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RESEÑAS
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INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 17 (1), 2026, pp 184 - 188
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: 10.60139/InterPsic/17.1.17
TRAUMA Y TIEMPO.
EL OFICIO DE ANALISTA EN TRES GENERACIONES
TRAUMA E TEMPO.
O OFÍCIO DO ANALISTA EM TRÊS GERAÇÕES
TRAUMA AND TIME.
THE ANALYST’S CRAFT ACROSS THREE GENERATIONS
Reseña realizada por: Solange Wonham
ORCID:0009-0005-5363-8694
Correo electrónico: solangewonham@gmail.com
Asociación Argentina de Psicoterapia de la Niñez y a
Adolescencia
Fecha de recepción: 30 – 04 - 2026
Fecha de aceptación: 05 – 05 - 2026
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Wonham S. (2026) TRAUMA Y TIEMPO.
EL OFICIO DE ANALISTA EN TRES GENERACIONES
Intercambio Psicoanalítico 17 (1), DOI: 10.60139/InterPsic/17.1.17
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
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Autoras: Berezin, A.; Wikinsky, M.; Feldman, L.
Ano: 2024 - 249 páginas
Editora: Noveduc, Buenos Aires.
I. Apresentação
algum tempo venho interagindo com a chamada inteligência
articial: porque meus pacientes mais jovens a introduzem na clínica e
ela constitui um território ainda em grande parte desconhecido, mas tam-
bém pela necessidade —não isenta de curiosidade— de compreender o
tempo em que vivemos.
Recentemente, a partir de uma sessão com uma jovem que enume-
rava as vantagens dos chamados bots terapêuticos, perguntamos juntas
ao ChatGPT qual seria a diferença entre um bot e um analista, e se a IA
poderia substituir o ofício do analista.
A resposta foi categórica: uma IA não pode substituir um terapeu-
ta porque não possui corpo, nem emoções, nem subjetividade. Acrescentou
que, embora possa compreender, analisar e acompanhar por meio da lin-
guagem, não é capaz de produzir um vínculo humano transformador.
Essa cena introduz, em chave contemporânea, uma pergunta que
atravessa o livro: o que dene o ofício do analista?
Durante boa parte da minha formação, deparei-me com obras ex-
tremamente interessantes sobre o ofício: formulações instigantes acerca
da técnica e da teoria, casos clínicos que evidenciavam o sofrimento e
suas transformações, análises magistrais e intervenções que alimenta-
vam meu desejo de saber. No entanto, muitas dessas obras se mostra-
vam enigmáticas no encontro com quem escrevia: textos esvaziados de
autor. Uma neutralidade que, na prática, torna-se oca —sem marcas da
presença do analista.
Isso contrasta com a referência constante ao fundador de nossa
disciplina, Sigmund Freud, que —tanto no texto quanto em seus paratex-
tos—, ao trabalhar sua obra e revisar sua casuística, deixa sinais precisos
de seu estar implicado: humano, sensível aos desdobramentos de seu
pensamento e de sua época, generoso ao compartilhar suas hesitações e
reformulações.
O livro de Ana Berezin, Mariana Wikinsky e Lila Feldman inscreve-se
nessa tradição de uma psicanálise implicada. Não se trata de uma obra
acadêmica no sentido mais clássico, ao menos não para quem espera
uma leitura distanciada. Aqui, a teoria não se apresenta como um corpo
estranho: ela pulsa e vibra ao ritmo daquilo que, no entrelaçamento entre
tempo e trauma, se reanima nos corpos daqueles a quem escutamos,
acompanhamos e sustentamos em seu sofrimento.
Trata-se de uma escrita comprometida, que articula três analistas,
três gerações e um ofício que as atravessa e transforma. Nessa mesma
medida, intervém no leitor: o toca, o afeta, o desestabiliza.
TRAUMA E TEMPO.
O OFÍCIO DO ANALISTA
EM TRÊS GERAÇÕES
Resenha redigida por
Solange Wonham1
1 Licenciada e Professora em
Psicologia (UNLP) – Especialista
em clínica de adultos e idosos
(certicação concedida pelo
Colégio de Psicólogos da Província
de Buenos Aires, Distrito XI)
– Graduada pela escola de pós-
graduação Psicanálise das Infâncias
e Adolescências (ASAPPIA) – Docente
do ensino superior no ISFDyT nº 49
de Brandsen – Membro aderente da
ASAPPIA.
Publicações em revistas
especializadas.
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ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: 10.60139/InterPsic/17.1.17
II. Estrutura e desenvolvimento
O livro organiza-se como uma escrita a três vozes, alternando per-
cursos autobiográcos, desenvolvimentos conceituais e reexões clínicas.
No prólogo, Juan Carlos Volnovich situa a obra no contexto atual,
marcado pela crise do pensamento crítico e pela tendência à sacralização
teórica em determinados espaços psicanalíticos. Assinala que as autoras
constroem uma usina capaz de iluminar os caminhos de recomposição do
pensamento crítico (Volnovich, 2024, p. 20).
Parte de uma questão que, em sua leitura, anima o livro: O que de-
vemos nos perguntar, nós psicanalistas, diante dos níveis atuais de destruição
e desamparo? (Volnovich, 2024, p. 11). O recorte do “início” de Ana, “o bo-
rrado” de Mariana e “o rastro” de Lila operam como chave de acesso a
essa interrogação. São marcas que, ao se deslocarem do singular de cada
uma, tecem uma trama comum, sem perder sua dimensão íntima, pes-
soal e histórica. Um jogo que convoca o leitor a participar dessa textura,
sem poupá-lo de suas implicações e afetos.
