114 / FLAPPSIP
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 14 (2), 2023, pp 114 - 124
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/14.2. 10/
FUNCIÓN DE LA COMUNIDAD VIRTUAL
EN LAS ASEXUALIDADES
O PAPEL DA COMUNIDADE VIRTUAL NAS
ASSEXUALIDADES
THE ROLE OF VIRTUAL COMMUNITIES IN ASEXUALITY
Marta De Giusti
Asociación Escuela Argentina de Psicoterapia para Graduados
ORCID: 0009-0006-9930-788X
Correo electrónico: martadegiusti@gmail.com
Lorena Biason
Sociedad Chilena de Psicoanálisis
ORCID: 0009- 0007- 2939- 0515
Correo electrónico: lorenabiasonjara@gmail.com
Mariana Rincón
Asociación Escuela Argentina de Psicoterapia para Graduados
ORCID: 0009-0002-4813-9741
Correo electrónico:lic.marianarincon@gmail.com
Miguel Maldonado
Asociación de Psicoterapia Psicoanalítica
ORCID: 0009-0006-1875-9092
Correo electrónico: mimaldop@gmail.com
Eugenio Lafón Nieto
Asociación Argentina de Psiquiatría y Psicología de la Infancia y la Adolescencia
ORCID: 0009-0006-3095-9126
Correo electrónico: eugenieto28@gmail.com
Déborah Rydel
Asociación Uruguaya de Psicoterapia Psicoanalítica
ORCID: 0000-0003-3230-7595
Correo electrónico: deboryd12@gmail.com
Dunia Samamé
Centro de Psicoterapia Psicoanalítica de Lima
ORCID: 0009-0002-1907-8281
Correo electrónico: duniasamame@gmail.com
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
De Giusti M. Biason L. Rincón M. Maldonado M. Lafón Nieto E. Rydel D. Samamé D. (2023)
Función de la comunidad virtual en las asexualidades Intercambio Psicoanalítico 14 (2),
DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/14.2. 10/ Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
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ITINERÁRIO ANTERIOR
A presente pesquisa, como já dissemos, é a segunda etapa de um estu-
do: “Assexualidades: um enigma a decifrar? (...)”. Nela trabalhamos de
forma exploratória os discursos e narrativas de pessoas que se denem
como assexual em diferentes comunidades e territórios virtuais.
A subjetividade e os vínculos em comunidades virtuais assexual foram
abordados a partir de uma perspetiva psicanalítica. A partir de 92 posta-
gens extraídas de sete comunidades virtuais assexual, selecionadas em
cinco países do Cone Sul (Chile, Argentina, Uruguai, Brasil e Peru), foram
construídas cinco dimensões a serem investigadas.
Motivaciones para formar parte de una Comunidade virtual foi uma delas.
Chamou-nos a atenção pela sua recorrência e importância para este co-
letivo. É exemplicado por este post: “Falem o que quiserem sobre rótulos,
mas, quando sentimos que não nos encaixamos em nenhum lugar, não há
nada melhor do que descobrir uma comunidade que se sente exatamente
como nós”.
O PAPEL DA COMUNIDADE VIRTUAL
NAS ASSEXUALIDADES1
1 Além das autoras, a Equipe de Pesquisa Assexualidades é composta por:
Mariana Rincón. Lic. Psicologia (UBA). Psicanalista. Membro da AEAPG. Esp. em Psicologia Clínica com Orientação em Crianças.
Eugênio Lafón Nieto. Lic. Psicologia (UNLP). Pós-Graduação em Psa. da infância e adolescência-Asappia. Colaborador docente na pós-graduação
– ASAPPIA. Última publicação: revista digital “Controvérsias” (2023).
Débora Rydel. Mestre Psicologia Clínica, (UDELAR). Esp. em Psicologia nos Serviços de Saúde (Udelar), Esp. em Psicoterapia Psicanalítica nos
Serviços de Saúde (UDELAR). Professora do Instituto de Psicologia Clínica Fac.de Psicologia. Membro da SPR. Membro da AUDEPP.
