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INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 17 (1), 2026, pp 110 - 123
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: 10.60139/InterPsic/17.1.10
LITERATURA E PSICANÁLISE
NO PROCESSO DE REPARAÇÃO DO TRAUMA
LITERATURA Y PSICOANÁLISIS.
EL PROCESO DE REPARACIÓN DEL TRAUMA.
LITERATURE AND PSYCHOANALYSIS:
THE PROCESS OF TRAUMA REPAIR
Jose Dario Córdova Posada
ORCID: 0009-0003-6316-4037
dariocordova8@gmail.com
Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro
Data de Recebimento: 02 – 05 -2026
Data de Aceitação: 12-05-2026
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Córdova Posada J.D. (2026) LITERATURA E PSICANÁLISE NO PROCESSO DE REPARAÇÃO DO TRAUMA
Intercambio Psicoanalítico 17 (1), DOI: 10.60139/InterPsic/17.1.10
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
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Resumo: O texto busca produzir diálogos entre a psicanálise, lite-
ratura do pós-guerra e memória.A guerra civil pela qual passou El
Salvador na década de 80 foi encerrada a partir dos acordos de paz
em 1992, mas o legado de mortes de civis nos doze anos de conito
armado está longe de ser resolvido. Contudo, observamos o surgi-
mento de uma literatura chamada de “pós-guerra” onde a novela do
Horacio Castellanos Moyá intitulada
Asco: Thomas Bernhard em San
Salvador
e
Noviembre
de Jorge Galán nos ajuda a pensar esse perío-
do para questionar a identidade nacional, o lugar do exilado no país
de destino, e ainda, a memória da pátria vivida. O conceito do trau-
ma desenvolvido por Freud e Ferenczi, contribuiu para pensar o su-
jeito em situações adversas e ajudam a pensar a literatura como um
meio para dar sentido ao traumático. Como esta articulação pode
abrir caminhos para uma clínica do trauma? É possível a literatura
atenuar e dar sentido ao trauma da guerra de uma coletividade? O
que a literatura de pós-guerra contribui para entender o conceito de
trauma na psicanálise?
Palavras-chave: Psicanálise, Pós-guerra, Trauma, Literatura, Memó-
ria
Resumen: El presente artículo propone un diálogo entre el psicoa-
nálisis, la literatura de posguerra y la memoria social a partir de la
Guerra Civil en El Salvador (1980–1992). Se analizan las novelas
Asco:
Thomas Bernhard en San Salvador
de Horacio Castellanos Moya, y
Noviembre
, de Jorge Galán, como producciones literarias que permi-
ten elaborar simbólicamente la experiencia traumática colectiva. A
partir de los conceptos de trauma desarrollados por Sigmund Freud
y Sándor Ferenczi, se reexiona sobre la posibilidad de la literatura
como espacio de elaboración psíquica del trauma social, así como
su contribución a una comprensión clínica y cultural de las conse-
cuencias subjetivas de la violencia estatal y del conicto armado en
sociedades atravesadas por la posguerra.
Palabras clave: psicoanálisis, postguerra, trauma, literatura, memo-
ria.
LITERATURA E PSICANÁLISE
NO PROCESSO
DE REPARAÇÃO DO TRAUMA
Jose Dario Córdova
Posada1
1 Psicólogo/Psicanalista. Mestre em
Memória Social e Psicossociologia
UNIRIO/UFRJ
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Abstract: This article aims to establish a dialogue between psychoa-
nalysis, postwar literature, and memory. El Salvador’s civil war,
which took place during the 1980s and formally ended with the 1992
Peace Accords, left a legacy of civilian deaths that remains unresol-
ved. Within this historical context, the emergence of postwar litera-
ture reects ongoing struggles surrounding national identity, exile,
and collective memory. The analysis focuses on Horacio Castellanos
Moya’s novel Revulsion: T
homas Bernhard in San Salvador (Asco)
and
Noviembre
by Jorge Galán which oers a critical examination of the
nation’s postwar condition, the position of the exile in the host coun-
try, and the memory of the homeland as lived experience. Drawing
on the concept of trauma as developed by Freud and Ferenczi, the
study explores how literature may function as a symbolic medium
through which traumatic experiences can be articulated and rende-
red meaningful. By articulating psychoanalytic theory and literary
analysis, the article discusses the potential contributions of postwar
literature to a clinical understanding of trauma and to the compre-
hension of war-related trauma at a collective level.
Keywords: Psychoanalysis, postwar, trauma, literature, memory.
La huida
Yo no hablé de los asesinos.
