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INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 17 (1), 2026, pp 132 - 137
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: 10.60139/InterPsic/17.1.12
RECONOCER PARA REPARAR:
VÍNCULOS QUE RESTAURAN LA DIGNIDAD
RECONHECER PARA REPARAR:
VÍNCULOS QUE RESTAURAM A DIGNIDADE
RECOGNITION AS REPAIR:
BONDS THAT RESTORE DIGNITY
Carmen Rosa Zelaya Pucker
ORCID: 0009-0003-5213-6778
Correo electrónico: camuzp15@gmail.com
Instituto Inter-Cambio
Fecha de recibimiento: 13 – 05 - 2026
Fecha de aceptación: 19 – 05 - 2026
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Zelaya Pucker C. R. (2026) RECONOCER PARA REPARAR:
VÍNCULOS QUE RESTAURAN LA DIGNIDAD
Intercambio Psicoanalítico 17 (1), DOI: 10.60139/InterPsic/17.1.12
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A discriminação racial e étnica na América Latina constitui uma for-
ma de violência estrutural e simbólica, com profundas consequências psí-
quicas e relacionais. Desde a época colonial estabeleceram-se desigualda-
des, tensões e confrontos sociais que persistem até hoje sob a forma de
preconceitos e discursos sustentados na desvalorização do indígena e do
mestiço. Esses discursos legitimam relações de dominação e submissão
sobre amplos setores da população, negando direitos fundamentais e ne-
cessidades que dignicam a vida humana.
No campo psicanalítico, o conceito de discriminação admite uma
dupla acepção. Pode ser compreendido em seus aspectos benignos,
como operação intersubjetiva vinculada ao desenvolvimento e à diferen-
ciação; ou em seus aspectos malignos, como resultado de posições narcí-
sicas que negam a humanidade do outro.
Nesse marco, Silvia Bleichmar (2002) dene a discriminação benig-
na como uma operação psíquica fundante na estruturação do eu, cuja
função é delimitar fronteiras entre o próprio e o alheio, tanto no plano
corporal quanto no mental. Embora contenha elementos agressivos, co-
rresponde a um processo normal do desenvolvimento, necessário à cons-
tituição da identidade e ao acesso à capacidade simbólica. Tal como ar-
ma Winnicott (1971) em relação ao uso do objeto, a criança precisa pôr à
prova na fantasía sua capacidade destrutiva para comprovar que o objeto
sobrevive e permanece inalterado: “O objeto deve sobreviver à destruição
para poder ser usado”. Esse processo facilita a diferenciação, na medi-
da em que o reconhecimento da alteridade implica tolerar a frustração e
aceitar a realidade externa. Supõe a elaboração de elementos narcísicos,
o desenvolvimento da capacidade de mentalização e a abertura para vín-
culos empáticos, desde que existam laços sucientemente presentes e
continentes. Nesse sentido, a discriminação benigna constitui um êxito
do desenvolvimento, ligado à função objetalizante da libido (Green, 1990).
Os desenvolvimentos teóricos e clínicos contemporâneos enfati-
zam a análise das organizações psíquicas-limite, com o objetivo de des-
crever e compreender a complexidade afetiva implicada nos processos de
separação e diferenciação. Joyce McDougall (1985) entende a experiência
do reconhecimento da alteridade como o primeiro trauma que o sujeito
deve enfrentar em sua relação com o objeto. O reconhecimento, como
descrevem também Melanie Klein (1987) e Jessica Benjamin (1995), en-
volve atravessar tensões: o eu deve renunciar a desejos e fantasias oni-
potentes de posse exclusiva, ao mesmo tempo em que se arma em sua
individualidade. A subjetividade surge precisamente na oscilação entre
dependência e autonomia. Em termos intersubjetivos, a discriminação
benigna é promovida pela função de Eros, que permite ver o outro como
agente de desejo, diferença e valor.
RECONHECER PARA REPARAR:
VÍNCULOS QUE RESTAURAM
A DIGNIDADE
Carmen Rosa Zelaya
Pucker1
1 Graduada em Psicologia Clínica,
mestre em Estudos Teóricos em
Psicanálise e doutoranda em
Estudos Psicanalíticos pela Ponticia
Universidad Católica de Perú (PUCP).