Miguel Maldonado. Lic. Psicologia Clínica. Psicoterapeuta psicanalítico. Psicologo perinatal. Ex-presidente e secretário cientíco da Associação
de Psicoterapia Psicanalítica.
imena Neuman, Lic. em Psicologia UBA. Psicanalista. Colaboradora na Cátedra de Fisiopatologia e Doenças Psicossomáticas da UBA. Estudos
Interdisciplinares da Subjetividade em Filosoa e Letras UBA.
Dunia Samamé. Mestre em Sociologia. Psicanalista. Publicações: Fobia, Vida e Afetos: Leituras Cruzadas Rolla e Lowen (https://www.rodulfos.com/
fobia-vida-y-afectos-lecturas-cruzadas-rolla-y-lowen/). De lo inconsciente lo inaudito, o de lo que no se escribe. Revista Calibán da Fepal.
Marta De Giusti1
Lorena Biason2
Mariana Rincón 4
Miguel Maldonado 5
Eugenio Lafón Nieto 6
Déborah Rydel 7
Dunia Samamé 8
1 Psicóloga (UBA). Psicoanalista.
Miembro Plenaria de la AEAPG.
Directora de la Dirección de
Investigación de FLAPPSP. Co-
coordinadora investigación FLAPPSIP:”
Asexualidades”. Parte I y II.
2 Psicoanalista, Lic. en Psicología U.
Chile. Magíster en Psicología Clínica
mención Psicoanálisis. Docente de
post grado y Supervisora Clínica...
ExSecretaria Cientíca FLAPPSIP
Co-coordinadora investigación
FLAPPSIP:” Asexualidades”. Parte I y II
4 Lic. Psicologia (UBA). Psicanalista.
Membro da AEAPG. Esp. em
Psicologia Clínica com Orientação em
Crianças.
5 Lic. Psicologia Clínica.
Psicoterapeuta psicanalítico.
Psicologo perinatal. Ex-presidente e
secretário cientíco da
Associação de Psicoterapia
Psicanalítica.
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INVESTIGAÇÃO SOBRE O ASSUNTO:
Para a pesquisa de fundo, foi efectuada uma investigação sobre o tema,
incluindo as palavras - chave: comunidade, assexualidade e psicanálise.
Encontrámos, revimos e seleccionámos obras em espanhol da América
Latina e de Espanha, das quais recolhemos os resultados mais signica-
tivos.
Dana (2020) identica e caracteriza a comunidade assexual da Área Metro-
politana de Buenos Aires. Abordam o estudo a partir de uma perspetiva
das ciências sociais. Utilizam como fontes as entrevistas semiestruturadas
em profundidade com pessoas assexuais que se encontram em comu-
nidades virtuais no Facebook, a análise do conteúdo virtual do grupo do
Facebook “Eu também sou assexual - Argentina” (YTSAA) e a revisão biblio-
gráca e fontes secundárias (publicações em revistas ou suplementos de
menor circulação sobre questões de género e sexualidade). Denem a as-
sexualidade como baixa ou nenhuma atração sexual intersubjetiva. Entre
os resultados, constataram que a assexualidade é ainda pouco numerosa
e largamente desconhecida, e que está ligada principalmente através de
plataformas virtuais. Manifestam a sua oposição à normatividade sexual
e exigem um lugar nos espaços de diversidade sexual, a visibilidade e o
respeito pela assexualidade como orientação sexual válida e a sua despa-
tologização. Observa-se uma politização incipiente deste grupo, entendi-
da como o seu aparecimento no espaço político público e a formulação de
posições e exigências políticas particulares.
Gelpi e Suñol (2021) procuram promover o aumento da produção de co-
nhecimento sobre a assexualidade a partir de um ponto de vista crítico,
uma vez que esta ocupa atualmente um lugar periférico na agenda de
investigação sobre a sexualidade humana na região. O estudo é aborda-
do a partir do campo da psicologia, em diálogo com outras disciplinas. As
experiências clínicas e a revisão da literatura são utilizadas como fontes.
