134 / FLAPPSIP
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 14 (2), 2023, pp 134 - 138
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/14.2. 12/
CON FRANCO ‘’BIFO’’ BERARDI
PENSAR EN TÉRMINOS DE
ULTIMIDAD PARA DISIPAR LO
QUE PARECE INEVITABLE.
CON FRANCO ‘’BIFO’’ BERARDI
PENSAR EM TERMOS DE ÚLTIMA INSTÂNCIA
PARA DISSIPAR O QUE PARECE INEVITÁVEL.
WITH FRANCO ‘’BIFO’’ BERARDI
TO THINK IN TERMS OF ULTIMACY TO
DISSIPATE WHAT SEEMS INEVITABLE.
María Teresa Casté Crovetto
Sociedad Chilena de Psicoanálisis
ORCID: 0009-0008-7835-2627
mteresa.caste@gmail.com
Moises Rodrigues da Silva Junior
Instituto Sedes Sapientiae
ORCID: 0009 – 0009 – 2078 – 6956
moisesrs@uol.com.br
Para citar este artículo / Para citar este artigo / To reference this article
Casté CrovettoM. T. Rodrigues da Silva Junior M. (2023) ENTREVISTA FRANCO ‘’BIFO’’ BERARDI
PENSAR EN TÉRMINOS DE ULTIMIDAD PARA DISIPAR LO QUE PARECE INEVITABLE.
Intercambio Psicoanalítico 14 (2), DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/14.2. 12/
Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional (CC By 4.0)
135 / FLAPPSIP
Um dos conferencistas principais do XII Congresso da FALPPSIP, o único
que não pertence ao nosso continente, embora tenha estado próximo
aos processos vivenciados aqui, foi Franco ‘’Bifo’’ Berardi. Sua inter-
venção encerrou as atividades cientícas do Congresso em 15 de ou-
tubro. Havia expectativa para ouvi-lo, pois suas considerações sobre o
estado da civilização atual, dominada pelo triunfo absoluto do capitalis-
mo e consequentemente pelo ressurgimento do fascismo, não deixam
ninguém indiferente. Aqueles que o seguem mais fervorosamente em
suas ideias têm observado que a evolução dos eventos em escala glo-
bal parece conrmar os aspectos mais ominosos de sua pregação. No
entanto, como um dever intelectual de primeira ordem, Berardi não se
fecha ao inesperado. Que a lógica em curso permita prever um certo
desfecho não impede que o imprevisível possa alterar o curso das coi-
sas. Ele nos propõe, assim, a tarefa de nos prepararmos para ampliar a
brecha de oportunidade que possa surgir a partir de fenômenos impen-
sados, como foi recentemente a pandemia do coronavírus.
As perguntas foram feitas por Moises Rodrigues da Silva Junior (Sedes)
e María Teresa Casté Crovetto (Ichpa) que, junto com o entrevistado,
fazem parte doGruppo Intercontinentale di Ricerca sulla Salute Mentale
desde o ano de 2020.
Moises Rodrigues e Teresa Casté: O signicante “apocalipse” contém
não apenas a destruição (com fogo), mas também a antecipação de um
“céu novo, uma terra nova”.  Se este mundo está se movendo cada vez
mais em direção à morte, no Apocalipse existe a possibilidade do novo,
e é por isso que você insiste: “não deixemos de pensar, porque pode ser
que o imprevisível precise ser pensado”. Como você acredita que isso é
possível quando vemos que o homem exausto, amedrontado, perdeu
sua capacidade imaginativa?
F. Berardi: A palavra “apocalipse” signica, literalmente, descobrimento
de uma verdade que estava escondida. Nesse sentido, estamos vivendo
uma situação apocalíptica: uma verdade está se revelando; percebemos
isso. Mas, qual é essa verdade que estamos descobrindo? É verdade
que o culto à supremacia, à competição, à humilhação do outro tem
produzido um horror sem m.
A humilhação imposta pelos vencedores da Primeira Guerra Mundial ao
povo alemão gerou o monstro nazista. A humilhação do extermínio,
das deportações, do Holocausto, gerou o monstro do Estado colonialista
identitário israelense. A humilhação imposta pelos ocupantes israelen-
ses aos palestinos, connados na maior prisão do mundo, deu origem
COM FRANCO ‘’BIFO’’ BERARDI
PENSAR EM TERMOS DE ÚLTIMA
INSTÂNCIA PARA DISSIPAR O QUE
PARECE INEVITÁVEL.
María Teresa Casté
Crovetto1
Moises Rodrigues da
Silva Junior2
1 Psicóloga, Universidade do
Chile. Membro Titular do Ichpa.
Psicanalista vincular, especialista em
grupos.
2 Médico, psicanalista, analista
institucional, membro do
Departamento de Psicanálise
do Instituto Sedes Sapientiae e
professor do Curso de Psicanálise da
mesma instituição.
136 / FLAPPSIP
ao monstro Hamas. Diante dessa sequência de monstruosidades, nos
encontramos como Ferenczi em 1919, quando armou que a psicanálise
possui as ferramentas conceituais e terapêuticas para curar a neurose
individual, mas não possui as ferramentas para curar a psicose de mas-
sa que se manifestava na Europa.
Hoje estamos em uma situação semelhante: uma psicose agressiva
que se manifesta na forma de nacionalismo está se desencadeando em
grande parte do mundo.
Moises Rodrigues eTeresa Casté: A convivência humana ainda é possí-
vel?
F. Berardi: Provavelmente não. Não há convivência entre russos e ucra-
nianos, não há convivência entre azeris e armênios, não há convivência
entre palestinos e israelenses. Mas a desintegração da convivência é
mais ampla: não há convivência possível entre duas partes da sociedade
norte-americana. O trumpismo é a declaração de que os Estados Uni-
dos não podem compartilhar a mesma história.
