaram à ação, possivelmente como a única forma que
encontraram — naquele momento do seu desenvolvimento mental e das
circunstâncias que estavam vivendo — para expressar seus sentimentos de
raiva e frustração; tão intensos que ultrapassaram sua capacidade de con-
trolar esses impulsos agressivos. Se poderia pensar também que comunica-
ram assim o seu desejo de interromper o processo terapêutico porque lhes
era muito difícil e doloroso entrar em contato com esses aspetos do seu self,
que eram certamente aqueles que a terapeuta lhes propunha e que elas
não toleravam; também não conseguiam se acalmar porque estavam no
meio de uma forte turbulência emocional.
Este tipo de comportamento surge frequentemente em pacientes
que apresentam uma “patologia de déce” (Killingmo, B., 1980, citado por
Serrano, 2012), cujas carências precoces e/ou atuais se dramatizam na re-
lação paciente-terapeuta, na transferência e na contratransferência. É im-
portante também considerar a idade das pacientes, que poderia ser enten-
dido como um fator predisponente, uma vez que ambas estavam vivendo e
sofrendo seu processo de adolescência, o qual, como sabemos, produz uma
mobilização emocional ligada a causas biológicas, psicológicas, educativas,
sociais, entre outras. Em especial, devido às mudanças corporais, aos novos
desaos que lhes são impostos pelo seu ambiente familiar, escolar e social,
e pela diculdade em lidar com estes e com o desbordamento dos seus im-
pulsos sexuais e agressivos.
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No que diz respeito a Vania, poderíamos levantar a hipótese de que
ela também estava expressando sua dor, frustração e raiva diante de tantas
perdas e separações através da sua atuação, ao não conseguir traduzi-las
em palavras nem as expressar simbolicamente. Talvez estivesse testando
se a ligação com a sua terapeuta e o próprio processo poderiam continuar
e sobreviver a tudo isto.
No caso de L., poderíamos supor que existia um vazio mental que ela
tentava esconder, inconscientemente, por trás de uma sensação e de uma
atitude de omnipotência e controle que, possivelmente, foram a causa dela
ter cado de fora de uma experiência escolar tão importante na sua idade.
É possível pensar num ambiente familiar e escolar pouco acolhedor e na
ausência ou deciência de laços afetivos que a sustentassem e lhe impu-
sessem limites, indispensáveis na adolescência. Assim, o seu comportamen-
to poderia ser entendido como uma expressão da dor sentida pelas suas
carências, resultado de falhas precoces. Talvez, nesse caso, tenha sido uma
forma muito dramática de pedir ajuda e de procurar limites e contenção
para os excessos produzidos pelas suas diculdades em controlar os seus
impulsos. Como diria Kanner (1971), os seus sintomas cumpriam a função
de denúncia e de pedido de ajuda, como um SOS desesperado.
Ao tentar aprofundar a análise de Vania, a pré-adolescente de 11
anos, poderíamos dizer que a situação que era uma ameaça se transfor-
mou em oportunidade, coincidindo com o que arma Grimberg, L. (1997)
sobre o aspecto positivo da transferência negativa: “Oferece ao paciente a
oportunidade de reviver, no reenquadramento psicanalítico, um sentimen-
to de autonomia e de poder”. Assim como de “diferenciar a hostilidade des-
trutiva daquela que não o é”. (Em Vázquez, S., 2007, Transições 12, 2007).
Uma vez que a terapeuta e a paciente conseguiram retomar a ligação que
tinham estabelecido há bastante tempo, após uma reunião com a mãe, que
se mostrava bastante preocupada com a lha e empenhada no processo (e
com o psiquiatra). Foi proposto retomar as sessões por mais alguns meses,
após um reenquadramento, especialmente no que diz respeito aos limites,
e conversar e compreender o que tinha acontecido; Vania também pôde
pedir desculpa e ser acompanhada, por mais algum tempo, enquanto se
adaptava à nova escola. Depois disso, despediram-se de forma adequada e
ela foi encaminhada. Evitando assim deixá-la no ar.
Com L., a adolescente de 15 anos, foi mais complicado, uma vez que
ainda não tinha sido estabelecida uma ligação terapêutica porque ela se en-
contrava num processo de reavaliação (várias intervenções terapêuticas e
psiquiátricas anteriores não tinham dado resultado) e, apesar dos esforços
da terapeuta para retomar as sessões, pelo menos para conversar e com-
preender o que tinha acontecido e despedir-se, isso não foi possível. Ela me
fez pensar que poderia ter se beneciado de um processo psicoterapêutico
grupal institucional como Botbol. M. (2011) denomina “a empatia metafori-
zante”, quando fala da possibilidade de passar “do ato para o signicado” no
trabalho com adolescentes muito atores, em “situações limítrofes”. Ele o des-
creve como um espaço psíquico ampliado aos familiares ou às instituições
para aceder à problemática inconsciente do paciente, que é quase inacessí-
vel a partir de outros enquadramentos terapêuticos.