Yo hablé de los cuerpos
bajo la interminable noche de noviembre,
hablé de los seis hombres tendidos en la grama,
hablé de las mujeres, las dos, tiradas en el piso,
y las sombras alrededor, siluetas
que persisten bajo el graznido de los cuervos…
Y volví a hablar para contar la historia
de los seis hombres y las dos pequeñas mujeres
pero no de sus asesinos.
Porque no hablé de sus asesinos
pero ellos si me hablaron, formas de penumbra
siempre atrás, mientras andaba por la calle
y al dormir, donde los observé acercarse otra vez,
apuntarme a través de una puerta de cristal,
justo cuando mi cabeza cayó y esperé.
Jorge Galán. Bajo la interminable noche de noviembre
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Este artigo pretende reetir sobre as consequências subjetivas
da guerra civil de El Salvador, enfatizando o que foi conhecido como o
“massacre dos jesuítas” e a vida da população no pós-guerra através de
duas obras semiccionais - Noviembre de Jorge Galán e Asco de Horácio
Castellanos Moya. A reexão terá como base teórica a contribuição de
Sigmund Freud e Sandor Ferenczi com os conceitos de trauma e desmen-
tido, o conceito de estética do cinismo de Beatriz Cortez na literatura do
pós-guerra. São conceitos que pertencem a diferentes campos de saber,
congurando o trabalho como uma investigação transdisciplinar que arti-
cula a memória social, a psicanálise e a literatura do pós-guerra, a m de
compreender o impacto subjetivo que os doze anos de conito armado
(1980-1992) produziram nos salvadorenhos.
É importante destacar que revisaremos o conceito de trauma em
Freud e o percurso que o levou a pensar o trauma como elemento fun-
damental de uma nova etiologia para as neuroses de guerra que se dis-
seminaram a partir do m da Primeira Guerra Mundial. Para Freud, esses
traumas são especícos de uma dada situação e ao mesmo tempo revela-
dores, em cada indivíduo, de uma história que lhe é peculiar. Freud dene
o trauma como uma vivência “que, em curto período de tempo, aporta
à mente um acréscimo de estímulo excessivamente poderoso para ser
manejado ou elaborado de maneira normal, e isso pode resultar em
perturbações permanentes da forma em que essa energia opera” (FREUD,
1917). Esta concepção do trauma como excesso que o psiquismo não con-
segue metabolizar foi depois ampliada a partir dos estudos de Sándor
Ferenczi, psicanalista húngaro que fez das vivências traumáticas o centro
de sua teoria. Para Ferenczi, o excesso energético, ou mesmo a violência,
não seriam sucientes para explicar o trauma. Seria preciso que a esta
violência fosse acrescida uma outra experiência: a do desmentido, que
consiste em desautorizar a percepção, os afetos e a própria subjetividade
de quem viveu uma violência, produzindo no psiquismo uma cisão e uma
confusão sobre a experiência vivida (FERENCZI, 1933).
O ponto de partida. Um pequeno país, uma década de guerra
civil, mais de oitenta mil mortos
Na madrugada do 16 de novembro de 1989 um comando do Batal-
hão Atlacatl, um batalhão de elite treinado pelo governo americano en-
trou na Universidade Centroamericana de El Salvador retirou cinco sacer-
dotes jesuítas de dentro da residência da faculdade os jogou deitados no
jardim e os metralhou, ainda assassinaram uma empregada na mesma
residência junto com sua lha de 15 anos. Este evento cou conhecido
como a massacre dos jesuítas. Isso aconteceu no meio da guerra civil de
El Salvador, que durou de 1980 até 1992 quando se rmaram os acordos
de paz.
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É nessa conguração social que podemos entender a Guerra Civil
em El Salvador, que se constituiu como um conito armado entre o go-
verno ditatorial e a guerrilha de esquerda, organizada em torno da Frente
Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN). A guerra começou o-
cialmente em 1980, pois foi nesse ano que o exército lançou o primei-
ro operativo contra-insurgente, mas entendemos que o conito vinha se
congurando desde várias décadas atrás.
O episódio que cou conhecido como o “massacre dos jesuítas”
foi a reação brutal e arbitrária das forças armadas a um fato que havia
ocorrido um pouco antes: no dia 11 de novembro de 1989, o Exército de
Libertação invadiu a capital no que se chamou a “ofensiva nal” e tomou
de surpresa as forças armadas do governo. Os enfrentamentos foram in-
tensos, com muitas baixas nos dois exércitos e entre a população civil.
Uma das estratégias das forças governamentais foi, em meio ao caos pro-
vocado pela surpresa, entrar na Universidade Centro-Americana na ma-
drugada do dia 16 de novembro e assassinar seis jesuítas, a empregada
da casa e sua lha.