Vivemos em uma condição nova, onde a esperança de um futuro mais
habitável está desvanecendo, pelo menos na Europa. Temos que nos
perguntar quais estratégias espontâneas estão emergindo nesta con-
junção. Os jovens, que se autodenominam a última geração, fazem uma
constatação bastante extrema, mas não podem escapar à pergunta:
como poderemos viver?
Minha percepção é que está se formando uma onda de deserção ativa:
deserção e abandono das esperanças da sociedade moderna, mas tam-
bém deserção e abandono do campo da produção (a grande demissão
de milhões de trabalhadores no Ocidente). Deserção da política insti-
tucional, que se revelou uma fraude. Deserção da guerra, como fazem
meio milhão de jovens russos e não sabemos quantos ucranianos, mas
sabemos que são muitos. E para concluir, deserção da procriação: falta
de natalidade intencional, rejeição em gerar vítimas do inferno climático,
vítimas da bomba nuclear que se perla no horizonte. Nós escapamos,
mas como diz Deleuze: quando estamos escapando, não estamos ape-
nas nos limitando a fugir. Ao mesmo tempo, estamos procurando novas
armas e, acima de tudo, novas técnicas para sobreviver.
Moises Rodrigues e Teresa Casté: Que lugar podemos pensar para a
amizade?
F. Berardi: A cura para a psicose de massa, conforme discutida por Fe-
renczi em 1919, reside apenas na amizade. Somente a criação de ilhas
de deserção amigável pode criar as condições para que a última geração
seja de fato a última, mas felizmente última. Ou, pelo menos, não infeliz
demais. Em relação a “que lugar”, acredito que a próxima onda de mo-
vimento cultural e social tomará a forma de uma proliferação de comu
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 14 (2), 2023, pp 134 - 138
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/14.2. 12/
137 / FLAPPSIP
nidades auto-sucientes e frugais que se desterritorializam, tornam-se
nômades e se ocultam. Contudo, reconheço que a ameaça climática
coloca a questão do “lugar” em termos muito frágeis. Pensar em termos
de frugalidade signica buscar formas de equilíbrio entre o consumo
indispensável e o meio ambiente.
Moises Rodrigues eTeresa Casté: Por que não nos relacionamos melhor
e vivemos com tanta violência e agressividade?
A derrota do internacionalismo tem produzido as condições para
uma guerra de todos contra todos. Além disso, o declínio demográ-
co, econômico e cultural do Ocidente, juntamente com o esgotamento
da população envelhecida do norte do mundo, tem gerado uma reação
furiosa. A cultura branca parece incapaz de enfrentar, tanto cultural
quanto psiquicamente, o declínio, o esgotamento e a morte. Sua reação
se manifesta como uma resposta agressiva e suicida ao mesmo tem-
po, como demonstra a guerra entre Rússia e Ucrânia: um conito in-
tra-branco que pode ser explicado em termos de demência senil.
Moises Rodrigues eTeresa Casté: Gostamos de uma expressão da psi-
canalista Janine Puget. Ela diz em um escrito que “viver é habitar areias
movediças em condição de errantes...”. Nesta frase, inclui, inevitavel-
mente, a noção de uma incerteza essencial, de movimento, e se o forçar-
mos, de diversidade, de alteridade. Que lugar pode ocupar a invenção
de novos mundos, a criatividade, que permita desertar de um modo,
mas projetar novos “entre”, novos modos vinculares?
F. Berardi: Donna Haraway propõe pensar em termos mais amplos do
que o humano. Pensar como critters1, como elementos físicos, quími-
cos, psíquicos, que atravessam o processo de tornar-se nada com uma
consciência leve, irônica, feliz.
Moises Rodrigues eTeresa Casté: Como você pensa na possibilidade de
não transformar a probabilidade em certeza?
F. Berardi: O momento que vivemos é muito sombrio porque as tendên-
cias negativas, destrutivas, parecem se impor como inevitáveis.
Mas eu sempre me lembro de uma frase de Keynes: o inevitável muitas
vezes não se realiza porque o que se realiza é o imprevisível. O que é
imprevisível hoje? Onde podemos procurar por isso? Como é imprevi-
sível, não posso saber, mas a esperança que nos resta é a esperança do
imprevisível.
1 Critters: em inglês informal signica
“criatura”. Pode ser traduzido como “bicho”
em um sentido coloquial.
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 14 (2), 2023, pp 134 - 138
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/14.2. 12/
138 / FLAPPSIP
Moises Rodrigues eTeresa Casté: Por outro lado, como você o com-
promisso ético da clínica, que subjetividade se produz neste registro da
última instância?
F. Berardi: Acredito que, após o trauma da COVID-19, após o retorno
da guerra como forma dominante nas relações, o pensamento clínico
precisa repensar seus horizontes. O mal-estar na cultura, do qual Freud
fala, é substituído por uma dissolução da civilização.
A psicanálise pensou em um horizonte de relativo equilíbrio. Apesar das
guerras mundiais, o século de Freud podia acreditar no futuro, na porvir.
Agora descobrimos que o porvir é uma ilusão, que o progresso é uma
ilusão.
No tempo de Freud, era possível pensar o trauma em um horizonte evo-
lutivo de tipo progressivo: existia um futuro que prometia ser melhor.
Agora estamos no horizonte da última instância. Temos que pensar nes-
ses termos, para dissipar o que parece inevitável, esperando o imprevi-
sível.
INTERCAMBIO PSICOANALÍTICO, 14 (2), 2023, pp 134 - 138
ISSN 2815-6994 (en linea) DOI: doi.org/10.60139/InterPsic/14.2. 12/