Não denem a assexualidade a priori, o que é precisamente parte dos ob-
jetivos da investigação, e cruzam os três elementos de como é atualmente
abordada: orientação sexual, identidade ou perturbação. Os resultados
consistem em ampliar a produção de conhecimento sobre a assexualida-
de, apontando a importância de se rever verdades inquestionáveis sobre
a sexualidade humana, gerando questionamentos sobre a ética das inter-
venções com essa população.
Alvarez (2010) se propõe investigar a identidade assexual e compreender
como são as pessoas que se denem como assexuais, que discurso as
une e como este se torna signicativo no seu quotidiano e, sobretudo,
que impacto este fenómeno cultural pode ter nas formas sociais atuais
de conceber as relações sexuais. Abordam esta investigação a partir do
domínio das Ciências Sociais (antropologia social). Utilizam como fonte
um questionário que foi respondido por 145 estudantes universitários, 79
mulheres e 66 homens. Denem as pessoas assexual como aquelas que
renunciam ao sexo, não o consideram importante nas suas vidas ou podem
viver sem sentir necessidade dele. Entre os resultados, nenhum dos entre-
vistados se deniu como assexual e há um grande desconhecimento
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ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/14.2. 10/
6 Lic. Psicologia (UNLP). Pós-
Graduação em Psa. da infância e
adolescência-Asappia. Colaborador
docente na pós-graduação –
ASAPPIA. Última publicação: revista
digital “Controvérsias” (2023).
7 Mestre Psicologia Clínica, (UDELAR).
Esp. em Psicologia nos Serviços de
Saúde (Udelar), Esp. em Psicoterapia
Psicanalítica nos Serviços de Saúde
(UDELAR). Professora do Instituto de
Psicologia Clínica Fac.de Psicologia.
Membro da SPR. Membro da
AUDEPP.
8 Mestre em Sociologia. Psicanalista.
Publicações: Fobia, Vida e Afetos:
Leituras Cruzadas Rolla e Lowen
(https://www.rodulfos.com/fobia-
vida-y-afectos-lecturas-cruzadas-
rolla-y-lowen/). De lo inconsciente lo
inaudito, o de lo que no se escribe.
Revista Calibán da Fepal.
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sobre a existência de pessoas assexuais. Trata-se de um grupo populacio-
nal jovem, em que a maioria manifesta um elevado interesse pelo sexo.
Todos os inquiridos referem ter desejos sexuais e respostas sexuais. Ao
mesmo tempo, exploraram sítios criados por assexuais na Internet para
descobrir como esta forma de identidade é concebida e construída. Con-
cluem que o clima social é propício ao acolhimento da assexualidade, mas
o seu impacto cultural é atualmente muito reduzido. Além disso, a forma
de entender e viver a sexualidade defendida pelos representantes do mo-
vimento assexual não forneceria argumentos sucientes para aceitar a
existência de uma nova identidade sexual.
López Ruiz (2015) foca o aspeto sociológico, utilizando informações de
postagens em plataformas virtuais e analisa os fatores socioculturais que
possibilitam essa visibilização. Ela dene a assexualidade como a ausên-
cia de necessidade ou interesse em manter relações sexuais. Conclui que
a assexualidade é o resultado da liberdade de algumas pessoas em con-
frontar as convenções sociais estipuladas em relação à sexualidade.
