
61 / FLAPPSIP
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 14 (2), 2023, pp 58 - 63
ISSN 2815-6994 (en linea) /
Cena 5
Úrsula me telefona da praia, onde está de férias com a família. Me conta
que, enquanto ela e a mãe estavam na água, caíram em um poço e pensou
que estavam afundando. Ela sente que a mãe não a pode salvar, talvez sinta
que a mãe é ainda mais infantil do que ela. Me telefona para “pedir ajuda”.
Resgato a qualidade da sua comunicação, o seu desejo de me telefonar e de
pôr o seu medo em palavras.
Cena 6
De volta a casa, prestes a iniciar um novo ano escolar, Úrsula me conta que
a mãe a surpreendeu com um presente: um belo caderno cheio de detalhes
de acordo com os seus gostos (cores, texturas, adesivos, purpurinas, lem-
bretes, imagens, tipograas, etc.). O novo caderno parece prometedor para
escrever juntas um novo tipo de relação.
Para ela, encontrar este objeto foi maravilhoso. Pergunto se está feliz. Se
escuta dizendo que sim. A vejo deitada, os seus pés balançando, dizendo
sim, com meias lindas, com bonecos nas pontas, como marionetes. Ternura
e sensualidade. Ela brinca com a pequena câmera, fazendo uma utilização
muito plástica do espaço durante toda a sequência. Me transmite uma sen-
sação de grande bem-estar. Exprime a sua alegria de criança na puberdade,
que nunca tinha aparecido antes. Começamos a fazer parte de um processo
em que somos simultaneamente criadas e encontradas (Winnicott, 1971).
O Zoom me permitiu tirar uma fotograa (metafórica), com a intenção de
cuidar dessa experiência para continuar avançando neste espaço de mu-
tualidade.
Cena 7
Algum tempo depois, ela me liga num dia de férias e me deixa uma mensa-
gem. “Tenho que falar com você, papai me repreendeu e tirou o telefone de
mim, estou te escrevendo pelo telefone da mamãe”. Mais uma vez a urgência.
Quando conversamos, ela diz que entende que o pai tem que educá-la, mas
se pergunta qual a razão dele ter tirado o telefone dela. Ela diz que o pai acha
que o telefone é o culpado de tudo. Diz também que ele não cona nela e que
não a deixa ir às matinês.
A convido a pensar se, de algum jeito, ela tinha contribuído para essa situação.
Ela aceita o meu convite e começa a pensar. Compartilhamos esse espaço de
silêncio. Ela diz: “tenho certeza de que devo ter colocado alguma coisa, mas
não foi nada de especial, além disso, estou mudando uma coisa”. Respondo:
“antes você gritava, depois chorava, logo pensava. E agora como é?” Ela ri com
ternura e cumplicidade. Diz com armação: “agora eu choro primeiro e depois
penso”.
Continuo: “Que bom poder dizer o que se sente, nos escutar…” e com uma
piscadinha: “Vamos fazer um jogo de parabéns”. Ela rapidamente aceita o
jogo e me diz: “Também te dou os parabéns”. Aceito seu cumprimento e re-
conhecimento.
A experiência emocional, como vemos aqui, a permitiu, através do trabalho
psíquico, apropriar-se das emoções, que são o cerne da integração psicosso-
mática em transferência.