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É interessante mencionar que, como quase sempre acontece quando
participamos numa supervisão de grupo, as experiências ou o material clíni-
co que algum dos membros do grupo apresenta e discute se transformam
numa transmissão de conhecimentos e numa aprendizagem para os outros,
que enriquecem e ampliam as suas capacidades para o trabalho clínico com
outros pacientes. Esta poderia ser uma função adicional do espaço de super-
visão ampliada, da qual outra colega do grupo mencionado deu conta ao re-
latar que, depois de ter passado pelas duas experiências apresentadas nas
vinhetas, quando lhe chegou uma nova paciente adolescente com traços de
personalidade e histórias semelhantes às de Vania e L., conseguiu se antecipar
e abordá-la de outra forma, com mais elementos para pensar, compreender e
ajudar. Poderíamos falar, então, de uma aprendizagem através do vivenciado
a partir da sua contratransferência no espaço ampliado da supervisão e
também a partir da empatia e simpatia pelas suas duas colegas que se ex-
pressaram no reverie grupal e no apoio emocional que lhes ofereceram, am-
pliando assim a sua capacidade de compreensão e intervenção terapêutica.
Posso armar, sem medo de errar, que foi a minha participação no
grupo de supervisão entre pares com os meus colegas da APPPNA, que man-
temos muitos anos de forma quase ininterrupta, que me permitiu apli-
car o aprendido e reproduzir no contexto do trabalho o clima emocional de
respeito, conança, cuidado, criatividade e liberdade, contribuindo para a
identidade grupal que se formou neste grupo de supervisão ampliada. Gear
(1990) menciona quatro qualidades adicionais importantes para criar um cli-
ma “generativo” que também fariam parte do contrato implícito: “racionalida-
de, entusiasmo, cordialidade e serenidade, que ajudarão também a conter e
metabolizar o pessimismo, a exasperação e o desespero” próprios da dor e
do desbordamento psíquico, como aquele que nos foi transmitido pelas vin-
hetas.
III. Considerações nais
III.1. No que diz respeito à supervisão clínica
Considero importante destacar o valor de escrever e sistematizar a ex-
periência com os nossos pacientes ou com os colegas que supervisionamos,
para aprofundar e atualizar os nossos conhecimentos teóricos e técnicos em
benefício da nossa tarefa clínica.
Embora reconheça o valor da supervisão individual, rearmo o bene-
fício adicional da supervisão de grupo, que amplia o conhecimento e nutre
a experiência clínica e pessoal dos seus participantes. Por isso, me juntando
ao que foi proposto por vários autores, considero que a supervisão de grupo
pode ser uma modalidade valiosa a ser implementada nos institutos ou ins-
tituições de formação de terapeutas ou analistas.
Com base na minha experiência e nas contribuições acima menciona-
das, penso que é aconselhável que, como parte da nossa ética prossional
e do compromisso com os nossos pacientes, todos os terapeutas e analistas
mantenhamos a supervisão clínica — seja individual ou em grupo — ao lon-
go do nosso exercício prossional para trabalhar, entre muitas outras coisas,
os nossos pontos cegos e os nossos conitos de contratransferência.
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Sugiro, como membro da APPPNA, que criemos um espaço para ana-
lisar as novas contribuições sobre a supervisão através de grupos de estudo
e seminários.
Recomendo aos terapeutas que assim o desejem que formem e par-
ticipem de um grupo de supervisão entre pares, pois proporciona um apoio
emocional e é um espaço de reexão, escuta e contenção que enriquece a
todos, independentemente da idade ou experiência.
III.2. No que diz respeito à proposta de supervisão ampliada
Me pergunto: se a identidade do grupo e as características dos seus
membros fossem outras, seria possível um enquadramento ampliado? Va-
leria a pena tentar, se surgisse a oportunidade. E, ao mesmo tempo, consi-
dero que seria muito interessante aprofundar mais o seu estudo, a partir
das contribuições de René Kaës, uma vez que o conceito de dispositivo por
ele utilizado poderia nos permitir compreender melhor a dinâmica grupal
que se produziu no âmbito desta proposta.
Considero que a minha experiência como parte do Grupo de Super-
visão entre Pares da APPPNA, bem como as características, a personalida-
de dos membros e a identidade grupal, foram o que me permitiu pensar e
propor a ideia da supervisão grupal ampliada, na qual participei facilitando
o clima de trabalho em que a tarefa foi sendo desenvolvida e, como parte
dela, essa ampliação espontânea.
Achei sugestivo e muito valioso o papel que o chat de grupo desem-
penhou nesta experiência de supervisão e, dado o seu uso quase generaliza-
do na clínica atual, considero que já faz parte do material de alguns pacien-
tes, demonstrando sua utilidade. Apresento isto a partir da experiência de
análise de uma jovem adolescente cujas mensagens me chegavam sempre
com o ícone que era uma foto dela, que variava de acordo com o seu estado
de espírito, tornando-se outro elemento importante no vínculo.
Tudo isto me leva a pensar que o uso e a utilidade do chat no trabalho
de supervisão e em geral, na nossa prática clínica nos abre possibilida-
des muito interessantes de comunicação com os nossos pacientes, os seus
pais, professores e os nossos colegas; como se fosse uma forma atualizada,
graças à tecnologia, do que era a correspondência de Freud com o pai de
Juanito. É também uma ferramenta útil para registar o material e sistema-
tizá-lo.
Por m, como membro da APPPNA, agradeço a oportunidade de
publicar este trabalho na Revista Intercâmbio Psicanalítico e também aos
colegas que me ajudaram a reeti-lo na supervisão entre pares: Mati Ureta
de Caplansky, María Antonieta Pezo, César Estrella, Roxana Navarro, Rosario
Zuzunaga, Daniela Maya, Carolina del Castillo, Claudia Torrejón e Gabriela
Vázquez.
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