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INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 17 (1), 2026, pp 77 - 84
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: 10.60139/InterPsic/17.1.6
LOS SUEÑOS: VÍA REGIA A LA CREACIÓN
ESTÉTICA Y LA ELABORACIÓN PSÍQUICA
OS SONHOS: CAMINHO REAL PARA A CRIAÇÃO
ESTÉTICA E A ELABORAÇÃO PSÍQUICA
DREAMS: THE ROYAL ROAD TO AESTHETIC CREATION
AND PSYCHIC ELABORATION
Magdalena Echegaray
ORCID: 009-0009-0662-693X
Correo electrónico: maechegaray@hotmail.com
ASAPPIA
Fecha de recepción: 30 – 04 - 2026
Fecha de aceptación: 12 – 05 - 2026
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Echegaray M. (2026) LOS SUEÑOS: VÍA REGIA A LA CREACIÓN
ESTÉTICA Y LA ELABORACIÓN PSÍQUICA
Intercambio Psicoanalítico 17 (1), DOI:DOI: 10.60139/InterPsic/17.1.6
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Vou iniciar este texto de uma forma que sugere não fazê-lo, com
uma citação. As primeiras palavras de Borges no prólogo do Livro dos
sonhos (1976) dizem o seguinte:
Em um ensaio do Espectador (setembro de 1712), incluído nesse
volume, Joseph Addison observou que a alma humana, quando
sonha, livre do corpo, é ao mesmo tempo o teatro, os atores e a
plateia. Podemos acrescentar que é também o autor da fábula que
está assistindo. Há passagens análogas de Petronio e de Dom Luis
de Góngora.
Uma leitura literal da metáfora de Addison poderia nos levar à tese,
perigosamente atraente, de que os sonhos constituem o mais anti-
go e não menos complexo dos gêneros literários (p. 8).
Essa ideia sutilmente provocadora de Borges me leva diretamente
ao tema que nos reúne: a criatividade, a adequação artística e a inventivi-
dade espontânea que se manifestam nos sonhos. E Borges continua: “A
arte da noite tem vindo a penetrar na arte do dia” (p. 8). Lembremo-nos
de que Paul McCartney escreveu “Let it be” ao acordar de um sonho que
relata nessa bela canção. Borges menciona Henry James e Poe, algumas
das cujas obras tiveram origem em pesadelos.
O enigma sobre o inesgotável poder criador dos sonhos foi o estí-
mulo que me levou, nos últimos anos, a aprofundar-me nas derivações do
fenômeno psíquico, carro-chefe da psicanálise.
Os sonhos não são apenas o seu relato. As imagens das quais os
sonhos são feitos se desvanecem no esquecimento ou se perpetuam na
memória. O relato do sonho já não pertence ao sonho. Laplanche arma
que o sonho não é diálogo nem é o relato do sonho (p. 81); no entanto, é o
seu relato que os torna comunicáveis. Freud nos lembra que “(...) às vezes
os seres humanos costumavam sonhar antes que existisse a psicanálise”
(p. 118) e que “(...) é completamente alheio ao sonho o propósito de gan-
har valor dentro da análise” (p. 119).
Os sonhos são esse território privilegiado onde aquilo que Silvia
Bleichmar denominou de ordem do arcaico pode ser recuperado e tra-
duzido. “Sistemas de memórias que não se instauram em um único tem-
po, mas ao longo do tempo, com a peculiaridade de que é esse tempo de
sua inscrição que se torna espacialidade interior” (p. 101).
Os sonhos cumprem funções fundamentais, ou seja, estão na base
do modo de ser da psique. O trabalho do sonho propriamente dito, esse
artesanato poético feito de condensações e deslocamentos, trabalho de
busca de gurabilidade, de montagens metafóricas e metonímicas entre
os pensamentos oníricos, só pode ocorrer quando a tópica está constituí-
da, mesmo que esses processos ocorram no sistema Inconsciente.