Mera Adasme (2020) explora as experiências de oito pessoas pertencen-
tes ao Agrupamento Assexuais Chile, com a intenção de investigar como
se constitui uma identidade que não tem lugar de signicado no mundo e
como um grupo invisível tenta reivindicar uma categoria que lhe dê um lu-
gar na diversidade. O estudo é abordado a partir da perspetiva da psicolo-
gia clínica. As fontes utilizadas são uma revisão da literatura, uma revisão
dos discursos sócio-culturais contextuais e a exploração das experiências
de oito pessoas pertencentes a uma comunidade virtual assexual. Dene
a assexualidade como uma outra orientação sexual, uma experiência não
voluntária, egosintónica e não patológica. Os resultados sublinham o va-
lor do encontro com uma comunidade que lhes permite reconhecer a sua
própria identidade, ser capazes de se nomearem e deixarem de se sentir
estranhos e invisíveis.
De Giusti e Biason (2022) na apresentação oral no XI Congresso da Fla-
ppsip, “Sexualidade Revisitada, novos cenários na teoria, na clínica e na
atualidade” denem a assexualidade como uma manifestação da sexua-
lidade humana caracterizada pelo desinteresse pela prática sexual, que
pode ou não ser acompanhada pelo desinteresse por relacionamentos
amorosos, independente do gênero. Realiza-se uma investigação sobre
subjetividade e vínculos em Comunidades Virtuais Assexuais a partir de
uma perspetiva psicanalítica. As fontes são 92 postagens de sete comuni-
dades virtuais assexuais selecionadas em cinco países do Cone Sul: Chi-
le, Argentina, Uruguai, Brasil e Peru. São analisadas com base em 5 di-
mensões: Motivações para fazer parte dessa Comunidade, Características
das pessoas com quem se relacionam mais intimamente, Emocionalida-
de predominante nas suas ligações (efectiva e desejada), Valorização da
sexualidade/assexualidade, Autodenição da própria sexualidade/versão
do outro (alteridade) e do nós (identidade). Esta investigação conclui, ao
contrário
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de outras investigações, que a condição assexual produz sofrimento, sen-
timentos de tristeza ou algum grau de angústia. As pessoas assexuais são
muito fortemente interessadas, de uma forma ou de outra, pelas várias
tensões produzidas tanto pela compreensão da sua própria condição
assexual como pelas pressões sociais a que estão sujeitas. Em relação à
construção das comunidades virtuais, observa-se que elas buscam ensi-
nar e divulgar, ao mesmo tempo em que possibilitam a legitimação e a
visibilidade da própria identidade. As comunidades que encontraram na
rede um meio de expressão, podemos pensar que funcionam como uma
forma de desvio, verdadeiras linhas de fuga no sentido proposto por De-
leuze e Parnet, como um movimento de desterritorialização que permite
a estes colectivos recuperar a sua singularidade face ao que consideram
ser a tirania da sociedade atual. Assim, as diversidades das comunidades
assexual são o efeito de uma resistência à subsunção numa identidade
única, e podemos pensá-la como a procura de um lugar, de uma comuni-
dade, que se pretende polimorcamente construída.
Em resumo, é possível identicar que os estudos ligados à assexualida-
de tomam como fonte testemunhos expressos em comunidades virtuais,
sem resultados ligados a abordagens clínicas ou sociológicas na popula-
ção em geral. A população de assexuais é ainda reduzida, pelo que não
existem muitos estudos sobre o assunto. A rejeição da sexualidade nor-
mativizada é expressa. O objetivo de pertencer a comunidades virtuais é
visualizar as questões assexuais e dar legitimidade à sua própria identi-
dade. Considera-se uma conquista gerar um discurso alternativo ao dis-
curso normativo. Desta forma, estão a tornar-se um movimento político e
ético em torno desta questão.
RELEVÂNCIA E PROBLEMATIZAÇÃO
O tema nos desaa como psicanalistas, convidando-nos a visitar nova-
mente a posição da sexualidade em sua articulação com a cultura. Espe-
ramos que nossa contribuição possa facilitar a compreensão da assexua-
lidade dentro da dimensão do desejo, diferenciando-a do sexo; como um
saber do corpo, uma linha de fuga micropolítica e mais uma possibilidade
entre os muitos modos de existência.