Um dos jesuítas assassinados Ignacio Martín-Baró que era pro-
fessor de psicologia social na UCA aponta no seu livro Psicologia Social
da Guerra (1990) que a situação de El Salvador era insustentável e que
uma guerra civil era esperada, pois as condições de miséria da população
eram ofensivas para a dignidade humana. Historicamente, impunha-se
uma aliança entre a oligarquia tradicional e uma força armada corrupta
que bloqueava qualquer tentativa de mudança, inclusive, através do voto.
Muito antes de a guerra eclodir, se respondia com repressão (prisão,
tortura e desaparecimento) a qualquer demanda de satisfação das neces-
sidades básicas da população.
A guerra durou doze anos e a cada ano ela foi aumentando em
extensão e profundidade, pois o que, ao início, se limitava a poucas zonas
críticas, nos últimos anos tinha se estendido a todo o território nacional.
Para um país pequeno (aproximadamente 21.000 km²) e, na épo-
ca, com uma população em torno de 6 milhões de habitantes, era difícil
que a grande maioria da população não tivesse sido impactada direta ou
indiretamente.
O desfecho da ofensiva nal foi decisivo para encontrar uma saí-
da negociada do conito que havia se instalado como guerra civil desde
1980. Foi primeira vez que o combate tinha chegado à capital e, embora,
o exército de libertação tenha se mostrado forte, ainda não havia possi-
bilidade de tomada do poder pela luta armada (MONTOBBIO, 1999). O
massacre dos jesuítas fez aumentar a pressão internacional para a assi-
natura dos acordos de paz e foi decisivo para que eles fossem assinados
dois anos depois do massacre. A falta do avanço no esclarecimento dos
assassinatos foi um dos fatores-chave para que estes acordos se tornas-
sem possíveis em 1992.
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Como elaborar o trauma a partir da literatura, da memória so-
cial e da psicanálise?
Para ilustrar esta reexão cito o livro de Flavio Tavares, Memórias
do Esquecimento (2005), ganhador do prêmio Jabuti em 2000, como obra
de reportagem, escrito em ritmo de romance de ação em que se revelam
os detalhes da história da violência de Estado no Brasil. Flavio Tavares foi
preso e banido do Brasil pela ditadura. O autor demorou 30 anos para
escrever esse livro contundente como testemunho da tortura que sofreu
por parte do Estado. No capítulo O Exílio no Sonho, ele relata:
Ao longo dos meus dez anos de exílio, um sonho acompanhou-me de
tempos em tempos, intermitente. Meu sexo me saía do corpo, caía-me
nas mãos como um parafuso solto. E, como um parafuso de carne ver-
melha eu voltava a parafusá-lo, encaixando-o entre minhas pernas um
palmo abaixo do umbigo, no seu lugar de sempre. Sonhei no México,
em 1969, com meu pênis saindo-me pelas mãos, seguro na palma es-
querda, com os dedos da mão direita buscando sentir, aitos, se ele
ainda pulsava, se o sangue nele corria, se meu sexo ainda vivia...
Mais terrível que o pesadelo era o levantar-se com ele, na dúvida,
naquelas frações de segundo entreabertas entre a noite e o aman-
hecer, sem saber se fora apenas sonho mesmo ou o despertar de
uma realidade cloroformizada pela vida. Meu sexo saía do lugar
sem mais nada, como uma espécie de folha caída. (TAVARES, 2005,
p19).
O sonho traumático tende a dar conta de uma fratura, de uma
cisão que ocorre numa situação de tortura. Exige um reconhecimento do
sofrimento físico, apresenta um terror de morte e uma busca por sobrevi-
vência. O corpo é convocado na própria composição da experiência trau-
mática no sonho.
Vemos, no relato do autor, a experiência literal da castração na qual
vai se esvaindo toda a integralidade do corpo e da alma. A humilhação
repetida no sonho demonstra o fracasso da elaboração psíquica. A pu-
blicação do relato de Flavio Tavares mostra, através da literatura, uma
forma de resistência e elaboração deste fracasso inicial do psiquismo, e
uma busca de saída para a elaboração do trauma, mesmo após décadas
do fato acontecido. O livro de Flavio Tavares foi concluído 27 anos depois
de ele ser libertado do cárcere da ditadura no Brasil e, pela experiência
psicanalítica, talvez, seja este o tempo capaz de separar o fato do terror
que ele produz.
