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INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 14 (2), 2023, pp 58 - 63
ISSN 2815-6994 (en linea) /
CLAROSCUROS.
UNA TRANSMISIÓN
PSICOANALÍTICA EN CLAVE
ESCÉNICA
CLAROS-ESCUROS. UMA TRANSMISSÃO
PSICANALÍTICA EM UMA PERSPECTIVA
CÊNICA.
CHIAROSCUROS. A PSYCHOANALYTIC
TRANSMISSION THROUGH A
THEATRICAL LENS.
Claudia Levin
Asociación Escuela Argentina Para Graduados
ORCID: 0009-0001-8828-1243
Correo electrónico: claudialevin26@gmail.com
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Levib C. (2023) CLAROSCUROS. UNA TRANSMISIÓN PSICOANALÍTICA EN CLAVE ESCÉNICA
Intercambio Psicoanalítico 14 (2), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/14.2. 4/
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
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A título de introdução
Há alguns meses, tive a oportunidade de assistir à estreia do ballet Carava-
ggio, de Mauro Bigonzetti, no Teatro Colón de Buenos Aires, inspirado no
pintor barroco.
O que mais me impressionou foi a utilização da luz, a oposição luz/escuridão
que caracteriza a técnica do claro-escuro pela qual Caravaggio é conhecido.
No palco, o efeito da iluminação ajuda a criar uma atmosfera dramática que
nos introduz na tridimensionalidade do espaço.
Graças à combinação desta iluminação e dos recursos cenográcos, as per-
sonagens são enquadradas numa moldura da qual podem ora sair ora en-
trar, mudando de plano. Como espectadores, nos introduz num plano dife-
rente, mais próximo, de maior compromisso com a obra, que nos permite
ver como o mundo interior evolui artisticamente em um estilo pictórico.
Ao viver esta experiência estética, me pergunto o que é que valorizamos
como experiência quando falamos de uma sessão analítica. Como fazer com
que uma sessão se torne uma experiência emocional?1
O trabalho com Úrsula e a sua família, que vou desenvolver a seguir, desper-
tou em mim estas reexões. A experiência que vou contar está estruturada
em cenas, pois esta forma narrativa me permite transmitir mais claramente
a atmosfera de claro-escuro em que o trabalho decorreu.
Encontros com Úrsula
O tratamento analítico de Úrsula desenvolveu-se com muitas diculdades.
Começou algum tempo antes da pandemia e continuou depois. Neste artigo
me concentro em um momento especíco, provavelmente o período que
apresentou os maiores obstáculos, mas também aquele em que se começa-
ram a observar algumas mudanças psíquicas na menina.
CLAROS-ESCUROS.
UMA TRANSMISSÃO PSICANALÍTICA
EM CHAVE CÊNICA
Claudia Levin1
1 Claudia Levin é Psicóloga,
Psicanalista e Especialista em
Prevenção e Assistência Psicológica
na Infância (UBA).É professora titular
e supervisora clínica dos Programas
de Pós-Graduação da AEAPG, e atua
como JTP no Curso Clínico da Criança
e do Adolescente (UBA).
Solidão Innita(2021) é uma de suas
últimas publicações na revista virtual
da AEAPGPsicanálise ontem e hoje.
1 Gampel, Yolanda (2017) Pensar con
el psicoanálisis, niños/as-adolescentes-
familias, artigo publicado na Revista
Generaciones Núm. 6, Eudeba, Buenos
Aires.
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Cena 1
Na pandemia, ao me conectar para iniciar uma sessão virtual, encontro o
rosto de Úrsula, de 10 anos, desgurado pelo choro. No fundo, ao contrário
das sessões anteriores, há apenas escuridão. Ela me conta que o pai voltou
a ser violento. Percebo que desta vez foi mais forte, talvez a pandemia tenha
agravado o que já estava por acontecer. Ele a sacudiu e a colocou debaixo
do chuveiro. Desesperada, abatida, aterrorizada, ela me pede ajuda. Ten-
tando ultrapassar o choque, lhe digo que nenhum adulto, por mais zangado
que esteja, pode bater numa criança. E que falarei com os pais dela. Com
estas palavras, quero dar-lhe a garantia do meu empenho em intervir nesta
situação. Eu a peço que lhes avise de que ligarei naquele exato momento.