Como objetivo geral, propusemo-nos analisar as modalidades e o papel
da comunidade virtual na construção das assexualidades.
A nossa hipótese é que a comunidade virtual teria uma função psíquica de
ligação, com efeitos de identidade. Tomando o conceito de identicação
no sentido de uma operação de reconhecimento do idêntico, uma busca
do “semelhante” que nos acompanha no investimento de novos objetos
e interesses, postulamos que a comunidade virtual permitiria a assunção
deste tipo de identicação, anteriormente negada no seio de uma cultura
heteronormativa, que impõe o tipo de gozo permitido, inuenciando a
construção da subjetividade.
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QUADRO ANALÍTICO.
A sexualidade é um campo permanente de disputa, em relação aos usos,
prazeres e gozos dos corpos, produzindo lutas identitárias e de poder,
com referências a discursos de verdade. Assim, para além de ser subje-
tivada, a vida sexual é interrogada como produto e objeto de consumo.
Na primeira parte da investigação, a assexualidade foi considerada como
uma manifestação da sexualidade humana caracterizada pelo desinte-
resse pela prática sexual, que pode ou não ser acompanhada pelo des-
interesse por relações amorosas, independentemente do género (Olive-
ra, 2014). Consideramos que o tema nos desaa enquanto psicanalistas,
convidando- nos a visitar novamente a posição da sexualidade na sua
articulação com a cultura. Esperamos que nossa contribuição possa fa-
cilitar a compreensão da assexualidade dentro da dimensão do desejo,
diferenciando-a do sexo; como um saber do corpo, uma linha de fuga mi-
cropolítica e mais uma possibilidade entre os muitos modos de existência.
Neste sentido, as pessoas que se autodenominam assexuais, afastam-se
do modelo de sexualidade normativa e sublinham que a sua condição
enquanto tal não está relacionada com traumas, repressão sexual, pro-
blemas hormonais, opção religiosa ou qualquer outro discurso patologi-
zante de tudo o que não se enquadra nas representações hegemónicas.
No entanto, as perspectivas queer sugerem que os assexuais apresentam
uma sexualidade rizomática e polimorfa, ou seja, são uma outra forma de
sexualidade.
A primeira parte da pesquisa abordou de forma exploratória os discursos
e narrativas de pessoas que se denem como assexuais em diferentes
comunidades e territórios virtuais. Nessa ocasião, uma das categorias que
analisamos começou a chamar nossa atenção: Motivação para fazer parte
de Comunidades Virtuais Assexuadas:
Vamos ouvir este post de um membro de uma comunidade online as-
sexual:
“Falem o que quiserem sobre rótulos, mas quando sentimos que não nos
encaixamos em lado nenhum, não há nada melhor do que descobrir uma
comunidade que se sente exatamente como nós.”
Assim, nesta segunda parte, perguntamo-nos: de que se trata e que papel
desempenham as comunidades virtuais em termos de motivação e parti-
cipação para este grupo?
Sabendo que as tecnologias da informação e da comunicação permeiam
a vida social, todas as dimensões da vida contemporânea passam pela
sua utilização, nada escapa à tendência da hiperconectividade, mesmo
que ela própria comporte contradições e efeitos colaterais, a assexualida-
de não escapa, portanto, a esta realidade.
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As assexualidades, assim como outros colectivos de defesa da diversidade
sexual, encontraram nas redes sociais um meio de expressão. Produzem
um discurso que questiona a omnipresença da sexualidade na cultura,
denunciando assim a fagocitação dos objetivos de libertação sexual
que marcaram uma parte importante do século XX. A ordem sexual atual
tornou-se uma mercadoria.
É assim que partimos do pressuposto da importância da tecnologia na
vida atual. É através da tecnologia que as assexualidades são tornadas
visíveis, numa tentativa de explorar outras formas de vinculação. Como
continuação da primeira investigação, destacamos o lugar da comunida-
de virtual nestes colectivos, analisando a sua importância e funções para
as assexualidades. O objetivo deste trabalho é reetir psicanaliticamente,
a partir de um quadro plural, sobre as incidências de um sujeito que ajuda
a pensar os novos cenários e as suas ligações.