É psicanalista de adultos, crianças e
adolescentes da Sociedade Peruana
de Psicanálise (SPP), membro da
International Psychoanalytical
Association (IPA). Foi coordenadora
suplente da Comissão de Infância
e Adolescência da Federação
Psicanalítica da América Latina
(FEPAL, 2020-2022), professora de
psicoterapia psicanalítica no Instituto
Inter-Cambio, no Instituto Peruano
de Psicanálise (IPP) e no Centro de
Psicoterapia Psicanalítica de Lima
(CPPL), ex-diretora da Biblioteca da
SPP, ex-presidenta da APPPNA, e
vice-presidenta do Instituto Inter-
Cambio (2025-2026). Além disso, é
coeditora do livro La maternidad y
sus vicisitudes hoy (2006). Pesquisa e
publica sobre temas relacionados à
maternidade e ao vínculo precoce.
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A consideração da tensão na relação com o outro constitui uma
dimensão central da psicanálise, pois permite diferenciar dinâmicas inter-
subjetivas saudáveis daquelas próprias das neuroses e patologias graves.
Segundo Benjamin, quando essa tensão se rompe, quebra-se a mutuali-
dade, dando lugar a dinâmicas de intolerância à diferença e à ambigui-
dade. O outro deixa de ser reconhecido como sujeito de desejos e direi-
tos, passando a ser percebido como ameaça: portador do sinistro (Freud,
1919)) ou do estrangeiro (Kristeva, 1988). Desse modo, reduz-se o outro a
objeto, negando-lhe a possibilidade de pensar ou articular uma narrativa
própria. Estabelece-se, assim, uma dinâmica de dominação e submissão,
em que a exclusão e a desvalorização são naturalizadas. Benjamin (2020)
conceitua essa lógica como “aquele que faz e aquele a quem fazem”,
própria de sistemas autoritários, nos quais se exerce uma discriminação
maligna associada à pulsão de morte, cujo objetivo é degradar e negar o
outro, desumanizando-o. Para André Green (1990), tal atitude se sustenta
em uma racionalização que evita a culpa mediante discursos que justi-
cam a agressão projetada sobre o outro.
No plano clínico, a discriminação maligna revela falhas de inte-
gração psíquica que limitam a elaboração do traumático inerente ao con-
fronto com a diferença. O desprezo pelo outro pode ser entendido como
defesa de um eu frágil, que se sente ameaçado em sua integridade e ne-
cessita atacá-lo para preservar sua identidade. A partir de uma posição de
poder, consegue impor sua ideologia e conservar privilégios, mas ao mes-
mo tempo empobrece a dinâmica intersubjetiva, impedindo um verda-
deiro intercâmbio afetivo e mental. Assim, ainda que reforce sua posição
narcísica, permanece aprisionado em um sofrimento subjetivo ligado à
rigidez defensiva.
A conceitualização das organizações-limite oferece chaves para
compreender os fenômenos de discriminação social. As diferenças de
cultura, classe e raça tendem a ser vividas como perturbadoras, gerando
reações de rejeição e denigração em relação ao que representa o outro:
fenótipo, saberes, crenças ou tradições. O grupo dominante ergue muros
simbólicos que separam aqueles que considera inferiores, perigosos, pri-
mitivos ou imorais. A discriminação social congura-se, assim, como um
ato violento e irracional, movido pela necessidade de proteger fantasias
de pureza e superioridade e pelo medo de perder a identidade.
No contexto latino-americano, a dinâmica colonial e pós-colonial
gerou tensões sociais profundas. Desde o início, indígenas e afrodescen-
dentes foram situados na posição de objeto abjeto (Kristeva, 1988), recon-
hecidos apenas sob a condição de inferioridade e servidão, já que o trato
igualitário ameaçava desestabilizar a ordem simbólica dominante. Assim,
a cultura andina foi coletivamente percebida como arcaica, impura ou pe-
rigosa, e excluída do campo social legítimo.
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Apesar disso, a convivência social propiciou o surgimento do mes-
tiçagem entre indígenas, europeus e afrodescendentes, dando origem a
uma grande variedade de castas, cujo status foi determinado tanto pela
posição econômica quanto pela origem racial e étnica. Ao escritor pe-
ruano Ricardo Palma se atribui a frase: “Quem não tem de inga, tem de
mandinga”, expressão que reete o caráter mestiço dos peruanos. Hoje, o
mestiçagem e a fusão cultural denem grande parte de nossa identidade.
Contudo, o confronto com o diferente continua gerando tensão e
desconança. Pode-se pensar que, por trás disso, subsiste o temor de re-
conhecer que esse outro desvalorizado não é tão alheio. Freud (1919) en-
tendia o sinistro como aquilo reprimido que retorna e ameaça revelar-se.