O desenvolvimento da obra desdobra essa questão por meio de
diferentes eixos:
• Trauma e tempo
As autoras apresentam aqui o núcleo de sua aposta: narram o
traumático no crisol do ofício e de seus tempos, leem-se mutuamente,
diferenciam-se e complexicam suas singularidades. Na apresentação do
livro, Eduardo Müller armou que três grandes solistas podem cantar em
coro, dando lugar a um texto heterogêneo e generoso.
Há uma decisão que as atravessa: a de uma transmissão ascenden-
te, horizontal, fecunda, de transformações mútuas e móveis (Berezin, Wikins-
ky e Feldman, 2024, p. 23).
• Des-horas
Cada autora narra os inícios e marcos de seu percurso implicado,
assim como as experiências, leituras e questões que orientaram seus ca-
minhos.
Ana Berezin (1971–2024) insiste na pergunta pela dor humana evi-
tável. Sua obra Sobre la crueldad, la oscuridad en los ojos (2010) testemun-
ha essa insistência, atravessada pelos tempos que lhe coube viver —e
que também nos atravessam. Referências como Freud, Butler, Aulagnier
e Pontalis, entre outros, sustentam esse percurso. Berezin toma posição
ao denunciar a patologização equivocada de certos lutos e os desvios de
uma psicanálise dita “neutra”, armando que toda ética deve ter uma res-
posta à dor humana evitável.
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Mariana Wikinsky (1983–2024) aborda o traumatismo do exílio e do
terrorismo de Estado. Essas marcas, presentes em sua história familiar
e coletiva, situam seu retorno ao país após a última ditadura argentina,
no marco de um compromisso com os direitos humanos. Sua prática clí-
nica testemunha a ideia de psiquismo aberto ao real, proposta por Silvia
Bleichmar, e contribui para o desenvolvimento de uma clínica do trauma
centrada nas vítimas, bem como para a criação de dispositivos de acom-
panhamento articulados à luta contra a impunidade.
Lila Feldman (1997–2024) articula psicanálise, política e literatura,
denindo sua prática como um ofício de tracar saberes. Questiona as
formas institucionais de transmissão e a verticalidade na formação, reto-
mando a noção de “grupúsculos” de Osvaldo Saidón: instituições nôma-
des, não organizadas pela lógica mestre-discípulo. Arma que toda escuta
é política e sustenta que a psicanálise constitui, em si, uma proposta po-
lítica singular.
• Desvelos
Um dos núcleos centrais do livro articula trauma, temporalidade e
ética.
Nesse ponto, ressoa um exemplo de Silvia Bleichmar, que descreve
a cena de uma criança de três anos incapaz de dormir ao imaginar o sofri-
mento de sua amiga que havia esquecido sua boneca. Trata-se, segundo
a autora, de um sujeito ético, capaz de reconhecer o sofrimento do outro
e de se implicar nele.
As autoras escrevem a partir de seus próprios desvelos, deixando
entrever formas de subjetividade nas quais a dor do outro irrompe a pon-
to de impedir o descanso. Poder-se-ia falar de uma espécie de insônia éti-
ca, que também alcança o leitor. Em seus textos, recusam a naturalização
do sofrimento e interrogam suas condições de produção.
Nomeiam o cenário contemporâneo, despatologizando-o enquan-
to forma de fascismo, com seus modos cruéis de operação e seu ataque
à capacidade de pensar. Questionam teorias que revitimizam, denunciam
dispositivos violentos e revisitam práticas como delação, conssão e cen-
sura. Propõem, apesar de tudo, pensar a violência. Revisitam silêncios e
reelaboram categorias como próximo, semelhante e inimigo.
Nesse entrelaçamento entre o singular e o comum, emerge o con-
ceito de formações políticas da subjetividade, que convoca à tomada de
posição no tempo presente, na escuta clínica e frente aos ventos infames
da época.
• O que resta do dia e epílogo
Os capítulos nais não encerram o texto, mas o mantêm em aber-
to, como um trabalho que respira em direção a outros tempos. Trata-se
de uma aposta em curso, que se gesta e se corporica.
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III. À guisa de conclusão
Retomo a cena inicial com a inteligência articial —um território
que:
...cresce exponencial e irremediavelmente (...) enquanto nossa própria
capacidade de sustentar um pensamento crítico se rende ao império
da pós-verdade e do artifício como moral suprema (Feldman, 2024,
p. 224).
Em contraste com essas formas de inteligência, o livro encarna uma
inteligência artesanal e profundamente humana: uma escrita que não evi-
ta a implicação.
Trauma e tempo pode ser lido como uma intervenção no campo
psicanalítico contemporâneo. Diante de um cenário atravessado por no-
vas tecnologias e formas renovadas de sofrimento, as autoras propõem
pensar o ofício do analista —para além da técnica ou da teoria sacraliza-
da— como uma posição ética que tece um comum possível e sustenta um
laço que não se reduza à dor evitável.
Pensar esse ofício a partir de três gerações não é apenas um recur-
so narrativo, mas uma armação ética e necessária. Não há como conce-
bê-lo fora dos tempos que habitamos, das marcas históricas, políticas e
subjetivas que nos atravessam e que nos exigem, reiteradamente, rein-
ventar a escuta para sustentar o laço com o outro frente à crueldade, à
indiferença e ao cinismo contemporâneos.
Referências Bibliográcas
BLEICHMAR, S. La construcción de legalidades como principio educativo. (2007) Conferência
disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mu7Fua__m18&t=3s. Acesso 16/04/2026.
BEREZIN, A.; WIKINSKY, M.; FELDMAN, L. Trauma y tiempo: el ocio de analista en tres
generaciones. Buenos Aires: Noveduc, 2024.