COMUNIDADE: VÁRIAS CONTRIBUIÇÕES PARA A SUA ANÁLISE.
Contribuições de Freud para a compreensão da comunidade
A cultura comporta-se em relação à sexualidade como um povo ou uma ca-
mada da população que subjugou outra para a explorar. A angústia de uma
eventual revolta dos oprimidos leva à adoção de medidas preventivas severas.
A exigência de uma vida sexual uniforme para todos, que resulta nestas proi-
bições, ignora as desigualdades na constituição sexual inata e adquirida dos
seres humanos, segrega um bom número deles do gozo sexual e torna-se as-
sim uma fonte de grave injustiça. (Freud ,1930, O mal-estar na cultura).
A partir desta frase, torna-se claro que os modos predominantes de sa-
tisfação libidinal oferecidos por cada cultura fazem parte dos mecanis-
mos reguladores, disciplinares e de controle social que podem adquirir
diferentes graus de intensidade e imposição. Interrogamo-nos sobre o
destino dos sujeitos que não respondem a tais constelações legitimadas
na ordem social. Deste modo, as singularidades sexuais tornam-se uma
problemática complexa, com diferentes arestas: sexuais, de identidade
sexual, políticas e éticas.
Freud, no seu artigo de 1908 “Moral Sexual Cultural e Nervosismo Moder-
no”, diz-nos que cada momento histórico social indica a forma de satis-
fação sexual em que está implicada, tanto o que deve ser abafado como
a importância da sua incidência nas diferentes formas de viver em comu-
nidade.
Em 1933, no livro “O Porquê da Guerra”, volta a mencionar a comunida-
de no par de opostos da violência e do direito; e diz-nos que, desde o
início, os conitos de interesses entre os povos foram resolvidos através
da violência: primeiro pela força bruta, depois pela força das armas. No
decurso da evolução, este estado de coisas alterou-se. Um certo caminho
conduziu da violência ao direito. Ou seja, a partir do estado original, a
regra do poder impõe-se de várias formas, que podem atuar conjunta ou
alternadamente: a força bruta, as armas e o intelecto.
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Como alternativa a um poder único, o caminho, segundo Freud, é que a
maior violência do Um pode ser compensada pela união de vários fracos.
A violência é então suplantada pela união. Ora, o poder desses sujeitos
unidos constitui o Direito em oposição à violência do Um. Assim, o Direito
é o poder de uma Comunidade, desde que essa união tenda a ser perma-
nente e duradoura.
Contribuição de Nancy: Construir a comunidade para construir a singu-
laridade?
Pensamos do ponto de vista de Nancy em três tempos: o primeiro, em
que a unidade do sujeito é problematizada, ele é aberto ao acontecimen-
to, exposto ao mundo, arriscado, esvaziado entre vários presentes; um
segundo momento, no ato de existir, o sujeito é singularizado, na geração
de algo diferente de si mesmo, apesar da pluralidade de sentidos que
adquire, podemos dizer que “é” a mesma pessoa; no terceiro, trata-se de
pensar o sujeito como um acontecimento constante, em cada instante
de exposição e abertura ao mundo, supõe uma pluralidade do eu, mas
também, mantém o primeiro e o último de si mesmo.
Um sujeito lançado no mundo, pensa Nancy, um sistema aberto, diria
Bleichmar. Pensamos num sujeito que também consegue historicizar-se
e, a partir daí, mantém o primeiro e o último de si próprio, o que lhe per-
mite continuar a reconhecer-se neste uxo. A comunidade abriga esses
movimentos.
