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Um dos conferencistas principais do XII Congresso da FALPPSIP, o único
que não pertence ao nosso continente, embora tenha estado próximo
aos processos vivenciados aqui, foi Franco ‘’Bifo’’ Berardi. Sua inter-
venção encerrou as atividades cientícas do Congresso em 15 de ou-
tubro. Havia expectativa para ouvi-lo, pois suas considerações sobre o
estado da civilização atual, dominada pelo triunfo absoluto do capitalis-
mo e consequentemente pelo ressurgimento do fascismo, não deixam
ninguém indiferente. Aqueles que o seguem mais fervorosamente em
suas ideias têm observado que a evolução dos eventos em escala glo-
bal parece conrmar os aspectos mais ominosos de sua pregação. No
entanto, como um dever intelectual de primeira ordem, Berardi não se
fecha ao inesperado. Que a lógica em curso permita prever um certo
desfecho não impede que o imprevisível possa alterar o curso das coi-
sas. Ele nos propõe, assim, a tarefa de nos prepararmos para ampliar a
brecha de oportunidade que possa surgir a partir de fenômenos impen-
sados, como foi recentemente a pandemia do coronavírus.
As perguntas foram feitas por Moises Rodrigues da Silva Junior (Sedes)
e María Teresa Casté Crovetto (Ichpa) que, junto com o entrevistado,
fazem parte doGruppo Intercontinentale di Ricerca sulla Salute Mentale
desde o ano de 2020.
Moises Rodrigues e Teresa Casté: O signicante “apocalipse” contém
não apenas a destruição (com fogo), mas também a antecipação de um
“céu novo, uma terra nova”. Se este mundo está se movendo cada vez
mais em direção à morte, no Apocalipse existe a possibilidade do novo,
e é por isso que você insiste: “não deixemos de pensar, porque pode ser
que o imprevisível precise ser pensado”. Como você acredita que isso é
possível quando vemos que o homem exausto, amedrontado, perdeu
sua capacidade imaginativa?
F. Berardi: A palavra “apocalipse” signica, literalmente, descobrimento
de uma verdade que estava escondida. Nesse sentido, estamos vivendo
uma situação apocalíptica: uma verdade está se revelando; percebemos
isso. Mas, qual é essa verdade que estamos descobrindo? É verdade
que o culto à supremacia, à competição, à humilhação do outro tem
produzido um horror sem m.
A humilhação imposta pelos vencedores da Primeira Guerra Mundial ao
povo alemão gerou o monstro nazista. A humilhação do extermínio,
das deportações, do Holocausto, gerou o monstro do Estado colonialista
identitário israelense. A humilhação imposta pelos ocupantes israelen-
ses aos palestinos, connados na maior prisão do mundo, deu origem
COM FRANCO ‘’BIFO’’ BERARDI
PENSAR EM TERMOS DE ÚLTIMA
INSTÂNCIA PARA DISSIPAR O QUE
PARECE INEVITÁVEL.
María Teresa Casté
Crovetto1
Moises Rodrigues da
Silva Junior2
1 Psicóloga, Universidade do
Chile. Membro Titular do Ichpa.
Psicanalista vincular, especialista em
grupos.
2 Médico, psicanalista, analista
institucional, membro do
Departamento de Psicanálise
do Instituto Sedes Sapientiae e
professor do Curso de Psicanálise da
mesma instituição.