Cena 2
No quarto que parece estar na penumbra, os pais se conectam à sessão. Co-
mento que se trata de uma situação limite. Explico que o risco, para além do
que aconteceu, é de que a Úrsula naturalize o fato de baterem nela, que ela
naturalize o sofrimento, o fazer sofrer ou o se fazer sofrer. Me dirigindo ao
pai, o faço lembrar que é proibido por lei bater numa criança. Ao contrário
de outras vezes, agora o pai me olha como se estivesse se sentindo peque-
no. A mãe, entre angustiada e resignada. Peço então para falar com os três
ao mesmo tempo, que informem a Úrsula.
Cena 3
Agora aparecem os três. No quarto dos pais, Úrsula refugia-se no colo da
mãe. Volto a explicitar a proibição de o pai bater na lha e proponho como
algo fundamental a realização de uma reunião semanal com os três, para
além da sessão individual com a criança.
Cena 4
Pouco tempo depois, Úrsula compartilha comigo um vídeo em que a sua
imagem se torna maior, mais larga e desgurada. Testemunho do informe.1
Pergunto-me se o impacto que recebo se deve a um preconceito de idade
em relação à forma como as crianças se comunicam, ou ao choque de a ver
desgurada. Tão desgurada quanto aquela vez em que o choro transfor-
mou seu rosto.
Dias depois, quando a mãe me telefona para me dizer que a Úrsula é má
(se refere ao seu comportamento, a que se comporta mal), a ouço e lhe
pergunto se viu a fotograa de perl dela (uma imagem daquele vídeo). Mas
ela não reage, parece não saber do que estou falando. Ela não reparou na
fotograa, não a interpretou como um gesto para ser lido.
2 Winnicott utiliza a expressão do informe
ou da zona do informe para designar “os
elementos da personalidade não integrada”,
aquilo que ainda não tomou forma, que não
foi integrado.
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Cena 5
Úrsula me telefona da praia, onde está de férias com a família. Me conta
que, enquanto ela e a mãe estavam na água, caíram em um poço e pensou
que estavam afundando. Ela sente que a mãe não a pode salvar, talvez sinta
que a mãe é ainda mais infantil do que ela. Me telefona para “pedir ajuda”.
Resgato a qualidade da sua comunicação, o seu desejo de me telefonar e de
pôr o seu medo em palavras.
Cena 6
De volta a casa, prestes a iniciar um novo ano escolar, Úrsula me conta que
a mãe a surpreendeu com um presente: um belo caderno cheio de detalhes
de acordo com os seus gostos (cores, texturas, adesivos, purpurinas, lem-
bretes, imagens, tipograas, etc.). O novo caderno parece prometedor para
escrever juntas um novo tipo de relação.
Para ela, encontrar este objeto foi maravilhoso. Pergunto se está feliz. Se
escuta dizendo que sim. A vejo deitada, os seus pés balançando, dizendo
sim, com meias lindas, com bonecos nas pontas, como marionetes. Ternura
e sensualidade. Ela brinca com a pequena câmera, fazendo uma utilização
muito plástica do espaço durante toda a sequência. Me transmite uma sen-
sação de grande bem-estar. Exprime a sua alegria de criança na puberdade,
que nunca tinha aparecido antes. Começamos a fazer parte de um processo
em que somos simultaneamente criadas e encontradas (Winnicott, 1971).
O Zoom me permitiu tirar uma fotograa (metafórica), com a intenção de
cuidar dessa experiência para continuar avançando neste espaço de mu-
tualidade.
Cena 7
Algum tempo depois, ela me liga num dia de férias e me deixa uma mensa-
gem. “Tenho que falar com você, papai me repreendeu e tirou o telefone de
mim, estou te escrevendo pelo telefone da mamãe”. Mais uma vez a urgência.
Quando conversamos, ela diz que entende que o pai tem que educá-la, mas
se pergunta qual a razão dele ter tirado o telefone dela. Ela diz que o pai acha
que o telefone é o culpado de tudo. Diz também que ele não cona nela e que
não a deixa ir às matinês.