Contribuições de C. Castoriadis. Psiquismo e sociedade
Para Castoriadis, não há psique sem sociedade: não há subjetividade huma-
na sem sociedade. É esta sociedade que retira a psique da mónada fecha-
da em si mesma da sua origem. É o que o autor assinala sobre a mónada
psíquica, a mónada inconsciente original a-racional, a-social e a-moral, que
ela tem de abandonar para ser sujeito na cultura. Um psiquismo original
regido pelo princípio do prazer, antecâmara do desejo, que traz ao desejo
o seu objetivo impossível, o de um estado em que a presença do “objeto” e
a satisfação estão asseguradas, em que o “sujeito” e o “objeto” do desejo se
cobrem um ao outro.
O psiquismo humano não sobrevive fora da signicação e será a sociedade
que garantirá essas signicações, que permitem, com diferentes espessuras
simbólicas, gurar algo da pulsão, mesmo na loucura, não se ca fora das
signicações do imaginário social. Embora se deva notar que há sempre um
resto a ser signicado, um resto que escapa ao fechamento do pensamento.
Castoriadis propõe uma explosão da imaginação. Chamará imaginação ra-
dical ao uxo de representações, afectos e desejos. Um uxo que, tal como
a água de um rio, não pode ser completamente canalizado.
O Eu é pensado como uma fabricação essencialmente social, o que torna
impossível analisar a sua função sem considerar o campo sócio-cultural
em que o sujeito está imerso. É através da socialização que o psiquismo
abandona as suas próprias identicações em troca da interiorização e do
investimento de signicados imaginários sociais, fazendo assim o sujeito o
laborioso percurso de abandono de si próprio como fonte de todo o prazer.
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Face ao exposto, o que a sociedade não deixa de fazer é dar sentido aos
sujeitos. O que acontece na psique do indivíduo quando este sentido é
fraturado?
Propomos que as comunidades virtuais assexual, cansadas pelo impera-
tivo do dever ser, iniciem um caminho em direção ao instituinte, alimen-
tadas pelo uxo da imaginação radical, realizem movimentos, trânsitos,
que, como linhas de voo, possibilitem uma maior autonomia e criativida-
de em relação às fontes de sentido propostas.
Desta forma, na procura de novos objetos para investir, a comunidade
virtual assexual chega a formular enunciados que lhe permitem identi-
car-se com os outros e, a partir daí, reconhecer-se a si própria.
As contribuições de S. Bleichmar. O conceito de Identicação
Concordando com Bleichmar, tudo nos leva a pensar que o valor que o
conceito de identicação foi progressivamente assumindo na psicanáli-
se é sustentado pelo fato de não ser considerado como um mecanismo
entre outros, mas como “a operação fundamental que gera as condições
de instituição da subjetividade, propiciando as exigências da constituição
psíquica” (1995).
Muitos analistas consideraram necessário procurar, não só na teoria, mas
também na própria clínica, os movimentos constitutivos da semelhança
humana que pudessem dar conta dos processos de humanização. A
identicação parece, então, ser o caminho adequado para isso.
Seguindo esse caminho, podemos assinalar que o surgimento do concei-
to de identicação tal como pretendemos tratá-lo aqui, ou seja, como um
processo pelo qual um sujeito assimila um aspeto, uma propriedade ou
atributo de um outro e é total ou parcialmente transformado, não alude
em Freud, em absoluto, à constituição do inconsciente, mas do ego como
órgão libidinal atravessado pela presença do semelhante na instalação de
seus conteúdos representacionais.
Neste ponto do nosso desenvolvimento, é necessário um esclarecimento:
sabemos que existe um segundo sentido possível para a palavra “identi-
cação”, tal como foi também utilizada em psicanálise, que consiste numa
operação de identicação, isto é, de reconhecimento como idêntico. Esta
forma de conceber a identicação, embora não seja dominante no pensa-
mento freudiano e não tenha o peso que o conceito de identicação em
sentido estrito assume na constituição subjetiva, é encontrada em Freud
para se referir a um mecanismo geral da vida psíquica, quando descreve
as características do trabalho do sonho que opera por semelhança - um
mecanismo que também opera na vida psíquica geral, que poderíamos
estender aos movimentos transferenciais que “identicam” o analista
com certos traços das guras originárias da história libidinal do sujeito,
mas que estão presentes em todos os movimentos da vida psíquica que,
por deslocamento, estendem os processos de investimento que dão ori-
gem do amor ao interesse pelo conhecimento e “pelo outro”.