Freud atribui aos sonhos duas funções intrapsíquicas: em “AInter-
pretação dos Sonhos” (1990 [1900]), arma:
OS SONHOS:
CAMINHO REAL PARA A CRIAÇÃO ESTÉTICA
E A ELABORAÇÃO PSÍQUICA
Magdalena Echegaray1
1 Graduada em Psicologia. Pós-
graduação em Psicanálise. Docente
da Pós-graduação em Psicanálise
das Infâncias e Adolescências da
ASAPPIA e da Escola de Clínica
Psicanalítica das Infâncias e
Adolescências da ASAPPIA e da
Associação de Psicanálise “Sigmund
Freud” do Litoral. Membro Titular
da ASAPPIA. Membro fundadora e
titular do Colégio de Psicanalistas.
Autora de trabalhos sobre teoria e
clínica psicanalítica apresentados em
instituições, congressos nacionais e
internacionais.
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(…) o sonho é, em todos os casos, uma realização de desejo, pois
é uma operação do sistema Inconsciente, que não conhece em seu
trabalho nenhum outro objetivo além da realização de desejos,
nem dispõe de outras forças que não sejam as motivações do dese-
jo (p. 560).
Ou seja, ele formula a tese canônica: os sonhos são a realização
alucinatória de desejos reprimidos, a via régia de acesso ao inconsciente.
Em 1920, em “Além do princípio do prazer” (1990 [1920]), Freud relaciona
o traumático com os sonhos. Ele arma:
(…) mas os referidos sonhos dos neuróticos traumáticos já não po-
dem ser vistos como realização de desejo; tampouco os sonhos que
se apresentam na psicanálise e que nos devolvem a lembrança dos
traumas psíquicos da infância. Eles obedecem mais à compulsão de
repetição, que na análise se apoia no desejo (certamente promo-
vido pela “sugestão”) de evocar o esquecido e o reprimido. Assim,
não seria a função originária do sonho eliminar, por meio da satis-
fação do desejo das emoções perturbadoras, motivos capazes de
interromper o sono; só poderia apropriar-se dessa função depois
que o conjunto da vida anímica aceitasse o domínio do princípio do
prazer. Se existe um “além do princípio do prazer”, por consequên-
cia inevitável, será preciso admitir que houve um tempo anterior
também à tendência do sonho para a satisfação do desejo (p. 32).
O trabalho do sonho apresenta elementos da vivência traumáti-
ca, numa tentativa de entrelaçá-los em circuitos desejantes por meio do
movimento que vai do além para o aqui do princípio do prazer; ambas
as perspectivas se complementam e podem aparecer até mesmo num
mesmo sonho.
O modelo de retranscrições sucessivas que Freud propõe na “Car-
ta 52” (1990 [1896]) nos indica que as transcrições serão permitidas ou
negadas em diversas etapas da vida. O inscrito, que já é um modo de
representação, pode ou não ser retranscrito. O fato de uma marca ser re-
transcrita em um pensamento onírico supõe um modo de metabolização,
nos termos de Laplanche. O traumático se inscreve, mas não é metaboli-
zado; ao ser capturado em uma rede de pensamentos oníricos, pode iniciar
esse processo.
Silvia Bleichmar estabelecerá uma distinção entre o modelo tra-
dutivo e o modelo de transcrições em relação ao traumático. O modelo
tradutivo refere-se a “(…) inscrição na ordem da linguagem, ou transpo-
sição para a linguagem daquilo que é paralinguístico, não apenas pré-lin-
guístico” (p. 290). Ela esclarece que “(…) o linguístico nunca poderá reunir
totalmente o que pertenceu à ordem da vivência” (p. 290). Nisso se inclui
o inconsciente originário que “(…) só pode ser ligado por seus rebentos”
(p. 290). O transcrito pode sê-lo em representações de outra ordem, não
necessariamente linguística.
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E cito novamente o poeta:
Coleridge escreveu que as imagens da vigília inspiram sentimen-
tos, enquanto no sonho os sentimentos inspiram imagens. (Que
sentimento misterioso e complexo terá ditado o Kubla Khan, que
foi dom de um sonho? Se um tigre entrasse nesta sala, sentiríamos
medo; se sentimos medo no sonho, geramos um tigre (p. 8).