Os sonhos têm um subsonho, subliminar, que não aparece, mas que
também se sonha, e que em mim era um pesadelo escondido: se meu
pênis chegasse a ter uma cor roxa, um lilás forte, estaria necrosado e
eu, denitivamente, castrado. O roxo violeta nunca apareceu e conti-
nuei sendo, nesses anos, o cirurgião plástico de mim mesmo... (TAVA-
RES, 2005 p 20).
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Ferenczi não valorizava tanto a questão da castração. O autor apon-
tava que, no trabalho com pacientes traumatizados de guerra, eles eram,
muitas vezes, arrebatados pela emoção e por dores violentas de natureza
psíquica e corporal. Até mesmo delírios e perda de consciência, mais ou
menos profundas, misturavam-se ao trabalho de associação puramente
intelectual. A compreensão, assim, adquirida proporciona uma espécie
de satisfação que é, ao mesmo tempo, afetiva e intelectual e merece ser
chamada de convicção, porém essa satisfação não dura muito, por vezes,
algumas horas apenas. Através do sonho traumático, o sujeito se defron-
ta com uma forma deformada do trauma, sem o menor sentimento de
compreensão do que lhe acontece. Uma vez mais, toda a convicção que
se formou se desfaz continuamente e o paciente oscila como antes, entre
o terror sentido, mas não compreendido, e a reconstrução do estado rígi-
do durante o qual pode compreender tudo, mas nada sente.
O sonho de Flavio Tavares não trata tanto de uma castração sim-
bólica, mas de uma castração real, de uma experiência de aniquilamen-
to. Nesse sentido, ele pode ser entendido por meio de uma combinação
entre as ideias de Freud e de Ferenczi. O psicanalista húngaro valoriza o
sonho traumático como modelo todos os sonhos e observa que “todo e
qualquer sonho, mesmo o mais desagradável é uma tentativa de levar
acontecimentos traumáticos a uma resolução e a um domínio psíquico
melhores” (FERENCZI, 1934 p 128). A repetição, noite após noite, do sonho
traumático seria uma busca de fornecer ao trauma algum grau de ela-
boração psíquica, para que ele pudesse, nalmente, ser assimilado pelo
psiquismo.
Assim, consideramos que o sonho traumático de Marcio Tavares foi
atravessado pelas pulsões de vida, introduzindo no jogo do aparecimento
e desaparecimento do pênis, no pôr e tirar seu próprio órgão, um princí-
pio de ordem completamente diferente da experiência do arrancamento
do pênis. O sonho restaurava a potência do sonhador de recolocar no
seu corpo cada vez que desenroscava. Nesse caso, uma ordem é buscada
diante da fragmentação, mas ela não restaura, nem repara.
Após 1920, com o nal da primeira guerra, o desenvolvimento de
uma clínica para o tratamento dos neuróticos de guerra e o retorno de
alguns discípulos de Freud convocados como médicos de guerra, Freud
retorna diferentemente à ideia de trauma.
Freud vê-se obrigado, em 1920, a rever sua tese sobre o predomí-
nio do princípio do prazer na vida psíquica e a analisar o sonho novamen-
te, mas, desta vez, para atestar o fracasso, às vezes, da elaboração oníri-
ca. Nesses sonhos, o que aparece é a literalidade da experiência vivida e
traumática.
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Assim, surge um elemento novo que não era visível para Freud:
a sobrevivência no psiquismo de um acontecimento psiquicamente in-
suportável, sicamente insistente, mas que encontrava um índice de
permanência na experiência. Tudo se passava como se fosse revisitado
aquele lugar que os soldados viveram na guerra, onde também viveram o
horror para depois voltar a vivê-los nos seus sonhos (Freud, 1920). É essa
concepção que costuma ser utilizada para se pensar o trauma social a
partir de Freud: tanto no plano individual quanto coletivo, podem existir
situações muito fortes e violentas que ultrapassam a capacidade de ela-
boração psíquica de indivíduos, grupos ou comunidades.
O sonho deixa de ser um relato do passado, mas, também, não é
presente; não é uma lembrança que pode ser relatada, não se represen-
ta, mas se faz presente. Nesse caso, temos uma indistinção temporal, ao
invés de dois tempos.
Ainda que a guerra tenha levado Freud a recolocar o trauma no
centro de sua teoria, psicanalistas que pesquisam a relação da psicaná-
lise com áreas como a política, a cultura e direitos humanos apontam a
importância de pensar o conceito do trauma de uma maneira mais ampla
do que Freud originalmente apresentou. É que Freud, desde que criou a
psicanálise, deixou de dar ênfase à realidade e à exterioridade do evento
traumático. Após o abandono da teoria da sedução, pela qual enxergava
no trauma o abuso de uma criança por um adulto, passa a articular o
trauma sempre a partir de uma realidade psíquica.
