
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 16 (1), 2025, pp 68 - 77
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/16.1.8
99 / FLAPPSIP
No podcast “Dois Mundos” (Folha, 2025), um indígena de pouco
contato da etnia madiha Kulina, cruza mais de 1000 km de selva virgem,
com sua esposa, levados pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas1
(FUNAI), buscando atendimento hospitalar para uma emergência no par-
to. O casal Tadeo Kulina e Ccorima Kulina, prestes a ter o primeiro lho,
é transportado primeiro de barco e depois de helicóptero até Manaus,
cidade de dois milhões de habitantes.
Chegando no hospital, Corima é atendida e Tadeo mandado embo-
ra, sem jamais haver estado em uma cidade, sequer ter ideia do que era
o helicóptero no qual andou e passando pela experiência de ver nascer
seu primogênito. Não havia ninguém da FUNAI para acompanhar Tadeo
a uma casa de assistência, como seria o procedimento nesse caso. Ele
não falava uma palavra em português. Quando saiu do hospital, estava
em surto psicótico. Seu corpo foi encontrado posteriormente. Embora
suspeite-se que seu assassino seja policial, uma coisa é certa: Tadeo foi
aniquilado por um sistema de códigos diferente do seu.
Aqui, o assombro capaz de ensejar uma psicose é o choque com
um Outro mundo, ou um ‘mundo Outro’, com códigos e signos completa-
mente desconhecidos pelo sujeito. Tais elementos sequer estão presen-
tes no seu grande Outro, poderíamos dizer.
Uma narrativa semelhante pode ser escutada em primeira pessoa,
pela voz de Equiano (1789), um negro escravizado que relata seu choque
ao entrar no navio negreiro:
O primeiro objeto que saudou meus olhos quando cheguei à costa foi
o mar e um navio negreiro, que então estava ancorado, aguardando
sua carga. Isso me encheu de assombro, que logo se transformou em
terror quando fui levado a bordo. Fui imediatamente apalpado e jo-
gado para o alto, para ver se eu estava em boas condições, por alguns
dos tripulantes; e então me convenci de que havia entrado em um
mundo de maus espíritos e que eles iriam me matar.
As suas compleições, tão diferentes das nossas, os cabelos compridos
e a língua que falavam (tão diferente de qualquer uma que eu já tives-
se ouvido) conrmaram-me ainda mais essa crença. (...)
Quando olhei em volta do navio e vi um grande forno ou caldeira fer-
vendo, e uma multidão de pessoas negras de toda descrição acorren-
tadas, cada rosto expressando abatimento e tristeza, já não duvidei
do meu destino; e, completamente dominado pelo horror e pela an-
gústia, caí imóvel no convés e desmaiei.
Quando recuperei um pouco os sentidos, encontrei algumas pessoas
negras ao meu redor, que acreditei serem aqueles que me haviam
trazido a bordo e estavam recebendo seu pagamento; eles falavam
comigo para me animar, mas em vão. Perguntei-lhes se não seríamos
comidos por aqueles homens brancos de aparência horrível, rostos
vermelhos e cabelos soltos. Disseram-me que não; e um dos tripulan-
tes trouxe-me uma pequena porção de bebida espirituosa em uma
taça de vinho; mas, com medo dele, não aceitei da sua mão” (Equiano,
1789 -traduzido pelo ChatGPT).
1 Trata-se de um órgão federal brasileiro,
vinculado ao Ministério dos Povos
Indígenas, responsável por proteger,
promover e garantir os direitos dos povos
indígenas no Brasil.