O trabalho do sonho se vale de deslocamentos e condensações
para gurar pensamentos distintos de diversas proveniências e represen-
tações heterogêneas quanto à sua qualidade e origem. A gurabilidade,
trabalho de criação da psique, facilita a trama de vestígios que não po-
dem ter acesso à consciência na forma de lembrança; e é unicamente sob
formas alucinatórias ou quase alucinatórias que podem fazê-lo. Também
na regressão na transferência ou nos sonhos, esses acontecimentos po-
derão ter acesso a ela. Em Moisés, que Freud começou a escrever em 1934
e terminou em 1938, já no exílio na Inglaterra, ele expressa: “O que as
crianças viveram aos dois anos de idade, sem compreendê-lo na época,
podem nunca mais se lembrar, salvo nos sonhos; somente por meio de
um tratamento psicanalítico é que isso pode se tornar conhecido para
eles” (1990 [1938], p. 121). Os destinos alternativos que Freud enuncia são
o retorno por meio de compulsões ou nos vínculos.
Arma Freud que não é necessário supor uma atividade simbo-
lizante especíca da alma no trabalho do sonho, uma vez que outras
produções psíquicas são efeito das operações de condensação, desloca-
mento, jogos de substituições e inversões, em suma, a operatividade do
processo primário; mas o sonho se serve de “(...) simbolizações que estão
contidas, já prontas no pensamento inconsciente, porque elas satisfazem
melhor as exigências da formação do sonho por sua gurabilidade e, na
maioria das vezes, por estarem isentas de censura” (1990 [1900], p. 354).
Nos primeiros encontros da criança humana com o adulto respon-
sável pela sua criação, inscrevem-se na infância as primeiras represen-
tações (em sentido amplo), fragmentos separados do objeto de prove-
niência, pulsantes, cuja ativação produzirá aquele primeiro pensamento
que Freud chamou de alucinação primitiva no “Projeto de Psicologia” (1990
[1895]). A alucinação primitiva, como primeira forma de pensamento, não
se destina a resolver nenhuma tensão de ordem biológica, mas permite
ligar, nessa primeira fantasia, a excitação sexual impossível de ser evacua-
da a uma representação.
Esse pensamento não é uma cópia da realidade, mas pura criação
metabólica de resquícios indicativos do objeto de proveniência. “O pensa-
mento não aparece no ‘Projeto’ como um ensaio sobre a realidade, mas
como um levantamento da realidade exterior, a serviço do equilíbrio da
energia do aparelho incipiente” (Bleichmar, 2020, p. 388), formula Silvia
Bleichmar.
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O pensamento é uma produção psíquica que vincula uma quan-
tidade, uma excitação, a uma representação; trata-se da ligação entre
afeto e representação. As representações são produtos metabólicos,
“neocriações”, recomposições do real. A psique produz e é habitada por
uma heterogeneidade de pensamentos: inconscientes, pré-conscientes,
conscientes. “O pensamento humano é a produção de objetos inexisten-
tes a partir do existente, não a instrumentalização do mundo nem sua
transformação, mas a verdadeira criação produtiva de um mundo especi-
camente humano” (Bleichmar, 2009, p. 25).
O estatuto de pensamento que Freud confere às ligações represen-
tacionais que ocorrem no Inconsciente, às escondidas do Eu e da lógica,
supõe uma ruptura epistemológica com a tradição racionalista de cunho
cartesiano.
Pensar pensamentos não pensados por ninguém é a grande desco-
berta da psicanálise, propõe Silvia Bleichmar:
“A grande descoberta da psicanálise é ter proposto, pela primeira
vez na história do pensamento, que é possível que exista um pen-
samento sem sujeito e que esse pensamento sem sujeito não es-
teja no outro transcendental – também sujeito –, nem em nenhum
lugar particularmente habitado pela consciência ou pela intencio-
nalidade” (Bleichmar, 2009, p. 18).
Esse pensamento que antecede a constituição do sujeito passará a
fazer parte do Inconsciente e não da subjetividade reexiva.
Tanto Bion quanto Meltzer propõem o sonho como processo de
pensamento e criatividade; Meltzer, colocando ênfase na estética.