Será com Ferenczi que uma mudança de concepção mais funda-
mental se apresentará aos psicanalistas e à teoria psicanalítica.
A principal contribuição do Ferenczi sobre o trauma é apresentada
em dois textos importantes: Análise de crianças com adultos, de 1931, e um
de seus escritos mais emblemáticos, Confusão de línguas entre os adultos e
a criança, apresentado, em 1932, no congresso de Wiesbaden.
Contudo, não bastava para Ferenczi a explicação do trauma pela
violência da experiência. Era preciso que a essa violência de somasse tam-
bém outro elemento, esse sim, fundamental para o caráter patogênico
do trauma: o desmentido, como Ferenczi arma em Análise de crianças
com adultos (1931, p. 79): “O pior é o desmentido, a armação de que
não aconteceu nada, de que não houve sofrimento ou até mesmo ser
espancado e repreendido quando se manifesta a paralisia traumática do
pensamento ou dos movimentos; é isso, sobretudo, o que torna o trauma
patogênico”.
Dessa forma, coube a Ferenczi promover um des-recalcamento da
primeira teoria freudiana do trauma para avançar no entendimento da
ação exógena envolvida no trauma. Como arma Jô Gondar (2012), ainda
que Ferenczi tenha construído seu modelo de trauma a partir de histó-
rias familiares que envolviam uma criança abusada e desmentida, este
modelo não privilegiava personagens, e sim relações. “Relações de poder,
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de dependência, de desvalorização de desrespeito; em suma, relações
políticas, na mesma medida em que afetos como vulnerabilidade, humil-
hação, injustiça e vergonha podem ser considerados como afetos políti-
cos” (GONDAR, 2012, p. 196). É nesse sentido, que podemos estender sua
concepção de trauma para situações mais amplas, como as que dizem
respeito a grupos ou sociedades. Pode-se pensar que no trauma social
uma instância mais poderosa violenta e invalida sujeitos em posição mais
vulnerável, desmentindo a violência exercida e a própria percepção e mo-
dos de vida desses sujeitos.
Fazendo uma articulação entre Freud e Ferenczi é que podemos
analisar alguns exemplos da incidência do trauma por conta da violência
de Estado, revelando a paralisação do trabalho psíquico na elaboração
das suas próprias experiências. Essa impossibilidade de elaboração trau-
mática produz não apenas sintomas individuais, como paralisia de pensa-
mento e movimentos, apatia, pânico e depressão, mas também sintomas
relacionais, como a perda de uma conança básica em si mesmo e nos
outros, nos vínculos que garantem o convívio social, nos governantes,
nos saberes humanos e em qualquer possibilidade de amparo, seja ele
familiar, comunitário, social, político. Podemos ver, assim, que o sujeito
está destinado a uma experiência individual da catástrofe. Mas, também,
que o trauma, entendido no seio de relações de poder, pode ser pensado
numa dimensão social e política. Nesse sentido, ele pode ser pensado
como trauma social.
O pós-guerra desde a literatura. A interpretação nas margens
Depois da assinatura dos acordos de paz em El Salvador, em 1992,
e após o m do governo sandinista na Nicarágua, surge o que Beatriz
Cortez (2009) chama de uma sensibilidade de pós-guerra. Ela se refere a
uma forma de sensibilidade que não aparece exatamente desde a data
do m da guerra, mas se produz a partir de uma determinada congu-
ração social e histórica. Portanto, ela não pode ser mapeada de maneira
exata num intervalo denido por datas, embora suas origens possam ser
reportadas ao período da segunda metade do século XX.
Trata-se de uma sensibilidade de desencanto ligada a uma forma
de produção cultural, denida como uma estética do cinismo. Esta última
contrasta com uma estética utópica da esperança que estava muito liga-
da aos processos revolucionários da guerra e imediatamente anteriores
(CORTEZ, 2009, p. 25).
