
82 / FLAPPSIP
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 17 (1), 2026, pp 77 - 84
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: 10.60139/InterPsic/17.1.6
“A função-alfa opera sobre as impressões sensoriais, quaisquer que
sejam, e as emoções, quaisquer que sejam aquelas que o paciente
aceita. Enquanto a função-alfa operar com sucesso e , produzir-se-
ão elementos-alfa, e estes serão adequados para serem armazena-
dos e satisfazer os requisitos dos pensamentos oníricos” (2015, p.
31).
Para Bion, o pensamento onírico é o modelo do pensamento por-
que, como arma Silvia Bleichmar, é um modelo de processamento dos
elementos que a psique tem à disposição. A função-alfa pode se desen-
volver se o adulto responsável pela criação tiver capacidade de sonhar, ou
seja, nos termos de Bion, capacidade de reverie: “(…) a reverie é um fator da
função-alfa da mãe” (Bion, 2015, p. 74). Entendo que essa capacidade de
sonhar será patrimônio do analista no campo transferencial.
Bion arma que o pensamento precede o aparato de pensar: pri-
meiro se desenvolvem os pensamentos e, em um segundo momento, o
aparato de pensar para lidar com os pensamentos. Silvia Bleichmar, inspi-
rada nesses desenvolvimentos, propõe, a partir de outro modelo teórico
metapsicológico, a noção de “pensamento sem sujeito”. Ou seja, que a re-
presentação precede a constituição do aparato psíquico. Isso marca uma
revolução epistemológica.
As denições de pensamento e representação diferem nas concei-
tuações de Bleichmar e Bion, embora ambos coincidam em que o pensa-
mento é uma forma de ordenação dos investimentos, sempre ligada aos
processos de simbolização.
Silvia Bleichmar aplica essa noção aos primeiros momentos da
constituição subjetiva, e eu a estendo ao trabalho do sonho. O “pensa-
mento sem sujeito”, trabalho de ligação, de articulação representacional
de vestígios de diversa qualidade e proveniência, é o que dá forma ao
trabalho do sonho, ao processo de gurabilidade. Ele pode articular ele-
mentos inconscientes, produto da repressão secundária, como elemen-
tos representacionais que nunca pertenceram ao sistema Prcc, ligados a
moções infantis que, antes de fazerem parte do sonho, não pertenciam
ao sistema Prcc-Cc. Pensamentos inconscientes e pensamentos pré-cons-
cientes são duas materialidades psíquicas distintas que constituem os
sonhos.
Em “A Interpretação dos Sonhos” (1990 [1900]), Freud arma:
(…) o outro trabalho, aquele que transforma os pensamentos in-
conscientes no conteúdo do sonho, é próprio da vida onírica e ca-
racterístico dela. Ora, esse trabalho especíco do sonho se afasta
do modelo do pensamento desperto, muito mais do que suspeita-
ram até mesmo os mais decididos detratores do desempenho psí-
quico na formação do sonho. Não se trata de ser mais descuidado,
incorreto, esquecido ou incompleto do que o pensamento em es-
tado de vigília; é algo que difere qualitativamente dele e, portanto,
não pode ser comparado a ele. Ele não pensa, nem calcula, nem,
em geral, julga, mas limita-se a remodelar pensamentos, cálculos e
julgamentos (p. 502).