Donald Meltzer, no livro Vida Onírica (1987), faz uma revisão da
teoria dos sonhos de Freud. Ele arma que os sonhos são uma forma
de “(…) experiência vital real” (p. 18). Dene o processo onírico “(…) como
um processo no qual se pensa sobre as experiências emocionais” (p. 55).
Para Meltzer, o que Freud chamou de “contemplação da gurabilidade”
signicará a formação de símbolos e a interação das formas simbólicas
visuais e linguísticas, e o trabalho do sonho “(...) signicará as operações
da fantasia e os processos de pensamento por meio dos quais se busca
a solução de problemas e conitos emocionais” (p. 55). O sonho é, assim,
uma experiência de criação simbólica e de pensamento que se desenrola
no inconsciente.
Para Bion, a experiência emocional precede os pensamentos, e es-
tes, o aparato de pensar.
W. Bion desenvolveu a ideia da função-alfa, que transforma os ele-
mentos beta em elementos alfa, permitindo-nos sonhar, relatar nossos
sonhos, pintar, realizar todo tipo de atividade artística e manifestar toda
a criatividade de que somos capazes como seres humanos. Arma Bion:
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“A função-alfa opera sobre as impressões sensoriais, quaisquer que
sejam, e as emoções, quaisquer que sejam aquelas que o paciente
aceita. Enquanto a função-alfa operar com sucesso e , produzir-se-
ão elementos-alfa, e estes serão adequados para serem armazena-
dos e satisfazer os requisitos dos pensamentos oníricos” (2015, p.
31).
Para Bion, o pensamento onírico é o modelo do pensamento por-
que, como arma Silvia Bleichmar, é um modelo de processamento dos
elementos que a psique tem à disposição. A função-alfa pode se desen-
volver se o adulto responsável pela criação tiver capacidade de sonhar, ou
seja, nos termos de Bion, capacidade de reverie: “(…) a reverie é um fator da
função-alfa da mãe” (Bion, 2015, p. 74). Entendo que essa capacidade de
sonhar será patrimônio do analista no campo transferencial.
Bion arma que o pensamento precede o aparato de pensar: pri-
meiro se desenvolvem os pensamentos e, em um segundo momento, o
aparato de pensar para lidar com os pensamentos. Silvia Bleichmar, inspi-
rada nesses desenvolvimentos, propõe, a partir de outro modelo teórico
metapsicológico, a noção de “pensamento sem sujeito”. Ou seja, que a re-
presentação precede a constituição do aparato psíquico. Isso marca uma
revolução epistemológica.
As denições de pensamento e representação diferem nas concei-
tuações de Bleichmar e Bion, embora ambos coincidam em que o pensa-
mento é uma forma de ordenação dos investimentos, sempre ligada aos
processos de simbolização.
Silvia Bleichmar aplica essa noção aos primeiros momentos da
constituição subjetiva, e eu a estendo ao trabalho do sonho. O “pensa-
mento sem sujeito”, trabalho de ligação, de articulação representacional
de vestígios de diversa qualidade e proveniência, é o que dá forma ao
trabalho do sonho, ao processo de gurabilidade. Ele pode articular ele-
mentos inconscientes, produto da repressão secundária, como elemen-
tos representacionais que nunca pertenceram ao sistema Prcc, ligados a
moções infantis que, antes de fazerem parte do sonho, não pertenciam
ao sistema Prcc-Cc. Pensamentos inconscientes e pensamentos pré-cons-
cientes são duas materialidades psíquicas distintas que constituem os
sonhos.
Em “A Interpretação dos Sonhos” (1990 [1900]), Freud arma:
(…) o outro trabalho, aquele que transforma os pensamentos in-
conscientes no conteúdo do sonho, é próprio da vida onírica e ca-
racterístico dela. Ora, esse trabalho especíco do sonho se afasta
do modelo do pensamento desperto, muito mais do que suspeita-
ram até mesmo os mais decididos detratores do desempenho psí-
quico na formação do sonho. Não se trata de ser mais descuidado,
incorreto, esquecido ou incompleto do que o pensamento em es-
tado de vigília; é algo que difere qualitativamente dele e, portanto,
não pode ser comparado a ele. Ele não pensa, nem calcula, nem,
em geral, julga, mas limita-se a remodelar pensamentos, cálculos e
julgamentos (p. 502).