A literatura de pós-guerra seria um reexo desta mudança de ma-
neira de sentir o mundo e pode ser compreendido a partir da noção psica-
nalítica de trauma, particularmente da noção ferencziana, que relaciona
o trauma ao desmentido. Minha hipótese é a de que um dos fatores mais
importantes para a literatura de pós-guerra em El Salvador se apresentar
como cínica e desesperançada deriva do fato de a história ocial e domi-
nante não reconhecer os massacres realizados, mesmo que estes escla-
recimentos estivessem previstos nos acordos de paz de 1992. É possível
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dizer, e muitos psicanalistas o fazem (GONDAR, 2012), que o desmentido
é o oposto do reconhecimento, ou seja, que o não reconhecimento das
ações de violência perpetradas por uma instância de poder sobre aque-
les que se encontram mais vulneráveis equivale a um desmentido. Aqui
vemos um dialogo entre Ferenczi e Cortez, entre a estética do cinismo e
o desmentido:
[...] do lugar da formação de uma subjetividade precária em meio de
uma sensibilidade pós-guerra tomada de desencanto: trata-se de uma
subjetividade constituída como subalterna a priori, uma subjetividade
que depende do reconhecimento de outros, uma subjetividade que so-
mente se possibilita por meio da escravidão deste sujeito que a priori se
constitui como subalterno, de sua destruição, de seu desmembramen-
to, de seu suicídio literalmente falando. (CORTEZ, p. 25)
Como exemplo do cenário que Cortez nos descreve, escolhemos
nessa pesquisa duas novelas que podem ajudar a entender o impacto
do trauma na recente história de El Salvador, articulando a psicanálise e
a literatura de testemunho através da novela Noviembre (2015) de Jorge
Galán e da novela Asco de Horacio Castellanos Moya.
Na primeira, Galán realiza entrevistas com pessoas que foram, de
fato, protagonistas deste período, recriando uma narrativa sobre o as-
sassinato de seis sacerdotes jesuítas, professores da Universidade Cen-
troamericana Jose Simeon Cañas sua empregada e a lha. A narrativa do
segundo livro, de Castellanos Moya, se desenvolve a partir de dois amigos
que se encontram num bar para conversar. Um deles retorna a El Sal-
vador após ter vivido um longo tempo no Canadá. Devido a isso, é ca-
paz de enxergar o seu país de origem de uma maneira muito clara e, ao
mesmo tempo, peculiar. O protagonista de Asco não acredita que exista
algo como uma identidade nacional salvadorenha. Para ele, “ser salvado-
renho” é uma ilusão, uma ideia que foi importada sem levar em conta os
traços próprios da cultura do país.
El Asco. Thomas Bernahard em San Salvador Horacio Castella-
nos Moya
A novela de Horacio Castellanos Moya intitulada Asco1 se desenvol-
ve a partir de dois amigos que se encontram num bar para jogar conversa
fora. Um deles, Vega, está de volta a El Salvador após um longo autoexílio
no Canadá, viveu fora o tempo suciente para enxergar o país de origem
de uma maneira muito peculiar, aparentemente, sem cortina de fumaça
e sem a cegueira seletiva de que precisamos para sobreviver às mazelas
do dia a dia. O protagonista denuncia a ideia de uma identidade nacio-
nal como alguma coisa falseada, ou seja, considera o “ser salvadorenho”
como uma ilusão importada que nega ou banaliza traços próprios da cul-
tura. Chega-se a pensar, nesta novela, se estamos escutando um sujei-
to melancólico, mas, na verdade, estamos numa obra de cção. Moya, o
narrador, permanece praticamente oculto, silencioso como um analista,
servindo de veículo para o que vem a público.
1 Castellanos Moyá, Horacio 92013) Asco:
Thomas Bernhard em San Salvador. Rio de
Janeiro: Rocco.
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[...] todos caminham como se fossem militares, cortam o cabelo como
se fossem militares, pensam como se fossem militares, é espantoso,
Moyá. Todos querem ser militares, todos seriam felizes se fossem mili-
tares, todos adorariam ser militares para matar impunemente, todos
carregam o desejo de matar em seu olhar, na maneira de caminhar, no
jeito de falar, todos querem ser militares para poder matar, isso signi-
ca ser salvadorenho... (MOYÁ, 2013, p. 22).
É como se houvesse, nesta identidade salvadorenha, uma identi-
cação com o agressor: aqueles que se sentem mais vulneráveis diante dos
perpetradores querem ser exatamente como eles, por uma questão de
sobrevivência. Foi Ferenczi quem desenvolveu, em Confusão de língua en-
tre os adultos e a criança (1933), a noção de identicação com o agressor.
Trata-se, para ele, de uma reação ao trauma. Com o choque traumático, a
subjetividade se fragmenta, perde a forma, e se torna suscetível de rece-
ber qualquer forma que seja a ela outorgada, “como se fosse um saco de
farinha”, escreve Ferenczi (1933). Tratando-se de um trauma psicossocial,
ele passa a se reetir na própria “identidade” dos salvadorenhos. É essa
forma outorgada e falseada, é essa identicação das pessoas com os mili-
tares que as exploram e matam, que Moya denuncia em seu texto. Assim,
recebendo uma forma que não os expressa, mas que lhe é imposta do ex-
terior, os salvadorenhos deixam de se interessar por sua própria história,
como ele enuncia mais adiante:
E, ainda, assim, há uns loucos que chamam este lugar de “nação”, um
absurdo, uma estupidez que seria engraçada se não fosse grotesca:
como podem chamar de “nação” um lugar povoado por indivíduos que
não se interessam em ter história... (MOYÁ, 2013, p. 24).