Pensamos que é necessário encontrar as ligações entre os dois conceitos
de identicação,
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 14 (2), 2023, pp 114 - 124
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ou seja, a correspondência entre “identicar um objeto com outro” e
“identicar-se a si próprio”.
“Falem o que quiserem sobre rótulos, mas quando sentimos que não nos
encaixamos em lado nenhum, não há nada melhor do que descobrir uma
comunidade que se sente exatamente como nós.
Que lugar ocupa então o intersubjetivo, tanto nas origens do sujeito como
ao longo dos movimentos com que a libido investe os seus objetos nos
processos psíquicos relativos ao aparelho já constituído?
As contribuições de Laplanche. A cuba, articulações com a comunidade
Laplanche (1987) propõe o termo cuba para pensar os modos de expres-
são da transferência. Os elementos que existem na vida quotidiana, como
os sonhos e a transferência, têm uma existência anterior à análise e exte-
rior a ela. Mas para que uma análise exista, é preciso gerar uma situação
articial, inteiramente construída.
Tomamos a ideia da Cuba, como um espaço contentor, que traça limites
e permite o desdobramento. Onde o pensamento sobre determinadas
questões é permitido, não limitado. Onde as pessoas que o constituem
podem - nos termos de Nancy - lançar-se a pensar fora do que já foi pen-
sado, lançar-se em movimentos fora de si, em movimentos reexivos -
Castoriadis 1998 - que patrocinam novas tramas representacionais.
Consideramos que a força do conceito de Cuba reside, neste caso, no co-
letivo da comunidade virtual - uma outra armadura articial - e no modo
como este coletivo actua como um continente, como um envelope amo-
roso, vivicante, simbolizante, aglutinador, transformador, que em mui-
tos casos inaugura a possibilidade de pensar e de se pensar, de abrir-se
e de desdobrar-se. A comunidade virtual assexual, que comparamos ao
papel de uma membrana psíquica.
Nenhum sujeito deixa em suspenso os seus axiomas, as suas certezas,
aquilo que fez do seu pensamento a sua base, para os substituir gratui-
tamente. A atividade reexiva que declama a Imaginação Radical, e a
liberta no seu uxo, permite criar novos mundos autónomos, individuais
e partilhados. Para que o sujeito se lance fora das suas certezas e mergul-
he no rio heraclitiano da Imaginação Radical - impulsionado pelo exercício
da reexão - é preciso investir o pensamento, correr um certo risco no
movimento. Estes movimentos, esta reexão, não ocorrem no vazio, não
ocorrem sem um fundo de permanência, e aquilo que exerce esta função
é, na nossa ideia, a comunidade como continente, como cuba. Dentro da
qual é possível colocar os elementos inconscientes sem o risco de deses-
truturar o ego.
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 14 (2), 2023, pp 114 - 124
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/14.2. 10/
124 / FLAPPSIP
METODOLOGIA:
Trata-se de uma abordagem qualitativa, exploratório-descritiva.
As suas fontes serão pessoas que se denem como assexuais e que parti-
cipam em comunidades virtuais na América Latina.
A estratégia de pesquisa de informação será predominantemente a rea-
lização de entrevistas semi-estruturadas a pessoas seleccionadas através
de convites à apresentação de candidaturas com orientações especícas
no âmbito das comunidades virtuais (onde o anonimato é protegido, com
especial cuidado para não serem homologadas a estudos psicopatológi-
cos ou estigmatizantes).
Para a análise, serão utilizadas técnicas de análise de conteúdo.
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