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E, em uma nota de rodapé, escreve: “(…) o sonho não é mais do
que uma forma particular do nosso pensamento, possibilitada pelo esta-
do de sono. É o trabalho do sonho que produz essa forma, e somente ele
é a essência do sonho, a explicação de sua especicidade” (Freud, 1990
[1900]), p. 502). Vale dizer que o “pensamento sem sujeito” é aquele que
opera no trabalho do sonho por meio de deslocamentos e condensações,
submetido à exigência da gurabilidade e de sua produção, às escondidas
do eu da consciência; não se trata de pensamento submetido à lógica
cartesiana, mas de trabalho de imaginação, de criação. Mas esse trabalho
de transformação a que Freud se refere não transforma qualquer coisa
em qualquer outra.
Cornelius Castoriadis criou a noção de “imaginação radical” para se
referir a essa capacidade da psique humana de produzir representações,
desejos, afetos, e que denomina radical porque é fonte de criação. Ela
cria o inexistente, faz surgir representações ex nihilo, que não são combi-
nações do existente. Ele arma que, embora toda a obra de Freud trate
da imaginação e do imaginário, ela consegue a proeza de não mencionar
a palavra sequer uma vez e que, embora seja a descoberta mais impor-
tante da psicanálise, o “(…) homem cuja obra seria incompreensível se não
se visse na imaginação um poder central e constitutivo da psique, não
quer saber nada dela” (1993, p. 23). E isso ocorre, segundo ele, porque
para Freud era incompatível com sua aspiração de cienticidade do psica-
nálise dar um lugar privilegiado à imaginação, o que aconteceu da mesma
forma com Aristóteles e Kant. Ele arma:
O além é buscado pela invasão, em seus esquemas – e já no Proje-
to –, de um elemento, a imaginação radical da psique ou a psique
como imaginação radical, ao qual Freud sempre resistirá e que nun-
ca tornará explícito (p. 26).
O trabalho do sonho, trabalho de gurabilidade, cria produções
absolutamente originais que cumprem uma função intrapsíquica desfun-
cionalizada para o autoconservativo. Cria imagens anteriormente inexis-
tentes. É nesse sentido que a imaginação radical é o modo como a psique
opera na construção do sonho sonhado. Castoriadis arma que, para a
psique, não existe nada que não seja uma representação.
Para este autor, o trabalho criador da imaginação por excelência é
o trabalho do sonho. “O essencial é que o mundo psíquico humano, por
meio de um desenvolvimento monstruoso da imaginação (essa neofor-
mação psíquica), torna-se a-funcional” (Castoriadis, 1993, p. 40) e explica
a prevalência, nos seres humanos, do prazer da representação sobre o
prazer do órgão. “A psique do recém-nascido já pressupõe nele o domínio
do prazer da representação sobre o prazer do órgão. Sem isso, não have-
ria sublimação possível; portanto, não haveria vida social” (p. 41).
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Mas Castoriadis adverte que existe “(...) um certo elemento lógico,
conjuntista identitário, tanto na organização e na textura de cada imagem
em si mesma e para si mesma quanto na ordenação, na composição e
na sequência do conjunto de imagens que formam o sonho” (p. 37). E
acrescenta que, “(…) com toda a evidência, sem o apoio desses elementos
lógicos, o trabalho de interpretação nem sequer poderia começar” (p. 37).
A capacidade de criação e ligação que o trabalho do sonho e suas
produções possuem são um reduto de resistência aos traumas que, à es-
preita, nos ameaçam. Sonhar se assemelha, nesse sentido, à arte.
Para concluir, cito novamente Borges em um trecho do soneto
“Sueña Alonso Quijano”
(1976):
O hidalgo foi um sonho de Cervantes
E Dom Quixote, um sonho do hidalgo.
O sonho duplo os confunde e algo
está acontecendo o que aconteceu muito antes.
Quijano dorme e sonha. Uma batalha:
os mares de Lepanto e a metralha (p. 82).
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