A guerra produz trauma nas pessoas e na sociedade como um
todo, mas nem todas as consequências são negativas. Nesse sentido, a
denúncia de Moya, por mais desencantada que seja, é uma forma de ela-
boração traumática. Ao mesmo tempo em que a novela Asco denuncia os
desmandos e apresenta uma identidade que não se suporta, como se fos-
se insuportável ser salvadorenho, ela também denuncia o que não deve
se repetir. A escrita é sempre uma possibilidade de elaboração, e a estéti-
ca do cinismo não deixa de ser a elaboração de uma memória traumática.
[…] nem sequer onze anos de guerra civil serviram para mudar algo,
onze anos de de matanças permaneceram os mesmos ricos, os mes-
mos políticos, o mesmo povo fodido e a mesma imbecilidade permean-
do o ambiente. (MOYA, 2013, p. 50).
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É possível pensar que o que a literatura do pós-guerra em El Sal-
vador, nos oferece são as transformações na subjetividade de um país,
detalhe que esteve pouco presente na produção acadêmica a respeito da
literatura salvadorenha. Como aponta Beatriz Cortez, a estética da guerra
direcionava a literatura a uma produção comprometida com a ideia de
revolução. Pensamos que o trauma social foi justamente o corte que con-
duziu a uma outra estética, mais cínica e desencantada.
“– Os políticos fedem em todos os lugares, Moya. Mas aqui, neste país,
os políticos são, especialmente, fedorentos. Posso garantir que nunca vi
políticos tão fedorentos como os daqui, talvez, seja por causa dos cem
mil cadáveres que cada um carrega, talvez o sangue desses cem mil
cadáveres seja o que faz tudo feder de um jeito tão peculiar, talvez o
sofrimento desses cem mil mortos os tenha deixado impregnados com
essa maneira particular de feder”, me disse Veja. (MOYA, 2013, p. 25).
Noviembre. La novela de Jorge Galán sobre la massacre de los
jesuítas que conmocionó al mundo
Por outro lado, a novela Noviembre de Jorge Galán é uma obra de
sobre uma história verídica que causou grande comoção no país e no
mundo: o assassinato de seis sacerdotes jesuítas e duas colaboradoras
em 16 de novembro de 1989. Houve um julgamento dos autores, isso
foi exigido pela guerrilha dentro dos acordos de paz, porém eles foram
anistiados. Na novela, escrita, vinte e cinco anos depois, o presidente, na
época, revela, pela primeira vez, os nomes dos autores intelectuais do
massacre, no dia 11 de setembro de 2020, a justiça espanhola condenou
o único acusado a 131 anos de prisão.
Galán apresenta na novela uma entrevista que ele mesmo fez com
o presidente daquele período – Alfredo Cristiani na qual cita os nomes
dos culpados. As ameaças a Galán não demoraram a chegar assim que o
livro foi lançado em El Salvador, forçando-o a se exilar na Espanha. Atual-
mente, tanto o autor como a novela são peças-chave no processo de in-
vestigação no qual a Justiça Espanhola, desde 2009, busca acabar com
a impunidade deste crime, pois cinco dos sacerdotes assassinados são
espanhóis.
Quando aconteceu o massacre, Galán estava com 16 anos. Predo-
minava entre os jesuítas a teologia da libertação. Um deles – Ignacio Mar-
tín-Baró – ao ministrar a disciplina psicologia social na universidade, valo-
rizava a psicologia da libertação como ferramenta para entender a guerra
enquanto processo revolucionário, sendo a psicologia uma ferramenta
para um tempo novo. Ignacio Ellacuria, que na época era reitor da UCA,
era um intelectual reconhecido internacionalmente a partir da losoa.
Na estrutura narrativa de Noviembre, o próprio escritor é um na-
rrador sigiloso que dá lugar às vozes reais que conuem naquela madru-
gada de 16 de novembro de 1989, enquanto todos dormiam. Na novela,
Galán ca em silêncio como narrador, deixa que seus personagens – que
não são ccionais falem, mas nas entrelinhas percebemos um silêncio
gritante nas fendas da história. Estas fendas não estão ocas, mas não con-
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seguem falar abertamente do inominável que foi mais de uma década de
guerra com mais de oitenta mil mortos.
Na psicanálise, sabemos que o silêncio é um espaço de produção.
