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No contexto do XII Congresso da FLAPPSIP “Bordas e Desbordamentos.
Transformações em tempos de desmesura”, conversamos com a Dra.
Alicia Stolkiner sobre sua apresentação: De incertezas e descentramentos:
amar o próximo ou ser hospitaleiro com o outro?
Dentro da temática convocante, interessava especialmente ouvir suas
reexões, a partir de um pensamento transdisciplinar que desenvolveu
como pesquisadora envolvida nas realidades que estuda. Referente em
Saúde Pública e Saúde Mental no seu país, ela é uma observadora rigo-
rosa das realidades sociais e políticas atuais, que encara com uma luci-
dez incisiva, mas nunca sem uma dose de ternura e humor.
A entrevista foi realizada para Intercambio Psicoanalítico pelo Dr. Miguel
Tollo (AEAPG)
Miguel Tollo: Desde já, muito interessante e instigante todo o argumento
que você apresenta, começando pela questão das certezas e incertezas
do nosso tempo. Suponho que estamos falando das incertezas que sur-
gem da queda das certezas da Modernidade.
Alicia Stolkiner: A Modernidade, o Iluminismo, o pensamento ocidental
hegemônico, o ocidentalocentrismo, o androcentrismo, o zoocentris-
mo... Eu diria que descentralizar o antropocentrismo é romper com a
ideia hegemônica da Modernidade - que não é compartilhada por todas
as culturas - de considerar o ser humano como algo separado de to-
das as espécies zoológicas. Como se não tivéssemos nenhuma carac-
terística de espécie zoológica. Então, para nós, parece natural que, por
exemplo, o pensamento de Hobbes sugira que, sem uma norma externa
que limite os indivíduos, as sociedades seriam um caos de violência e
competição.
Miguel Tollo: O homem é o lobo do homem...
Alicia Stolkiner: Bom, mas você sabe o que acontece? Não sabia nada so-
bre como são os lobos. Os lobos são uma espécie gregária que tem uma
ordem social muito importante: hierarquias, respeito, cuidados mútuos,
cuidados coletivos de lhotes. Então Hobbes propõe isso porque não
acredita que a espécie humana seja uma espécie, uma espécie de mamí-
feros gregários. Portanto, não há uma forma natural do humano, mas
isso não signica que deixamos de ser uma espécie, mas sim uma espé-
cie que fugiu e rompeu o equilíbrio de seu habitat. Então, nós pensamos
COM ALICIA STOLKINER
AHOSPITALIDADE: UMA ALTERIDADE
FUNDAMENTAL QUE SURGE AO SE
TORNAR VULNERÁVEL À PERGUNTA
DO OUTRO.
Miguel Tollo1
1 Psicólogo. Psicanalista, formado
pela AEAPG.Ex-presidente e sócio
honorário da AEAGP. Professor
de Saúde Pública, Saúde Mental
e Clínica Psicológica Infantil
na Faculdade de Psicologia da
Universidade Nacional del Chaco
Austral. Titular de Supervisão e
Psicopatologia da Adolescência
no Curso de Especialização em
Clínica Psicanalítica com Crianças e
Adolescentes (UCES-APBA).
Ex-presidente da Associação de
Psicólogos de Buenos Aires e do
Conselho Consultivo Honorário
Nacional de Saúde Mental e
Dependências. Membro do
Fórum Infâncias. Compilador
do livro Escuchar las Infancias
(Noveduc-2019) e autor de artigos
em publicações especializadas como
El Psicoanalítico, El Hormiguero,
Actualidad Psicológica, Sección
Psicología de P12 e outras.