A convido a pensar se, de algum jeito, ela tinha contribuído para essa situação.
Ela aceita o meu convite e começa a pensar. Compartilhamos esse espaço de
silêncio. Ela diz: “tenho certeza de que devo ter colocado alguma coisa, mas
não foi nada de especial, além disso, estou mudando uma coisa”. Respondo:
“antes você gritava, depois chorava, logo pensava. E agora como é?” Ela ri com
ternura e cumplicidade. Diz com armação: “agora eu choro primeiro e depois
penso”.
Continuo: “Que bom poder dizer o que se sente, nos escutar…” e com uma
piscadinha: “Vamos fazer um jogo de parabéns”. Ela rapidamente aceita o
jogo e me diz: “Também te dou os parabéns”. Aceito seu cumprimento e re-
conhecimento.
A experiência emocional, como vemos aqui, a permitiu, através do trabalho
psíquico, apropriar-se das emoções, que são o cerne da integração psicosso-
mática em transferência.
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Sobre a transmissão da experiência analítica
Uma obra de arte (uma música, um livro, um quadro, um ballet), tal como as
palavras de um paciente, não é apenas um texto a decifrar, mas um outro
mundo a descobrir, uma rede que não se conhece a si própria.
Nós psicanalistas somos transformados pelas situações clínicas em que par-
ticipamos, especialmente aquelas que são tão profundas que nos obrigam
a mergulhar em áreas tempestuosas e, com o vento nas costas, a consoli-
dar o nosso caminho. Estas transformações contêm combinações comple-
xas de conhecimentos, descobertas, resistências, desespero e esperança,
compreensão e impasses. Claros-escuros que iluminam e obscurecem,
mostram e escondem, como num jogo de cena em que o analista é ora um
observador envolvido, ora um participante atormentado pela magnitude da
violência a que está exposto.
A experiência com Úrsula e a sua família me levou a compartilhar os meus
registos através desta escrita. Foi um momento em que dei por mim abrir
as janelas, não só as metafóricas mas também as da plataforma Zoom, en-
contrando por vezes um muro de pedra do outro lado e outras vezes, muito
lentamente, deixando a luz entrar.
Voltando à cena 7, poderíamos dizer que o trabalho analítico permitiu gerar
uma zona de ternura. A empatia, a consideração e o bom trato são os com-
ponentes fundamentais que Fernando Ulloa atribui à ternura, considerada
como uma instância ética.
Para terminar, gostaria de recordar as palavras de J. B. Pontalis, quando pro-
põe que conemos no que está vivo no paciente e em nós mesmos. Saber
que somos o nosso próprio instrumento de trabalho e, portanto, um ins-
trumento com falhas e oscilações. Saber amar os pacientes, ser capaz de se
afeiçoar a eles, mas também saber desprender-se deles.
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Referências Bibliográcas
Galli, V. (2008). Humildad poiética en la clínica
psicoanalítica. VII Congreso Fepal, Panel:
Contratransferencia y subjetividad del
analista, Chile.
https://sapsicoanalisis.org.ar/wp-
content/uploads/2021/04/HUMILDAD-
POeTICA-EN-LA-CLI%CC%81NICA-
PSICOANALI%CC%81TICA.pdf
Gampel, Y. (2017) ¿Cómo hacer para que
una sesión se convierta en una experiencia
emocional?. Revista Generaciones. Pensar
con el psicoanálisis, niños/as-adolescentes-
familias, Num. 6, Eudeba.
Puget, J., Braun, J., & Cena, M. (2018). Marilu Pelento, psicoanalista de nuestro tiempo. Un
panorama de sus ideas. Lugar Editorial.
Pontalis, J. B. (2007). El que duerme despierto. Traducido por S, Hopenhayn. Adriana Hidalgo
Editora.
Tirri, N. (2023). Caravaggio, una manifestación artística excepcional. La Nación. https://www.
lanacion.com.ar/espectaculos/danza/caravaggio-una-manifestacion-artistica-excepcional-
nid29052023/
Ulloa, F. (1995). Novela clínica psicoanalítica. Historial de una práctica. Buenos Aires: Paidós.
Winnicott, D. (1971). Realidad y juego. Buenos Aires: Gedisa.