A fala do silêncio é, muitas vezes, feita de ditos sobre aquilo que não é
dito. Na história e na literatura, escutar o silêncio é escutar a narrativa dos
mortos e desaparecidos que não contam, que não estão na história o-
cial, mas que precisam ser contados. Aqui o silêncio ocupa uma posição
subjetiva, tornando-se um personagem da trama complexa.
Os fatos que Galán apresenta aconteceram no meio do que foi cha-
mado de “ofensiva nal”, que consistiu na tentativa de invasão e ocupação
da capital San Salvador pelo exército de libertação. A leitura deste aconte-
cimento é muito diferente a partir da região geográca dos moradores da
cidade, pois para combater os inimigos o exército atacava com helicópte-
ros somente as favelas e não os bairros nobres da cidade. Dessa forma, a
partir de diferentes protagonistas, o relato leva o leitor a ser testemunha
do massacre. O próprio Galán fala a esse respeito:
Dei-me conta de que para que essa história fosse verdadei-
ra, tinha que permitir que fosse contada por seus protagonistas. O
narrador é apenas um facilitador, não externa uma opinião. Não
um juízo de valor. A história é contada através daqueles que a
viveram e sofreram. (W MAGAZIN, setembro de 2020)2
O autor de Noviembre recria aquele momento como uma situação
em que não havia escapatória. Os jesuítas estavam condenados e seu as-
sassinato era questão de tempo, devido às circunstâncias vividas no país.
Mas o escritor dá esse tom de “sem saída” com mais do que preocupação,
com uma certa serenidade, e nos faz pensar se eles esperavam que isso
pudesse acontecer:
De repente, as vozes já não se ocultaram nos sussurros e mostraram
com eram. Ouviram o primeiro disparo. Vinha de trás, da fachada do
Centro Monsenhor Romero. Ignacio Ellacuria levantou-se… não tinha
medo, mas as mãos tremiam… Seus companheiros, também, esta-
vam acordados. Pediu-les calma. Alguns rezavam. Outro perguntou:
“– Vem procurar armas de novo?”; mas Ellacuria não quis responder
e ninguém o fez. “– Que está passando?”; perguntou alguém mais, e
também, não houve resposta. Pediu calma de novo e explicou que iria
olhar o que estava acontecendo. Um dos seus companheiros lhe disse
que tivesse cuidado e Ellacuria respondeu: “– Não te preocupes”. Esta
frase era sincera, não tinham de que se preocupar, não podiam fazer
nada. (GALAN, 2015, p. 8).
2 Entrevista publicada originalmente em W
Magazin (revista eletrônica especializada
em literatura) em 10 de outubro de 2016
e atualizada em 11 de setembro de 2020
após a condenação na Espanha do único
acusado do massacre. Tradução livre.
Disponível em: www.WMagazin.com .
Acesso em: 01/11/2020
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Embora, o informe da Comissão da Verdade sobre esse massacre
tenha apontado os militares implicados como executores e, posterior-
mente, condenados, estes não caram presos, mas foram anistiados pelo
governo. Isso signica não os responsabilizar, ou seja, isso implica em um
desmentido social. Essa anistia, talvez, faça sentido para uma parte da
população; mas para a outra parte, ela traz um silêncio ensurdecedor.
Conclusão
Castellanos Moya, por meio de seu personagem, evidencia de for-
ma explícita que, no contexto do pós-guerra, a memória é vivenciada
como uma herança maldita, algo que deve ser eliminado e combatido
como se fosse uma farsa. Nesse sentido, observa-se que o trauma passa a
ocupar o lugar da memória, congurando o que pode ser compreendido
como uma memória traumática.
É emblemático que, durante o processo de elaboração desta disser-
tação, no aniversário dos Acordos de Paz, em 16 de janeiro de 2022, o pre-
sidente Nayib Bukele tenha se referido a esses acordos como uma “farsa”.
Nesse mesmo contexto, o presidente instituiu um decreto que alterou a
denominação da data, anteriormente conhecida como “Aniversário dos
Acordos de Paz”, passando a chamá-la de “Dia Nacional das Vítimas do
Conito Armado”. Tal gesto evidencia a importância do fortalecimento
das políticas da memória em El Salvador, ao reconhecer a memória como
um patrimônio social que deve ser preservado e valorizado, especialmen-
te para as novas gerações. A mudança da nomenclatura pode ser com-
preendida como um movimento de elaboração do trauma, na medida em
que reconhece que a violência exercida não pode ser apagada ou descon-
siderada. Nesse processo de reconhecimento, a literatura do pós-guerra
desempenha uma função fundamental que não deve ser negligenciada.
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