Nesse sentido, a discriminação seria um mecanismo defensivo diante do
medo de tornar-se esse outro denegrido, o que colocaria em risco a segu-
rança do sistema hierárquico. As práticas discriminatórias podem, assim,
ser compreendidas como uma forma de negar a estrangeiridade interna
e a própria origem mestiça. A historiadora Cecilia Méndez (2014) assinala
a necessidade de olharmos para nós mesmos e reconhecer que o nega-
tivo que criticamos não pertence apenas a uma elite distante ou a um
passado bárbaro, mas também a nós.
Na América Latina, a discriminação maligna cristalizou-se desde a
colônia até a atualidade, apesar de alguns esforços para reivindicar as
culturas originárias. O movimento indigenista, promovido por elites in-
telectuais, expôs na arte e na literatura a realidade indígena, mas não
conseguiu estabelecer um discurso que facilitasse a elaboração psíqui-
ca das feridas narcísicas. Desde uma perspectiva transgeracional, obser-
va-se a inscrição inconsciente de traumas e conitos não elaborados que
se transmitem de geração em geração. René Kaës (2006) denomina esse
fenômeno pacto inconsciente intergeracional, que perpetua dinâmicas
intersubjetivas naturalizadas e determina posições nos vínculos, tanto ín-
timos quanto coletivos. Assim, até hoje se reproduzem modos de relação
que privilegiam uns e excluem outros, de acordo com a origem, a classe
social ou o local de residência.
A discriminação, mais que um fato social, pode ser entendida como
sintoma cultural de um funcionamento primário que gera angústia e
tensão em quem discrimina e em quem é discriminado. O primeiro sen-
te-se obrigado a proteger sua identidade mediante distância e indiferença
diante de um sistema violento que não deseja reconhecer; o segundo so-
fre a negação de sua subjetividade e dignidade. Assim como na clínica o
paciente necessita narrar sua história para elaborar seus traumas, no pla-
no social é necessário historizar os acontecimentos e reconhecer os fatos
traumáticos inscritos na subjetividade coletiva. Winnicott (1963) destaca a
importância de um meio que reconheça a dor psíquica na elaboração do
traumático e adverte que a falta de reconhecimento conduz ao encapsu-
lamento de experiências ligadas ao “colapso da conabilidade”.
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Na América Latina enfrentamos cotidianamente desigualdades e
opressões que sustentam um sistema servil e precário. A ética do recon-
hecimento exige dar voz à dor silenciada dos oprimidos e assumir, por
parte de quem ocupa posições de poder, o reconhecimento do dano cau-
sado. A reparação só é possível quando a injustiça é explicitada.
A proposta do reconhecimento mútuo de Jessica Benjamin convi-
da a desarticular a verticalidade das relações para construir um projeto
social inclusivo, capaz de conviver e interagir com a diferença, validando
a individualidade do outro em sua história, cultura, raça e tradições. A
coexistência de múltiplas culturas constitui um desao: não se trata de
eliminar a tensão da diferença, mas de sustentá-la e aprender com ela,
reconhecendo nas cosmovisões alheias saberes e valores que podem en-
riquecer a própria cultura.
A psicanálise tem o desao de participar do debate interdisciplinar,
visibilizando as formas patológicas que sustentam as relações de poder
e propondo transformações que convertam a discriminação maligna em
modos mais elaborados e menos destrutivos de relação. Ao mesmo tem-
po, deve mostrar como o enfrentamento social empobrece a vida coletiva
e, quando não elaborado, pode explodir em violência, como ocorreu com
movimentos terroristas na região. A permanência da discriminação malig-
na é, nesse sentido, uma bomba-relógio.
As contribuições psicanalíticas apontam para a criação de consciên-
cia sobre a importância de reconhecer o outro como sujeito psíquico ple-
no, valioso e complexo, expressão de Eros no cuidado da vida. Ouvir suas
vozes e relatos abre a possibilidade de discursos reparadores e ações su-
blimatórias que não neguem o passado. Uma psicanálise latino-america-
na contemporânea deveria aprofundar o conhecimento das populações
que compõem nossa sociedade e gerar dispositivos de pesquisa e inter-
venção que ampliem seu alcance a setores sociais marginalizados.
Nessa linha, iniciativas como a do Instituto Intercâmbio, que pro-
move a inclusão de bolsistas provenientes do interior em seu sistema de
formação de psicoterapeutas, representam um passo em direção ao re-
conhecimento mútuo. O intercâmbio de experiências entre candidatos de
contextos diversos amplia a compreensão da convivência com diferenças
culturais e socioeconômicas, e mostra como o encontro com o diverso
pode enriquecer, facilitar a elaboração de lutos e abrir a imaginação para
políticas transformadoras.
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